Conto 3 - Depois da Fronteira

Autora: Tati Cardoso

Sinopse:

Ronaldo é um soldado do exército que durante uma missão na fronteira com a Argentina, conheceu Laura. A mulher que mudou sua vida dali em diante.

Por mais que se soubesse da partida dele, Ronaldo fez a promessa que alimentaria todas as esperanças desse amor à primeira vista.

Até quando esperar pelo amor da sua vida?

Mais uma estória que vai conquistar seu coração.

Música Tema: Here Without You — 3 Doors Down

Classificação: Livre

***

2004

— Prometo que volto. — Os olhos marejados demonstravam a dor que ele sentiu ao ter que deixa-la.

— Não vai, por favor. — Ela dizia olhando apenas para as mãos dele que se enlaçavam às suas, enquanto observavam a única lágrima solitária que caiu sobre ambas as mãos.

— Laura, olha para mim. — Ela se voltou com os olhos inchados— Eu juro que volto. Eu juro.

— Eu vou te esperar Ronaldo! Eu juro. — Ela colocou as mãos no bolso e tirou algo. — Pega, é a aquela foto que tiramos no circo — Depois que respirou fundo, continuou— Não se esqueça de nós.

— Nunca.

***

— Um brinde ao mais novo Tenente! — Disse Diogo, um amigo de longos anos.

— Sério, não precisava disso. — Reclamou Ronaldo ao olhar para todas as pessoas que estavam ali. E para a mesa cheia de comidas e bebidas.

— Claro que precisava meu amor. — Érica se aproximou dele e o beijou. Um beijo sem emoção. Ronaldo apenas sorriu e se direcionou para falar com as pessoas.

Érica apareceu no momento mais conturbado da vida dele, o momento em que ele passava por uma depressão por conta de Laura. Muitos anos se passaram e Ronaldo ainda não tinha cumprido a promessa de voltar para busca-la. Em uma missão na fronteira da Argentina, em que ele no seu dia de folga foi até a cidade, conheceu Laura. Ela, filha de mãe brasileira e pai argentino, morava há muitos anos no país vizinho. A noite em que a conheceu estavam na missa na Catedral Metropolitana de Buenos Aires. Ela ao sorrir quando passou por ele no final da missa, foi a demonstração que anjos existiam, pelo menos foi no que ele falou em sua mente. A troca de olhares e cumprimentos com a cabeça só confirmaram o que já era previsto. Ronaldo, parado no banco absorvendo a onda de emoção que Laura passou e deixou, não percebeu que ela já estava indo embora, e que ele deveria fazer algo.

— Moça, espere. — Ele parou na sua frente respirando rápido e demonstrando todo o cansaço que a corrida lhe deu. Ela e a amiga o olharam desconfiadas, porém, Laura de leve estava com um sorriso no rosto. — Eu não sei se me entende, mas estou de passagem aqui e não conheço nada. É, sei que pareço doido, mas eu sei que também sentiu o que eu senti lá na igreja, no momento em que te olhei, e que você também olhou para mim. — Elas continuavam olhando uma para a outra. — Tudo bem. Não entendeu nada mesmo. Eu já vou indo. — Ele fez o sinal com o indicador para trás para ver se ela o entendia. No entanto, ela só levantou a sobrancelha. Ronaldo baixou o olhar e se virou.

— También yo he sentido el mismo. — Ele se voltou sem entender nada. E ela continuou. — Eu também senti o mesmo. — E os dois abriram um largo sorriso.

— Fala português? — Ronaldo perguntou ainda sorrindo.

— Minha mãe é brasileira. Então aprendi as duas línguas. Mudando de assunto, o que o menino faz perdido em Buenos Aires?

— Janta comigo e eu te digo.

Ela sorriu e se voltou para a amiga cujo olhar ainda não tinha deixado de ser desconfiado.

— Puedes irte. No te peocupes.

— ¿Tienes la certeza?

— Sí, yo la tengo

* — Pode ir. Não se preocupe.

— Tem certeza?

— Sim, eu tenho.

Elas se abraçaram e a amiga foi embora. Laura com o sorriso no rosto se voltou para Ronaldo.

— E para onde o menino...?

Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo.

— Ronaldo, esse é meu nome.

— E para onde o menino Ronaldo quer ir?

— Para onde a moça...?

— Me chamo Laura.

— Para onde a moça Laura me levar.

Eles seguiram para o Chila, o restaurante que segundo ela, tinha uma vista que a fazia ficar emocionada. Foram caminhando com Laura apontando todos os pontos turísticos e todas as coisas que valiam a pena visitar ali. Enquanto ela falava e apontava para os locais, ele não deixava de olhar para o rosto dela.

Cada movimento de sua boca, cada detalhe no seu olhar, e nas expressões que ela fazia quando não gostava de algo, o fizeram perceber que era Laura.

— Chegamos.

Foi quando ele olhou para o que ela apontava naquele momento.

— Aqui é muito lindo. Boa escolha.

Laura sorriu e eles se encaminharam para dentro do restaurante. Ela exigiu que tivesse uma mesa de frente para o rio, ela queria que fosse especial. Para sorte dos dois, um casal havia terminado seu jantar romântico acabado de deixar a mesa. O sorriso que havia o deixado desconcertado estava ali de novo e na sua frente. Ao se aproximarem da vista Ronaldo percebeu que era de fato a coisa mais linda para aquele momento. Fizeram o pedido e enquanto esperavam tomavam uma taça de vinho, escolhido por ela.

— Aceitei jantar com você. Agora você me conta o que faz perdido aqui.

— Eu estava em uma missão na fronteira do Brasil com a Argentina, e como terminou, cada soldado teve um dia de folga. Hoje é o meu. Meus amigos irão folgar em outros dias, por isso não puderam me acompanhar.

— Então é soldado do exército?

— Sim.

Ela expressou um leve desconforto.

— Me fala de você Laura.

— Bom, minha vida é pacata mesmo, não tenho nenhuma missão na fronteira, ou sei lá o quê.

— Está tudo bem? — Ele não estava entendendo aquela súbita reação por parte dela.

— Você quer mesmo que eu acredite nisso? Ou é só uma forma idiota para me dizer: só estou me divertindo essa noite, então não sinta nada por mim porque eu vou embora, vou para guerra ou algo do tipo.

Ronaldo conteve o quanto pode a gargalhada. Mas começou a rir baixinho. Laura percebeu e começou a se levantar para ir embora. Ele mudou a expressão e se meteu em sua frente.

— Você gosta de mim? — ela mais uma vez tentou passar — Ok, ok, desculpa, mas não estou mentindo. Olha essa foto. — Ele pegou uma foto que tinha na carteira, gostava de dizer que servia seu país. — eu realmente sou do exército, estava em uma missão, e hoje é meu dia de folga. — ele suspirou— E o que você disse é verdade; eu vou ter que ir embora mesmo.

— Entendo.

— Entende o que?

— Que tenha que ir embora.

Ronaldo se sentou e Laura fez o mesmo. Nesses segundos calados, o garçom colocou os pratos sobre a mesa. Eles se olharam.

— O que foi isso? — Ronaldo perguntou.

— Também não sei. Vamos jantar e depois tentamos descobrir.

Ele sorriu e assentiu. O jantar seguiu em meio a risos e as características de cada um. Planos, sonhos, amores, e todas as informações dadas por educação, mas que não eram necessárias; pois eles já sentiam que se se conheciam há muito tempo. Terminaram o jantar e na frente do restaurante começou a despedida.

— Eu amei o jantar e o restaurante. Tem razão em se emocionar com aquela vista. — ele falou sem jeito. Isso nunca tinha acontecido com antes.

— Eu também.

Silêncio.

— Eu tenho que ir. — Laura disse

— Eu também.

Ela assentiu e disse tchau, se virou e foi em direção ao taxi que havia próximo dali. Ronaldo não conseguiu se mover naquele instante, estava prestes a deixar a pessoa especial ir embora daquela forma, sem dizer nada. Não podia, não queria.

— Laura, espera.

Ela se virou instantaneamente.

— O que foi?

— Eu vou te ver de novo?

— Me responde você.

— Eu quero — Retrucou ele.

— Então vamos. Amanhã nesse mesmo horário na igreja onde me viu.

— Desculpa, amanhã não dá. Só na próxima semana. Por favor, diz que sim. Diz que posso te encontrar na semana que vem, lá na igreja.

— Tudo bem! Eu espero.

***

A semana se passou e com ela a ansiedade foi aumentando gradativamente. Ronaldo até tentou se concentrar, mas era impossível esquecer o sorriso de Laura. Ela comentou com a amiga que havia encontrado o homem certo. O homem pelo qual ela tinha certeza que tinha se apaixonado a primeira vista. O dia do encontro chegou, e o frio na barriga de cada um não parava.

Ela já estava à espera dele na frente da igreja no horário combinado, com o cabelo levemente molhado por conta da chuva que estava caindo. Laura olhava o relógio de segundo em segundo, em sua cabeça, já esperando há muito tempo. Ronaldo não iria aparecer.

O olhar de esperança deu lugar ao de decepção.

Laura desistindo, fez sinal para um táxi que passava em frente à igreja, quando escutou a voz dele.

— Não vai. — Ronaldo se aproximou ofegante e ensopado. — Desculpa o atraso. Mas meu ônibus parou. Eu tive que vir correndo na chuva. Não queria te deixar esperando.

Laura abriu um largo sorriso e o abraçou.

***

Assim, as semanas se passaram; ele no quartel cumprindo suas atividades e não vendo a hora de poder ter sua folga semanal e visitar Laura. No dia do encontro em que ele chegou molhado, aconteceu o primeiro beijo. Bem ali onde se conheceram.

A igreja e Deus eram testemunhas desse amor.

Laura havia contado para ele o que fazia. Era professora de educação infantil e morava com os pais que precisavam de sua ajuda. Era filha única e seu pai tinha uma doença grave e precisava de cuidados constantes. A mãe fazia alguns bicos em casas de família e conseguia um dinheiro razoável para ajudar Laura com as despesas de casa. A menina disse que era feliz ali, com seu emprego e família e que seria a melhor coisa poder constituir família em Buenos Aires, perto de todos. Ronaldo a olhou e até esboçou contar que na semana seguinte estaria indo embora para outra missão, agora na fronteira com o Suriname. Mas o sorriso dela ao falar de sua cidade e das características da sua mãe que tanto amava, ele se conteve. Preferiu guardar aquele momento consigo.

— O circo está na cidade, podíamos ir na semana que vem, o que acha? — Inquiriu Laura animada.

— Claro, vai ser ótimo.

Ronaldo olhou para o relógio e viu que já era a hora de sua menina ir para casa. Ela havia estipulado um horário desde o segundo encontro.

— É uma pena você ter que ir.

— Quem disse que eu vou pra casa hoje?

— E para onde a moça vai? — Perguntou ele, curioso e animado. Não sabia determinar qual sensação o dominava mais.

— Qual o nome do teu hotel mesmo?

— Palo Santo — Respondeu, elevando as sobrancelhas, a curiosidade sobressaindo.

— É para esse que eu vou.

Ronaldo sorriu e pegou aquele rosto delicado que tanto admirava entre suas grandes mãos, dando-lhe um longo beijo para demonstrar assim, o quanto estava apaixonado. O quanto ela havia mexido com seu coração, e que ela era a mulher certa.

Era Laura.

Chegando ao quarto no qual ele se hospedava todas às vezes em que costumava visitar Buenos Aires, Laura pôde sentir que estava cada vez mais perto daquele homem; do seu mundo, da sua vida.

— Sabia que eu sinto falta desse quarto? — ele disse

— É bem aconchegante. — Retrucou sentando-se na beira da cama. Ele ficou calado olhando pela janela. Passavam-se varias coisas por sua cabeça, mas não conseguia falar nenhuma delas. — Senta aqui do meu lado.

— Laura, eu preci...

Ela o tomou com um beijo carregado de desejo; tinha sido muito difícil para os dois aguentar por tanto tempo o que já era explicito no olhar de cada um. Ele sem jeito e nervoso pegou por baixo do seu cabelo e começou a prender mais os fios sedosos em suas mãos. Laura no caminho até ali já sabia o que queria, e não queria ficar tímida ou temer o que estava preste a explodir.

Os beijos foram ficando mais intensos, os toques, o cheiro; cada peça sendo arrancada com calma, porém com intensidade. Um misto que só o amor consegue explicar. Ali expressaram o "eu te amo" que estava guardado desde o dia que se conheceram. Laura lacrimou ao ouvir a declaração, chorou por pela primeira ter sentindo algo tão intenso quanto aquele romance. Já Ronaldo ficara com um sorriso tão grande que não cabia na boca quando ouviu o ''Eu também te amo'' que sussurrado por ela.

***

Chegou o dia de dizer ''até logo'' pelo menos foi o que ele achou que seria. Tinham combinado de ir ao circo naquela noite. A relação dos dois havia dado um grande salto, eles tiveram um ao outro na noite anterior, entre declarações de amor e de poder dormirem juntos. Nem que fosse a ultima vez.

Ronaldo a viu adormecer e deixou cair uma lágrima de despedida. Ele não podia ficar, era sua profissão. Tinha que ir para o Suriname e só depois poderia voltar para buscá-la para morar com ele. Tantas coisas foram pensadas, mas não sabia como falar. Estava com medo que ela dissesse que não queria mais ficar com ele, ou que não o esperaria. Pela manhã, ela foi para casa, e ele ficou no hotel fazendo algumas ligações para ver se podia adiar a ida, mas no fim pegou bronca.

Chegou à noite e ele ficou no saguão do hotel esperando Laura chegar.

Em vinte minutos lá estava ela na entrada do Hotel chamando a atenção de todos ao redor. Laura era uma mulher deslumbrante. Os cabelos cacheados cor de mel, caiam sobre seus ombros. Ele no seu interior sempre achou que ela fosse um anjo que havia aparecido em sua vida. Seu semblante baixou ao perceber que essa era a última noite que estariam juntos, depois, só após a missão. Laura se aproximou e o tomou em um beijo.

— Vamos? — Pediu ela, toda animada, segurando as mãos dele.

— Vamos — Afirmou, tentando, o quanto podia, ignorar a dor da partida, querendo apenas aproveitar a longa noite que teria ao lado de sua amada.

**

Escolheram as cadeiras da frente, próximas ao palco. Os palhaços foram entrando e já fazendo brincadeiras com a plateia, Laura foi uma escolhida. Ela ria de um jeito encantador, que iluminava cada pedaço do circo, e também do coração do homem ao seu lado que não conseguia um instante sequer desviar os olhos dela. Ronaldo tentava se esconder para não ser chamado, mas não teve jeito, ela o puxou e os dois participaram da festa.

Resultado: saíram sujos dali, porém imensamente felizes. No mesmo local onde estava o circo, havia um pequeno parque. Ficaram ali por mais um tempo; aproveitando cada momento.

— Eu adorei a noite — ela disse em meio aos risos.

— Você é doida. Olha como estamos! — Indagou Ronaldo, ao olhar para as roupas sujas de ambos.

— Ah, ninguém se importa com isso. Deixa de ser chato, soldado.

— Tudo bem. — o sorriso dele era o que mais importava pra ela.

— Amor, olha aquela cabine de foto, vamos?

Ele a olhou e ficou tentando absorver aquele momento em que ela disse Amor, fora tão espontâneo.

— Vamos sim, amor.

Das dez fotos sem quase nenhuma pose legal, uma deu certo. Eles ficaram observando essa foto e chegaram à conclusão que faziam um casal bonito.

Chegando ao hotel foram logo com sede um em direção ao outro. Ela por estar tão apaixonada e acreditar que nada faria aquela felicidade acabar, ele por fazer tudo em meio a despedida. Ele precisava contar, mesmo que isso fosse doer.

— Laura, preciso mesmo te contar uma coisa.

— Que foi incrível o que fizemos? — Sorriu, mas ao perceber a aflição dele estacou-se no lugar — O que foi Ronaldo?

— Amanhã à tarde eu vou ter que ir embora.

— Ah, disso eu sei. Você faz isso sempre.

— Laura — ele tocou no seu rosto. — eu não vou voltar. Quer dizer, pelo menos não agora.

Laura foi saindo aos poucos da cama, e pegando sua roupa do chão. Ele tentou convence-la a ficar e escutar. Mas ela não conseguia parar de chorar. Assim que terminou de se vestir, ela bateu a porta e saiu.

Sem conseguir ver seu grande amor partindo daquela forma tão abrupta, Ronaldo correu até o corredor e gritou, desesperado.

— Me dá uma chance de explicar? Amanhã à tarde estarei indo, me encontra na fronteira. Por favor!

— Me esquece. — Foi a última coisa que ouviu daquela doce voz que tanto amava, antes de perde-la de vista.

Assim, voltou ao quarto e começou a andar de um lado para o outro. As lágrimas caiam sem controle, ele queria ficar, queria morar ali com Laura, ter sua família. Mas não podia, poderia ser preso por ser um desertor. Nesse caso ficaria muito mais difícil voltar para busca-la. Naquele momento ele se tornou um menino perdido de seus pais em um supermercado.

Faltava um pedaço de seu coração e tudo o que ele conseguia era voltar aos momentos felizes que viveu ao lado daquela mulher tão linda e certa para ele. Ouvir sua voz, o jeito que ela falava, soando sempre tão doce, do jeito que ela era.

Ao deitar, o soldado perdido chorou o suficiente para os olhos ficarem cansados e inchados até adormecer.

***

Ali parado, ele olhava incessantemente para o relógio, já estava quase na hora de partir em direção ao Suriname. Os colegas já o estavam apressando, e a razão dele dizia que tinha que ir embora. Ela não iria aparecer, não tinha o perdoado. Depois da quarta chamada ele resolveu caminhar ate o carro, enxugou a ultima lágrima e foi.

Os passos pesados demonstravam a vontade de ficar, a vontade de correr até ela.

— Ronaldo? Espera.

A voz de Laura ecoou ali e o sorriso dele surgiu, assim como o coração acelerou a tal ponto que pensou que teria uma parada cardíaca naquele exato momento.

_______________♥______________

'' Oi amor,

Os dias aqui não tem sido fáceis, a cada dia tem grupos tentando passar com drogas. Um dia desses levei um tiro de raspão, não se preocupe. Só doeu bastante. Mas já estou bem. O atendimento aqui é rápido e eficaz, pelo menos eu pude deitar um pouco e descansar. E aproveitar para escrever para você.

Quando eu consegui dormir um pouco, logo você veio a minha cabeça. Laura, a saudade aumenta a cada dia. Ao lembrar que faltam ainda cinco meses até eu poder voltar e te buscar, a dor aperta tanto o meu peito. Serão muitos dias ainda em que não terei teu toque, que não sentirei o cheiro do teu cabelo, teu corpo, a saudade do teu sorriso, que ilumina tudo. Os dias aqui me deixaram mais romântico, acredite. Meu amor me espera mais um pouco, não desiste de nós. E todas as cartas que já te mandei, são para aliviar um pouco a distancia.

Yo te amo, Laura.

Ronaldo, na beira da cama, relê a carta que mandou há três anos. Descobriu um tempo depois que nenhuma das inúmeras que havia enviado, chegaram até ela. A promessa não foi cumprida, a ultima carta dizendo que ele havia sido escalado para ajudar na distribuição de suprimentos na Indonésia depois do Tsunami de 2004.

Ali ele ficou por mais três meses, e cada vez mais a promessa ia ficando distante. Ao olhar para Érica deitada ali, só reforçou o erro que tinha cometido. Acabou se acomodando ao achar que Laura já deveria estar casada, teria arrumado alguém que não a deixou. As conquistas dentro do Quartel o fizeram ficar mais tempo no Brasil, não dando chance de voltar para a Argentina. E toda vez que ele subia de cargo, olhava as cartas e se questionava sobre sua vida. Estava feliz no trabalho, mas o mesmo lhe custou o grande amor de sua vida. Ele enxugou a lágrima solitária e foi guardar a carta.

— De novo lendo essas cartas? — Érica reclamou.

— Agora não Érica; estou cansado.

— Quem está cansada sou eu; faço tudo por nós, e você sempre relembrando essa mulher.

— Eu nunca vou me esquecer da Laura, eu deixei isso bem claro para você. Desde o começo. Agora me deixa dormir.

— Já chega de Laura, já chega.

Érica levantou com raiva e foi em direção a caixa com as cartas que ele havia escrito. Ao pegar uma quantidade suficiente, ela rasgou.

— Sua desgraçada. — Ronaldo bufou ao afasta-la da caixa. — Quer saber Érica, eu nunca amei você, nunca. Você que se meteu na minha vida, se meteu onde não tinha espaço. Essa união foi a segunda pior merda que eu fiz na vida. A primeira foi deixar a mulher da minha vida esperando por mim. E eu nunca voltei. Nunca. Vivi uma vida superficial ao teu lado, e no quartel. Mas já chega, chega disso.

Ele pegou a mala, colocou algumas peças de roupas e documentos; a caixa ele colocou debaixo do braço e saiu com o sorriso no rosto, mesmo que os olhos estivessem cheios de lágrimas.

Pegou o carro e foi em direção ao lugar onde deveria ter ido a muito tempo. O aeroporto.

— Moça, eu preciso de uma passagem para Argentina.

* * *

Horas depois Ronaldo estava em solo argentino. Carregando consigo todo amor acumulado nesses três anos que passou longe de Laura. Ele não sabia como iria se explicar, ou se ela aceitaria, e o pior das hipóteses, ela estar feliz com outra pessoa. Mas estava mais do que disposto a se arriscar, nem que fosse a ultima coisa que fizesse nessa vida.

Ele respirou fundo e deu os primeiros passos.

No taxi pegou uma das cartas e deu ao motorista o endereço para qual ela pedia para que fossem enviadas. O motorista assentiu e eles seguiram até ela.

Passaram-se quase meia hora segundo ele e sua contagem no relógio. A ansiedade fazia suas pernas tremerem e suas mãos suarem. Eram três anos longe da mulher com os cabelos de anjo e sorriso encantador. Eram três anos vivendo algo infeliz. Ele tinha nas mãos, a caixa com todas as cartas para mostrar para ela que ele escreveu, que havia explicado o motivo de não poder ter voltado antes. Talvez na hora ela simplesmente ignorasse isso e dissesse para ele desaparecer. Ronaldo temia como nunca que isso acontecesse, porém todo amor acumulado por Laura durante todos aqueles anos, o deixava esperançoso, o fazia seguir em frente.

— ¡Señor! Llegamos. — O motorista avisou que era a hora.

— Gracias. — Ronaldo pagou e saiu.

* * *

Ali, parado em frente à suposta casa de Laura, ele tinha certeza que não tinha controle das pernas. O coração entrou num ritmo totalmente descompassado, a respiração pesada não o estava ajudando a falar nada. Nem nos testes que estava fazendo sobre por onde começar. Então ele recuou alguns metros. Não estava com coragem de prosseguir. Nervoso do jeito que estava, acabou deixando a caixa com as cartas, cair.

— Que droga. Para com isso Ronaldo. Você já enfrentou tantas coisas ruins e está com medo de bater naquela porta? Coragem, Homem.

Falou consigo mesmo enquanto reunia todas as cartas e colocava de volta a caixa. Sim, era a hora. Se aproximou do pequeno portão de madeira e abriu. Conforme ia chegando mais próximo da porta, mais seu coração acelerava e a barriga doía de tanto nervoso. Então as batidas na porta soaram.

— Bom dia, quer dizer, buen...

A senhora parada ali na frente dele percebeu o nervosismo e a confusão com os idiomas.

— Bom dia, eu falo português. — Disse ela.

— Graças a Deus, eu estava perdido no que falar....

— O senhor está procurando alguém?

— Sim, uma moça que eu acho que morava ou mora aqui. O nome dela é Laura.

A mulher estremeceu.

— Desculpe, mas não tem ninguém aqui com esse nome. — A senhora tentou fechar a porta, mas Ronaldo não deixou.

— A senhora ficou nervosa, o que quer dizer que está mentindo. Por favor, eu quero muito encontrá-la. Eu vim de muito longe para isso.

— Espere aqui fora. — Ela entrou e demorou alguns minutos, enquanto ele tentava segurar as lágrimas, talvez pelo nervosismo ou pelo fato de não poder falar com Laura de imediato.

— Entre. — a senhora o chamou.

Ao entrar, pediu para que ele sentasse. Ofereceu água e esperou até que estivesse pronto.

— Você deve ser o Ronaldo. — Ele assentiu — Ouvi muito falar de você nesses últimos anos. Laura me falou de você, da historia de amor e que vocês ficariam juntos. Ela esperou tanto por esse momento, tanto por você.

— Eu sei, por isso estou aqui para explicar tudo. Olha! — Disse ele, animado, estendendo-lhe a caixa com as cartas. — Eu escrevi tudo isso, mas nunca chegou ate ela. Fui saber um tempo depois. Então, a vida tomou novos rumos e acabei achando que ela talvez estivesse com alguém. — Baixou o olhar, envergonhado.

— Ronaldo, às vezes a gente não acredita que o destino não conspire a favor de um amor bonito. Mas é aí que a gente se engana. Infelizmente, você veio tarde demais. Talvez um pouco antes, teria tido a chance de vê-la pela ultima vez. Laura deixou isso para você antes de morrer — Ela pegou a caixa apoiada em seu colo e a depositou nas pernas dele.

As palavras daquela senhora que ele ainda nem sequer sabia o nome, havia destruído todo seu mundo. Arrancado o ar de seus pulmões e ele nem ao menos tinha forças suficiente para estender o braço e pegar a última coisa que sua amada o havia dedicado

— Eu Sinto muito.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top