parte 1

Estava para nascer uma pessoa mais apaixonada do que Rodrigo Albuquerque.

Desde que conheceu Alice, os amigos costumavam provocá-lo dizendo que ele estava perdido, que a mulher iria acorrentá-lo e o tirar da vida promíscua que o grupo seguia. Mas Rodrigo os rebatia, batia no peito e dizia que Alice não tinha o feito se perder e sim se encontrar. Os pais de Rodrigo literalmente ergueram as mãos aos céus quando os dois apareceram noivos, agradecendo a felizarda que finalmente tiraria o filho de vinte e nove anos debaixo daquele teto.

— Vê se dá um jeito no meu filho, dona Alice. Rodrigo tá se perdendo, culpa dos amigos do trabalho, levaram meu menino para o mau caminho.

— A senhora me perdoe, sra. Albuquerque, mas eu sou noiva do seu filho, não babá. Se for pro Rodrigo dar um jeito na vida dele, ele que tem que querer.

Dona Fátima enrugava o nariz para as respostas afiadas da futura nora, ela era do tipo de mulher que achava que a esposa para tomar o lugar da mãe na vida do marido. Alice Queiroz, pelo contrário, faça jus a sua geração, ela era uma mulher de vinte e sete anos, trabalhava como secretária de um dos advogados mais renomados do Rio de Janeiro, e tinha o contrato de um apartamento próprio nas mãos. Alice costumava falar para as amigas que nunca namoraria um cara beirando os trinta anos e que ainda morasse na casa dos pais.

Mas então ela conheceu Rodrigo, e o famoso ditado "dessa água não bebereis" se tornou o clássico "dessa água eu bebi e ainda me afoguei". Mas o que poderia fazer? Não escolhemos as pessoas que amamos. E, ah, como Alice amava Rodrigo.

Entre as responsabilidades e complicações do trabalho e da vida, os dois conseguiram viver um verdadeiro romance de filme. Rodrigo aos poucos deixou de beber três dias da semana depois do expediente com os colegas, e passou a se arrumar nas sextas-feiras para encontros no cinema ou em algum restaurante chique que nunca iria se dependesse dos amigos. O arquiteto passou a gostar de passar um sábado em casa com a companhia de uma garrafa de vinho, filmes antigos e sua namorada. Alice deixou de ser tão certinha, de planejar cada minuto de seu dia, e assim ela viu que a vida também tinha sua beleza nos imprevistos.

Os dois se completavam, eram opostos que se atraíram como dois polos de uma pilha. Mas eles não eram totalmente diferentes, Alice tinha sua postura de mulher independente, mas sempre sonhou em ter uma casa com duas miniaturas suas correndo no quintal. Rodrigo já tinha escolhido o nome dos seus filhos desde os quinze anos.

Foi onze meses depois de terem se conhecido que Rodrigo teve a certeza de que ela era mulher com quem ele se casaria. Era uma quinta-feira, o dia na empresa tinha sido puxado e ele se deixou levar pelos amigos que insistiam que eles mereciam uma cerveja depois de ouvir quase três horas de sermão do patrão. Foram para um bar que ficava a cinco minutos do trabalho, o dono já conhecia a cara dos cinco e só precisou dar um boa noite antes de ir buscar as garrafas. Sabia que seria uma noite longa de bebedeiras e barulho de homens que só sabiam falar gritando, mas isso também significava que seria uma noite de lucro para o seu Augusto, e ele não podia reclamar.

— Eu conheço esse olhar, meu amigo, é olhar de homem apaixonado. — Rodrigo tirou os olhos do celular e se voltou para Túlio, que o encarava com um sorriso maroto no rosto. Túlio era único casado do grupo, e o único que não traía sua companheira. Nos últimos meses os dois tinham se aproximado.

Na tela do celular, uma foto de Alice sentada na cama vestindo uma lingerie preta e a mensagem abaixo dizia que ela o esperava ansiosa. Naquele momento Rodrigo teve certeza que ela era a mulher de sua vida. Não pela foto sensual e a frase de duplo sentido, mas porque ela caprichou na pose e na luz para que a foto saísse perfeita, e mesmo assim não tirou as meias rosas dos pés, quebrando todo o cenário provocativo. Alice sentia muito frio nos pés, tinha uma coleção com mais de cinquenta meias, e nunca as tirava. E ele riu com isso, pensando em como tinha sorte de poder chegar na casa dela - que aos poucos se tornava dos dois - e ter ela ali. No bar, rodeado de homens alterados pelo álcool e que só falavam merda das funcionárias da empresa, Rodrigo só desejava chegar em casa e ser recebido por sua mulher com meias coloridas nos pés.

— Eu vou casar com essa mulher, Túlio. — o sorriso já meio embriagado, mas totalmente sincero, denunciava que suas palavras eram ditas carregadas de certeza. — Pode anotar.

Era outubro. No dia primeiro de janeiro, Alice postava uma foto em seu Instagram com a legenda: "eu disse sim!". Dias depois ela ria do clichê que era ser pedida em casamento na virada do ano, com os fogos estourando e todos gritando "feliz ano novo!" ao fundo. Mas tinha sido perfeito, e como uma boa canceriana, Alice Queiroz chorou com o pedido e com o clichê perfeito que era seu amor com Rodrigo.

Rodrigo tinha começado a planejar na sexta-feira seguinte do bar. Alice dormia tranquilamente em seu colo, vinte minutos depois do filme que eles demoraram quase uma hora escolhendo ter começado. Ela sempre dormia. Ele fazia cafuné em seu cabelo, o filme servindo apenas de ruído branco para seus pensamentos que fluíam como água enquanto pensava na forma perfeita de pedi-la em casamento. Mas antes ele parou para observa-la, e mais uma vez viu como era um cara de sorte.

Rodrigo nunca se considerou um cara nível galã de novela da Globo, e para ele Alice ultrapassava a beleza de todas as modelos da Victoria's Secrets juntas.

Alice era do tipo de mulher que não se importava com a opinião dos outros, muito menos de homens, mas seus olhos brilharam quando Rodrigo disse que a melhor escolha da vida dela tinha sido cortar os cabelos castanhos, bem na altura dos ombros.

Rodrigo tinha uma leve descendência asiática, que só se tornava mais explícita quando ele sorria e seus olhos praticamente se fechavam. Alice amava fazê-lo sorrir para ver isso acontecer.

Em fevereiro, quando os dois voltaram do carnaval em Angra dos Reis, os preparativos para o casamento começaram. Rodrigo nunca pensou que teria que saber diferenciar branco neve do branco gelo. Para ele não tinha a mínima diferença, mas a sobrancelha arqueada de sua noiva numa expressão assassina indicava que branco neve era melhor para os benditos guardanapos. Alice sonhava em casar na igreja que seus pais casaram, e mesmo com todo seu ceticismo em religiões, Rodrigo queria ver sua futura mulher sorrir.

Marcaram a data para novembro, no mesmo dia que completaria dois anos depois do primeiro encontro. Alice queria mais tempo para juntar dinheiro. Rodrigo disse que poderiam fazer algo mais simples, se casariam até no meio da rua, ele só queria chamá-la de esposa.

Mas novembro teria que esperar.

— Se aumentar mais um pouco eu vou ficar surdo!

Rodrigo tentou falar por cima da música alta no carro, arrancando uma gargalhada de Alice. Tocava Anavitória na rádio, e ninguém conseguia competir a atenção da mulher contra elas. Só Rodrigo.

— Será que conseguimos contratar elas para tocar no casamento? — ela perguntou tirando uma das mãos do volante para abaixar o volume.

— Bom, acho que sim. — Rodrigo fez uma cara pensativa, parecia realmente pensar no assunto. — Se vendermos nossos carros, o apartamento e um rim de cada conseguimos.

— Você é um idiota.

Alice revirou os olhos voltando a aumentar o som, por um segundo tinha até acreditado que aquela era uma possibilidade. Rodrigo era do tipo de cara que só ouvia esse tipo de música quando estava com suas primas ou sobrinhas de consideração, ele preferia MPB clássico ou artistas que já tinham morrido, mas batucava as mãos no joelho no ritmo da música. Alice nunca viraria as cadeiras dos técnicos se fosse para o The Voice, mas seu noivo a olhava como bobo enquanto ela cantava.

— 'Te sinto seu ao se entregar
Me tenho inteira pra você
Te guardo solto pra se aventurar
É tão bonito te espiar viver
Se encontra, se perde e se vê
Mas volta pra se dividir, amor
É que você fica tão bem a...'

Ela nunca conseguiu terminar a música. Alice não viu o carro que vinha na contra mão, não viu que o motorista provavelmente estava embriagado e não conseguiria desviar. Alice não viu porque o último verso ela sempre cantava olhando para Rodrigo. E ele olhando para ela.

"É que você fica tão bem aqui comigo".

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