c a p í t u l o - 1 1

Meu estilo é clássico, amor pra poucos

Meu humor é ácido, é

Mistura de Rita com Amélie

Quando acha que entendeu, eu nem tô mais aqui

— Deve Ser Horrível Dormir Sem Mim | Manu Gavassi & Gloria Groove

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Quando levantei, me senti mais que aliviada. Os pássaros cantavam na janela, a luz do sol irradiava o cômodo com calma e calor. Era uma visão bonita e esperançosa que eu gostava de ver. Depois de um jantar bem diferente, conseguia finalmente respirar, como se alguém tivesse me puxado para cima após me ver afogando.

Aquela leveza me seguiu para o trabalho, onde novamente estávamos nos estúdios, em uma correria para caracterizar os atores conforme seus personagens e realizar a segunda demanda de vídeos. Todos estavam atiçados para dar o melhor de si, lendo roteiros de um lado, terminando de alinhar o cabelo do outro, movimentando armas e fingindo atirar, com altas gargalhadas. 

— Vejo que hoje é um bom dia — ouvi sua voz antes mesmo de vê-lo.

Quando me virei, dei de cara com Sebastian, com o cabelo ralo e a barba levemente desgrenhada, em uma aparência suja, como era de praxe de seu personagem. Se eu o achava bonito de camiseta branca e jeans, agora, com a farda estilo militar da segunda guerra mundial, ele parecia ainda mais atraente. A posição de sentido, o olhar malicioso, o maldito sorriso aberto.

— Capitão — fiz posição de sentido para cumprimentá-lo conforme o personagem.

Ele riu em um som melodioso e divertido, gostoso de ouvir. 

— Sr. Peeters, estamos esperando você para começar — Mary apareceu ao meu lado, avisando.

— Já estou de partida, madame, nos veremos em breve — disse ele, dramático, em minha direção. Não pude deixar de rir. Então se foi em direção ao seu estúdio.

Mary ficou ao meu lado, com um olhar julgador, mas divertido.

— Ele está caidinho por você — disse ela em um tom baixinho.

— O quê? — pisquei repetidamente olhando para ela.

— Ah garota, não se faça de boba, ele está na sua mão — riu ela. — Não perca essa chance não.

— Mas eu não... — tentei arranjar uma boa desculpa.

— Olha, se é pelo trabalho, logo ele já não é mais nosso cliente — disse ela, balançando a cabeça.

— Não é só isso... — falei um pouco cabisbaixa.

— Tem ex no meio? Você nunca falou sobre seus namorados, namoradas ou sei lá — questionou-me ela, curiosíssima como era.

— Digamos que sim. Não sei se estou preparada para sair com alguém de novo, mesmo na amizade — cochichei, ficando um pouco decepcionada comigo mesma.

— Amiga, passado deve ficar no passado, foca no futuro — retrucou ela.

— Quem sabe... — continuei, com um sorrisinho.

Ela saiu caminhando em direção ao estúdio me deixando sem palavras por algum tempo. Fiquei olhando a prancheta com as informações dos roteiros intensamente e quando percebi, já era fim de tarde. Várias gravações chegaram ao fim com sucesso. Nem precisaríamos do dia seguinte porque tudo tinha saído tão bem que agora estava praticamente feito.

Os próximos dois meses seriam de plena produção, programação e análise, ficando com a minha equipe enquanto finalizávamos. Algumas pessoas começaram a se despedir e ir embora, mas aproveitei para tirar foto com todos os atores com quem ainda não tinha tirado foto. Ora, eu era uma louca brasileira que precisaria mostrar para minha irmã com quem eu estava trabalhando. Ela iria infartar logo se eu não mostrasse algo para atiçar sua curiosidade.

— E a minha? Não vai tirar foto comigo? — Sebastian apareceu sorrindo ao meu lado.

Olhei em volta e percebi que praticamente todo mundo já tinha ido embora de novo. Eu o observei por alguns segundos então apertei os lábios. 

— É que sabe o que é... — fiz corpo mole, brincando com ele.

— Hey! Estou ficando triste já — ele fez um biquinho charmoso, com os olhos brilhando de dó.

— Isso é injusto, não use essas artimanhas de ator pra cima de mim — retruquei, fingindo virar o rosto em revolta.

Ele me puxou pela cintura e me virou, me fazendo apoiar as mãos em seu peito para não cair. Aquilo me deixou surpresa, mas nada podia ser mais intenso que seu olhar e seu sorriso. O hálito de eucalipto e o perfume delicioso estavam fazendo as borboletas do meu estômago se debaterem. Eu estava sentindo minhas mãos tremendo de nervosismo.

— Tudo bem — falei com a voz meio falhada e as pernas bambas, tirando o celular do bolso e colocando a câmera em selfie em uma ação meio desesperada.

Ele se distanciou um pouco de mim, ainda mantendo a mão grande e forte em minha cintura, abrindo um sorriso estarrecedor para a câmera. Não aquele falso, mas um genuíno divertido e belíssimo. Tirei algumas fotos e me soltei de seus braços para conseguir respirar decentemente, já que o maldito conseguia afetar até a forma como eu respirava.

— Você quer sair para jantar? — questionou-me ele.

— Olha, hoje eu queria descansar, mas quem sabe a gente marca alguma coisa? — falei. Eu realmente gostaria de sair com ele, mas estava com a cabeça cheia de coisas e ele estava me deixando ainda mais confusa.

— Ah, tudo bem — disse ele. — Semana que vem tem um jantar com alguns amigos meus, você quer ir? É na quinta-feira.

— Pode ser sim, deixa marcado que eu vou — sorri ao responder.

— Então tudo bem, até lá — ele foi se virando e caminhando em direção à saída.

Eu não tinha ideia do que poderia sentir por alguém que acabei de conhecer, mas ele era divertido. Quem sabe uma amizade muito legal não surgia disso? Ok. Eu sei que a maioria das pessoas se jogaria num relacionamento com ele por nada, mas eu não conseguia me ver fazendo isso no momento.

Fui para casa em silêncio, pensativa em relação a tudo o que aconteceu e estava acontecendo na minha vida. Então, liguei o computador e chamei minha irmã. Era apenas seis horas, mas como o fuso aumentava cinco horas no Brasil, tinha certeza que minha irmã ainda estava acordada, essa morcega.

— Julia, você precisa ver com quem eu estava hoje — falei para ela animadíssima.

— Meu Deus, sua vaca, vai finalmente matar minha curiosidade? Já ficando maluca e se você não me disser vai piorar — retrucou ela, revoltada, mas divertida.

— Vou te mandar no Whats, fica de olho — falei, encaminhando as fotos que havia tirado.

— NÃO BRINCA — exclamou ela. — DE SACANAGEM!

Ela começou a me xingar a cada foto que via e eu estava gargalhando alto. Rindo com gosto de suas expressões. Até que valeu a pena esperar para zoar com ela.

— Garota, que pegada é essa? — ela me perguntou chocada mostrando a foto de Sebastian e eu. — Meu Deus, o Sebastian é ainda mais bonito ao vivo, nossa senhora.

Ri um pouco mais envergonhada. Estava me perguntando se enviar essa foto pra ela era uma boa ideia agora.

— Realmente — falei, sorrindo.

Iiih, que cara é essa, mana? — me perguntou ela. — Está tudo bem?

— Na verdade não sei... — falei. — Essa semana me bateu uma deprê de novo sobre o Nic.

— Ai, Isa, eu sei que é injusto falar qualquer coisa sobre ele... Sei que você sente falta dele, que ele era incrível — disse ela, sincera. — Mas assim como existe o tempo do luto, existe o tempo do recomeço. Você conheceu alguém?

— Algumas pessoas — falei.

— Amorosamente, eu falando — rebateu ela.

Não queria falar que era Sebastian, obviamente. Aliás, nem sabia que tipo de flerte estávamos tendo.

— Conheci um cara quando fui ao museu — não era um mentira. — Muito legal, saímos uma vez, mas não consigo seguir. Não consigo dar o outro passo. É como se eu estivesse traindo o Nic.

— Eu imagino que seja assim, mas Bela, se você não der uma chance para a vida, talvez fique pra sempre no passado. Você pode mudar de vida, de país ou de planeta, mas se não deixar para trás algumas coisas, fica presa — disse ela. — E não estou falando em esquecer o Nicholas e tudo o que vocês viveram. Muito pelo contrário: é lembrar de tudo isso com saudade e amor, mas não se prender pra sempre.

Olhei para a tela, pensando um pouco sobre isso. Talvez... só talvez, eu pudesse pensar nessas possibilidades. Olhei para o calendário, a marca anotada com um círculo vermelho. Será mesmo que eu conseguiria deixar essa parte de mim no passado?

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