c a p í t u l o - 4

Had to have high, high hopes for a living

Didn't know how, but I always had a feeling

I was gonna be that one in a million

Always had high, high hopes

— High Hopes | Panic At The Disco

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Apesar da loucura de viver em outro país, atuando em um trabalho super importante e prestes a estudar em um lugar renomado, eu estava bem. Poderia estar cansada pelos fusos ou pela corrida do dia a dia, poderia estar confusa com a linguagem falada ou os problemas que eu tinha que resolver em inglês. Mas apesar disso, eu estava me sentindo aliviada.

Comecei a sair no primeiro mês morando aqui, visitando espaços como restaurantes, parques e até mesmo o campus da cidade. Shonda me levava para tudo que é lugar, uma guia fofoqueira que não só me contava a história do lugar como seus maiores podres. E ora, pode me perdoar, mas eu amo uma boa fofoca.

Mas hoje eu decidi sair sozinha pela primeira vez. Após a finalização de uma campanha espetacular, Paul deu à toda a equipe um dia de folga.

— Para manter as pessoas criativas, precisamos de pausas — dizia ele.

O que era mais que certo e eu admirava. Trabalhar com marketing, design, vendas e redes sociais era desgastante. Pode parecer um trabalho fácil e legal de fazer, mas quando você o segue por anos a fio, todos os dias... Se torna completamente exaustivo se não tiver descanso entre as etapas.

Me arrumei com um vestido de elástico com pequenas flores brancas que se firmava contra meu peito enquanto a saia rodada era muito confortável para um dia quente como aquele. Com alças grossas, o vestido havia sido uma de minhas primeiras compras por aqui por uma pechincha de dez dólares. Para combinar, coloquei uma sandália nude claro e joias finas, como um colar e um brinco de linha dourados.

O museu era lindo e eu já estava encantada só com o lado externo. Bem, mas eu teria muito tempo e muita coisa para explorar ali, já que o espaço contava com mais de duzentos mil metros quadrados de chão divididos em vários pavilhões. O Los Angeles County Museum of Art era lindo já de entrada, com a obra Urban Light, de Cris Burden, um grande espaço descoberto cheio de postes de luz (tentei contá-los, mas falhei miseravelmente). Achei aquilo brilhante, ironicamente.

Quando entrei, percebi dezenas de pessoas indo e voltando dos corredores após fazer o cadastro e pagar a entrada (que estava em cerca de quinze dólares). Eu queria conhecer o espaço e ver algumas obras de arte específicas. Eu amava aquela conexão com o criativo. Me inspirava de diversas formas e me impulsionava para ideias malucas que geravam campanhas espetaculares.

Sempre me disseram que a criatividade era a junção de repertório e experiência, por isso, buscava consumir dessas coisas não só para o meu trabalho, como para o lazer. Cada peça que eu observava, seja escultura, pintura ou até mesmo música, me fazia parar para pensar o que havia por trás. 

— Senhora, aqui estão as indicações e proibições do Museu, além de um QR Code que pode guiá-la para um tour autoguiado, mas lembre-se que é importante estar com fones de ouvido para não incomodar os outros visitantes — a moça do caixa me entregou um folheto, sorrindo, enquanto me indicava.

— Muito obrigada — respondi, lendo algumas informações no flyer sobre não comer, não beber, não tirar fotos com flashes e não tocar nas peças. 

Aquele era o maior museu do oeste dos Estados Unidos, com mais de cem mil obras diferentes, algumas fixas e outras itinerárias. Por isso, sabia que não veria nem de perto tudo o que queria naquele dia, então separei alguns dos tours que tinham acompanhamento em áudio e me dirigi até os lugares colocando meus fones de ouvido sem fio. 

Comecei indo ao tour In Their Own Words: Artists on Art, seguindo para o tour A Portrait of Picasso e depois ao Revolution & Rebellion: Political Activism in 20th-Century Art. Todos eles me deixaram completamente sem palavras. Seja através de sua técnica dentro do trabalho, seja o motivo que os levaram a construir tais peças... Tudo era lindo e bem colocado, emocionante de certa forma.

Estava caminhando enquanto desviava de algumas pessoas até que parei em frente a um dos quadros que estava procurando. Na vida real, La Madeleine à la veilleuse era ainda mais belo. A mulher de longos cabelos escuros e lisos estava sentada no que parecia ser um banco, apoiada sobre uma mesa enquanto segurava uma crânio de ossos pensativa. Pensando sobre a morte e o sentido da vida. Observando tudo à luz de uma única e pobre vela, a tela era reflexiva. A moça pintada, Maria Madalena, parecia estar mergulhada em seus mais profundos pensamentos e eu me via buscando saber quais eram eles.

Me senti parada por vários minutos antes de começar a caminhar em direção à saída, já preparada para ir embora depois de uma tarde longa rodando o museu.

Beautiful — ouvi alguém falar.

Então me virei. Foi quando o vi pela primeira vez. Em um relance, olhei para o lado onde um homem de boné parecia estar absorto com a peça de arte também. Na casa dos trinta e poucos anos, era alto e musculoso, apesar de não conseguir identificar muita coisa sobre suas roupas de academia, era lindo visto do ângulo que eu estava, com o nariz arrebitado, uma barba bem cortada escura e lábios volumosos.

— É um belo quadro, não acha? — perguntou-me ele com sua voz levemente rouca, tirando os olhos da obra.

Meu olhar se conectou ao seu e paramos no tempo por alguns segundos. Azuis. Não qualquer tom de azul, mas sim um céu límpido de verão no Brasil. Calorosos e ardentes. Desviei o olhar para baixo com vergonha e então, como em todas as minhas ações nervosas, coloquei o cabelo para trás da orelha.

— É esplêndido — respondi o observando, ainda envergonhada.

— Você sabe alguma coisa sobre a peça? — ele me questionou, ainda parado no mesmo lugar.

— Pouca coisa, para falar a verdade — falei. — Eu sei o simples: o nome desse quadro é La Madeleine à la veilleuse. É um óleo-sobre-tela barroco de Maria Madalena feita pelo francês Georges de La Tour.

Pouca coisa era mentira, eu sabia muito sobre essa obra, mas não sei se o homem teria essa paciência para ouvir. Eu sentia que o conhecia de algum lugar, mas ainda não havia descoberto de onde. Mas não era muito difícil de descobrir, apesar de lindo, sua beleza não era muito diferente de outros homens por ali. No entanto, era o meu tipo.

— Eu vi essa mesma pintura no Louvre uma vez — disse-me ele, ainda me observando.

— E ela ainda está lá — sorri para ele ainda um pouco envergonhada. — Existem duas versões dessa obra, uma está aqui, outra no Louvre. E ainda há outras obras que têm o mesmo tema, do mesmo pintor, no National Gallery of Art e no Metropolitan Museum of Art.

— Sabe bem pouco, né?— ele sorriu. Os dentes eram de um branco perfeito e alinhado que faziam seu rosto parecer ainda mais simpático.

— Talvez eu tenha estudando mais a fundo... — retruquei, sentindo minhas bochechas ficarem vermelhas.

— Além de linda é inteligente — disse ele com sinceridade. — Você já viu alguma das outras obras? — ele me questionou. Parecia estar interessado em cada palavra que eu falava.

— Não. Cheguei nos Estados Unidos há pouco tempo. Essa é minha primeira visita ao museu — falei.

— Que legal. Espero que goste daqui — ele então olhou para trás de mim e baixou um pouco o boné, como se alguém o tivesse encontrado e franziu os lábios em irritação. — Talvez um dia nos encontremos de novo. Foi muito bom conversar com você. Tchau.

E então simplesmente saiu, andando rápido, sem me dar chance de responder qualquer coisa. Franzi as sobrancelhas por alguns segundos em dúvida. Será que estive conversando com um maluco mafioso que estava fugindo da polícia ou algo assim? Suspirei. Não faço a menor ideia, mas ele já esteve na França, o que parece ser bem interessante.

Além disso, o fugitivo nem me disse seu nome. Droga. Não teria nem como stalkear ele e descobrir quem era. 

Apesar da ação maluca, ainda esperava encontrar esse doido que me fez sentir o coração disparar depois de tantos anos. Talvez isso fosse a receita de um desastre, mas ultimamente o que não era, não é mesmo?

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