• No, I'm Not •

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Esse capítulo pode conter cenas de insinuações explícitas à estrupo, se sensível ao conteúdo por favor não leia.
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Suas pernas se moveram em autoconsciência, se corpo reagiu antes mesmo que Taehyung se desse conta do que estava fazendo porque aparentemente estava ocupado demais se sentindo um bosta no momento para fazer qualquer coisa. Mas ele fez. Seu corpo fez, seu ômega fez.

E agora lá estava ele encarando Jeon Jungkook de cima, sua mão ao redor do pulso fino enquanto tentava manter a calma. Sim, Taehyung havia feito isso, havia ido atrás do alfa e o arrastado até a sala vazia mais próxima e agora não sabia exatamente o porquê. Talvez tivesse sido movido pelas palavras dele ou pela forma como se sentiu a pior pessoa do mundo exatamente como Jungkook havia lhe dito. "Você é uma pessoa ruim", as palavras ecoavam em sua cabeça fazendo-o se sentir desesperado porque ele não era. Ele não era uma pessoa ruim, ele não queria ser uma pessoa ruim. Taehyung tinha tanto dentro dele, tanta coisa que ninguém conseguia enxergar e, por consequência, ninguém conseguia compreender. E ele estava cansado, estava cansado de se sentir sufocado e de lutar contra quem ele era. Porque era cansativo ter tudo aquilo sobre os ombros, era cansativo negar-se e mentir para o mundo. "Você é uma pessoa ruim", a frase continuava machucando seu cérebro e quase lhe garantindo que era verdade. Que ele era ruim. Que ele era ruim com as pessoas a sua volta e, principalmente, consigo mesmo.

Taehyung estava cansado e furioso, tanto ao ponto de apertar o pulso o alfa com toda sua força sem nem ao menos perceber até que sentiu a ponta dos dedos minimamente úmidas. Só então deu-se conta de que suas unhas estavam cravadas na pele do outro e filetes ínfimos de sangue estava grudado em suas digitais. Soltou Jungkook rapidamente ao perceber, como se tivesse sido queimado e se sentia assim, pelo menos um pouco enquanto encarava a própria mão tentando entender quando ele havia se tornado aquele tipo de pessoa.

- Taehyung...? - o alfa perguntou gentilmente, o suficiente para fazer seu ômega ronronar.

Mas Jungkook não deveria tratá-lo assim quando tudo o que Taehyung havia feito fora machucar e ofender e, literalmente, fazê-lo sangrar. Queria gritar para ele ser rude ao invés de lhe oferecer tanta amabilidade. No entanto sua garganta parecia incapaz de pronunciar qualquer coisa enquanto seus olhos choravam. O Kim se encolheu diante do alfa, mas além disso, ele se encolheu diante de Jungkook. Ele Taehyung, não o ômega porque naquele momento não existiam classes ou qualquer outra coisa. Havia apenas duas pessoas em um espaço fechado tentando entender o que estava acontecendo. E havia Taehyung cansado demais para ser forte ou orgulhoso.

- Eu tinha catorze anos quando aconteceu pela primeira vez - falou baixo, as palavras meio estranguladas na garganta. - Eu sabia que era um ômega antes mesmo do primeiro cio, eu não era como sou agora. Eu não odiava alfas.

- Taehyung, você não precisa...

- Eu quero - interrompeu, os olhos ainda encarando as mãos enquanto sentia suas bochechas quentes. - Por favor.

Jungkook assentiu e entrelaçou seus dedos nos do ômega antes de fazê-lo se sentar em uma das cadeiras, sentando-se ao seu lado logo em seguida. Taehyung se sentiu bem com o toque, não era nada sexual ou coisa do tipo, era apenas apoio. Algo para fazê-lo se sentir forte. E estava dando certo, por isso apertou com mais força antes de deixar as palavras saírem sozinhas pelos seus lábios.

- Foi tudo muito rápido - continuou. - Veio de uma vez e, quando nos demos conta, o lugar estava repleto de feromônios. Meu pai teve que tirar meu  irmão de cima de mim, ele era novo e não sabia se controlar o suficiente ainda. Ele teve que mandá-los para longe e enquanto fazia isso eu fiquei no jardim com medo enquanto meu corpo estava quente e pedindo por algo que eu nem mesmo entendia direito o que era.

Ele teve que fazer uma pausa para respirar mal se dando conta de que havia parado de fazê-lo momentos antes. Nunca havia dito aquilo em voz alta porque sabia que seria difícil, doloroso. Mas, bem, Jungkook apertava sua mão e girava o polegar sobre sua pele enquanto olhava para o quadro negro em silêncio. Era reconfortante.

- Havia um homem que trabalhava para nós eventualmente. Ele era... - Taehyung não conseguiu dizer, mas não precisava porque sabia que Jungkook tinha entendido. - Ele era velho o suficiente para ser meu avô, mas isso não o impediu. Eu não o impedi porque ele cheirava a bolinho de canela. Eu adorava bolinhos de canela.

- Taehyung...

- Estávamos atados quando meu pai voltou, eu tinha a porra de um nó em mim e... - mais uma vez Taehyung sentiu que não conseguiria, sentiu que iria desmaiar porque sua visão estava escura demais. No entanto era apenas a dor das lembranças. - Depois que o cio passou eu entendi o que tinha acontecido, eu esfreguei meu corpo com palha de aço que roubei na cozinha até minha pele estar praticamente em carne viva. Quando chegamos ao hospital descobriram que...

A lembrança tinha um gosto amargo, o pior de todos. Seus dedos apertavam tanto a mão do Jeon que, se fosse o contrário, provavelmente teria partido seus ossos. Mas o alfa não se importou enquanto continuava passando o polegar sobre sua pele, ainda em silêncio enquanto esperava Taehyung pelo tempo que fosse necessário.

- Eu estava grávido - falou de um vez, o estômago se contraindo e o vômito preso em sua garganta. Jungkook rosnou baixinho ao seu lado. - Eu tinha catorze anos e engravidei no meu primeiro cio de um homem que não deveria ter posto as mãos imundas em mim. É, mas eu estava. No final das contas esse foi o menor problema a se resolver porque no dia seguinte já não estava mais.

Mais uma longa pausa porque a raiva o fez engasgar enquanto empurrava o vômito garganta abaixo pela terceira vez.

- O alfa foi levado à justiça e alegou ter agido sob influência dos feromônios - dessa vez foi Taehyung quem rosnou. - O juiz também era um alfa e declarou que meu pai agiu inconsequentemente ao me deixar sozinho. Não houve nenhum tipo de punição e minha família teve que pagar indenização por difamação ao filho da puta.

Taehyung sentiu necessidade de gritar, de socar alguma coisa ou simplesmente fazer o mundo arder em chamas tamanha era sua raiva. Mas ele não fez nada disso. Apenas secou as lágrimas nas bochechas com uma das mãos enquanto se agarrava a  Jungkook com a outra.

- Eu fui estuprado na minha própria casa aos catorze anos, engravidei do filho da puta e ele continuou com a vida usufruindo do dinheiro da minha família porque meu pai foi declarado como o verdadeiro culpado pelo que aconteceu - grunhiu alto. - Fui à terapia por muito tempo depois disso, fui a grupos de apoio e tentei esquecer. Mas... eu não consigo. Eu não consigo não odiar toda essa merda, eu não consigo não odiar alfas. E minha mãe age como se ela não soubesse pelo que passei. Ela e o meu irmão me fizeram passar o cio com alguém novamente, com um alfa.

Pelos minutos seguintes nenhum dos dois disse coisa alguma, apenas ficaram lá sentados lado a lado com as mãos unidas e os dedos entrelaçados apertando um ao outro com força como se estivessem em alto mar correndo risco de se afogar. Taehyung não sabia quanto a Jeon, mas ele sentia seu estômago fundo dentro de seu corpo conforme sua respiração ia ficando cada vez mais regular ao mesmo tempo que a consequência de seus atos impensados pesava sobre seus ombros. Ele tinha dito a alguém, pela primeira vez em sua vida havia dito a alguém e esse alguém era Jeon Jungkook. O que isso significava? Bem, ele não sabia. Mas, para ser sincero, estava mais preocupado com as consequências do que qualquer outra coisa. Ele não conhecia Jungkook, não sabia até aonde ia seu caráter ou o que ele faria com toda a informação. Porém, de alguma forma bizarra, sentia que não precisaria se preocupar. Sentia que o alfa saberia exatamente o que dizer.

- É agora que você diz alguma coisa - sussurrou quando o silêncio ficou insuportável. - Quer dizer, se quiser. Você pode ir embora, sabe, não me deve nada. Eu... eu só...

- Ele ainda é vivo?

Ahn?

Taehyung demorou mais segundos do que o necessário para entender a quem Jungkook se referia e compreender o que aquilo significava, porque estava tudo lá no modo como o alfa rosnou como se fosse uma besta selvagem, como se fosse capaz de se transmutar como seus ancestrais e rasgar a garganta de alguém. Rasgar a garganta dele. Por Taehyung, pelo que ele havia feito à Taehyung.

- Não sei - provavelmente sim, quer dizer, alfas em sua maioria viviam o suficiente para ver seus bisnetos. Mas Taehyung não queria pensar que em algum lugar do mundo o homem que colocou um filhote indesejado em sua barriga estava levando uma boa vida.

Jungkook suspirou, parecia cansado.

- Eu sei que dizer que sinto muito não vai ajudar, mas eu sinto.

- Já faz muito tempo.

- Mas não o suficiente - "não, não faz" Taehyung pensou. - Nunca vai fazer tempo suficiente.

- Não - concordou.

- Acha que um dia pode, sabe, deixar de odiar alfas? - havia algo ali que Taehy não conseguiu identificar, algo muito próximo à ansiedade o que não fazia sentido, então deixou pra lá.

- Talvez - ele queria poder, queria muito mas não sabia se conseguiria. - Eu não odeio minha mãe ou meu irmão, apesar de tudo.

- Eu posso fazer isso.

- Fazer...?

- Fingir com você - explicou. - Durante os cios, enquanto precisar.

- Jungkook...

- Olha, eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo e todo o resto - o alfa se virou para Taehyung pela primeira vez desde que haviam se sentado ali, seus olhos brilhava em lágrimas recentes. - Eu sei que você me odeia. Mas eu... porra, Kim, não dá só para você dizer que tudo bem? Só dessa vez?

Taehyung não queria. E ao mesmo tempo queria muito. Seria tão mais fácil ter um cúmplice nessa porcaria, tão mais fácil ter alguém em quem confiar. Alguém que respeitaria seus limites, alguém que não aproveitaria a primeira oportunidade para enfiar o pau na sua bunda. Mas, merda, aquele era Jeon Jungkook e ele não queria pensar quais seriam as consequências de tal proximidade. Até que ponto eles chegariam? Até que ponto Taehyung chegaria? Porque Jungkook podia ser um filho da puta com uma língua cortante, mas sabia ser... bom, ele havia secado seu cabelo. Havia arrumado seu quarto e trazido suas refeições todos os dias sem nada em troca. Quer dizer, ele não era pago para essas coisas, em todo caso. E isso não podia ser bom. Não para Taehyung, pelo menos.

- Não precisa me pagar - o alfa disse quando Taehyung não respondeu. - Eu preciso do dinheiro, mas não de você.

- É o seu trabalho, Jungkook.

- Dessa vez não vai ser - garantiu. - Eu sei não é um trabalho razoável mas é o único que paga bem na minha idade. Eu não tenho uma bolsa de estudos, eu preciso do dinheiro e se eu tiver que... você sabe, então eu farei. Mas não com você.

- Por que não?

- Não sou um animal, Taehyung.

É, talvez ele não fosse. Talvez nenhum deles fossem. Talvez não se tratasse de classe e sim de caráter. Talvez Taehyung estivesse errado. Talvez um dia ele pudesse deixar tudo para trás. Eram tantas as possibilidades.

- E você merece mais - Jungkook continuou. - Você merece alguém que te ame, não um cara que fode ômegas em troca de algumas notas.

- Jungkook, eu...

- Você está certo quanto a isso - ele deu de ombros, completamente derrotado. - É o que eu faço.

Sim, era o que ele fazia. E Taehyung queria muito, muito mesmo perguntar o motivo. Mas não o fez porque não importava de verdade. Jungkook tinha um trabalho e isso era tudo porque esse trabalho não incluía mais Taehyung.

- Tudo bem - o ômega soltou sua mão da do alfa e sentiu-se frio por segundos antes de se levantar. - Eu te aviso quando estiver perto.

- E vai me ignorar o resto do tempo?

- Eu...

- Você é basicamente amigo do Hoseok, almoça com o Yoongi. O que tem de errado comigo, Taehyung?

- Seu cheiro - falou sem pensar porque era verdade, ele odiava o cheiro do alfa.

- Meu cheiro?

- É insuportável.

- Wow, é a primeira vez que escuto isso - ele riu. - Então não gosta de mim por causa do meu cheiro, só por isso?

- Basicamente.

- Você é tão... - por um momento Taehyung pensou que o alfa fosse começar a soltar um milhão de injúrias, mas ao invés disso ele apenas riu ainda mais alto. - Você é um mentiroso, Kim. Meu cheiro é ótimo.

- Não para mim - na verdade era, era ótimo. Quer dizer, era tão bom que chegava a ser insuportável. Mas ninguém precisava saber disso.

- Bom, então eu só posso dizer que lamento - não, ele não lamentava e os dois sabiam disso. - E, a propósito, o seu cheiro também é muito ruim.

Taehyung deu de ombros porque não importava, ele não gostava do próprio cheiro de qualquer forma. Ele não gostava de nada que o fazia der como era. Então, bem, ele simplesmente não se importava.

- Eu tenho que ir agora - falou.

- Tudo bem por sim, Kim.

- Certo.

Apenas quando estava na porta foi que ele se lembrou de virar-se novamente para o alfa e fazer o que devia ter feito muito antes.

- Jungkook - chamou.

- Uh?

- Obrigado - disse baixinho, mas não importava porque os alfas tinham ótimos ouvidos. - E me desculpe, eu não devia descontar minhas frustrações nas pessoas.

- Não devia mesmo - sorriu. - Mas está tudo bem, Taehyung, você tem motivos.

- Mas não é uma justificativa.

- Não, não é.

Dessa vez quem sorriu foi Taehy, o estômago aquecido por algum motivo do qual ele não se importava no momento porque estava ocupado demais olhando para como Jungkook parecia bonito com a luz do sol que entrava pela janela refletindo em seus cabelos.

- Te vejo no próximo mês?

- Não - sorriu ainda mais. - Você me vê amanhã.

- Ah - Taehyung tinha certeza que suas bochechas estavam tão vermelhas quanto possível. - Amanhã então.

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