c a p í t u l o - 1 0
I swear I've seen an angel
And paradise in blue and every color I choose
But I don't know what love is
But I think it might be you
— I Don't Know What Love Is | Lady Gaga & Bradley Cooper
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Sebastian pensou em pedir um delivery em um restaurante chinês que ele gostava, mas eu tive que confessar meu ódio por sushi, o que fez ele mudar de ideia instantaneamente e começar a cozinhar por conta própria. Tentei convencê-lo de que não precisava, mas ele fez questão de preparar algo de seu país natal, a Bélgica.
— Vou fazer uma versão meio pobre do Stoemp, um prato típico que minha avó costumava fazer — comentou ele enquanto separava diversos ingredientes.
Eu estava sentada em um dos altos bancos da ilha da cozinha, mas não aguentava vê-lo fazendo tudo, por isso, quando ele separou cebolas e cenouras, já me levantei e arregacei as mangas da camiseta, abrindo o botão.
— Deixa que eu corto isso — falei, lavando as mãos na pia e separando os vegetais.
— Não, pode deixar que eu faço — retrucou ele, me olhando intensamente.
— Eu insisto, me deixe cortar — estendi a mão para que ele me entregasse a faca de cozinha.
— Então tudo bem — respondeu-me, entregando a faca, rendido, com um sorriso.
Comecei a cortar as cebolas conforme ele me indicou e segui para as cenouras e batatas enquanto ele fritava bacon e colocava as batatas para cozinhar. Sebastian também colocou sua assistente virtual, uma echo dot da quarta geração, para tocar uma música ambiente. Bem, a bendita Alexa começou a tocar I Don't Know What Love Is, o que era um pouco triste, mas eu adorava essa música.
Sebastian também parecia ser um fã, porque começou a cantar junto. Digamos que ele não era a pessoa mais afinada do mundo, mas eu também não. Então esse combo ficou muito engraçado enquanto ele cantava as partes do Bradley Cooper e eu ficava com as partes da Lady Gaga. Parecia uma depressão completa pela letra e melodia, mas eu estava em paz. Aproveitando a harmonia e a calma.
Não pude deixar de notar o jeito como ele se aproximava de mim, buscando me tocar de alguma forma, por menor que fosse, despertando uma ardência em meu rosto que me deixava doida. Eu via seus braços musculosos mexendo na panela e o jeito como ele se concentrava no que fazia. Era interessante de se observar.
Enquanto a música trocava para I Wanna Dance With Somebody, ele me olhou feliz, dançando de um jeito muito engraçado que me fez cair na gargalhada.
— Clock strikes upon the hour and the sun begins to fade. Still enough time to figure out how to chase my blues away... — Sebastian começou a cantar como se aquela música fizesse parte de seu dia a dia, o que era ainda mais engraçado.
— And when the night falls, loneliness calls... Ooh... I wanna dance with somebody — cantou ele. Eu só conseguia dar risada e dançar como minha mãe havia me ensinado um pouco de sua época.
Ele dançou alegremente até o fim e então deixamos a pobre Alexa seguir com sua playlist maluca. Sebastian estava com um sorriso no rosto que o deixava ainda mais divertido. Seguimos cantando Livin' On a Player e Carry On My Wayward Son (fãs de supernatural já conhecem esses bebês) seguindo para várias outras do Bon Jovi e Elvis Presley, até que tudo ficasse pronto.
Então, Sebastian finalizou o jantar enquanto eu fucei nos armários até encontrar os pratos, talheres e copos. Montando a mesa sem muita cerimônia. Esse com certeza era um problema brasileiro: me deu um pouco de intimidade já vou fazendo as coisas sem ninguém perguntar. Famoso "já é de casa".
Não estávamos flertando nem nada, apesar do clima ser estranhamente atraente. Era apenas um novo amigo. Eu gostava de fazer essas coisas malucas antes de Nicholas morrer. Várias vezes conhecemos pessoas e já fomos em festas logo em seguida. Pelo menos era o que eu tentava me dizer.
— Meu Deus, isso aqui está uma delícia! — falei. — Acho que esqueci da última vez que comi algo tão bom. Eu amo purê de batata, dizem que comem bastante na Bélgica, é verdade?
— É sim. Batatas em geral. Acho que quando fui no mercado lá tinha uns seis tipos de batata diferentes, batata-inglesa, a batata asterix, batata-doce, batata-salsa... — ele explicou. — Eu, particularmente, gosto de todas.
— Também gosto.
— E o que você sente mais falta do Brasil? — questionou-me ele. Por um segundo fiquei calada. Pensei nele, Nic. Bem, existiam muitas coisas que eu sentia falta no Brasil. — Que comida você é louca para comer de novo?
Ah. Ele estava falando de comida ainda. Me permiti respirar de novo.
— Churrasco, com certeza — falei, decidida. — O churrasco aqui nos Estados Unidos é deprimente em comparação com o Brasil. Também sinto falta dos hambúrgueres e cachorros-quentes artesanais.
— É muito diferente?
— Lá tem muito mais sabor. Mais temperos e complementos. Acho que é bem mais cheio — respondi.
— Bem, eu sei que na Alemanha eles também valorizam um bom churrasco. Minha ex-namorada morava lá e eu ia visitá-la com frequência — comentou ele. Bem, isso explicava um pouco da minha dúvida ao conhecê-lo.
— Faz muito tempo que você terminou seu namoro? — questionei ele sobre o assunto, temendo tocar em uma ferida. — Se me permite perguntar.
— Faz pouco tempo, uns três meses, mas nada muito profundo — disse ele. — Por morarmos tão longe e nos vermos tão pouco, achei que conseguiríamos manter o relacionamento forte, mas não conseguimos.
— Então o melhor foi cada um seguir o seu — complementei, seguindo seu raciocínio.
— Ainda somos ótimos amigos, mas não há nenhum tipo de romance entre nós — ele afirmou novamente, dando um gole no suco de laranja. — Mas e quanto a você?
— Eu o quê? — perguntei, me fazendo de boba.
— Você tem um namorado, ex-namorado? — questionou-me curioso.
Olhei para a mesa por alguns instantes com uma expressão triste. Bem, esse tema ainda era muito pesado para mim. Dolorido. Senti a sensação do luto me invadindo de novo.
— Eu tinha... um noivo — falei me mantendo firme. Falar sobre ele no passado era tão ruim, tão desagradável. — Estávamos juntos há mais de oito anos, desde o ensino médio.
— Tinha? Vocês se separaram? — perguntou-me Sebastian, ainda mais interessado.
Senti o bolo se formando na minha garganta, mas a ironia naquela frase era ainda mais engraçada. Por isso comecei a rir suavemente.
— Na verdade, foi exatamente isso — falei, ainda com um riso nervoso.
— Posso perguntar o que aconteceu? Vocês brigaram, não encaixavam mais? — Sebastian continuou.
— Ah não, na verdade — mordi o lábio inferior e respirei fundo antes de responder. — Ele morreu... Um mês antes do nosso casamento.
Sebastian ficou me olhando intensamente por vários segundos. Seu sorriso alegre e curioso foi se desfazendo lentamente conforme ele olhava em meus olhos. Droga, eu havia quebrado todo o clima que se construiu até ali enquanto ele me encarava em absoluto silêncio.
Bem, eu não queria ficar triste de novo, por essa mesma coisa, depois de tanto tempo, mas não conseguia agir de forma diferente. Não conseguia mais chorar tão facilmente por isso, mas mesmo assim, ainda doía.
— Me perdoe — disse ele suavemente. — Não devia ter entrado nesse assunto. Eu sinto muito mesmo.
Ele estendeu o braço e colocou sua mão sobre a minha, calorosa. Seus olhos azuis refletiam empatia e calma. Uma combinação que ninguém me mostrou antes.
— Não se preocupe. Eu que entrei no assunto. Além disso eu já devia ter superado isso. Já faz mais de dois anos — eu expliquei. — Não deveria ficar tão afetada em contar sobre isso.
— Você perdeu o amor da sua vida. É claro que pode ficar afetada — respondeu-me ele. — Cada um tem seu tempo de luto e eu nunca, nunca, nunca vou julgar a sua dor. Eu não senti ela. Não consigo nem me colocar no seu lugar.
O observei um pouco chocada. Quando tudo aquilo aconteceu, o que eu mais ouvi é que iria superar, iria encontrar outra pessoa, deveria parar de drama... Mas nunca escutei de alguém que eu poderia ficar assim. Aceitar e superar. Me senti aliviada por ele simplesmente não me julgar ou me mandar para um terapeuta (de novo), apesar de eu ter consulta toda semana.
— Foi por isso que eu quis mudar de vida — falei. — Mas ninguém sabe disso e eu não queria que soubessem, por favor.
— Não vou contar a ninguém, eu juro — disse ele, apoiando a mão em meu pulso, firme. — Se precisar falar com alguém, por favor, pode vir aqui, pode me ligar. De verdade.
— Muito obrigada — eu disse com um sorriso sincero. — Fico feliz. Mas eu não vim aqui falar do passado, pelo menos não desse jeito.
— Claro, claro — respondeu-me ele, também mudando de assunto.
Conversamos pelo que pareceram horas, falando sobre besteiras e histórias malucas com momentos vergonhosos e divertidos. Além de debater diferenças entre os países, incluindo o Brasil e a Bélgica. Foi muito bom fazer um amigo.
Ele me escutava como se o que eu falasse era extremamente importante, prestando atenção aos mínimos detalhes, além de me olhar como se eu fosse seu único e preciso foco. No início, confesso que ficava extremamente desconfortável, mas não posso negar que no fim da noite, quando me preparava para ir embora, já estava gostando daquele olhar, ainda mais.
Caramba. Não é que meu terapeuta tinha razão sobre algumas coisas? Dar um passo em direção ao novo não podia ser tão ruim assim.
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