Um gato, um senhor e uma mesa de chá
1890
Em março de 1890, na cidade Good Writers, no quarto de hóspede do hotel Charm, localizado uma rua atrás do grande salão onde aconteceria o maior espetáculo do ano daquela região, outra briga se alastrava entre eles, pelo mesmo motivo de sempre: a difícil personalidade de Musa.
— Por que fez aquilo? Ela estava apenas pensando no que seria melhor para o show. Precisava ser tão rabugenta, Musa? — Jeffrey Andrews, que sempre acompanhou a carreira da artista de perto, não sabia mais o que fazer para tentar mudar o jeito complicado da moça, que mais uma vez havia causado confusão com uma de suas companheiras do comboio do espetáculo.
— Há oito anos eu faço espetáculos, sou uma artista reconhecida, não preciso nem dizer o quanto meu nome é popular na Inglaterra! Tenho mais experiência que qualquer uma dessas pessoas da caravana e quer que eu escute o que aquela garotinha diz? Ora, é inadmissível para mim precisar ouvir que o segundo ato ficaria melhor dois tons acima. Eu sei o que é melhor para mim, Jeffrey!
— Se soubesse, eu não precisaria resolver tantos de seus problemas! É possível que eu tenha perdido o número de vezes que fiz isso apenas nos últimos meses! — Jeffrey esforçava-se para não elevar a voz, não queria que os outros hóspedes ouvissem o que estava sendo dito naquele quarto.
Em dois dias haveria mais uma das convenções que discutia a independência daquele Estado e de outros da região que um dia viria a ser a Austrália. Essas reuniões traziam muitas pessoas de suma importância para Good Writers e, particularmente, para o Hotel Charm, o melhor e mais caro da cidade.
Para a distração destes, o Marechal Thorne fez questão de preparar um show, tendo como maior atração a Musa Bartlett, que prometia encantar o coração de todos com seu belíssimo canto na apresentação de ópera.
Musa respirou fundo e jogou o chapéu vinho com lindas penas sob a mesa que horas atrás havia sentado a frente para aplicar um pouco de pó de arroz na face e suco de beterraba nas bochechas, para ganhar um pouco de cor. Ela caminhou até a janela do quarto e observou a rua escura e pouco movimentada por homens e mulheres dois andares abaixo. Aquela era sua cidade natal, ela vivera ali até os seus 15 anos, quando decidiu fugir de casa para juntar-se à caravana do Sr.Thompson e viajar mundo afora, fazendo aquilo que causava fortes emoções ao seu coração: cantar.
Ela escolheu abandonar a família e ser rejeitada no coração deles por seu sonho, foi uma decisão que certamente mudou sua vida. Musa sabia que não havia como voltar ao passado para resolver isso e, mesmo que pudesse fazer tal coisa, não queria. A moça amava o que fazia há dez anos e não planejava largar aquele sonho por causa de algumas pessoas, mesmo que estas fossem sua própria família.
Mas, ela colhia alguns frutos dessa decisão que eram bem amargos, incluindo a língua perversa das pessoas que não perdiam tempo em falar ao descobrirem que sua família era de grande influência e, ainda assim, a moça havia escolhido deixá-los para “vadiar dizendo que o que faz é arte”. Por coisas como essa, Musa cobrava-se demais para ser perfeita em tudo que fazia e para mostrar que estavam errados sobre suas intenções. Buscava uma perfeição inexistente e, muitas vezes, passava do limite tentando alcançá-la.
E era óbvio que Musa não estava disposta a ouvir o que Jeffrey tinha a dizer, sabia que seria a mesma asneira de sempre: sobre todos os erros que ela cometia por querer as coisas sempre do seu jeito. Musa pensava que Jeffrey não entendia seus motivos e que a única estrela da noite seria ela, por isso era a única que saberia o que poderia ser melhor para o show, afinal quem subiria no palco para brilhar com sua doce voz era a própria Musa.
— Musa, me escute, pelo amor do que é mais sagrado — Jeffrey tirou sua cartola preta e colocou em cima das bagagens da estrela em ascensão e, impaciente com a garota que não fazia questão nem de olhar em seus olhos, segurou seus ombros e a fez se virar para si — Apenas uma vez, me dê um pouco de atenção!
— Estás machucando-me, Jeffrey Andrews! Desse modo, ficará marcas nos meus braços — indagou irritada, remexendo-se na tentativa de ficar livre dele, ciente que Jeffrey podia ser bastante irritante quando se tratava de dar-lhe sermões.
Musa encarou os olhos castanhos claros do homem apenas três anos mais velho que ela e não precisou de muito esforço para deduzir o que estava prestes a acontecer, porque sabia de cor o significado de cada expressão que os traços suaves de Jeffrey indicava e suas intenções apenas pelo tom de voz. Estava claro que mais uma vez eles iriam travar uma grande discussão, que ao final, Jeffrey ficaria chateado com as palavras duras de Musa e se retiraria sem olhar para trás, deixando-a sozinha, sentindo-se a pior pessoa do mundo por sempre agir de maneira impulsiva.
Havia tantos anos de amizade que eram capazes de decifrar um ao outro sem muita dificuldade.
Eles se conheceram em uma das primeiras apresentações de Musa na Inglaterra, há uma década, depois que partiu de Good Writers. Quando esbarraram-se atrás das cortinas do espetáculo não sabia que o homem, que na época era apenas um garoto fujão como ela, estava juntando-se à caravana por convite do Sr. Thompson.
— Largue-me, Jeffrey! — Eles se encararam por tanto tempo que o rapaz havia esquecido que ainda a segurava, então afastou-se com pressa. Alisando o local onde antes seu amigo apertava, Musa continuou: — Agora, diga-me o que iria falar. Se queria a minha atenção, acabou de conseguir.
Jeffrey pensou um pouco antes de começar.
Há um tempo algumas pessoas do espetáculo reclamavam incessantemente para o Sr.Thompson sobre a personalidade de Musa, contando que ela era incapaz de considerar os sentimentos de outras pessoas, e que pensava apenas em si mesmo. Jeffrey estava pronto para falar tudo, mas não sabia se ela estava pronta para ouvir. Musa odiava opiniões alheias negativas, a única coisa que saia das bocas das pessoas capaz de agradá-la eram os elogios.
— As pessoas gostam de falar das outras, principalmente quando estas dão motivos para serem comentados — Foi o que Jeffrey conseguiu falar.
— O que quer dizer com isto?
Ele respirou fundo e passou a mão em seu cabelo castanho, que escorregava pelas laterais do rosto sempre que ficava sem a cartola, e começou a andar de um lado para o outro. Estava preocupado com a reputação de Musa que piorava a cada dia entre seus companheiros de trabalho e, que agora até o Sr. Thompson começava a observar. Musa parecia ser a única pessoa alheia a tudo que estava acontecendo e, lá no fundo, Jeffrey sabia que, mesmo se contasse, a moça não daria tanta importância, pois, como sempre dizia: só havia uma estrela naquele show: ela.
— Você diz que cantar é o que te faz feliz, então se realmente ama isso, por favor, mude — Jeffrey parou em sua frente novamente, olhando no fundo dos olhos azuis.
— Mudar? Gosto de como sou. — Era mentira, ela ainda não havia alcançado a perfeição que tanto desejava.
— Ora, pelos céus, pare com isso, Musa! Você não é perfeita! E digo mais, seu maior defeito é querer ter uma beleza encantadora, um canto avassalador, um espetáculos exuberante… Mas não ser tão bela por dentro quanto é por fora. Você é incapaz de tratar o próximo bem, Musa!
— Não fale besteira! Esqueceu de todas as vezes que doei para as organizações de caridade? — Jeffrey mordeu o lábio inferior, revoltado com a indiferença de Musa.
Ele sabia que ela estava ciente sobre o que ele quis dizer e ainda assim preferiu desconversar.
Musa não baixava a cabeça facilmente. Admitir que estava errada não era de longe uma das suas opções.
— Eu cansei disso. A última coisa que peço é que se quer fazer o papel de donzela perfeita faça direito, porque não aguentamos mais resolver os problemas que você causa!
— "Aguentamos" ou você quem não aguenta mais? — ela apontou, chateada e furiosa.
Jeffrey ficou tão atônito com a interpretação de Musa que, pela primeira vez, não sabia se ela estava desconversando ou se realmente era isso que havia entendido. Seu momento de silêncio fez com que Musa tomasse isso como uma resposta positiva para a sua pergunta.
— Então, você também quer deixar o comboio por causa de mim? — Jeffrey arregalou os olhos com a pergunta dela. — Não precisa mais esconder, eu sei que algumas pessoas querem deixar de trabalhar no espetáculo porque não conseguem me aturar mais.
Rapidamente, o sentimento de traição e abandono que já existira em seu coração a tomou completamente, fazendo-a sentir raiva ao ponto de empurrar Jeffrey para trás, para longe dela, abruptamente. O garoto cambaleou e precisou segurar-se na parede para não cair.
— Saia daqui! Se não quiser ficar mais ao meu lado então saia!
— Musa, você entendeu tudo errado. — Jeffrey tentou aproximar-se, mas ela o afastou novamente.
— Diga a eles que não preciso de pessoas que façam o trabalho de qualquer jeito e estraguem o meu espetáculo — ela bradou. Ele pensou em insistir um pouco mais, porém, as seguintes palavras que saíram da boca da donzela foram de cortar seu coração: — Não preciso de você, Jeffrey!
O olhar feroz da moça não permitiu que ele compreendesse que suas palavras eram mentirosas, que era apenas mais uma das vezes que Musa não conseguia ser sincera. Então, Jeffrey pegou a cartola sob as bagagens dela e se retirou em silêncio. Magoado. Triste por não conseguir ter uma conversa com Musa onde pudesse explicar todos os pontos sem que acabassem em discussão.
Não era verdade que ele estava cogitando abandoná-la, pelo contrário, era o desejo do seu coração mantê-la sempre ao seu lado e protegê-la das línguas e dos olhares maldosos daquela sociedade que abominava artistas quase tanto quanto as meretrizes, mas a moça de sorriso encantador e olhos azuis, não permitia que ninguém tocasse o seu coração de maneira mais profunda. Havia um muro cheio de espinhos cercando-a, o que muitas vezes a machucava, mas ela não percebia.
Musa era orgulhosa, dizia constantemente que não precisava de ninguém, que confiava apenas em si mesma. Ela ficava horas na frente do espelho se paparicando e sempre se esforçava para ficar impecável para ouvir das outras pessoas o quanto parecia alguém da nobreza, mesmo que por trás a difamassem. Musa amava elogios, fossem eles sobre a sua aparência ou voz, então quando alguém falava o contrário, coisas que não a agradavam, a doce garota se transformava em alguém rabugenta, quase irreconhecível.
Sentada em frente a mesa de madeira, encarou o espelho redondo colado na parede e observou seu reflexo; cada característica que a tornava bela e desejável para muitos homens, mesmo que nenhum a tocasse. Olhou o vestido vermelho sangue que desenhava cada curva do seu corpo, o queixo afilado, o nariz fino, os lábios finos pintados de vermelho, as bochechas rosadas e o olhar afiado, carregado de luxúria.
Musa desfez a trança que rodeava o coque baixo de seu cabelo amarelado, cheio de ondas, e depois desmanchou o restante do penteado, passando por último a escova nas ondas irregulares dos fios longos e macios. Ela não conseguia olhar nos próprios olhos através do reflexo, sabia que se fizesse isso cairiam lágrimas incontroláveis deles e se sentiria miserável, mais uma vez.
— Qual é o meu problema? Não mereço me sentir assim — sussurrou — As pessoas que não me entendem quem deveriam lidar com esses sentimentos ruins que me causam. Não devo chorar, não posso…
Aconteceu. A primeira lágrima veio sem que ela percebesse. Ao sentir sua bochecha molhada rapidamente encarou seus olhos azuis através do espelho, incrédula. Então veio mais outra, e outra.
— Ora, por que estou chorando? Vamos, pare com isso, Musa — disse consigo mesma, passando as costas das mãos nas bochechas, que ficavam completamente molhadas pelo choro.
O que a fez parar foi um inesperado e estridente miado de gato, como se algum felino houvesse acabado de se machucar ali por perto. O som estava tão perto que Musa cogitou a possibilidade do animal estar em seu quarto, mesmo sem saber como ele entrou, afinal, a janela ainda não fora aberta desde que ela chegara de viagem pela manhã.
Ela varreu o cômodo com os olhos, mas não o encontrou. Ouviu outro miado, ainda mais dolorido. Então levantou e abaixou-se ao pé da cama. Talvez ele estivesse escondido no escuro a tanto tempo que sua barriga doía de fome, pensou. Mas, outra vez não o achou. Musa levantou-se e se entreteu tanta com a caça ao animal que esqueceu da briga de instantes atrás.
Quando estava cansada de procurar sozinha e cogitou pedir a ajuda de alguma criada que passasse pelo corredor, conseguiu ouvir o som nitidamente, tão bem que achou ter ouvido errado ao deduzir que ele viera do espelho. Não de trás, pois o vidro ficava colado à parede, mas de dentro. Desconfiada e incerta, aproximou-se com passos lentos daquele pedaço de espelho redondo.
Olhou atentamente e por um único segundo jurou ver a sombra de um gato branco minúsculo, usando uma cartola preta, pulando dentro do espelho, de um lado para o outro. Musa pensou que havia enlouquecido de vez depois de passar tanta raiva.
Ela esfregou os olhos mas continuava vendo o gato pequenino lá dentro, tão branco e fofinho.
Entorpecida por uma curiosidade sem fim, sentiu-se sedenta para tocar aquela figura. Musa esticou seus dedos pequenos e brancos para alcançar o material frio do espelho, ao menos foi isso que ela pensou que aconteceria, não esperava que aquela camada grossa se transformasse em água e a sugasse para dentro.
Em questão de segundos, Musa estava submersa em uma água fria e cristalina, rapidamente se pôs a bater os braços e as pernas, na tentativa de nadar até a superfície. Ela estava afundando sem perceber que a água não a afogava, não entrava em seus pulmões de maneira a sufocá-la.
Musa estava tão desesperada que não conseguia ver e viver a magia do momento.
Lá em cima, na superfície, o reflexo do gato de cartola apareceu. Ele miou enquanto mexia na água com a pata, e isso foi o bastante para chamar a atenção de Musa, fazendo-a ficar quieta.
O gato branco se inclinou para beber um pouco daquela água cristalina, conforme ele bebia, o corpo de Musa era puxado para cima sem que precisasse fazer esforço. Ela percebeu que quanto mais subia maior o gato ficava, ao ponto de o confundir com outro animal: um leão branco, mas logo que alcançou a superfície e submergiu a cabeça d'água o pensamento foi desfeito. Aquele era apenas um gato, um pouco maior que os outros felinos que já havia visto, mas nada fora do comum, exceto pela cartola preta que não caia de sua cabeça nem mesmo com os movimentos bruscos do bixano.
O gatinho branco correu para a floresta assim que Musa nadou até a margem, ainda atônita com as circunstâncias.
Seu vestido pesava três vezes mais por causa da água que o encharcava, o cabelo estava pingando e sua maquiagem, bem, essa não existia mais, havia sido lavada pela água.
A garota loira praguejou mentalmente aquela situação incomum e bizarra, observando o próprio reflexo na água cristalina, que visto de fora parecia um espelho — talvez fosse mesmo. Deveria estar dentro do espelho daquele quarto, foi isso que ela pensou.
— Não. O que estou pensando? Eu estou dentro de um espelho? Isso é loucura! Devo estar sonhando… ou, enlouqueci de vez. Sim, Jeffrey me deixou louca com aquela conversa!
A garota estava em negação. E quem não estaria?
Musa levantou-se e por dois minutos observou o lugar em sua volta. Instantes atrás, no hotel, o que brilhava no céu era uma lua cheia, mas naquele lugar o sol queimava como no verão.
As árvores em volta eram enormes e verdes, as mais próximas do lago pareciam cintilar, tinham uma aura diferente. Flores brotavam das raízes delas e uma grama verde e curta alastrava-se por toda parte, como se houvesse sido aparada um dia atrás, ou nunca tivesse crescido mais que aquilo. A luz do sol clareava o lago passando por uma brecha causada propositalmente pelas árvores, como se fosse uma grande janela feita por elas para que houvesse esse efeito.
Insetos e pássaros voavam em volta, cantarolando uma canção indecifrável aos ouvidos de Musa, unindo-se ao som nítido e incessante das passadas de lebres, cervos e esquilos que passavam entre as árvores, como se nunca houvessem presenciado a maldade dos seres humanos naquele bosque.
— Oh, Deus… Será que ainda estou viva? O que significa tudo isso? — ela esfregava os olhos sem parar, imaginando que assim tudo voltaria ao normal.
Um vento quente soprou de repente, fazendo seus cabelos voarem para frente e colarem no rosto. Ela retirou os fios da face, mas novamente houve uma inflada de ar.
— Pare já com isso, o que quer que esteja acontecendo! — esperneou, gritando ao vento forte. Parecia mais com um redemoinho decidido a encher as roupas de Musa de cascalhos de folhas e galhos secos. — Por que tanta ventania? E esse calor insuportável? Parem de cantar, bixinhos medonhos! Qual é o problema desse lugar?
— Penso que o problema não seja o lugar, mas sim você, donzela — uma voz suave e ao mesmo tempo densa soou dos quatro cantos da floresta, fazendo o coração de Musa saltar de temor.
De repente, o vento parou e os animais calaram-se, mas não fugiram, como Musa desejou fazer e foi impedida pelos próprios pés, que não moviam-se de lugar.
— Quem está aí? — a voz dela saiu falha, quase como um sussurro, fazendo-a pensar que não havia sido ouvida. Mas foi.
— Alguém.
— Quem?
— Quem a trouxe até aqui — a voz havia ficado mais suave, não era mais estrondosa, pelo contrário, agora soava como uma doce canção entoada para entorpecer corações, e disso Musa entendia, mas demorou para notar o efeito de persuasão.
Os animais voltaram a correr e cantar, despreocupados e livres pelo bosque.
— Onde estou? Eu morri?
— Você faz muitas perguntas — dessa vez, a voz estava próxima e baixa, não ecoava mais por todo o bosque.
De trás de uma das árvores, o gato apareceu, andando elegantemente sobre suas patas, equilibrando a cartola em cima de suas orelhas, ele se aproximou da donzela.
— Eu estava falando com um gato? Não, acho que não. Isso seria demais…
— O seu maior problema não é falar com um gato — o gato branco, peludo e grande, disse cada sílaba despreocupadamente. Sentou-se sobre as patas traseiras e lambeu a dianteira esquerda, mesmo que não houvesse uma única poeira para ele tirar do seu pelo.
O felino era tão branco quanto a neve, sem uma única mancha em seu pelo arrebitado e comprido, concentrado grande parte no pescoço do bixano, onde um colar de pelo se formava. O gato branco era maior que os outros, agora Musa podia ter certeza disso, porém, a face era redonda e dócil e seu corpo tão fofo e peludo quanto os que sua mãe criava. Os olhos eram tão azuis quanto a água do lago e ele a olhava com ternura e, ao mesmo tempo, firmeza, transmitindo segurança para a moça que o encarava surpresa, mas não assustada.
— Não vai perguntar qual é o seu maior problema?
— Se eu tivesse um grande problema, acho que seria capaz de falar por mim mesma.
— Então, fale-me.
— Eu disse “se eu tivesse um”.
— Você não é capaz de ser sincera nem na minha presença?
— Por que eu deveria?
— Sei que gostaria de falar sobre seus problemas para mim.
— Eu não.
— Sei coisas sobre sua história que ninguém mais sabe, então posso dizer que sim, você gostaria. Mas se diz que não quer, não posso forçá-la, o que também não me permite dar-lhe a solução que você busca para ser tão amada.
— O que sabes sobre mim, felino?
Sem falar mais uma única palavra, o gato levantou-se e, impulsionado pelas patas traseiras, saltou para dentro do bosque. Curiosa para saber mais sobre o gato e terminar aquela conversa estranha, Musa correu atrás dele.
Ela o via pulando de trás de uma árvore para outra e, assim o seguia pela estrada, sem perdê-lo de vista uma única vez. No entanto, estava tão focada no bicho que não percebeu onde pisava e acabou torcendo o pé ao pisar numa pedra e escorregar. Ela grunhiu de dor, agarrada ao membro machucado que rapidamente começou a mudar de cor, ganhando um tom mais rosado, logo ficaria roxo.
— Ah, não! Por que tudo decidiu dar errado em um único dia?
Ela olhou para frente e não viu mais o gato, porém, outra coisa chamou sua atenção: o lago. Ele estava lá, de novo.
Musa havia corrido por alguns minutos que deveriam ser o bastante para se afastar daquele lugar, mas tudo indicava que ela estava errada, afinal, aquela água cristalina ainda estava bem na sua frente.
Com dificuldades e dores, a donzela que fazia um esforço enorme para não chorar, levantou-se do chão cheia de terra colada na roupa, as mãos sujas e com alguns arranhões, além do hematoma que acabara de ganhar no pé. Ela estava em um estado irreconhecível, nunca havia ficado tão lamentável quanto naquele momento. Devo completar dizendo que a roupa e os cabelos molhados contribuíram para que logo ela começasse a espirrar? Pois foi o que aconteceu enquanto retornava para o lago trôpega.
Ela parou os passos antes de sair da floresta ao ver que na margem das águas havia outra criatura suspeita, dessa vez um homem vestido de branco, com um longo cabelo e barba branca, sentado em uma mesa redonda de jardim coberta por um pano branco, com detalhes em forma de flores talhadas no tecido, e farta de comida e bebida. O senhor enchia uma xícara florida com um líquido amarelado, depois fez o mesmo com a xícara posta na cadeira vazia à sua frente.
— O que está esperando para juntar-se a mim, querida? — era a mesma voz do gato, mas Musa tinha quase certeza que aquela criatura não era o felino.
Musa cogitou a possibilidade do senhor estar falando com outro alguém, mas quando seus olhos encontraram os dele, que eram como chamas ardentes de fogo, soube que se dirigia apenas a uma pessoa: ela. Então, em silêncio, aproximou-se e sentou na cadeira vazia.
— Parece que você está bastante machucada.
— Um pouco — mentiu, mas quando olhou para aquele homem tão misterioso e encantador quanto o gato de cartola, olhando-a com uma ternura imensurável e grande amor, fazendo-a se sentir completamente segura e a vontade, desejou falar a verdade. — Sim, eu estou muito machucada, senhor.
— Gostaria que eu a ajudasse?
— Podes fazer isso por mim?
— Você consegue acreditar que sim?
Um silêncio pairou no ar e Musa observou atentamente os olhos cheios de chamas ardentes. Havia um tom de verdade naquela expressão e duvidou que outro alguém pudesse falar mais verdades que ele. Se o homem branco ofereceu ajuda, então é porque certamente poderia fazer isso.
— Sim.
Ele estendeu as mãos e Musa fez o mesmo, deixando viradas para cima as palmas de suas mãos cheias de machucados causados pelo tombo de instantes atrás. Ele as cobriu com as suas. Um calor confortável e agradável percorreu a pele da garota, como quando tomamos leite quente no inverno, e ela se sentiu satisfeita. Quando ele afastou o toque, Musa percebeu que não havia mais nenhuma marca ali.
— Acreditar é o primeiro passo para se libertar, querida.
Musa não entendeu o que ele quis falar, pensou que estava se referindo sobre libertar-se daquele mundo estranhamento mágico e voltar para o seu.
— Como posso voltar para o meu mundo?
— Está com pressa? Não achou aqui agradável?
Ele apontou para a xícara de chá à sua frente, quando Musa olhou sentiu uma sede incontrolável, então não recusou e logo começou a tomar. Encheu mais um copo e tomou tudo de uma vez, ela também comeu alguns biscoitos, tortinhas e um pedaço da torta de cereja com mel, extremamente doce, mas estranhamente agradável para o paladar faminto de Musa.
— Sim, aqui é muito agradável. Não preciso sorrir o tempo todo, nem me lembrar de ser sempre impecável na frente dos outros para que não digam coisas desagradáveis sobre mim e meus pais não digam que escolhi o pior caminho e por isso sou infeliz. Aqui posso viver livremente, sem cobranças e falácias.
Em outras situações, pensaria que havia algo mágico naquela comida que a fazia falar coisas que estavam profundamente enterradas em seu coração, mas ela sabia que, na verdade, o que a fez ter essa atitude era a presença consoladora do senhor. Musa sentia-se completamente segura ao seu lado, como se nenhuma maldade do mundo pudesse tocá-la.
— Mas?
— Mas esse não é o meu lugar — Musa parou de comer de repente, e como se percebesse o que havia acabado de fazer, surtou: — Oh, não! Não! Não! Não acredito que comi tudo isso, não posso engordar, se não as pessoas não irão me achar linda.
Imediatamente, como um espelho, o conteúdo na xícara de chá revela o seu reflexo, fazendo Musa gritar e levar as mãos à boca, surpresa. Era um rosto cheio de manchas, com olhos profundos como os de quem não dorme bem há dias e bochechas três vezes maiores. Musa olhou para os braços, as mãos e os pés e viu manchas como de feridas brotarem no corpo que agora ficava roliço.
— Ora, o que fez comigo? O que havia nessa comida? — Musa quis chorar e, pela primeira vez, o fez sem tentar segurá-lo. Seus sentimentos estavam cem vezes mais ampliados na frente daquele senhor e ela não podia evitá-los.
— Esse é o seu verdadeiro eu, Musa. Os seus erros a machucam por dentro e você finge que não vê para não tratá-los; e sua obsessão por se privar de comer mesmo quando o estômago dói torna sua alma gulosa. Você diz que a culpa é das pessoas, mas não enxerga que o seu pior inimigo é você mesma.
— Pelos céus, do que o senhor está falando? — Musa gritou, limpando as lágrimas incontroláveis.
— Eu estou mostrando-a como és. Que antes que as pessoas façam algo, tens a habilidade de matar a sua própria essência procurando chegar a uma perfeição inalcançável, tentando ser amada por todos quando nenhuma única pessoa no mundo foi capaz de fazer isso. Eu digo: ame-se. Mas não sufoque a sua alma.
Musa chorava sem parar, soluçando. Ela cobriu o rosto com as mãos, sentindo todos os sentimentos que guardava há anos sendo expostos, jorrando para fora do seu coração. Lembranças e mágoas invadiram seu coração.
O sentimento de rejeição estava ali e, mesmo que não soubesse, era isso que a tornava tão sedenta por atenção e excelência.
Musa sentia-se sozinha no mundo, as únicas pessoas com quem podia contar eram Jeffrey, que depois de ouvir suas duras palavras no quarto horas atrás, duvidava que ele a amasse tanto assim; e Anny, sua querida sobrinha de nove anos que, desde pequena, mostrava-se inclinada para o lado artístico assim como Musa e, justamente por isso, sofria nas mãos de sua família que tentavam tirar isso da criança mantendo-a sempre distante da tia.
Os maiores machucados da garota não estavam nas mãos ou no pé torcido, estavam em seu coração, despedaçado pelas pessoas e por ela mesma há tanto tempo.
— Querida, — o senhor tirou as mãos de seu rosto com cuidado, como se ela fosse um bebê frágil — o seu maior tesouro está em teu coração. A fome excessiva por perfeição, sucesso e amor só podem ser saciadas quando entender que primeiro deve sarar suas feridas e, somente então, estará pronta para saboreá-los. Olhe para mim.
Ao abrir os olhos, ela quis chorar ainda mais. A pessoa que via não era mais o homem, era a si mesma quando criança, sorrindo com um olhar brilhante, mas conforme crescia aquele olhar foi substituído por um profundo, triste e sobrecarregado. As roupas que antes começaram brancas transformaram-se nas mesmas que ela usava naquele momento, um vestido vermelho sujo, rasgado e molhado, os pés e as mãos machucadas e inchadas, o cabelo bagunçado e tão molhado quanto suas vestes.
Musa pôde relembrar em segundos toda a sua trajetória, como era amada pela família enquanto prometia que faria o que desejassem quando crescesse, que casaria com alguém rico e traria orgulho para eles. Viu com detalhes, no olhar da pequena Musa a sua frente, o momento em que soube que era apaixonada pela música enquanto aprendia a tocar piano e como tudo mudou depois daquilo. Então, naqueles mesmos olhos que eram portas de sua alma, as lembranças desagradáveis surgiram. Elas também estavam lá. E entre todas, as piores pareciam ser todas as vezes que se olhou no espelho praguejando-se por ser tão falha, por todos os erros cometidos e todas as vezes que foi incapaz de ser sincera e amável com as pessoas mais próximas. Tão dura consigo mesma.
Tudo o que ela tinha para oferecer aos seus amigos e companheiros de trabalho eram as flores cheias de espinhos que cultivava em seu coração, flores que também machucavam-lhe e que até aquele momento não havia percebido.
— Desculpe-me… — Musa sussurrou e, repentinamente, abraçou o seu reflexo, como se a sua vida dependesse daquilo. E de certa forma dependia.
Ela não conseguiria ser feliz se não pudesse se libertar dos seus medos, dos traumas e sentimentos que aprisionavam a sua alma. Essa era a liberdade da qual o Senhor falava desde o início.
Musa precisava se perdoar para perdoar.
Ao afastar-se, o senhor voltou a transfigurar-se em sua frente com barba, cabelo e roupas brancas.
— Essa sede que sentes pela felicidade deve ser saciada com a água Viva.
— Onde eu posso encontrá-la, senhor?
— Ali — ele apontou para a água do lago — E aqui — concluiu apontando para o próprio peito, ou melhor dizendo: o coração, mas a garota não entendeu. — Você precisa acreditar e confiar em mim. Só assim alcançará o que tanto deseja.
— E como eu faço isso?
— Volte e faça tudo diferente. Do início ao fim, daqui por diante. E, lembre-se: escute e siga os conselhos e ensinamento dEle.
— Quem?
— Spiorad — o senhor vestido de branco disse e, ao ouvir o seu nome, o felino atendeu ao chamado e tomou espaço na mesa, pulando sobre ela. Era o gato de cartola.
— Ele voltará com você e ensinará aquilo que precisas saber, para que um dia você possa fazer o mesmo por outras pessoas. Sua existência é essencial para que outros vivam, então não desista nem mesmo quando parecer impossível resistir às dificuldades. O Spiorad estará sempre com você.
Segurando nas mãos da moça, ele a guiou juntamente com o gato até o lago, mas antes que eles pudessem mergulhar, Musa não resistiu ao desejo de abraçar aquele senhor tão bom e gentil, que tanto havia ajudado sua alma perturbada.
E ao entrar na água ela sentia-se outra pessoa e ao sair, atravessando o espelho, percebeu que realmente não era mais a mesma de quando estava lá dentro.
Suas roupas voltaram a ser limpas e secas, o cabelo arrumado e a maquiagem intocável no delicado rosto da garota sorridente.
Ela quis questionar se tudo não passou de um sonho, mas o ronronar do gato sob a cama foi o bastante para ela saber que não esteve em um sonho, que tudo foi bastante real. O gato branco, peludo e grande estava bem deitado, tão confortável que parecia que sempre pertenceu aquele lugar.
— Cadê o seu chapéu? — ela perguntou ao notar que algo faltava e olhou para o espelho — Será que caiu no caminho? Devemos voltar para pegar? — o gato a observou, mas nada disse — Eu não estava alucinando, estava? Será que ele pode mesmo falar?
O gato nada disse, apenas olhou para a porta e, em três segundos, alguém bateu.
— Entre.
Era ele. Jeffrey.
O coração de Musa saltou.
A donzela olhou para o gato e este apenas desviou seu olhar para Jeffrey, como se dissesse “o dever de fazer diferente começa agora”, antes de virar-se de costas para eles e dormir.
Ela devia um pedido de desculpas e ele, certamente, ansiava por isso, mesmo duvidando de que um dia aconteceria, já que era ele que sempre se desculpava.
O que ele não esperava é que O Encontro com o Senhor houvesse sarado a alma daquela garota tão magoado e libertado o seu desejo de ser verdadeiramente melhor, boa e agradável.
— Jeffrey, me desculpe…
📚
Conto escrito por
escritoramanny/yordms
(...)
O que acharam do nosso primeiro conto? Esperamos que ele tenha atiçado a curiosidade de vocês em tudo que pode acontecer em Good Writers.
Até o próximo! Algum palpite do ano que se passa?
Não esqueçam de deixar sua estrelinha!
⭐
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