6. LÍRIOS
Acordei fora do horário de costume, me levantei com preguiça. Todos já haviam saído, só havia um pequeno bilhete na porta da geladeira preso por um imã. Bocejei e comecei a ler o seguinte recado:
Tivemos que fazer uma viagem de urgência. Voltaremos assim que fecharmos o negócio. Com amor, mamãe.
Eu passaria alguns dias sozinha em casa, o que me confortava era que Aphonso estaria comigo. Olhei para o relógio no meu pulso estava quase na hora de vir ao colégio. Tomei um banho, vesti uma calça, uma blusa cinza de mangas, arrumei o meu cabelo e calcei o meu tênis.
Fui até a geladeira, peguei um achocolatado e um pedaço de pudim. Coloquei os meus livros na mochila branca com alças pretas. Quando abri a porta, fiquei decepcionada, o Crossfox de Rose acabara de chegar.
– Vamos Eduarda – me chamou sorridente
Entrei no carro decepcionada e ao mesmo tempo furiosa.
– Onde esta o Aphonso? Ele sempre vem me buscar.
– Ele teve que viajar com Liam. Mas logo estarão de volta – me explicou.
– E porque ele nem me ligou?
– Foi tão rápido que não deu tempo. Eu sei que ele sente muito por isso. Quando ele voltar ele vai te explicar tudo – ela ligou o carro.
– E você onde estava?
– Precisei de um tempo para mim mesma. Eu não estava me sentindo bem. – Ela engatou a primeira e seguimos para o colégio.
Pelo o que eu tinha visto o tempo que Rose precisava fez muito bem a ela. Seu rosto estava mais radiante e seus olhos mais claros. Chegamos ao colégio, subimos a escada e sentamos nos nossos lugares. Cheguei a conversar com Key, mas foi muito rápido e com poucas palavras. A minha rotina diária com Aphonso tinha sido quebrada e para a minha tristeza fiz as mesmas coisas durante os quatro dias seguintes. Eu estava com muita saudade dele e até do Liam que às vezes me enchia a paciência.
Rose tentava me fazer sentir bem, às vezes até que ela conseguia, outras era um fracasso. Depois que Rose me deixou em casa, espera que ela fosse e me sentei na calçada e procurando alguma estrela no céu. Eu queria imaginar o que ele poderia estar fazendo e se estava pensando em mim, mas por mais que eu tentasse o máximo que eu conseguia era vê-lo correndo atrás de algo.
Eu simplesmente achei estranho o que eu acabara de imaginar, deveria ser a fome porque já era a quinta vez que meu estomago roncara. Eu francamente esperava que ele aparecesse ali, cobrindo os meus olhos, mas ele não apareceu.
Entrei, a casa estava escura, tropecei no raque, segui até o quarto, acendi a luz do quarto e me deitei. No dia seguinte, iria fazer cinco dias e ele não me telefonou, nem mesmo para brigar comigo, toda vez que ele se afastava de mim por muito tempo, eu não me alimentava bem. Joguei a mochila no chão e me joguei na cama ainda bagunçada, fechei os meus olhos e...
Eu acordei com o sol em meus olhos cobri com o lençol o meu rosto, mas não funcionara como eu planejava. Levantei-me forçada pelo sol, fui até o banheiro escovei meus dentes, penteei os cabelos, arrumando-os. A campainha tocou. Eu não estava com a menor vontade de abrir a porta, mas tive que ir, poderia ser algo importante. Abri a porta e bocejei:
– Bom dia! – a voz dele soou como uma música aos meus ouvidos, seu sorriso perfeito me encantava.
– Aphonso – eu o abracei com força
– Ei, o que houve?
– Porque não me ligou? – lembrei que estava furiosa com ele por não ter me ligado ou dado notícias. Minha face ficou rígida e minha voz se tornou áspera.
– Onde estava não havia sinal para o celular e muito menos internet de fácil acesso – sua face inerte me explicava de que ele não estava me contando toda a verdade.
– E porque não me avisou que iria viajar?
– Foi tudo tão rápido e Liam não estava bem.
– O que houve com Liam?
– Nada demais, ele só precisava se alimentar melhor.
– E por que não me avisou que viria? – Minha fúria havia se dissipado
– Quis fazer uma surpresa – ele riu
– Mas uma coisa me incomoda – ele fitou a rua. – Por que você não levou Liam a um hospital?
– Nossos pais estavam em outra cidade e Liam não aceitaria que ninguém além deles o examine – ele me olhou e deu de ombros.
– E o que você veio fazer aqui?
– Quer que eu vá embora? – ele me olhou confuso.
– Não! – Falei, na verdade, berrei.
– Eu só quero passar um tempo com você e por falar nisso você não quer fazer alguma coisa?
– Nada que eu queira fazer seria possível, temos aula hoje.
– E você quer ir ao colégio? – ele me olhou confuso.
– Eu gosto de ir, é melhor do que ficar em casa – explicou.
– Está bem, mas o que vamos fazer se não haverá aula.
– Não vai haver aula?
– Você continua desatenta – ele riu – mesmo quando eu não estou por perto.
– Olha só quem fala – rebate com um sorriso.
– Pelo menos eu consigo dizer o que o professor acabara de explicar – ele se vangloriou.
– Você está muito chato sabia? – fiquei zangada
– Fiz algo de errado? – sua face inerte estava curiosa, não a olhei e nem respondi – Me desculpa – ele me pediu
– Você não merece – retruquei
– Quer que eu vá? – seus olhos tristes penetravam nos meus
– Não, eu não quero. Eu quero que fique aqui comigo
Olhamo–nos por alguns instantes, nossas faces inertes encaravam uma a outra. Desviei o olhar e perguntei:
– Você quer entrar?
Ele não me respondeu, então peguei em sua mão e puxei até mim. Seu rosto ficou bem próximo do meu, mas desviei o olhar. Eu me sentia às vezes tão idiota, mas do que adiantava chorar depois que o leite estava esparramado pelo chão. Ele me olhou nos olhos e me beijou, em seguida, o abracei enquanto ele me envolvia com seus braços fortes, ficamos parados ali por alguns instantes. A única coisa que me ouvia era: Tum... Tum... Tum. Lentos e despreocupados, bombeando sem pressa o sangue. Desprendi-me. Fechei a porta e o levei direto ao meu quarto.
– Desculpa a bagunça – sorri.
– Não se preocupe – ele deu um sorriso melancólico – mas eu quero falar algo sério com você – sua face tornou-se rígida.
Eu estava preocupada. Quando alguém diz que quer dizer algo sério é sinal que não é nada bom. Meus piores temores apontaram para o fim de tudo. Senti-me inerte na cama, esperando a noticia que destruía os meus sonhos. Ele se aproximou de mim e segurou minhas mãos com força enquanto seus olhos amedrontados procuravam os meus inertes.
– Eu não quero que você... Na verdade eu quero que você nunca mais tente tirar a sua vida
Meu coração ficou aliviado e ao mesmo tempo aflito. Apertei as mãos e coloquei minha cabeça em seu ombro.
– Se você morrer... Eu não vou ter nenhum motivo para estar vivo também.
Eu não me perdoaria se ele morresse por minha culpa. Mas e se a morte fosse à melhor saída para mim. Eu não sabia quanto tempo duraria tudo. Algum dia vai acabar e talvez eu deseje...
– Eu não vou morrer – falei docemente – Enquanto você estiver por perto eu vou estar viva – fechei os meus olhos.
– E quando eu não estiver você irá... Eu quero que me prometa que mesmo que eu vá, você vai ficar bem, vai seguir em frente
– Você vai embora? – abri os meus olhos enquanto o que ele dissera escoava em minha mente como um furacão.
– Eu nunca falei que iria embora, e que iria te deixar. Eu só quero garantir que você vai estar bem. Me promete?
– Eu... Eu prometo. – eu estava mentindo, eu não poderia fazer uma promessa que eu não poderia cumprir.
A respiração de Aphonso mudou bruscamente, ele me olhou, seus olhos transpareciam até que seu olhar e sua respiração se estabilizaram em uma calmaria tranqüila.
– E então, vamos passar o dia aqui?
– Se você não se importar
– Não. Eu não me importo. E respondendo a sua pergunta, eu vou aproveitar cada segundo em que eu estiver com você.
Ele não precisava fazer algumas perguntas, ele sempre as começava e logo desistia de completá-la, algumas vezes eu conseguia decifrar as suas perguntas, enquanto as respostas que às vezes eu desejava ficavam flutuando em minha mente até se perderem no meu lago negro.
– No que está pensando?
– Em perguntas
– E elas possuem respostas?
– Prefiro que elas se percam enquanto eu estiver com você.
– Já tomou café?
– Não estou com fome
– Você devia se alimentar
– Parece até minha mãe – ri
– Pareço? – indagou-me confuso
– Me protege demais sabia, algum dia teria que caminhar com minhas pernas sabia?
– Prefiro te carregar até que esse dia chegue
– Posso te perguntar algo? – o olhei nos olhos
– Pergunte.
– Como você me tirou do meu quarto quando... Eu tentei... Me matar?
– Pulei o muro da frente e as portas estavam destrancadas. – ele deu de ombros – Chamei pelo seu nome e ninguém me respondeu, fui até esse quarto e te vi indo embora para longe de mim. Eu não sei como, mas eu consegui trazer você de volta.
Fiquei em silêncio por alguns instantes. Deitamos. Eu o abracei enquanto ele me prendia com seu braço, me envolvendo junto ao seu corpo. Ficamos ali um ao lado do outro por toda a manhã, cansada e ainda sonolenta fechei os meus olhos.
Quando abri novamente, Aphonso não estava ao meu lado. Ouvi vozes vindas da sala, tentei ouvir do que se tratava a conversa, mas ao me aproximar da sala o último sussurro se esvaia. Parei por um momento, mas os sussurros não continuavam. Então ouvi a voz paciente e calma de Liam.
– Então vamos ou não?
– Preciso esperar Eduarda despertar – explicou Aphonso
– Por quanto tempo ela vai continuar? – indagou Liam curioso
– Não sei, mas vamos esperar – retrucou Rose
Voltei ao meu quarto, me troquei e voltei à sala.
– Eu não esperava vocês aqui – fingi está surpresa e que acabara de acordar. Aphonso riu. Ele sabia quando eu mentia ou fingia algo nada bom, principalmente se eu desejasse esconder algo dele.
– Já faz tempo que vocês estão aqui?
– Não. Acabamos de chegar. – Rose riu
– E então podemos ir agora? – os olhos de Liam fitaram o meu relógio de pulso – Nós vamos chegar atrasados.
Era incomum ver Liam tão apressado, desesperado para ir a um lugar. Aphonso me olhou com ternura.
– Você está pronta?
– Aonde vamos?
– Ao campo de lírios – Rose segurou a mão de Liam.
– Lírios? – indaguei confusa.
– É um lugar diferente, você vai gostar.
– Vamos – meu sorriso penetrou os olhos de Aphonso
– Liam, rápido – Rose estava amedrontada.
– Não me diz que – ele se aproximou
– Aphonso – Rose o chamou
– Eduarda você tem um colírio por ai – sua voz estava calma, enquanto o sorriso iluminava o seu rosto. Naquele momento não parecia o mesmo Liam apressado.
– Tenho no meu quarto
– Será que você pode me trazer?
– Claro
Caminhei até o meu quarto. Abri o guarda-roupa e lá estava o colírio, fechei a porta e voltei para a sala. Aphonso estava com a mão na cabeça.
– Aqui está o colírio
– Não vamos mais precisar – ele riu
Agachei–me e olhei para o rosto de Aphonso perplexo.
– Você está bem?
– Estou.
– O que houve?
– Eu só perdi a visão por alguns instantes – ele deu de ombros.
Às vezes eu não entendia Aphonso. Às vezes ele parecia não ter nexo algum no que falava ou demonstrava.
– Vamos? Ele indagou com um sorriso.
– Claro
Ele ficou de pé e estendeu sua mão para mim. Levantei-me e de mãos dadas seguimos ate o carro. Tranquei apenas o portão. Rose e Liam esperavam do lado de Logan. Fiquei surpresa por não ver o Crossfox de Rose.
– Como chegaram aqui? – perguntei curiosa.
– De ônibus. Mas a experiência não foi nada agradável – Liam retrucou enquanto gozava de si mesmo.
– É melhor irmos.
– Concordo com o Aphonso já está quase na hora e só vai acontecer hoje – Rose olhou para Liam e riu.
Entramos no carro. Rose e Liam sentaram no banco de traz, enquanto Aphonso e eu fomos à frente. Atravessamos toda a cidade e seguimos por uma BR por duas horas e meia, entramos em uma estrada de areia rodeada de arvores e mato por meia hora. Aphonso estacionou o Logan debaixo de uma arvore de copa grande e raízes profundas que a cada dois metros submergiam a terra.
– Estamos quase lá – ele desceu, e nos fizemos o mesmo.
– Falta muito? – eu estava um pouco cansada e a viagem até lá havia me dado sono.
– Não é logo ali na frente – Liam indicou.
Caminhamos por alguns minutos até chegar a uma clareira, de campina verde com plantas de folhas compridas e estreitas e flores brancas, grandes um grupo com um aroma levemente adocicado.
– Chegamos à clareira dos lírios – Rose deu um leve sorriso.
– E porque toda aquela pressa? Indaguei curiosa.
– Olha – Aphonso apontou para Liam que carregava uma pedra pequena na sua mão direita. Ele ia jogar no meio dos lírios. Alguns instantes se passam e várias borboletas multicoloridas iniciam um vôo sobre os lírios que voam com a leve brisa que passa.
– Que lindo – fiquei maravilhada
– Os lírios também são conhecidos como açucena e ela é tida como o símbolo da inocência e da pureza – Aphonso me explicava
– Nós vamos dar uma volta Aphonso – gritou Liam enquanto se afastava com Rose
– Enfim sós – ele riu enquanto me guiava até a proteção da copa de uma árvore, nos sentamos. Aphonso colocou o seu braço ao redor do meu corpo enquanto eu colocava minha cabeça em seu ombro.
– Posso te fazer uma pergunta?
– Faça – a voz tranqüila dele me fazia flutuar em meus pensamentos.
– A Lauren já foi sua namorada?
– Não.
– Nunca houve nada entre vocês dois?
– Não. Você foi à primeira garota que me chamou atenção, a primeira garota que eu amo.
Eu o abracei forte, enquanto ele beijava minha testa com doçura
– Você já conhecia o Filipe?
– Já
– E porque nunca me disse nada?
– Prefiro ficar ao seu lado falando do que você gosta. Além do mais Filipe e eu nunca vamos ser amigos.
– Por quê?
– Nós amamos você e... – ele hesitou
O vento soprou os galhos das árvores derrubando folhas na terra úmida. Rose e Liam estavam voltando e seguindo em nossa direção.
– Aphonso – Liam gritou.
– O que houve?
– Athael e Jake estão aqui – Rose me olhava.
– Mas o que eles querem aqui?
– É melhor evitarmos uma briga, vamos voltar e deixar a Eduarda em casa – Rose aconselhara.
– Você tem razão – ele se levantou com sua mão entrelaçada na minha, ele me ajudou a levantar e seguimos para o Logan.
Rose e Liam analisavam todas as arvores como se procurassem por alguém ou alguma coisa. Entramos no carro e voltamos para a cidade. Desci do carro e Aphonso fez o mesmo, me levou até a porta da minha casa. Olhou nos meus olhos e me beijou ardentemente. Retribui.
– Algum dia você não poderá me proteger – sussurrei.
– Do que está falando?
– Toda vez que vamos para fora dos limites da cidade, quando alguém se aproxima, que você acha que vai me fazer mal, sempre dá um jeito de me levar para outro lugar, seguro, ou me trazer para casa.
– Espero que esse dia não chegue.
– Você não sabe que um dia vai acontecer.
– Vou fazer o possível para que não chegue. – ficamos em silêncio
– Mas quem são Athael e Jake?
– Essa resposta fica para outro dia – ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha novela.
– Como todos os outros que eu espero?
– É... – ele riu
– Você já vai?
– Preciso deixar você respirar. Além do mais amanhã temos aula.
– Então até amanhã
– Até – ele me beijou novamente voltou para Logan.
Rose acenava. Liam apenas de um leve sorriso. O carro acelerou e eu fiquei ali parada os vendo partirem. O dia já estava quase no fim. Entrei, peguei os meus livros e resolvi fazer algumas atividades. O céu foi escurecendo, a lua deu o ar da graça.
Fiz arroz, feijão e uma lasanha para o jantar. Comi e repeti. As horas haviam passado e um novo sono veio. Lavei as louças, me troquei e me deitei. Pensando na clareira dos lírios adormeci.
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