Conto 14 - Amargo Regresso
Autora: Milena Assis
Sinopse:
O agente do FBI Nicholas Gonzalez foi nomeado para uma importante operação, uma missão extremamente perigosa, se infiltrar na gangue colombiana Diablos. Ele enfrentará uma série de desafios para se tornar parte do submundo do crime organizado e será obrigado a abdicar de sua família por tempo indeterminado. As escolhas Nick fazem com que sua vida mude drasticamente e seus sonhos se transformem em seu pior pesadelo. Será que o amor resistira ao tempo e aos danos desse amargo regresso?
Música Tema: Rachel Platten - Fight Song
Classificação: +13
***
Ela acorda angustiada. Os primeiros vestígios do amanhecer despontam pelas finas cortinas, a leve luz se projeta sobre a cama. Era como estar presa àquele momento. Por alguns minutos permanece deitada, inquieta, com uma fina camada de suor cobrindo seu corpo. Após alguns instantes, o corpo começa a reagir às memórias que permeiam seu sono e as imagens vão se dissipando vagarosamente. Apesar de constantes, fazia tempo que um pesadelo não a consumia de maneira tão intensa.
Ela se levanta e caminha em direção ao banheiro. Ao ver sua imagem refletida no espelho, se depara com as marcas de uma noite mal dormida. O inchaço nos olhos, as olheiras profundas e a palidez em sua pele são evidentes.
Apesar do frio latente, deixa que a água gelada do chuveiro a atinja, removendo qualquer resquício de seu recorrente pesadelo. Após se vestir, caminha até a cozinha e prepara um café bem forte. Com a caneca em mãos, cheia de café preto e puro, se senta no sofá e as lembranças de tempos que não voltarão a invadem subitamente.
Um misto de sentimentos a invade. Amor. Dor. Raiva. Ódio. E aquelas perguntas que a rondam diariamente voltam à tona. Até quando conseguiria conviver com todos os questionamentos? Até quando suportaria a falta de respostas? Almejava diariamente um pedido de desculpas. Não havia um dia em que ela não pensasse naquela cena. Não havia um dia em que não lembrasse dele.
Era como uma montanha russa de emoções, cheia de subidas, descidas e loopings. Andar na montanha russa previa risco calculado e baixa probabilidade de algo sair dos trilhos.
Todos os dias eram iguais. Ela estudava, investigava, planejava. Necessitava que tudo fosse feito com exatidão, seguindo o projeto. Conhecia todos os procedimentos calculáveis e sabia exatamente a hora de frear. Um desajuste naquela equação e tudo ficaria desgovernado. Na teoria, o plano perfeito.
Ela apenas esqueceu que a vida não é uma equação e que a ordem dos fatores, sim, altera o produto. Não há razão ou probabilidade estatística que justifique as artimanhas do coração. Mas ela está disposta a tentar e executar brilhantemente seu plano. Um plano de vingança que irá atormentar seu coração.
Aquele dia, em especial, era o começo de sua trajetória e, por isso, fora praticamente impossível dormir. A ansiedade de fazer justiça, o desejo de vingança, a obrigou a vestir a carapuça de mulher fria e dominadora, mas seu coração sabia bem que, cedo ou tarde, as máscaras cairiam e que aquela encenação poderia ser a derrocada de seus planos, a tragédia de sua vida, mais amarga que o simples regresso.
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MESES ANTES
"A vida humana é feita de escolhas. Sim ou não. Dentro ou fora. Em cima ou embaixo. E também há as escolhas que importam. Amar ou odiar. Ser um herói ou um covarde. Brigar ou se entregar. Viver. Ou morrer. Essa é a escolha importante. E nem sempre ela está nas suas mãos."
A escolha de Nicholas estava à sua frente, diante de seus olhos. Era como se o tempo parasse e tudo tomasse uma proporção amplificada. As vozes ecoavam e pareciam distantes enquanto todos opinavam sobre a proposta feita ao agente Gonzalez, mas ele não ouvia, estava em estado quase catatônico, em uma profunda reflexão, apenas as palavras do seu superior reverberavam em sua mente: Apenas você pode ser o agente infiltrado, você, agente Gonzalez, é o único que temos certeza que a gangue desconhece.
A sala de conferências do FBI apresentava um odor de papel velho tão fétido que embrulhava o estômago de Nick, as paredes eram tão cinzas e tão frias que ele esfregava os braços a fim de se aquecer. Tudo se transmutava para preto e branco, em câmera lenta. Era uma conspiração dos Deuses do tempo para que Nicholas pudesse tomar a decisão, talvez a mais importante decisão de sua vida. É estranho, mas era como se Nicholas o observasse de fora do seu corpo, como mero espectador de sua vida.
O tempo curto não dava brecha para uma decisão absolutamente consciente, era como decidir em um impulso: um minuto para dizer sim ou não, um minuto para abdicar de tudo que conhecia e começar uma rede de mentiras, se emaranhar na suja realidade durante o tempo necessário, dias ou anos em prol de um bem maior. Era abdicar de si mesmo, de seus planos e sonhos, de seus amigos e familiares, de abdicar dela. Nick era livre para fazer a escolha, mas seria prisioneiro das consequências.
Não era uma escolha fácil. Muito estava em jogo e apenas ele poderia decidir, colocar os prós e os contras na balança e deliberar, refletir acerca de tudo em míseros segundos e definir um lado. Sim ou não. Aceito ou não. No momento em que optasse por dizer sim, não haveria mais certeza, apensas dúvidas, possibilidades, probabilidades, tudo seria 50%. Se optasse por negar, conviveria com a culpa acomodada em sua massa cinzenta, remoendo toda a consciência de que deveria fazer por ética, por seu juramento. Acreditava, sobretudo, que deveria servir seu país, que era seu dever.
Os agentes o olhavam com estranhos olhos esbugalhados que, de tão espantados, tornaram-se risíveis, e Nick riu. Um sorriso cheio de confusões, dúvidas, conflitos, um sorriso frio. As imagens de sua família preencheram sua mente. Um momento específico circundou seus pensamentos: o dia do seu noivado. O sorriso de Aimée, sua noiva, tocou seu coração, não era um simples sorriso, era um sorriso que chegava aos olhos e refletia um brilho fenomenal, o que fez com que o durão agente mostrasse olhos marejados, mas, de repente, novas preocupações surgiram. A segurança de Aimée. Como poderia se infiltrar em uma gangue colombiana e deixá-la sem nenhuma proteção? Pensou em cada pessoa de sua família e em como poderia oferecer a segurança necessária a eles. Tudo rapidamente, tudo meio improvisado, tudo sem muito pensar. Era assim que Nick se decidia, sem perceber e, enquanto refletia sobre os riscos, tentava organizar o que deixaria para trás. O agente Gonzalez já havia escolhido.
Quando Nicholas se deu conta de que a decisão era clara, verbalizou seu compromisso, ainda com certo receio, mas seu coração se aqueceu e, imediatamente, uma calma sublime o acometeu, era a confirmação que precisava: estava fazendo a coisa certa. Começava, assim, a operação Robin Hood.
***
Muito se atribuía aos Diablos, principalmente o tráfico de drogas da região e muitos dos assassinatos decorrentes dele, mas a equipe do FBI não conseguia dar um rosto para o homem no topo do esquema fixado na parede, el Jefe, apenas um ponto de interrogação o representava. Essa era a principal tarefa do agente Gonzalez.
Um homem perigoso e extremamente violento, um bandido muito temido, el Jefe, mesmo assim, exercia um fascínio sobre grande parte da população, especialmente nas localidades com maior índice de pobreza. Quando o agente Gonzalez tentava obter informações sobre el Jefe, o silêncio vigorava quase absoluto, exceto pelos que o idolatravam, chamando-o de: Robin Hood colombiano, bom para o povo.
O agente Gonzalez investigava exaustivamente, mas não conseguia maiores informações do que as já conhecidas, e planejava com sua equipe como poderia chegar àquela rede. Não seria fácil se infiltrar nos Diablos, eles eram um grupo metódico, extremamente organizado, todos os crimes atribuídos a eles foram executados com perfeição, sem rastros, sem pistas, só era de conhecimento do FBI que a autoria era deles devido a deixarem a assinatura, a marca dos Diablos, um arco e flecha em que a lança era um tridente.
Segundo os dados obtidos por Nicholas e sua equipe em suas pesquisas, o cartel del Jefe comanda uma verdadeira rede em quase todos os países da América. Pela fronteira entre México e Estados Unidos, o cartel transporta uma tonelada de cocaína e maconha por mês e domina, praticamente sozinho, o mercado norte-americano de drogas. El Jefe controla o transporte e a distribuição de drogas, bem como a implementação do armamento. Nos últimos anos, el Jefe tem eliminado a concorrência e há uma grande suspeita de que agentes de diversos departamentos do governo compactuam e auxiliam essa tomada de poder, por isso era tão importante para aquela operação que Nicholas aceitasse. O agente Nicholas Gonzalez fora incorporado ao FBI recentemente, após seu treinamento em Quântico, ex- atirador de elite, o agente era um rosto novo nas ruas, mas um SEAL experiente. Sigilo e experiência, equação perfeita para essa operação.
Após dois meses, a operação Robin Hood já tomava forma, os agentes investigavam à paisana, se misturavam em clubes, bares, casas de jogos ilegais, tentavam fechar o cerco de todas as formas possíveis para reunir o maior número de informações, a fim de que Robin Hood fosse o mais consistente possível e menos erros pudessem ser cometidos. Não havia espaço para falhas, a vida de dois agentes estava em jogo. Sim, dois.
Dois meses. Dias e noites em claro à procura de uma brecha, de uma maneira de fazer parte do submundo do crime organizado, de entrar de vez para os Diablos, mas as hipóteses levantadas seriam perigosas demais, não só poriam em risco a vida de Nicholas como também poderiam despertar a desconfiança da gangue e, consequentemente, destruir meses de trabalho. Precisava ser o plano perfeito.
O silêncio se instaurou na sala de reuniões, sala que já era tão familiar para os agentes Nicholas, Soledad e Anthony, sala em que passavam horas discutindo possibilidades, criando hipóteses, estudando, investigando. O cubículo de paredes cinzas tornava-se, dia após dia, a segunda casa Nick, talvez mais acolhedora que a principal.
***
Nicholas sentia-se envergonhado. Independentemente do horário que saía do escritório, Aimée o esperava acordada, o recebia com aquele sorriso no rosto e o tão peculiar brilho nos olhos. A paixão modificava seu semblante, a iluminava. Como em um ritual, ao perceber a presença de seu noivo, Aimée ordenava os cabelos e prendia os fios atrás das orelhas, deixando sua face encantada completamente à mostra, e caminhava na direção de seu amor e depositava um casto beijo em seus lábios, acarinhando sua face.
— Estava com saudade, menino guapo — repetiu, como em todas as noites.
— Eu ainda mais, chica linda — respondeu automaticamente, com os olhos baixos tomados pela vergonha, suas palavras não atingiam seu coração. Aimée pareceu não perceber que algo se passava com o menino guapo, ele não tinha coragem de interromper os planos da sua chica e contar que, a qualquer momento, deixaria aquela vida para trás, vida que ela planejava todos os dias enquanto ele insistia em descobrir uma brecha para se infiltrar no submundo do crime organizado.
Todas as noites, Aimée compartilhava seus planos, pegava seu notebook e mostrava a Nicholas tudo o que havia escolhido para a decoração da festa de casamento que seria adiada. Era o sonho de Aimée desmoronando, o que causava uma dor lancinante no durão agente. Aimée era muito especial para Nicholas, uma grande amiga e companheira, com quem gostaria de dividir a vida.
O casamento era uma grande surpresa para Nicholas, ele não fazia questão de uma grande festa, não era muito religioso e, apesar de querer um casamento abençoado e feliz, não achava necessária uma cerimônia religiosa ou assinar uns papeis para oficializar aquela relação, ele era um homem prático e de palavra. Se estavam comprometidos, honraria até o fim, era oficial, mas Aimée almejava uma grande festa, requintada, luxuosa, com toda pompa possível, o que causou um pouco de estranheza em seu noivo, entretanto ele faria tudo para deixá-la feliz e aceitou todo aquele excesso. Tudo isso o corroía todas as noites ao chegar em casa, aqueles planos deveriam ser interrompidos e Nicholas não sabia como resolver tudo sem magoá-la.
***
Sexta-feira. Os agentes estavam, mais uma vez, reunidos na sala cinza, o ambiente parecia ainda menor, Nicholas se sentia enclausurado, preso em problemas sem solução. Trabalhavam em silêncio, analisavam mais alguns arquivos e escutas telefônicas, estudavam os passos conhecidos de alguns membros da gangue, alguns tinham uma rotina, talvez a brecha que procuravam estivesse ali, na cafeteria em que Omar, membro dos Diablos, tomava café todas as manhãs.
Nicholas tentaria, era a primeira chance em semanas. Organizaria tudo durante o final de semana, conversaria com Aimée e seguiria com o planejado. Os pais de Nick já estavam avisados, apesar de morarem em outro estado, obtiveram segurança particular. Aimée era o maior problema, ele sabia que ela não aceitaria viver com um segurança na retaguarda, mas faria o possível para que ela aceitasse a situação, pois a outra solução seria mais drástica, o término, e não era isso que Nick desejava, não queria sequer pensar nessa possibilidade.
Enquanto os três agentes discutiam como seria essa aproximação na cafeteria, o agente especial Carter entrou na sala com uma novidade.
— Tenho a oportunidade que vocês buscam há meses — afirma Carter sorridente, com ar vitorioso. Os três agentes que estavam na sala cinza se entreolham.
— E qual seria, Carter? — questiona Soledad incrédula.
— Os Diablos vão tentar passar drogas na fronteira essa madrugada, meu informante garantiu.
— E que informante misterioso é esse que só surgiu agora? — pergunta Anthony, irritado com a possível omissão.
— Calminha, agente. Esse informante é confiável e sempre que ele tem alguma novidade, eu anexo aos processos. Pode ficar calminho, camarada. Aqui nós trabalhamos em equipe.
— Por trabalharmos em equipe deveríamos saber que havia um informante nos Diablos — completou Anthony ainda alterado.
— Não há um informante nos Diablos. Meu informante trabalha em um bar frequentado por eles. Você acha mesmo, agente, que se tivéssemos um informante, mandaríamos seu amiguinho para a forca — provocou.
— Escute aqui...
— Chicos, parem já com isso — interrompe Soledad. — Temos coisas mais importantes a fazer, não acham? Carter, você já deu seu recado, me passe o arquivo e se retire, por favor.
Assim ele o fez, jogou o arquivo sobre a mesa e saiu pisando duro. Anthony ainda esbravejava sobre a falta de espírito de equipe daquele agente.
— Não somos nada sozinhos, Sol. Nada. Não é, Nick? — A agente concordava e afagava seu ombro, tentando acalmá-lo. Nicholas nada respondeu, estava vidrado naquele relatório, um turbilhão de pensamentos se instaurou em sua mente. Não havia como adiar. Aquele era o momento, aquela era realmente a oportunidade.
— Já chega, precisamos pensar... e rápido. Essa é a primeira oportunidade concreta e precisamos agir. Eu tive uma ideia, convoquem todos. Reunião aqui, em uma hora — Nicholas falou sério, alto e imponente, pegou o arquivo e deixou a sala sem dar oportunidade a questionamentos, todos começaram a trabalhar.
***
Nicholas seguiu apressado para o apartamento de Aimée, precisava contar tudo a ela, se despedir de sua noiva, dizer que voltaria, que não a abandonaria. Ele abriu a porta do apartamento e, surpreendentemente, sua noiva não estava, tentou ligar para seu celular, mas estava desligado. Nick andava de um lado para o outro, nervosamente, passava as mãos pelos cabelos. Não havia mais tempo, não havia outra maneira de explicar. Alcançou um caderno, uma caneta e tentou rascunhar algumas palavras, mas nada seria delicado o suficiente para não a magoar. "Agora, Inês é morta".
O agente seguiu tentando colocar seus sentimentos no papel, mas não obteve êxito, seu coração sentia que aquelas não eram as palavras certas, não era o correto a fazer e, com o coração despedaçado, finalmente conseguiu redigir algumas linhas. A letra trêmula e a folha manchada por lágrimas demonstravam toda a sua dor ao romper aquela relação.
Chica linda,
Se eu soubesse que que era a última vez que a veria quando saí por aquela porta pela manhã, teria a abraçado, a beijado, teria dito o quanto eu a amo e a quero bem. Não sei em quanto tempo retornarei, mas sei que a guardarei em meu coração, cariño.
Não sabia que seria hoje, mas sabia que, cedo ou tarde, esse dia chegaria e, quando menos esperava, chegou. Hoje começa mais uma etapa da minha vida, a mais importante da minha carreira e, para que esteja segura, para sua preservação, não contarei o que acontecerá.
Infelizmente, mi amor, hoje me despeço de você e interrompo nossos lindos planos. Mas não darei adeus, apenas até breve. Você estará para sempre marcada em meu coração. A tatuagem permanente do amor. Te quiero, cariño. Por siempre.
As palavras eram simples, breves, talvez até um pouco vazias. Nicholas não sabia como expressar o indizível, aquele turbilhão que deixava seu coração a ponto de explodir, era uma dor sem fim. As lágrimas rolavam em sua face, seu coração se apertava um pouco mais a cada segundo e ele se questionava a todo instante: por que não tive coragem de contar? Ele necessitava de Aimée, de seu apoio, seu carinho, seu abraço, de sua felicidade que inundava e transbordava sua alma de alegria. Aimée era luz, era vida, era amor. Nicholas esperava, de coração, que ela pudesse perdoá-lo.
Devastado, o agente Gonzalez seguiu para o seu apartamento, deixou instruções com o porteiro, pegou a mala que já esperava por esse momento e conferiu os documentos. Assim surgiu Enrico Zapata.
***
Enquanto Nicholas voltava para o escritório, tentou se comunicar com Aimée, mas não conseguiu. Ao entrar no prédio do FBI, vestiu a carapuça de agente durão, ignorou seus sentimentos e começou a trabalhar na operação. Todos os agentes já estavam à espera de Nicholas. Assim que entrou, cumprimentou a todos e deu início às explicações.
— Eu pedi que estivessem aqui para que pudéssemos organizar tudo. Temos pouco tempo e muito trabalho. Eis o que pensei: muitos dizem que el Jefe tem espírito de Robin Hood, certo? Então, o que pensei é simples, mas pode funcionar. A ideia é que eu vá até o México de avião e tente atravessar a fronteira a pé, no horário em que as drogas irão chegar, vou tentar me misturar, dizer que não tenho como sobreviver e sustentar minha família, que estou indo sozinho para os EUA em busca de melhorar a qualidade de vida da minha família e que preciso de um emprego, que topo qualquer coisa. Como sabemos que eles sempre recrutam mulas na fronteira, pode funcionar, o que vocês acham?
— Sim, pode funcionar. — Todos concordaram, deram opiniões e, rapidamente, aprimoraram o plano. Três horas depois, tudo estava resolvido e devidamente planejado, claro que não havia a certeza de que daria certo, mas, dentro do possível, a operação estava montada.
O avião estava à espera e era a última oportunidade de tentar falar com Aimée. Um. Dois. Três toques. Quando Nicholas ia desligar, ela atendeu.
— Cariño? Está tudo bem? Estou dirigindo, não posso falar agora. — As palavras de Nicholas embargaram. — Cariño, você está aí?
— Oi, chica linda. Estou aqui. Só liguei para ouvir sua voz e dizer que te quiero.
— Own, cariño. Te quiero también. Por siempre. Um beijo enorme, até mais tarde!
— Até — ele respondeu e desligou o telefone, o avião estava prestes a decolar e Nicholas ficava para trás junto com todos aqueles sonhos. Até quando? Até o regresso.
***
MESES DEPOIS
A operação na fronteira fora um sucesso, um cabrón muito solidário se sensibilizou com a história de vida de Enrico Zapata e ofereceu um honesto trabalho, transportar armas para os membros do cartel e, claro, Zapata aceitou. O tempo passava, era agoniante estar ali, os dias e as noites eram intermináveis, não havia progresso em Robin Hood.
A desconfiança era como um fio. Uma linha tênue entre viver e morrer. Ele estava estagnado, cercado pela desconfiança dos Diablos, não que desconfiassem dele, não imaginavam que era um agente dentro de uma operação, mas simplesmente não confiavam. A confiança é algo conquistado com o tempo, Enrico sabia disso, mas estava louco para que Nicholas retornasse, para que pudesse retomar os loucos planos de casamento de Aimée.
Depois de alguns meses, ele foi ganhando a confiança dos membros do cartel e se infiltrando, cada vez mais, nos Diablos, principalmente depois que conseguiu salvar uma enorme carga na fronteira, enganando os policiais. Soledad e Anthony ficaram felizes por vê-lo bem e por poderem ajudá-lo de alguma forma, torciam por seu amigo e para que tudo terminasse prontamente. Sempre solicito, prestativo e salvador, Enrico começou a ser visado por el Jefe, pelo menos era o que diziam os chicos que trabalhavam com ele. Enrico era a carta fora do baralho, um qualquer, peixe pequeno naquela rede, mas depois do salvamento na fronteira e de ajuda em pequenos outros probleminhas, finalmente, Enrico Zapata fora chamado para uma reunião com el Jefe.
Enrico Zapata esperava ansioso por aquele momento, mas nunca imaginou que encontraria o prefeito da cidade. Tudo fazia sentido naquele momento, a passagem das armas e drogas livremente, a ajuda das instituições governamentais. Agora tudo estava às claras. Enrico se segurou para não dizer umas boas verdades para aquele homem imundo à sua frente, para não dar ordem de prisão ali mesmo, a raiva era praticamente incontrolável e, para se manter calmo, Zapata pensou naquele lindo sorriso, abstraiu o discurso vitorioso do prefeito e focou no grande carregamento que ele disse que chegaria, uma quantidade tão absurda de armas que equiparia o exército para a terceira guerra mundial.
A contagem regressiva estava lançada, 20 dias para fim da Robin Hood.
***
A comunicação com o FBI estava cada vez mais complicada, havia sempre um cabrón junto a Enrico, mas ele já havia conseguido comunicar a data, o local e o horário da chegada do carregamento. Soledad e Anthony trabalhavam dia e noite com a equipe para montar a operação que desmascararia o prefeito. Enquanto não chegava o dia da tão esperada liberdade, Enrico coletava mais informações, ele queria desbancar toda a rede, não bastava el Jefe.
***
Enrico estava nervoso. Hoje ele não transportaria drogas, transportaria el Jefe para o presídio de segurança máxima, pelo menos era o que ele esperava. O esquema estava montado e Zapata não perdia o Sr. Prefeito de vista, nada podia fugir do controle. O horário se aproximava e todos se preparavam para partir, se dirigiram até o pátio do casarão. Desde que havia tido a reunião com el Jefe, Enrico vivia no casarão, o que lhe deu total liberdade para investigar os cômodos e coletar informações, com a simples desculpa de fazer uma ronda. O dossiê que montou tem prova suficiente para desbancar boa parte da rede e deu pista para muitos outros envolvidos, tem muito material para trabalharem.
O comboio os guiava até o porto, no local indicado, Zapata dirigia o carro em que el Jefe estava. Tudo aconteceu conforme o planejado. Assim que o Sr. Prefeito abriu o primeiro contêiner cheio de armas, o FBI os surpreendeu e Zapata deu voz de prisão ao infeliz, nada poderia ser melhor. A felicidade estampava a face de Nicholas.
Mas tudo que é bom dura pouco.
— Nicholas... — Ele caminha em direção a Sol e a abraça, mas ela o olha com preocupação. Ele já havia visto aquele olhar diversas vezes e não significava coisa boa. — Temos um incidente e você precisa ir conosco.
— Abre o jogo, Sol. Quem?
— Calma, Nick. Já tem homens no local, não é nada demais.... — Ela não conseguiu terminar a frase, ele já havia entendido que se tratava de Aimée e a puxava em direção ao carro.
Era o pior que poderia acontecer.
Era tudo que ele temia acontecer.
Seguia atentamente aquele sinal de GPS, a localização era precisa, uma residência, um endereço que conhecia muito bem, seu novo lar. Ele havia deixado instruções com o porteiro do condomínio para que ninguém entrasse, principalmente Aimée, não sabia por que descumprira suas recomendações. E outra, Nicholas comprara aquela casa porque se localizava em um condomínio com elevada segurança. Devido ao seu tipo de trabalho, preocupava-se com a segurança de sua noiva, comprara aquela casa para viver com Aimée assim que casassem.
Ao chegarem em frente à casa, o silêncio era devastador. Sol não disse uma palavra durante todo o trajeto e Nicholas preocupava-se com a gravidade da situação. Precisava reportar o que via e pedir reforços, já que o local estava aparentemente vazio, mas simplesmente não havia a quem recorrer, todos em quem confiava estavam na Robin Hood. Eram apenas Sol e Nick, como nos velhos tempos. Por impulso, entrou no breu que o interior da casa revelava e, com calma, revistava cada cômodo.
Limpo. Limpo. Limpo. Limpo... Repetia a palavra mentalmente a cada cômodo vazio que encontrava no primeiro andar daquela casa. Um misto de ansiedade e esperança tomavam conta de sua alma, uma sensação desconhecida até agora: o medo.
Sempre fora cauteloso em seu trabalho e conhecia os riscos da profissão, mas nunca trabalhou com medo, a precaução era responsável por um risco calculado, se é que isso existe. Depois de tudo que acontecera, essa hipotética segurança é, no mínimo, uma inverdade.
— Tudo limpo, Sol. Você não fala absolutamente nada. Por Dios, Soledad. Onde está mi mujer? O que está acontecendo? O que você não está me contando? — Nicholas perguntava alto, praticamente gritava com Sol, extremamente nervoso com toda aquela situação. Sua parceira apenas olhou para a porta que dava acesso à área externa.
Assim que Nicholas abriu a porta, todos gritaram em uníssono:
SURPRESAAAAA!
***
POR AIMÉE
Passamos meses intensos, organizando e programando tudo para a concretização do nosso grande sonho. Cheios de expectativas para a realização de tudo que idealizamos, atravessamos semanas de dúvidas. A escolha das flores, músicas, decoração, vestido, tudo atentado aos mínimos detalhes.
A preparação para o grande dia deveria ser relaxante, mas, com as emoções à flor da pele, tudo que consegui foi um indescritível frio na barriga e um estômago revirado. Um misto de sensações, no mínimo, estranhas, produzindo um maravilhoso sentimento de felicidade.
Quando já estava no jardim, com a calda do vestido arrumada e o buquê firme nas mãos — bem, não tão firme, minhas mãos pareciam gelatinas de tão trêmulas — meu coração pulava e as borboletas faziam a festa em meu estômago. Medo, ansiedade, nervosismo, felicidade. Era tudo tão intenso, tão mágico.
É hoje! É hoje!
Era somente o que conseguia pensar.
Quando Nicholas abriu aquela porta, não senti remorso algum por tê-lo feito pensar o pior. Ah, vai. Sei que fui cruel, mas ele merecia uma vingança à altura. Passei meses organizando um casamento para ser cancelado de última hora. E pior, não recebi sequer um beijo de despedida quando ele se mandou lá para sei lá onde, naquele covil de cobras. Só em pensar que nunca mais poderia vê-lo... Essa foi a maneira que encontrei para perdoá-lo, ou melhor, para compreender o porquê de não ter me contado sobre essa tal operação.
Nossa, como eu odeio esse Robin Hood!
Sol e Tony me ajudaram em tudo e sei que Nicholas não vai gostar nem um pouco de saber que contei com o total apoio deles.
Assim que abriu a porta da cozinha que dá acesso ao jardim, Nicholas já estava em seu lugar, o altar construído especialmente para aquela ocasião. No instante em que ele entrou, tudo se iluminou lindamente, as velas que compunham o caminho que eu percorreria até mi corazón foram acesas pelos padrinhos. Tudo foi muito bem arquitetado.
Nicholas? Ah, ele estava em choque. Um misto de emoção e raiva percorria seu rosto a todo instante. Não vale ter pena, hein? Eu observava tudo de longe, atrás das camadas final de voil branco que criavam uma espécie de porta. Era simplesmente deslumbrante, uma estrutura de madeira coberta por delicadas flores eram o apoio para esse tecido que esvoaçava com o leve vento do outono.
A marcha nupcial começou a tocar, eu sabia que havia chegado a hora. Uma sensação de plenitude afagou meu coração descompassado, mas a ansiedade continuou ali, as borboletas teimosas se remexiam cada vez mais. O frio na barriga deu lugar a um incomodo nó na garganta, um nó de alegria desmedida, de emoção, uma vontade louca de chorar, meus olhos ardiam com a formação das lágrimas de plena felicidade. Ainda bem que existe maquiagem à prova d'água.
Você deve estar aí se perguntando que horas são. Sei que o sol está começando a nascer, montando um espetáculo de cores no céu. Estamos aqui desde que começou a tal operação, familiares e amigos próximos compactuando para nosso mar de felicidade.
As "portas" se abriram, mas não vi ninguém, nenhum amigo ou familiar, não enxerguei nada. Apenas ele. As lágrimas teimavam em rolar pelo meu rosto. Não sabia se chorava ou se ria. Somente aquele olhar de Nicholas conseguiu me transmitir calma. Por incrível que pareça. Assim que me viu, mi cariño sorriu, seus olhos tinham um brilho fantástico e as lágrimas inundavam seu rosto.
Caminhei pelo tapete vermelho como se estivesse nas nuvens, até alcançar o meu pedacinho do céu. O meu amor me recebeu com um beijo terno na face e, segurando firme em minhas mãos, sussurrou o quanto me amava e o quanto eu estava linda naquele vestido de noiva. Apenas maneei a cabeça, a emoção não permitiu que eu respondesse que ele era o homem da minha vida.
A cerimônia foi rápida, os votos não planejados, todas as palavras foram proferidas com o coração. Não sei ao certo o que falei, fiquei um pouco desnorteada, dopada de uma felicidade ímpar, mas lembro perfeitamente de tudo que ele falou.
— Cariño, não existe a menor chance de eu não te amar e, por isso, preciso ser egoísta. Não existe a menor chance de você viver sem mim. Ninguém no mundo te amaria mais do que eu. Eu te amo, mi amor! Te quiero! Por siempre! Senti Saudades, chica linda!
— Eu senti mais, menino guapo.
Aquele momento singular foi selado com uma simples frase: Eu vos declaro marido e mulher.
POR SIEMPRE.
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