CAPÍTULO UM - FORMATURA

- Às vezes, quando ainda criança, me perguntava sobre a existência e extensão do poder de deus, perguntas normais de qualquer curiosa que queria conhecer melhor o mundo. Não entendia muito bem como poderia ser ele capaz de permitir a morte, por que levara minha mãe tão cedo, sem que eu pudesse ao menos conhecê-la direito, contar-lhe sobre meus maiores sonhos e pesadelos, dividir as preocupações, brincar.
Mas então finalmente entendi que algumas coisas ruins têm que acontecer para que outras melhores, coisas incríveis aconteçam. Infelizmente minha mãe nos deixou, mas deus foi tão bom comigo que me permitiu ter o melhor pai que eu poderia ter, que estava comigo quando quebrei o primeiro osso no parquinho da cidade, quando tive a primeira paixonite e quando tive a primeira desilusão amorosa, quando não tinha vontade de estudar, quando pensei em desistir várias vezes e nunca deixou que eu fizesse isso. Esse diploma também é seu. Nunca irei esquecer do melhor presente que deus poderia me dar no pior momento da minha vida. Eu te amo, pai.

Quando terminei de falar, jurei ter visto os olhos dele marejados em lágrimas, mas com certeza ele negaria até o dia de sua morte e eu faria questão de lembrá-lo todo dia. Desci do palco ainda extasiado com o diploma do meu primeiro mestrado e o discurso para todas aquelas pessoas.

Meu pai me abraçou com tanta força que poderia ter quebrado algumas costelas:

­­- Você está ficando profissional em me dar orgulho. - Encerrou o abraço com um sorriso de orelha a orelha, retirando meu capelo para bagunçar meu cabelo com a mão.

- A Giu vai ficar furiosa. - comentei rindo no exato momento que ela apareceu.

Estava linda com os cabelos loiros caindo sobre os ombros estreitos, cobertos pelas alças largas do vestido verde que parecia ter sido feito especialmente para ela, para delinear as curvas de seu corpo e combinar com seus olhos igualmente verdes, naquele momento cheio de lágrimas que os faziam brilhar sobre a luz colorida do lugar. Ainda era o mesmo sorriso da menina que conheci quando era criança, da minha melhor amiga que aos poucos se tornou mais que isso. Muito mais.

- Você está... perfeita. - Apreciei meio abobado. Aquele vestido realmente lhe caiu muito bem.

- Seu cabelo nem tanto. - Encarou meu pai com aquele olhar de quem procura um culpado, mas logo depois abriu um sorriso enorme. - Parabéns, amor.

Terminamos o abraço com um beijo rápido que fez o batom rosado dela passar para o meu rosto. Se me dissessem anos atrás que no dia da minha formatura estaria indo ao banheiro para tirar o batom de Giulia da minha cara após um beijo, diria que estariam mentindo e ainda riria da cara deles, mas hoje meus amigos que estão rindo e comemorando:

- Um puta casalzão da porra. - Elogiou a autointitulada nossa cúpido, Alice, que torceu para que namorássemos por pelo menos dez anos até que finalmente deus escutou suas preces e cá estamos nós.

- Acho que você fica melhor assim, Nic. - Gargalhou Ryan dando beijinhos no ar.

Apenas ignorei e me dirigi ao banheiro rapidamente, pois ainda tinha um caso para analisar quando chegasse em casa. Uma criança muito peculiar, fechada até com os pais, suspeitava que eles tivessem algo a ver com o comportamento tão atípico do menino.

O lugar estava quase vazio, todos estavam vendo discursos e mais discursos de seus familiares ou comemorando após a entrega dos diplomas, mas um rapaz ainda estava lá, ocupando um dos mictórios, olhos fechados como se estivesse curtindo muito o momento, mas por algum motivo eu não conseguia parar de olhar para ele.

Tinha uma aparência muito agradável com aqueles cabelos castanhos bagunçados pela beca e as veias saltando de seu pescoço a cada respiração, assim como de seu pênis de tamanho considerável. Mas então ele abriu os olhos e os deixou sobre mim, estampando um sorriso de canto como quem diz: te peguei no pulo.

Desviei o olhar tão rapidamente quanto pude. Agora ele provavelmente estava pensando que eu era gay ou alguma coisa assim. Por deus!

- Quando eu fico muito nervoso dá vontade de mijar. - Ele comentou casualmente como se a cena anterior não tivesse acontecido.

Agradeci mentalmente ao Senhor por ele não ter pensado o que eu achei que pensaria depois daquela cena patética minha.

- Problemas para falar em público? - perguntei enquanto puxava um pedaço de papel toalha para tirar o batom.

- Não sou muito bom com as palavras. - Contou - meu discurso vai ser um "boa noite, obrigado".

O escutei subir o zíper da calça lentamente. Tive o impulso de olhar completar o ato e arrumar suas roupas, mas preferi não o fazer. Mas por que não? Não tem nada demais nisso? É normal que homens acabem presenciando essas cenas nos banheiros masculinos, por que estava me sentindo tão... sujo daquela vez? As perguntas apareceram na minha mente tão rapidamente quanto cessaram quando o rapaz parou a frente do lavatório ao meu lado. Suas mãos grandes tinham aquelas veias saltando na pele assim como no pescoço e no...
Reprimi o pensamento antes que pudesse completá-lo.

- Acho que você deveria falar o que sente, deixar fluir. Vai sair muito melhor que qualquer discurso planejado. - aconselhei ele, que parou de esfregar as mãos por um breve momento em que parecia estar pensando no que estava sentindo.

- O que estou sentindo não é adequado para uma formatura. - Riu - Eu nem queria toda essa cerimônia, estaria muito feliz com a festa, mas ossos do ofício. - Continuou lavando as mãos.

- Agradece a alguém então. "Boa noite, obrigado" é muito seco.

- Vou pensar sobre isso. - Garantiu puxando um pedaço de papel para secar as mãos para sair, me deixando sozinho, mas não sem antes assegurar que ficaria pensando nele por um bom tempo. - Está tudo bem olhar.

E fechou a porta atrás de si, me deixando com o coração prestes a sair pela boca e uma mente completamente embaraçada em pensamentos que nunca sequer cogitei ter, mas naquele momento era a realidade. Estava perdido.

- Respira, Nicholas. Não foi nada demais.

Tentei me acalmar em vão lavando o rosto. As gotas pingavam lentamente quando desliguei a torneira, e ainda assim a voz dele persistia na minha mente.

Quatro palavras que não sairiam da minha cabeça a noite inteira.

Voltei para o salão ainda com a cabeça em outro mundo, um mundo completamente diferente do que o que o Nicholas padrão vivia, que me tirava o folego e fazia com que meu corpo inteiro ficasse anestesiado. Entretanto era um mundo errado e eu sabia que estava errado, talvez por isso me puni por olhar. Não estava tudo bem, ao mesmo tempo que não me era claro o motivo de algo estar errado.

- Se perdeu no caminho? - meu pai perguntou com um tom brincalhão.

- Demorei muito? - questionei um pouco atordoado, não achei que tivesse passado mais que cinco minutos desde o momento que sai de perto da minha mesa de convidados.

- Perdeu quase tudo. - Alice respondeu, sempre exagerada. Aquelas cerimônias demoravam horas para acabar.

- Quase nada, mano. Só que a Leticia não apareceu pra pegar o diploma. - Ryan contou animado como o bom fofoqueiro que era.

Ryan foi meu primeiro amigo da faculdade, nos conhecemos assim que saíram as listas de convocação e desde então são longos anos contando meus segredos para que ele então faça com que deixe de ser um segredo. A parte boa era que ficava por dentro de tudo:

- Por quê? - perguntei curioso.

- Ninguém sabe. - Fez uma pausa - parece que ela não foi vista há dias. A família dela já foi embora, acho que esperavam que ela fosse aparecer de última hora.

- Mas isso não é surpresa pra ninguém. Leticia sempre foi meio fora da casinha, deve aparecer daqui uma semana com a beca e o capelo perguntando por que não tem formatura. - Alice zombou enquanto tomava da bandeja do garçom uma taça de champagne.

- Ela deve estar muito louca para perder a própria formatura. - Giu comentou um tanto intrigada.

Conseguia ver em sua expressão quando ficava curiosa sobre algo. Ela sempre foi um livro aberto com suas emoções, que acabavam a entregando todas as vezes que tentava manter um segredo.

Ryan colocou o dorso da mão sob o nariz e deslocou a cabeça fazendo alusão a cheirar cocaína.

A nossa conversa de CSI parou repentinamente quando mais m formando subiu no palco para fazer seu discurso, que nem me dei o trabalho de olhar. Já estava cansado de tantos agradecimentos, mas assim que ele começou a falar quase cuspi minha bebida:

- Eu não preparei um discurso. - Começou ele com uma leve risadinha, exibindo aqueles dentes branquíssimos entre os lábios um pouco rosados. - Mas um desconhecido no banheiro há quinze minutos me disse para dizer algo além de "Boa noite, obrigado", então eu dedico esse discurso e o diploma a esse homem que mudou minha passagem por essa formatura. Boa noite, obrigado. - Para completar ele levantou sua taça em minha direção.

Fiquei momentaneamente paralisado até que finalmente assimilei o que aconteceu nos últimos trinta minutos quando meu pai perguntou quem era ele e eu simplesmente não sabia responder:

- Não sei. - Soltei uma risada nervosa. - Só conversamos no banheiro sobre o nervosismo para ir fazer o discurso.

- Gabriel Friedman. - Ryan respondeu. - Estava na minha turma de PhD. É um cara legal, mas muito desapegado.

- Deu para notar pelo discurso de última hora. - comentou Alice.

Giulia mostrou um projeto de sorriso de quem queria perguntar algo, mas meu pai veio primeiro perguntando o que eu tinha dito para ele fazer um discurso daqueles. Ele visivelmente não acreditava na minha capacidade de aconselhar, e eu não poderia dizer que estava errado por isso.

Contei a ele tudo que aconteceu, omitindo um detalhe ou outro que não era importante e que não deveria ser dito, que eu ainda estava decidindo se diria a alguém e ainda me perguntando o porquê disso tudo. Minha cabeça estava uma bagunça que só uma boa noite de sono poderia arrumar - ou uma noitada como iria descobrir algumas horas depois.

Quando finalmente aquela cerimônia entediante acabou tudo que eu queria e daria minha vida facilmente por era minha cama, meu quarto, na solidão da madrugada para pensar, mas as coisas não aconteceram bem assim. Estava prestes a deixar o salão quando Gabriel apareceu subitamente na minha frente como um fantasma que eu, por muito pouco, não tropecei no instante do susto:

- Te assustei? - ele perguntou com um meio sorriso besta de quem já sabe a resposta e pergunta mesmo assim só para tirar sarro.

Neguei com a cabeça.

- Vai ir pra festa?

- Não. Tenho trabalho pra fazer e uma cama pra dormir. - voltei a andar para fora. Tudo que eu queria era sair de perto dele, porque tudo que ele fazia, literalmente tudo me fazia ficar ainda mais confuso sobre o que aconteceu mais cedo.

Mas ainda assim queria manter a conversa. Ele era aquele tipo de pessoa de conversa fácil, magnética.

- Você vai? - continuei.

- Com certeza, e você deveria ir também. O trabalho vai continuar lá quando você voltar, a festa não. - Refletiu ele com um sorriso malandro - A noitada de formatura é de lei.

- Eu não bebo. - Cortei o clima.

- Deveria. Beber faz bem e você está muito tenso. -zombou.

- Talvez eu vá.

Cedi a contragosto da minha parte racional que me alertava a cada segundo que isso iria dar merda, mas ainda assim avisei aos meus amigos, a Giu e ao meu pai - que estranhou muito meu repentino interesse pela festa - que estava indo com a turma para a boate que a galera fechou para os formandos.

Não era nem a metade do caminho até minha casa e já estava arrependido de ter dito sim para Gabriel, que agora estava no banco do carona do meu carro.

Que deus me proteja.

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PRÓXIMO CAPÍTULO EM BREVE

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