Ele.
Era o começo do segundo tempo, o placar empatado 0-0. O jogo de ida havia sido 1-1, logo estávamos correndo contra o tempo. Por mais que estivéssemos bem no jogo, a marcação do PSG havia cercado o nosso melhor atacante, um mexicano, chamado de León. Percebendo a movimentação no lado esquerdo da área do gol, corri em direção ao jogador do time adversário que estava perigosamente perto. Sua afobação para fazer o gol, entretanto, fora uma vantagem para mim que roubei a bola e toquei para o nosso contra-atacante.
Ao contrário do que os comerciais esportivos demostram, os momentos mais importantes da carreira de um jogador de futebol não passam em câmera lenta. Estar na final da Liga dos Campeões era um sonho de menino, coisa que eu pensava que apenas conseguiria jogando FIFA no Playstation 2 do meu primo. Mesmo com o objetivo de ganhar, o fato de ter acompanhado o time de Liverpool tão longe me dava o sentimento de dever cumprido.
Foi quando o volante do Paris Saint-Germain fez uma falta totalmente desnecessária em León, recebendo um cartão amarelo do juiz, que tive um dos momentos mais preciosos da temporada. Na minha cabeça, eu sabia que o nosso atacante não perderia a chance de fazer gol sabendo que o maior defeito do adversário era no alto, por isso, não entendi quando ele piscou para mim. Segundos depois a bola vinha em minha direção e só bastou que eu saltar e cabecear a bola para a rede. O grito ensurdecedor da torcida gritando gol e os meus colegas pulando em cima de mim com sorrisos maiores do que o rosto me despertaram do que tinha acabado de acontecer. Em cinco segundos eu havia aberto o placar e dado o primeiro passo para a vitória.
No momento em que corria para voltar a minha posição e os torcedores gritavam “I believe we will win!” eu a vi e toda a euforia e adrenalina que jogar futebol me dava pareciam ter sido multiplicados.
Bruna usava a camisa vermelha do Liverpool e um boné branco do lado contrário. Seu cabelo longo e liso balançava para cima e para baixo enquanto ela comemorava avidamente o gol que eu havia feito. Seu olhar era tão cheio de orgulho que me permiti encher o peito.
Entretanto, foi questão de quinze minutos para PSG empatar com um gol de pênalti provocado pelo puxão de camisa que Luke, o nosso zagueiro da direita, dera no contra-atacante deles; e fomos obrigados a vê-los passar pela nossa torcida pedindo para que gritassem mais.
De alguma forma isso me despertou o sentimento enorme de competição e o que era algo que eu não coloquei muitas expectativas se tornou uma obrigação. O cartão amarelo veio como consequência de um carrinho maldoso e mordi minha língua para não xingar o juiz, pois eu tinha consciência que ele havia sido bastante generoso. Qualquer outro levantaria o cartão vermelho sem piedade.
O golaço que León fez depois disso despensa detalhes; se ele não ganhar o prêmio como o melhor gol do ano com aquela façanha, começarei a concordar com as teorias da conspiração da internet que diz que a FIFA é comprada.
O que acontecera depois foi inesquecível: em uma assistência totalmente atípica feita por mim para Kai, um jogador de meio de campo que acabara de entrar, a bola foi parar no canto esquerdo da rede no topo, impossível de que o goleiro ao menos espalmar. Como um zagueiro e um jogador de meio de campo fizeram isso não me pergunte.
Vi o meu companheiro de time apontar para o céu em uma prece silenciosa para sua mãe que morrera fazia menos de uma semana e dei tapas em seu ombro confortando-o antes que o time se abraçasse em alegria para comemorar.
Era fácil ver as faces desesperadas dos jogadores do time adversário. Faltavam quatro minutos de acréscimo e estávamos ganhando de forma quase esmagadora e eu apenas assinei sua sentença ao agir como uma muralha impenetrável para os frustrados atacantes de Paris Saint-Germain. Pior mesmo foi a humilhação que eles sentiram quando uma tentativa de caneta foi vetada por mim e executada com dois jogadores antes que a bola chegasse no meio de campo. O barulho dos torcedores de empolgação me fizeram procurar o rosto conhecido de Bruna na multidão e sentir vontade de beijá-la em comemoração.
Quando o último apito foi ouvido, não chorei ou gritei, muito menos comemorei com a comissão de técnicos que invadiram o campo com tanta euforia que mal cabia no peito. Apenas coloquei as mãos na cintura, um sorriso triunfante e desacreditado estampado no rosto e os olhos rodeando o estádio barulhento com a torcida comemorando a vitória; murmurei uma prece de agradecimentos para Deus por fim. Queria guardar aquele momento porque algo me dizia que a partir dali nada seria o mesmo.
Abracei meus colegas de equipe assim que fomos receber as medalhas e o troféu novinho para o clube. A torcida alternavam entre gritos de vitória e o hino de Liverpool FC enquanto nós nos abraçávamos felizes com aquela conquista. Entre abraços e congratulações, a ficha ainda não tinha caído de tudo que nós havíamos conquistado — que eu havia conquistado.
Imagine só a minha surpresa ao ver meu melhor amigo, León, receber o prêmio de artilheiro da temporada.
— Parabéns, cara! Se você não ganhasse eu estranharia. — Congratulei-o assim que saímos a andar pelo campo, cego pelos flashes das câmeras. Já haviam se passado quase meia hora desde o fim da cerimônia e aos poucos a arquibancada começara a esvaziar.
— Não conseguiria nada sem você, meu irmão. — Comentou o homem, com um ar tão emocionado que o abracei sem pensar duas vezes.
Apenas me afastei quando uma mulher alta e de pele muito pálida correu para abraçá-lo. Mesmo sendo bastante clichê um jogador de futebol com uma modelo Victoria's Secrets, era nítido o amor que os recém-casados sentiam um para com o outro. Observei contente meu amigo chorar e balançar sua esposa pelos ares gritando que seria pai, e me afastei dando um momento a sós para os dois, já que na sua afobação não percebera que metade dos jornalistas escutaram seu grito e registraram as boas notícias.
Ah, ESPN teria muito o que falar naquele dia.
Aconteceu de repente: eu estava andando e olhando para os lados à procura do professor no meio de toda aquela gente e confete, quando meu corpo foi atingido fortemente por trás e caí na grama por falta de equilíbrio.
— You made it! You made it! — Exclamava uma voz feminina e soltei uma risada incrédula ao ver Bruna em cima de mim gritando histérica.
— Caralho, Bruna, acho que você me quebrou umas cinco costelas dessa vez. — Reclamei sentindo uma forte dor abdominal. — E por que você tá falando em inglês?
Ela deu os ombros.
— É divertido. — Justificou em português e sorri com ao escutar seu sotaque sulista.
Levantei-me e a abracei, ignorando seus protestos de que eu estava suado e fedido.
— Pensei que não viria.
Comentei roubando seu chapéu e colocando na cabeça.
— Me liberaram mais cedo e nunca que perderia pra ver o melhor zagueiro do mundo jogando.
— Como você e Candace passaram pela segurança? — Levantei a sobrancelha — Vocês supostamente não deveriam estar aqui.
Ela olhou para o casal que eu deixara para trás e deu um sorriso malicioso.
— Só falo na presença de meus advogados.
Soltei uma risada.
— Aquele gol, aquela assistência... — ela pôs a mão no peito, dramática. — Você só me dá orgulho.
Sorri sentindo minhas bochechas esquentarem de vergonha. Nunca soube bem como lidar com elogio, sobretudo os dela. Agradeci baixinho, me sentindo um menino em sua presença. Queria muito beijá-la decentemente, mas os jornalistas ainda estava em nossa cola. Discretamente contornei seus lábios carnudos com o polegar, vendo-a sorrir daquele jeito que derretia meu coração.
— Quando a parte da comemoração acaba e será pertinente eu falar sobre o encontro com o gato que estuda economia sem soar idiota da minha parte, hein Samuel? — ela disse em tom de brincadeira.
Senti como se tivessem me jogado um balde de água fria assim que ela mencionou mais um crush que tivera.
Eu e Bruna éramos amigos com benefícios faziam quase dois meses, entretanto, sempre soube que isso não funcionaria. Eu já estava apaixonado por ela antes mesmo de beijá-la pela primeira vez e, quando o fiz, foi como assinar o atestado que toda mulher que não fosse ela estivesse estragada para mim. Nunca fui um homem de namorar muito ou sair com várias mulheres, mesmo depois da fama e do dinheiro. Não que eu não tivesse propostas ou que nunca aceitasse nenhuma, mas sempre fui cuidadoso, pois não queria ser conhecido pelo número de mulheres que levava pra cama e sim pelo meu futebol. Acompanhei a carreira de diversos jogadores para saber que ter sua vida pessoal exposta era uma merda e não queria fazê-lo a não ser que fosse sério. Bruna também compartilhava esse pensamento e parecia ter um pavor de ser considerada Maria Chuteira. No começo eu achava engraçado sua irritação por ver os tabloides questionar nossa amizade, mas hoje eu entendia sua resignação. Ela era uma das mulheres mais inteligente que conheci e não era à toa que conseguira uma bolsa para fazer sua pós-graduação de física na Inglaterra — ser conhecida apenas como namorada de um jogador de futebol parecia inferiorizar sua capacidade.
Por isso, não disse nada quando ela estabeleceu que se fôssemos começar a ficar nos pegando pelos cantos, exclusividade não era opção.
Assim como também não falei nada quando ela jurou que nunca namoraria um jogador de futebol no momento em que leu sobre as fotos sensuais vazadas de uma atriz famosa pelo namorado volante e totalmente mau-caráter que espalhou para o mundo, apenas porque levou um pé na bunda.
Uma vez falei sobre um amigo jogador inexistente que queria sair com ela, como de quem não quer nada, crente que poderia conseguir uma brecha naquele preconceito dela, mas Bruna se recusara sem nem pensar duas vezes.
E assim chegamos a minha situação amorosa que assisto minha melhor amiga sair com um punhado de boçais, reclamar para mim que nenhum homem presta, depois passa a noite comigo, diz que nunca vai se cansar de mim e saí de casa animada para conhecer o gato-de-!ão-sei-de-onde que alguma amiga queria apresentar.
Antes que você me chame de covarde por não ter dito a ela o que sentia, lhe asseguro que ela já sabe que eu gosto muito dela e que queria ter um relacionamento sério. Sim, eu já disse isso a Bruna (percebam que omitir a parte que eu estava de quatro para ela e a amava. O que, no final, fora menos decepcionante para mim).
O negócio é que ela não sente a mesma coisa e, infelizmente, isso não está em meu controle. Então, decidi que era melhor ter uma parte bem pequeninha dela ao não ter nenhuma. Mesmo que eu tenha aprendido a viver de migalhas de sua atenção e tendo consciência que não tenho direito de sentir ciúmes, a dor no peito é inevitável e por algumas vezes era agonizante.
Que desgraça! Se ela não tivesse ao menos feito todas as outras mulheres ficassem sem graça para mim...
— Estou brincando, Samuel, relaxa! — ela deu um soquinho em meu ombro.
Sorri amarelo.
— Não acredito que você só tem 22 anos, cara, já parou pra pensar tudo que conquistou? — Ela comentou pegando seu boné de novo — Veja bem: campeão da Libertadores aos 19 anos, do Brasileirão aos 20, do campeonato inglês e da Liga dos Campeões aos 22 anos. Você não consegue ver tudo que você tem tão cedo?
Passei o braço pelos seus ombros encostando meu nariz em seus cabelos negros e me permitindo me embriagar com o seu cheiro.
— Fui reserva quase todos os jogos da Liberta e quase não me deixaram jogar durante o Brasileirão. — eu disse.
Na época eu ficava bastante frustrado — um pivete que havia saído da categoria de base, louco para jogar no time do coração, mas hoje eu entendo que eu precisava ficar no banho Maria por um tempo. Aquela experiência me fez me tornar paciente e inteligente o bastante para perceber minhas limitações. Olhei para dois de meus colegas de equipe agarrando o troféu e o beijando como se fosse a própria Megan Fox materializada e senti como se tivesse passado séculos desde que eu saí do Sport Futebol Clube de Recife.
Nunca imaginei que poderia ter chegado tão longe. Eu, um menino abandonado pela mãe aos cinco anos, que adorava jogar futebol descalço pela rua sem asfalto na periferia de Recife, tinha vencido na vida.
— É. Até que já tenho muita coisa no meu currículo. — murmurei, não me deixando levar pela soberba.
— Queria ter metade da humildade que você tem, Donovan. — ela falou, suspirando — Se eu estivesse em seu lugar estaria gritando “Chupa universo!” e postando aquelas indiretas marotas pra quem disse que você não conseguiria.
Soltei uma gargalhada.
— Aliás, desde quando você é expert em futebol e em minha carreira, hein? — Perguntei cruzando os braços dando um sorriso espertinho.
Ela estalou a língua.
— Desde que comecei a ser a pessoa mais importante da vida do melhor zagueiro do mundo. — falou em tom de brincadeira.
Meu estômago embrulhou e o sorriso vacilou ao perceber a veracidade de suas palavras. Não que Bruna fosse mais importante que meu pai ou minha avó que ajudou a me criar, mas certeza que ela estava no TOP 5, e o fato dela ter ideia que isso era real, só mostrava que cada vez mais meus sentimentos por Bruna estavam expostos e ela nunca os corresponderiam.
Balancei a cabeça me negando a entrar na melancolia de sempre e naquela autopiedade no dia em que ganhei a Liga dos Campeões. E eu fiz o primeiro gol, porra!
— Então, — ela deu um sorriso malicioso — que horas posso ir a sua casa para a gente comemorar junto hoje?
Tinha plena consciência do que ela queria me dizer, mas não estava muito a fim de fingir que Bruna era minha aquela noite e ignorar que no fundo, aquele relacionamento não teria futuro. Me sentia esgotado demais.
— Não vai dá, Bruna. — encolhi os ombros — Vamos ter uma noite cheia de comemorações e festa hoje. Provavelmente vou chegar apenas amanhã de manhã.
Ela fez um bico e uma cara desapontada que quase me fez voltar atrás com aquilo, entretanto, ouvi León me chamar de longe para o grupo com todo o time que se formava na grama.
— Tenho que ir.
E me afastei dela desejando uma garrafa de cerveja o mais rápido possível.
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