Parte III
Já era noite, deixei Rute jogada na cama, com uma base e pó de arroz que a deixou pálida, mandei ela ficar quieta e fui chamar mamãe.
- Mãe, Rute ta com uma enxaqueca das brabas. -falei triste.
- Deixa eu ver minha filhinha. -ela disse e saiu com o cabelo bagunçado, pois se arrumava para a igreja.
- Oi mãe. -Rute disse fraca ao perceber nossa presença no quarto.
- Já tomou o remédio? -mamãe perguntou acariciando o rosto dela.
- Já. -afirmou.
- Então já vai passar. -ela disse. -Fique deitadinha que faço uma oração na igreja pra você.
- Ta bom, mãe. Amanhã eu vou ao culto. -Rute respondeu dengosa.
Eu comemorei internamente, uma mentirinha boba, Deus perdoa!
- Yes! -ela disse quando minha mãe saiu.
Fizemos uma dancinha esquisita em comemoração e fomos separar a roupa, iriamos ficar pelo bairro mesmo, senão a situação ia complicar pra gente, pela primeira vez Rute estava seletiva demais pra escolher roupa.
- Deita, deita! -empurrei ela na cama quando ouvi mamãe caminhando para o quarto.
- Nós já vamos, cuida da tua irmã, Ester. -ela pediu e beijou nosso rosto.
- Pode deixar. -falei.
Papai nos beijou também e paparicou um pouco Rute, domingo era dia dele ir pra igreja.
- Sei que vocês estão armando, só não falo nada pra mamãe, porque vão me encontrar lá. -João passou no quarto dizendo.
- Palhaço. -Rute disse, demos uma gargalhada e ele beijou nosso rosto em despedida.
Eu realmente não sabia como ele conseguia fugir da igreja e passar despercebido pelos olhos de dona Maria.
- Banho! -falamos juntas dez minutos depois da família sair.
Desde pequena eu tomava banho junta com Ester, isso se fez costume e hoje quando é necessário, ainda fazemos, como precisávamos ganhar tempo, fomos juntas.
O box do banheiro não era tão grande, então toda hora ela batia com o cabelo gigante no meu rosto.
- Caramba, ta na hora de cortar essa coisa. -reclamei.
- A você que é espaçosa demais. -ela disse.
- Então deixa eu ir, sua chata. -saí enrolada na toalha a deixando sozinha no banho.
Me vesti com uma calça jeans, blusa branca e uma jaqueta preta de coro, usei um all star preto de cano alto e fiquei esperando, deixei meu cabelo solto.
Meu estilo era muito variado, as vezes ficava como menininha, usando sapatilha e todos os tipos de rosa, mas também adorava um pretinho básico, as vezes nem tão básico assim.
Rute apareceu com uma calça jeans com rasgos propositais, uma blusa simples e uma outra de manga cumprida, vermelha quadriculada, seu tradicional tênis vermelho e "simbora"!
Caminhamos pela rua e já avistamos João, com seu skate sendo expulso pela tia da calçada, skatistas tem um sério problema com as velhas que não os atura em sua calçada.
Demos risada dele e passamos por um barzinho que em frente tinha uma pista de skate, mais conhecido como "pistão", sentamos na beira da pista, onde tinha várias pessoas conversando, umas aguardando o lance para dar impulso e manobrar na pista, outras apenas assistindo, muitos meninos bonitos e estilosos.
Vi Rute encarando os lados e resolvi perguntar.
- Algum problema?
- Não, ué. Só quero curtir. -ela balançou os dedos pra cima como gringo em carnaval carioca.
Ri da cara dela, pela falta de jeito em estar no meio de gente "descolada", tinha um grupo distante, que usava droga e tomavam bebidas alcólica, com esse tipo eu não me misturava, eu sou do tipo que curte uma coisa perigosa, na época da escola eu saia com um bonde para os barzinhos, mas nunca fumei sequer um cigarro, achava perda de tempo.
Um homem me encarava, provavelmente eramos os mais velhos dalí, pois a garotada parecia ter uns quinze à dezoito anos, enquanto ele,uns vinte e... quase trinta? Não sei, mas eu, apenas vinte.
- Oi, posso sentar aqui? -ele perguntou.
- Claro. -sorri.
- E aí, o que veio fazer aqui? -quis saber. Ele era alto e forte, cabelo escuro e lábios grossos, atraente, né?
- Só me divertir com a galera. -era o que eu queria, me enturmar com a turma do meu irmão que já dava um show de skate na pista, apesar de pentelho, tinha umas amizades legais.
Descobri que o cara tinha vinte e cinco anos e se chamava Jonas, depois de muito papo, quis me impressionar e pegou um skate emprestado, fez algumas manobras, nada do q ue eu já não tenha visto antes.
Quando dei por mim, Rute já não estava do meu lado, olhei para os lados e não a vi, tentei o celular e nada.
- Gostou? -ele chegou.
- A legal. -falei.
Jonas percebeu minha pouca animação e perguntou.
- Algum problema?
- Cara, minha irmã sumiu e eu preciso ir atrás dela! -falei e saí rápido.
Esbarrei em umas pessoas que me xingaram, depois de distribuir dedo do meio para os idiotas, eu corri no bairro atrás dela.
- Caramba, onde se meteu essa garota? -perguntei para mim mesmo.
Verifiquei no relógio e me dei conta que se eu não fosse naquele momento pra casa, mamãe descobriria tudo. Já coçava a cabeça de preocupação, quando olhei para um beco e vi, na parede do bar, minha querida irmã se esfregando à alguém menor que ela.
- Nossa, nunca pensei, mas vou ter que atrapalhar, antes que dar ruim. -falei e caminhei para mais perto.
- Rute? -falei.
Ela se separou rápido e arregalou os olhos ao me ver, repeti o ato ao ver que quem estava com ela,era uma menina, com cabelo curto e jeitão de moleque.
- Eu posso explicar! -ela falou.
Continuei imóvel, só vi a menina correr e Rute pôr as mãos no rosto.
- Não conta pra mamãe. -ela implorou e pegou no meu braço, já que minhas pernas e todo meu corpo não me obedeciam mais.
No caminho eu fiquei mais tranquila, e ela começou a me contar tudo, a menina se chamava Mariana, e ela era apaixonada à dois anos, disse que nunca se assumiria, porque minha mãe não ia aceitar, ela tinha muita razão nesse quesito, me implorou para que não dissesse nada pra ninguém e nem com ela,pois estava envergonhada.
- Caramba, tudo bem. Nunca pensei que você era lésbica, mas tudo bem. Não vou contar pra ninguém, mas você tem que ter cuidado, qualquer um te veria alí. -falei já chegando em casa e certificando-se que não tinha ninguém em casa ainda.
- Eu sei, é que dessa vez não resisti. -ela sorriu menos tímida.
- Ela é bonita. -falei e entrei em casa dando fim ao assunto.
Enquanto ela se trocava,eu fui direto para o computador, e adivinha?!
Uma entrevista marcada para um restaurante na zona Sul do Rio de janeiro, daqui a uma semana!
Pulei de alegria e quase quebrei o teclado.
- Rute!!!! -gritei
Ela apareceu assustada no quarto.
- O Que foi, garota?!
Pulei no colo dela, tá, a gente quase caiu, mas a felicidade era mais forte.
- Vou para O Rio, daqui a poucos dias!! -gritei.
- Calma aí, como assim?! -ela me deixou de lado e correu para o computador.
Meu coração não se aguentava de alegria, batia forte feito bateria de escola de samba, a qual eu ia me acabar na cidade do carnaval.
Meu sonho começa agora, Rio de Janeiro, aí vou eu!
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