c a p í t u l o - 1 3

She says: We've got to hold on to what we've got

It doesn't make a difference if we make it or not

We've got each other and that's a lot

For love, we'll give it a shot

— Livin' on a Prayer | Bon Jovi

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Anthony e Sylvia eram um casal extremamente divertido e interessante. Além do bate papo contínuo sobre tudo e todos, também adoravam uma fofoca, falar de música e sobre jogos de basquete, esporte do qual eu não tinha conhecimento algum, preciso confessar.

— Quer mais um pouco? — Sebastian me perguntou, em pé ao lado da mesa, enquanto segurava uma panela cor baunilha com macarrão ao molho branco.

— Claro. Quero sim — respondi, enquanto repetia o prato delicioso que ele havia preparado. — Está uma delícia.

— Verdade. Eu comia muito pouco macarrão assim na minha infância, mas desde que fui na casa da mãe de Sebastian fico louco por um pratão desses — Anthony disse.

— Acho que se deixar, o Tony come até o prato — Sylvia continuou, rindo.

Sebastian também havia sido contagiado com aquele sorriso brilhante e seus olhos brilhavam numa plena e calma alegria.

— No Brasil, a gente chama essa quantidade de "prato de pedreiro" — falei. — Depois de uma grande obra não tem lugar que caiba a fome de um trabalhador.

— Isso faz todo o sentido — Sebastian balançou a cabeça.

Agora, havia se sentado e balançava a taça de vinho escuro. Seus lábios carnudos estavam avermelhados por conta da bebida e era possível ver um leve rubor em suas maçãs do rosto. Acima da barba rala e bem definida.

— A mãe do Sebastian faz um croquete de camarão absurdamente bom — Samuel falou olhando para mim. — Eu morreria por aquele prato.

Meu sangue gelou por um segundo.

— Nossa, um dia eu também vou precisar provar isso. Tony não para de falar do quanto ele ama croquete de camarão. Apesar da gente ter tentado fazer em casa, não ficou muito bom — Sylvia continuou. Sua voz um pouco mais distante.

Bem, eu desejo que você nunca tenha essa sensação na sua vida inteira. Eu não tenho nenhum tipo de problema com croquete de camarão, se você estiver pensando que foi isso. Mas quando as pessoas entram no assunto "morte", bem... esse é o meu gatilho. Não apenas por tudo o que aconteceu com Nicholas, mas tudo o que aconteceu depois da morte dele... e quase a minha.

Meu coração estava palpitando forte e senti o olhar de Sebastian sobre mim. Suas sobrancelhas se franziram em uma questão de segundos, demostrando certa curiosidade e preocupação. Tentei respirar fundo, mas me sentia cada vez pior.

— Onde é o banheiro? — perguntei a ele, o olhando de relance.

— Ah... na segunda porta à esquerda — disse ele, ainda me observando.

Me levantei rapidamente e quase corri em direção ao banheiro, tentando me recompor. Tranquei a porta e senti as lágrimas surgindo, o coração apertado próximo de um ataque.

Não. Não. Não. Sem crises. Sem crises. Sem crises.

Mergulhei o rosto embaixo da água na torneira e deixei que ela escorresse e gelasse meu corpo. Fiquei usando a técnica 5, 4, 3, 2, 1, da terapia até me acalmar, o que demorou alguns minutos. Apoiei as mãos na pia e me observei no espelho, com a maquiagem borrada e a roupa um pouco amassada. Estava um caco. 

Não queria demorar muito para que eles não notassem o acontecido, por isso, comecei a me limpar. Primeiro escovei o cabelo com as mãos e o prendi em um coque simples com um elástico que sempre tinha no braço. O penteado valorizava meu pescoço e tirava meus olhos levemente inchados do foco. Peguei um pouco de papel higiênico e sabão e fui tirando o resto da maquiagem. A base tinha craquelado e o delineado se desfeito, mas eu não ficava feia sem aquilo, então não me importava muito em tirá-la por inteiro.

— Isabela, vamos jogar Just Dance, você quer também? — ouvi Tony gritar ao longe assim que eu saí do banheiro.

Eles já estavam na sala, ligando o X-box e o Kinect para jogar.

— Claro. Quero sim! — tentei responder o mais feliz possível.

Sebastian caminhou até mim e trancou minha saída do corredor, ficando em minha frente com seu corpo musculoso, fazendo sombra em mim.

— O que aconteceu? Está tudo bem? — questionou-me ele.

— Está tudo bem, sim — respondi, olhando para baixo.

Ele ergueu meu rosto suavemente. 

— Se nós falamos algo que te incomodou ou te machucou, peço desculpas — Sebastian continuou, olhando para mim. Seu perfume, que parecia ser um Bleu de Chanel, absurdamente delicioso, que me deixava levemente zonza. — Sou seu amigo. Não precisa me esconder nada.

Olhei em seus olhos e vi sinceridade, mas não queria entrar naquilo, não tinha proximidade o suficiente pra me abrir naquele momento. Então, respirei fundo mais um pouco e tentei desviar minha atenção para o som da música e os amigos de Sebastian.

— Que música vocês querem jogar? — Tony questionou de longe.

— Tem "Everybody"? — questionei ao longe, cortando o assunto sofrido. Sebastian desceu os dois degraus e ficou próximo à bancada, me dando passagem, apesar de me olhar franzindo as sobrancelhas.

— Tem! Mas vamos os quatro, né? — Sylvia continuou. Eles não pareciam estar nem aí para o que estava acontecendo. Eu dava graças que ninguém mais percebeu.

— Então vamos lá — Sebastian ficou mais leve e me estendeu a mão. Senti o sangue passando nos meus dedos quando fiz isso, encostando em sua pele macia e quente.

Dançamos a primeira música rindo e gritando quando alguém errava algum passo. Eu e Anthony éramos ótimos nisso, mas Sebastian e Sylvia eram meio desajeitados, de uma forma muito divertida. E talvez eu ainda não tenha falado, mas sou um pouco (muito) competitiva, por isso, estava concentradíssima nos passos que precisava dar.

— Ganhei! — gritei mostrando a língua para Anthony. Ele parecia chocado, na brincadeira. Colocou a mão no peito e me olhava em pleno desafio. Sylvia até desistiu, caindo sentada ao lado de Sebastian no sofá.

— Olha, vocês dois que desempatem agora, eu tô exausta! — ela disse.

— Desempatar é? Pois eu deixo você até escolher a música pra você perder — Anthony me disse, balançando a cabeça em desafio.

— Garoto, você tá duvidando muito de mim! Vai levar uma lavada que vai fazer você voltar correndo pra mamãe — retruquei.

— Cara, desiste. Ninguém tem o gingado que eu tenho — disse ele, me dando o controle.

— Cara, desiste. Eu sou brasileira — respondi, segurando no controle com raiva.

— Cinco dólares no Tony — Sylvia estendeu a mão para Sebastian.

— Quinze dólares na Isabela — ele rebateu.

— Fechado — disse Sylvia. Então, eles apertaram as mãos.

Ele deu um sorriso aberto em minha direção conforme eu rodava no Just Dance 2020 para escolher a música perfeita. Eu sabia exatamente qual delas seria. Acho que aquela era a única música brasileira em todo o jogo e eu simplesmente amava ela. E se você achou que eu não gostava de funk... bem, tenho uma má notícia para você.

So dipoix do quernaval? — Sebastian tentou ler em um português arrastado.

Então o toquinho da música Só Depois do Carnaval, da Lexa, começou a tocar e Anthony não chegou nem perto de me acompanhar. Eu dançava e cantava alto ainda em português enquanto ele tentava dançar a música rápida e cheia de gingado.

Chama as amiga pra cá pras sapequinha provocar — o jogo tocava.

Vi Sylvia com o telefone levantado em nossa direção e imaginava que estava nos fotografando ou gravando. Eu não ligava para isso no momento. Quando acabou, eu já estava com os cabelos soltos desgrenhados, respirando fundo e rindo horrores enquanto Anthony parecia querer deixar no sofá e desmaiar lá.

Naquele momento, eu quase tinha esquecido completamente do gatilho que havia me atacado há um tempo atrás. Pelo menos busquei esquecê-lo e viver aquele momento. Como todas as outras vezes, eu não deixaria aquilo me vencer. Nunca.

— Treze mil pontos — Sylvia começou a rir de Anthony enquanto prestava atenção no placar. — Acho que o gingado brasileiro é bem melhor, amor. Não dá pra você competir não.

— É porque ela é mais nova — ele resmungou. — Eu sou velho lembra. Tô na casa dos 43.

— Aceita que perdeu, irmão — Sebastian rebateu, dando um tabefe em seu ombro.

— Au! — exclamou Anthony baixinho, rindo.

— Me deve quinze dólares — Sylvia deu um tapinha no mesmo lugar fazendo Tony rir. Os dois se olharam com uma conexão tão bonita, tão romântica. 

Sentei ao lado livre de Sebastian enquanto respirava, sorrindo divertida. Ele me olhava com extrema atenção, como se estivesse plenamente concentrado em mim. Segui seu olhar conforme ele rapidamente seguia das minhas pernas para o meu pescoço, para a boca e para os meus olhos. Aquilo me deixava extremamente nervosa... e excitada.

Os amigos de Sebastian puxaram mais algumas piadas em relação ao jogo, o que me fez rir muito. Já passava da uma hora da manhã, por isso não estranhei quando Anthony e Sylvia se levantaram.

— Olha, Seb, precisamos ir porque amanhã voltamos para Nova Iorque, mas nos vemos em breve — Anthony disse. Sebastian se levantou para um aperto de mão também e eu fiz o mesmo. — E espero encontrá-la de novo, Isabela. Mereço uma revanche.

Então me deu um abraço e Sylvia também.

— Foi muito divertido hoje, espero que possamos nos encontrar mais vezes — disse ela, sorrindo.

Fiquei procurando minha bolsa por alguns segundos, para seguir na deixa e também ir embora, já que amanhã precisaria trabalhar. Nesse meio tempo, Sebastian acompanhou seus amigos até a porta e se despediu deles.

— Sebastian, você viu minha bolsa? — perguntei a ele assim que surgiu no meu campo de visão.

— Está aqui na entrada, no balcão — disse ele, sereno, apontando para o lugar.

— Ah, que bom, acho que também está na minha hora de ir — falei, caminhando em direção ao balcão. Estava ficando nervosa novamente com seu olhar azul intenso me acompanhando. — Muito obrigada pela noite, foi muito divertido conhecer seus amigos.

— Espero que tenha se divertido — respondeu ele, com um sorriso leve no rosto.

— Bastante.

— Posso te levar? — questionou-me ele. — Já que fui eu quem a trouxe. Não quero deixá-la andando por aí, sozinha.

— Ah, não. Tudo bem. Não precisa se incomodar, eu chamo um Uber — respondi, balançando o celular.

Na verdade, queria sair dali o quanto antes possível, pois não tinha ideia do que poderia fazer. Eu gostava de quando tinha total controle e apesar de ter tomado apenas umas duas taças de vinho, já me sentia mais solta. Não estava nem perto de bêbada (por favor, eu já tomei duas garrafas de vodka sozinha num dia), mas tinha mais medo de sentir algo por ele do que qualquer outra coisa.

— Então, muito obrigada, de verdade — falei, pegando a bolsa e colocando em meu ombro. — Espero poder sair mais vezes contigo.

Eu o abracei em despedida, mas não tinha ideia de como ficaria extasiada com seu perfume e a sensação do seu corpo no meu, porque o maldito não podia simplesmente receber o abraço como uma pessoa normal, ele tinha que passar a mão na minha cintura e me deixar toda desconcertada.

— Boa noite — falei, me desvencilhando, apesar do calor que se formou entre nós e da forma como nossos olhares se encontraram, mergulhados em um tipo de desejo sombrio e poderoso. Abri a maçaneta prateada da porta, pronta para sair.

— Bela — Sebastian me chamou com sua voz aveludada assim que o vento frio do corredor bateu em meu rosto.

Olhei para ele com desejo, mas ainda mergulhada em todas as sombras do meu coração. Virei o rosto para baixo e dei um sorriso suave, doida para ir embora dali. O observei por alguns segundos, mas ele não disse uma palavra sequer, apesar de eu ver em seu rosto o quanto implorava para que eu ficasse.

— Boa noite, Sebastian — falei, cortando qualquer coisa que pudesse surgir naquele momento. — Nos vemos em breve.

Dei um sorriso suave e então virei as costas, partindo, enquanto sentia meu coração bater mais rápido que uma britadeira. A ansiedade e o nervosismo continuavam comigo, mas eu sabia que aquele não era o momento certo para aquele sentimento. Ou talvez, eu estivesse desperdiçando a oportunidade da minha vida de amar novamente.

Ora, mas quem nunca errou?

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