Conto 12 - Meia-Noite em Londres
Autora: Hanna Martins
Sinopse:
Em plena a Guerra Fria, Sarah é designada para uma missão, roubar o projeto de uma poderosa arma das mãos de um jovem militar inglês. No entanto, Sarah não contava com um obstáculo no caminho. O seu alvo é Alan, seu grande amor do passado. Agora, eles estão em lados opostos. Sarah é conhecida por fazer tudo para alcançar seus objetivos. Mas será mesmo que ela conseguirá desta vez?
Música Tema: Anywhere — Evanescence
Classificação: +13
***
— Sarah — um sussurro em meio as gargalhadas e vozes alta do local.
Há quanto tempo ninguém a chamava por este nome? Natasha, Louise, Rosário, Paola, tantos nomes... Aos longos de todos aqueles anos já tivera diversos nomes. Mas aquele nome... Aquele nome se destacava porque ele era... era especial. Por que ele precisava ser recordado naquele momento? Por um breve instante, vislumbrou todas as lembranças que aquele nome trazia consigo. Aquele não era o momento. Precisava focar em sua missão. No entanto, seus olhos voltaram-se para ele mais uma vez. Ali estava ele. Ali estava ele com seus amáveis olhos azuis, com seu sorriso quente e acolhedor. Ali estava ele.
— Alan... — sua voz desprendeu-se dos lábios, lentamente.
Depois de todos aqueles anos, na presença dele, ela ainda era uma jovem diante do seu primeiro amor. Poderia ter feito coisas imagináveis, poderia ter feitos coisas terríveis. No entanto, durante aquele breve segundo, ela sentira que o tempo não havia transcorrido, que não havia passado nenhum segundo desde aquele verão...
— Quanto tempo... — a voz dele era cheia de saudade e carinho.
Sorriu. Viu-se refletida nos belos e límpidos olhos dele. Permitiu-se, por aquele efêmero instante, deixar que todos aqueles sentimentos retidos no âmago do seu ser viessem à tona. Mesmo sabendo que era apenas isso, um breve instante. Um breve instante tão curto como o bater de asas de uma borboleta. Não era mais uma jovem ingênua e cheia de sonhos. Ela agora era... era... alguém implacável. Nada poderia a deter. Nada. Nem mesmo ele.
Por que ele reaparecera em sua vida justamente naquele momento, naquela noite? Planejara durante meses cada passo daquela noite. Aquela noite que poderia mudar tudo. Porém, ali estava ele. Ali estava ele com seu sorriso cheio de vida e de recordações. Doces lembranças.
— O que está fazendo aqui em Londres? — ele indagou, sem afastar os olhos um instante dos seus.
Pensar rápido, sair de situações complicadas era a sua especialidade. Aliás, era conhecida por isso. Entretanto, dessa vez era bem mais difícil do que qualquer outra missão.
— Eu... estou dando aulas aqui em um colégio para meninas.
O mais fácil era entrar em seu disfarce, o de professora.
— Ah — Alan tomou um gole de whisky vagarosamente, os olhos dele não deixavam de estudá-la. — Não pensei que você daria aulas... Não combina com você.
Ela apenas sorriu.
— E você?
— Trabalho — ele respondeu laconicamente.
— Certo... — desviou os olhos dele, finalmente.
Ela precisava focar em seu objetivo. Não estava ali para se recordar do passado. Seus olhos percorreram o bar em movimento. Uma música suave tocava. Porém, era abafada pelas vozes e gargalhadas.
— Você se recorda? — indagou ele inesperadamente.
— Do quê? — sua voz tinha certa rispidez.
Desejava que ele não estivesse ali. Desejava não o ter reencontrado naquela noite. Desejava nunca mais o ver. Só queria que ele fosse embora. Tudo seria mais fácil.
Um sorriso amável se formou nos lábios de Alan. Aquele sorriso que no passado a fizera duvidar de muitas coisas.
Ele não disse nada, apenas continuou a sorrir. Desviou novamente o olhar. Não conseguia o encarar. Ela que já encarara a própria morte dezenas de vezes.
Sem disfarçar, olhou para o relógio em seu pulso, onze e quinze. As ordens eram claras, deveria encontrar o portador do projeto antes da meia-noite. Ele já deveria estar ali. Seus olhos sagazes voltaram a percorrer com impaciência o barulhento recinto. Um jovem militar era o seu alvo. De acordo com as instruções, seu alvo estaria trajando vestimenta militares, mas não havia ninguém assim. Obviamente, na última hora, ele poderia ter mudado de ideia. Teria que apelar para a segunda forma de o reconhecer, pelo relógio com as iniciais A & E. Aquilo complicaria ainda mais os planos. Isso não era nada bom.
— Sarah... — ele murmurou, a voz ressoou como uma delicada e breve carícia.
Voltou-se para ele, alarmada.
— Você parece... — inclinou-se sobre a mesa, ficando perigosamente perto — distraída... Algum problema?
— Não, nenhum — disse rapidamente.
— Aceita uma bebida? — distraidamente, ele tocou na pasta de couro que tinha sobre a mesa.
— Não, obrigada.
— Sarah... — ele pronunciava seu nome saboreando cada sílaba. — Você mudou...
— As pessoas mudam. Você também mudou, Alan.
Ele sorriu.
— Ou talvez nem tanto... — disse ele, tomando outro gole de whisky.
A missão. O projeto. Vidas que dependiam dela. A sua própria vida estava em risco. A missão não admitia falhas. Nenhum tipo de falha.
— Alan, eu preciso ir...
— Já? — ele soltou um suspiro quase inaudível. — Certo... — passou as mãos pelos vastos fios louros, bagunçando o seu perfeito cabelo.
Não. Ela precisava ser firme. Era uma questão que estava acima de seus sentimentos. De qualquer sentimento. Nada podia se entrepor. Nem mesmo ele. Principalmente, ele.
— Posso te acompanhar?
— Não, não é necessário — levantou-se rapidamente da mesa.
Ele seguiu seus movimentos.
Os olhos de Alan a apanharam, a prenderam.
— Tem certeza? — insistiu.
Estava sendo tola. Tudo aquilo estava no passado. Ela sempre cumpria suas missões, fosse qual fosse o preço que precisava pagar. E, às vezes, o preço era bem alto.
— Tenho — sua voz saiu resoluta.
— Acompanho você até a saída.
Por um momento, ponderou. De qualquer forma, não tinha tempo a perder.
— Sim, tudo bem.
Seus passos eram apresados. Alan a seguia. As pessoas riam e conversavam alto. Será que os risos ainda existiriam se ela falhasse na missão? Aquela arma poderia... ser muito poderosa e perigosa, principalmente, perigosa. O lado que a tivesse poderia facilmente sair vencedor daquela guerra não declarada oficialmente. Uma guerra travada por baixo dos panos. O mundo dividido em dois. Os dois lados andavam em cima de um lago congelado, qualquer passo e pronto, a falsa segurança acabaria.
Ela já estivera em uma guerra antes. A segunda grande guerra. Mas, seja lá qual fosse o nome que davam a uma guerra, algo era certo, ela somente trazia uma coisa: destruição.
Naquela época, ela era uma criança. No entanto, isso não a impedira de sentir toda a devastação de uma guerra. Por todos os lugares, o cheiro da morte. Quem sentisse o cheiro uma vez na vida, jamais o esqueceria. E ela sentira e o ainda tinha impregnado em suas narinas, em sua pele. Sua mãe, seu pai, a irmãzinha, apenas um bebê... todos... todos mortos.
— Então... — Alan estendeu a mão. — Nos vemos algum dia... — não, eles não iriam se ver. — Foi bom te ver.
Apertou a mão estendida dele, estava quente.
Era melhor assim. A vida seguiria seu curso.
Alan sorriu. Por um breve momento, permitiu-se o olhar.
— Adeus — lentamente começou a retirar sua mão da dele.
A manga do casaco de Alan escorregou, revelando um reluzente relógio com as iniciais A & E.
Olhou para ele.
A fina camada de gelo do lago congelado havia se rompido.
— O que foi? — Alan indagou, arqueando a sobrancelha.
— Você... poderia me acompanhar?
Ele a olhou demoradamente.
— Claro.
As ruas de Londres estavam quase desertas. Fechou o casaco, se abrigando contra o vento gelado.
— Posso acompanhá-la até sua casa? — perguntou Alan.
Assentiu.
Sabia o que tinha que fazer. Não tinha escolha. Era necessário.
Olhou para o relógio de pulso. Vinte para a meia-noite. Não tinha tempo algum a perder. Precisava ser rápida. Quanto mais cedo fizesse, mais cedo tudo terminaria.
— Você lembra-se daquele verão? — a voz de Alan era um sussurro. —
Aquele verão em que nos conhecemos...
E como ela poderia esquecer?
Era sua primeira missão. E ele aparecera em sua vida, cheio de vida e calor.
— Quando eu te vi pela primeira vez, eu sabia que nunca poderia te esquecer, que me recordaria de você por toda a minha vida... — a voz dele se confundia com o murmúrio do vento. — Lembra como nós dois andávamos pelas ruas sem um destino certo? De como era bom ficarmos sentados, sem fazermos absolutamente nada, apenas olhando um para o outro? De lermos poemas durante aquelas longas noites quentes? Você se lembra de...
Sim, ela lembrava-se de cada minuto, de cada segundo. Mas, tudo era passado. Nada poderia acontecer novamente. Porque aqueles dois jovens não existiam mais. Agora, eram duas pessoas em lados opostos.
— Sarah — os olhos dele a buscaram com insistência.
Os olhos dela se detiveram na pasta que ele segurava nas mãos. A pequena pasta marrom de couro. O plano deveria estar ali. O futuro contido em uma frágil pasta. O trabalho precisava ser feito. Não existia outra alternativa.
Seus dedos ágeis deslizaram para um dos bolsos do casaco. Não havia escolhas.
— Dê-me a pasta! — exigiu com a voz firme, apontando a pistola para ele.
Nos olhos sempre límpidos e bondosos dele, se via a confusão, o espanto e o terror. Odiou-se.
— Anda! Eu sei que esta pasta tem o projeto da arma! — disse, tentando não olhar diretamente para os olhos dele.
— Sarah — a voz dele saiu como um apelo.
Porém, ela o ignorou.
— O projeto! — insistiu.
— Você quer isso, Sarah? — a voz dele soava como de alguém terrivelmente confuso e perdido.
— Agora! — a pistola continuava apontada para ele.
— Certo... — com gestos vagarosos, ele estendeu a pasta. — Pegue...
Os olhos dele não a abandonavam. O vento frio passava por eles. Não havia nenhum som, além do murmúrio do vento.
Ela estendeu a mão.
— Mas, Sarah, antes... — nas mãos de Alan uma pistola dançava.
— O quê? — o seu raciocínio sempre tão rápido vacilara.
— Você não está compreendendo? — sua voz estava repleta de sarcasmo. Ele já não era mais o amável Alan. Estava diante de um completo desconhecido. — Eu nunca vou entregar isso a você, Sarah... ou seja lá o nome que você tem.
Sentiu sua mão vacilar.
— Pensou que eu não sabia? Eu sempre soube de tudo... desde o primeiro instante em que nos conhecemos. Eu também sou... como você, Sarah... Dois lados... Duas siglas... — sorriu. Mas, já não era um sorriso amável, era um sorriso sarcástico.
— CIA e KGB — ela murmurou.
— Apenas duas siglas que podem controlar o mundo... Divertido, não é? Nós dois somos de lados completamente opostos... Pertencemos a uma das siglas — a voz dele saiu sarcástica e cortante. — Somos agentes, encarregados de... bem... fazermos o trabalho para nossa sigla — o riso seco dele ressoou. — Sabe qual era a minha missão naquele verão? Era me aproximar de você.
Meia-noite. Doze badaladas ressoaram na escuridão da noite.
As armas se mantinham apontadas para seus peitos. Seus olhos se estudavam, se mediam, avaliavam. E os olhos dele tinham algo que a princípio ela não conseguiu distinguir.
— Então estamos dos lados opostos — a voz dela saiu mais fria que o vento gelado da noite. — Temos o destino de muitas vidas em nossas mãos... O que você quer fazer?
Os olhos dele pararam nos seus.
— Eu não posso entregar isso a você — a voz dele era ainda mais fria do que a dela.
— Certo... A guerra irá começar — sua voz saiu cortante e resoluta. — Pensei que assim como eu, você soubesse as consequências de uma guerra. O cheiro de putrefação... o choro... corpos... sem saber se estão vivos ou são cadáveres.
— Eu sei — disse ele, após um breve instante de silêncio. — Eu sei... mas isso...
Os olhos dele eram incrivelmente visíveis em meio a escuridão.
— Eu te amei — ela confessou em um murmúrio. A voz exalava um cansaço mais antigo que a própria alma. — E você... — não completou a frase. Lentamente abaixou a arma.
Ele mantinha a pistola apontada para seu peito.
— Estou cansada — confessou. — Estou cansada de tudo isso, de toda esta miséria, de estar caminhando sobre o gelo todos os dias, de pertencer a um lado... de...
Os ecos das doze badaladas ainda ressoavam no ar, mesmo depois de algum tempo.
Deu um passo em direção a ele.
— Esta noite, mate-me, beije-me, a escolha é sua, Alan.
Dos lábios dele não saía uma única palavra, sequer mexia um único músculo. No entanto, seus olhos nunca estiveram tão cheios de vida e de calor.
— Como você sabia que eu não iria te matar? — ele abaixou a arma.
— Porque... nos amamos. E porque você mais do que ninguém sabe que não há lado bom ou mau, são apenas lados...
— Sarah... o que você irá fazer com isso? — indicou a pasta.
Ela sorriu.
— Você... o que está planejando? — os olhos dele sempre tão confiantes, agora possuíam uma ponta de hesitação.
Ela continuava a sorrir.
— Alguém precisa acabar com isso — disse simplesmente — antes que mais crianças fiquem órfãs.
Ela estendeu a mão e apanhou a pasta.
— Sarah... Você não pertence mais a nenhum lado?... — ele a estudava. — O que você vai...
Sarah aproximou-se e depositou um beijo breve e suave como o bater das asas de uma borboleta nos lábios dele.
— Adeus, Alan — murmurou.
Ele a viu desaparecer no meio da escuridão. Tudo o restava era o silêncio e as batidas descompassadas de seu coração. Talvez, algum dia a encontrasse novamente, então, longe daquela fria batalha os dois poderiam finalmente viver em algum lugar.
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