Prólogo

17 de dezembro, 2008.

Meus dedos pequeninos doíam de tanto roer as unhas. Eu estava sentada numa cadeira de hospital, balançando minhas perninhas para frente e para trás enquanto esperava ansiosamente o nascimento da minha primeira - e única - irmã.

Batia meus pés no chão, um de cada vez. Direito, esquerdo. Direito, esquerdo.
Queria pular de emoção, gritar para todos que finalmente meu maior sonho estava se realizando.
Todas as noites, antes de dormir, eu pedia às estrelas para que me dessem de presente uma irmãzinha. Eu amava demais meus papais, mas às vezes sentia falta de alguém para brincar ou conversar.

- Vovó, a senhora sabia que em Urano o verão dura 42 anos? - perguntei empolgada enquanto folheava o livro "100 fatos sobre Astronomia" - Eu não aguentaria nem um ano direito!

- Deus é mais, uma semana lá e eu já cairia fora! - vovó fez uma cara de nojo.

Continuei com minha leitura, ficando cada vez mais surpresa com as curiosidades que lia.

Plutão havia recebido seu nome por uma criança de 11 anos, mas infelizmente essa criança não era eu.
Se eu pudesse nomeá-lo, acho que o chamaria de "Pitiquinho". Fazia dois anos que ele havia sido rebaixado a planeta anão, coitadinho!

Desde pequena, sempre tive o sonho de me tornar uma grande astrônoma. Parece que astronomia estava no DNA da família Spellight, já que absolutamente todos os meus parentes tinham um amor especial por essa ciência.
Mamãe diz que é porque minha bisavó Mary nasceu exatamente em 10 de maio de 1970, dia exato em que o cometa Halley visitou a Terra.

- A senhora acha que a Cristal vai gostar de mim?

- Claro que vai, cute cute. Você será a melhor irmã do mundo pra ela, disso eu tenho certeza. - vovó Amélie sorri. - E sempre será a netinha preferida da vovó também. - ela lança uma piscadela.

Abri um sorriso gigantesco e deitei em seu colo, esperando o momento em que finalmente poderia conhecer minha mais nova irmã.

A médica apareceu um tempo depois para dar a notícia de que estávamos liberadas para ir ao quarto da mamãe, e assim o fizemos.

- Ela é linda demais! - Digo, dando pulinhos de alegria. Aparentemente Cristal tinha puxado nossos olhos azuis.

- Sim, minha querida. Sua irmãzinha é tão linda quanto você. - os olhinhos da mamãe brilhavam em alegria.

Minha família e eu ficamos babando naquele pedacinho de gente. Seu nome fazia jus à ela, já que realmente parecia um cristalzinho!

Papai ficou no hospital para acompanhar a mamãe, já que a mesma teria que continuar por mais algum tempo ali, enquanto eu e vovó retornamos à minha casa. Ela não morava comigo, todavia, teria que cuidar de mim durante aquele tempinho.

Enquanto fazíamos chocolate quente e pães de queijo, - vovó era nativa do Brasil e sempre cozinhava deliciosos pratos de lá - ouvíamos "Dreams", de Fleetwood Mac, na vitrola do papai.

- Cute cute, coloca algum filme pra gente ver.

- Qual a senhora quer?

- Hum, que tal "O Extraterrestre"? Assistia direto com sua mãe quando ela era pequena. - vovó sugeriu.

- Ótima escolha!

Por sorte, achei rapidamente o DVD que estava empilhado em meio aos outros 400 que mamãe tinha.

Vovó trouxe as comidas para o sofá, pegando também um cobertor para nos cobrirmos.
Cliquei no "play", dando início ao filme, enquanto beliscava a tigela de pães de queijo.

Amava aquele filme pelo fato de invejar o garoto que conseguiu um contato extraterrestre. Eu tinha muita vontade de ver algum OVNI ou algo assim, mas apesar de nunca ter vivenciado nada do tipo, acreditava firmemente em vida fora da Terra.
Não exatamente naqueles aliens verdes de cabeças enormes, mas quem sabe, talvez, uma raça tão inteligente quanto a nossa.

Quando o filme chegou ao fim, decidimos descansar. A ansiedade havia nos causado muita exaustão, e o tanto de pão de queijo que eu comi me deixou com um baita soninho. Mas, ironicamente, eu tive bastante dificuldade pra dormir.

Almejava uma irmã há tanto tempo, e agora que meu desejo finalmente tornou-se realidade, eu contava os segundos para poder aproveitar a presença de Cristal.

Dois dias depois, vovó e eu planejamos uma festa de boas vindas.
A decoração era de nebulosas, estrelas e planetas.
Festas nesse tema eram como uma tradição de família. Absolutamente todas giravam em torno de astronomia, mas cada uma com um foco diferente. Às vezes fazíamos específicamente sobre alguma galáxia, outras, sobre alguns planetas, mas a essência astronômica esteva sempre presente.

Escolhi um bolo lindo para a encomenda, o desenho era "A Noite Estrelada", pintura famosa de Van Gogh, um de meus artistas preferidos. No centro, com uma caligrafia impecável, também estava escrito o nome de Cristal.

Espalhamos algumas bexigas em forma de estrelas pela casa, e modéstia à parte, estava tudo maravilhoso.

- Surpresa! - Gritamos assim que meus pais entraram em casa, agora carregando minha irmã nos braços.

- Meu deus, isso está incrível! - mamãe exclamou, com os olhos marejados. - Vocês querem me fazer chorar, né?

Apesar dos petiscos deliciosos que estavam sob a mesa, o foco a todo momento foi Cristal. Brincamos por horas, apertamos suas bochechas gordinhas e a mimamos exageradamente.

Aquele havia sido o momento mais feliz da vida dos meus pais, e com certeza da minha também. Queria agradecer aos céus eternamente por aquela dádiva.

Eu só não imaginava que minha vida mudaria tanto depois do nascimento de Cristal. E, surpreendentemente, seria para pior.

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