C A P Í T U L O 68

Sentimentos sobressalentes

          Claramente ele não estava me levando a sério. O início de um riso retornou tomando suas feições, mas desta vez ele teve a decência de controlá-lo antes que eu me deixasse levar pela raiva e soltasse todos os insultos passados pela minha mente. Descruzando as pernas, ele se afastou do resguardo, para só então responder:

          ― Em nenhum momento eu disse que não posso.

          Calmo e cuidadoso, Anton deu um passo na minha direção, e nesse instante eu soube que ele estava prestes a me submeter a outra de suas manipulações. O cheiro entorpecente, o olhar intenso e o toque possessivo do qual eu não teria como escapar. Ele deu outro passo, outro, e a essa altura o meu corpo estava todo desperto e ansioso, meu coração se debatendo tão desordenado quanto as minhas dúvidas.

          ― Eu apenas prefiro me alimentar de mulheres, mas ao contrário do que você está pensando, não há nada de sexual envolvido na minha preferência.

          A sua voz ressoava muito mansa, íntima, quando ele parou à minha frente. Uma grande e intensa sombra negra. Tão próximo que o meu campo de visão foi restringido ao seu colarinho alto, tão poderoso que arfei, engolindo as agudas palpitações me vinham à garganta. E ele nem sequer havia me tocado. Meio aérea, deixei um "Não?" sussurrante soar, e outra vez ele negou.

          ― Nunca houve. ― Erguendo as mãos, Anton afastou algumas mechas esvoaçantes caídas sobre a minha face, o resvalar sutil como toque de algodão contraindo ainda mais aquele nó de ansiedade em meu estômago. ― A mordida na maioria das vezes até acabava sendo uma consequência do sexo, mas nunca o contrário.

          ― Mas...

          ― Fada ― com a ponta dos dedos, ele buscou o meu queixo e elevou o meu rosto em direção àqueles olhos que me fitavam de cima com a suavidade de um alvorecer ―, para mim aquelas pessoas não passam de uma fonte de alimento, e só prefiro um rebanho feminino porque o sabor do sangue é mais refinado e geralmente mais limpo.

          Anton pousou dois dedos no meu pescoço no exato local onde o meu sangue pulsava, um tremor breve e repentino percorreu o meu corpo ao toque, e eu fechei os olhos absorvendo a sensação, sentindo-o escorregá-los vagarosamente, desenhando com destreza a trilha que levava à minha clavícula.

          ― É como beber um bom vinho acompanhado do privilégio de poder tocar um violino ― prosseguia ele contornando a linha do meu ombro. ― Suas veias são mais frágeis e me exigem um controle maior para a harmonia e fluxo perfeitos. Seus batimentos, mesmo acelerados, são mais suaves, melodiosos e facilmente manipuláveis, o que me permite cultuar por um pouco mais de tempo o interlúdio que antecede a morte.

          Ao fim das suas palavras, percebi que prendia a respiração, mas foi só preciso um mínimo impulso para que meus pulmões voltassem a funcionar atenuando parte do nervosismo que me tomava por dentro. Esse era um daqueles momentos cuja certeza de que Anton nunca mentia, reforçava o pequeno alívio que a sua explicação tinha me fomentado. Não que eu tivesse me conformado com aquelas circunstâncias, não mesmo, eu continuava o querendo longe de qualquer mulher e talvez disposta a qualquer coisa, a qual, no calor do momento, me parecia a única solução.

          ― Por que você não se alimenta de mim?

          Agora sim, eu havia perdido completamente a cabeça. Não havia mais volta e mesmo que tivesse como retirar as minhas palavras, eu não o faria, ainda que eu não fizesse a menor ideia da real proporção do que tinha sugerido. Eu nem sequer sabia se seria capaz de suprir a sua fome, mas não importava. Se ele já havia tomado a minha razão, o meu corpo e o meu coração, o que seria o meu sangue? A verdade era que nenhum outro sentimento, nenhuma ponderação, superaria a intensidade do que eu sentia por ele.

          Era normal estar com medo, mas nem um pouco arrependida?

          Outra vez pude sentir a tensão paralisando meus pulmões enquanto assistia àqueles olhos súbitos e ligeiramente atordoados retraindo-se, às suas pupilas se dilatando, e uma contradição perigosa; a dúvida regada ao ardor do desejo e ao mesmo tempo a algo ferino e violento, as cobrindo. Tão atraente quanto desesperador.

          Então veio o tardio e sutil mas poderoso ricto em sua boca, que aos poucos iluminou aquelas profundezas penetrantes, preenchendo-as com fascínio, talvez humor. Os seus dedos, que se mantinham estáticos em meu ombro, desceram ao longo do meu braço, a sua mão abraçou o meu pulso e, sem retirar os olhos dos meus, ele calmamente o levou aos lábios.

          ― Você me deixaria mordê-la? ― Sua rouquidão aveludada soprou morna sobre a minha pele gélida, o contraste fazendo-me arfar, ciente da sensibilidade da região. 

          Em meio ao caos que se digladiava em meu peito, se contorcendo e refletindo em todas as direções, a voz me faltou, mas inspirei e acenei com a cabeça em um gesto casto, porém, decisivo.

          Ainda me observando, Anton depositou um beijo demorado sobre a parte interna do meu pulso, e tudo pareceu ficar mais lento quando os seus lábios se abriram e a sua língua deslizou ao longo da minha veia, úmida, ardendo em sua calidez, reascendendo aquelas fisgadas em meu ventre que sobrepujavam qualquer temor, e que perto dele sempre se mantinham à espreita.

          Outra lambida, e eu me encontrava com os lábios entreabertos, o peito subindo e descendo meio fora de ritmo, hipnotizada pelo modo como a sua língua se movia e as suas presas raspavam sedutoramente, beliscando e provocando. A espera. O anseio. O que foram breves segundos, pareceram uma eternidade perdida em um mundo inexistente, efervescendo tantas outras sensações conflitantes, que tornavam aquele desejo tão confuso quanto perturbador.

          Ele iria me morder, e por mais que parecesse uma loucura, eu queria. Queria ver, sentir. A curiosidade se impunha a qualquer repercussão, a qualquer medo da dor, e só se sobressaía a ilusão de que após aquela mordida, eu enfim alcançaria o seu coração, ainda que fosse somente através do meu sangue.

          ― É um convite tentador ― Anton sussurrou, as suas pálpebras se fechando. ― A mera possibilidade de poder provar o seu sangue mais uma vez, é quase irresistível. ― Inspirando fundo, ele voltou a abrir os olhos e com um último beijo em meu pulso, o afastou. ― Mas a minha realidade é corrompida demais para suportar a inocência da sua.

          Confusa e sem entender o que ele quis dizer, abracei meu pulso contra os seios, assustada com as reações do meu corpo, com a excitação iminente, mas sobretudo, com a expectativa e o desejo insano de sentir suas presas me perfurando. Será que era assim que aquelas mulheres se sentiam? A lembrança havia sido um estalo, e eu mais do que depressa tentei me afastar dando um passo para trás, mas Anton agilmente me puxou de volta pelos quadris.

          ― Se não há nada de sexual envolvido como você disse, por que aquela mulher, a primeira, parecia sentir prazer?

          Ainda mais rápido, seus braços me contornaram a cintura de modo que me vi envolvida em seu abraço, levemente ofegante, com seu corpo grudado ao meu, o meu reagindo ao delicioso calor do dele. Um arquejo me escapou quando seus dedos se encaixaram por entre os meus cabelos presos, e puxaram a minha cabeça para trás projetando a minha boca para ele.

          ― Esquece isso, hum? ― Seus lábios pairaram sobre os meus, o inferior atiçando entre um toque e outro para que eu os abrisse, e por um segundo, um mísero segundo, correspondi fechando os olhos e absorvendo a promessa ardente da sua carne macia brincando com a minha, e então deslizando pelo meu maxilar. ― Eu tinha planos melhores para nós esta noite.

          Droga, eu também tinha planos melhores e nenhum deles envolvia uma briga ou aquelas inseguranças que eu evitava remoer, mas eu precisava saber, precisava acabar com qualquer resquício de dúvida que ainda existia, tanto quanto mal conseguia raciocinar com o meu corpo ameaçando se desfazer em meio a obstinação daquela boca sugando e mordiscando pequenas porções da minha pele.

          ― Só... responda ― consegui balbuciar, minha respiração saindo em lufadas curtas.

          Relutante e com um suspiro que se assemelhava a impaciência, Anton afastou os lábios da curvatura do meu pescoço, e eu agradeci aos céus por ele não ter me soltado e ainda parecer tão disponível.

          ― Porque ela estava gostando ― girando os nossos corpos, ele passou a me empurrar em direção ao corredor, forçando lentamente meus passos para trás ―, mas isso não quer dizer que o que eu estava fazendo ou sentindo era algo sexual.

          Estranhei, não que eu não tivesse acreditado nele, pelo contrário, eu presenciara com meus próprios olhos o que ele acabava de me afirmar, mas Anton havia dado muita ênfase ao "eu", o que foi razão mais que suficiente para agravar minhas dúvidas quanto ao que acontecia com a mulher.

          ― Gostando como? ― arrisquei, e enquanto ele me analisava de cima, os seus dedos entrelaçados em meus cabelos, iam puxando um a um, os grampos que o prendiam em um coque baixo.

          ― Como um viciado sob os efeitos de sua compulsão. ― A camada densa de fios rapidamente caiu ao longo das minhas costas, e eu continuava me deixando levar pela pressão voluptuosa daqueles músculos em meus seios, com os braços encaixados em seus ombros e o meu olhar rendido à veemência dos seus abismos. ― Assim como a sensação do nosso sangue no organismo de vocês pode viciar, receber a mordida também. Não é uma regra e não quer dizer que acontece com todos que a experimentam, mas alguns comparam a sensação ao efeito de um psicotrópico, outros, ao prazer sexual.

          ― Prazer sexual?! ― praticamente gritei, e tentei me soltar dos seus braços, mas Anton me segurou firme. ― Como admitir isso pode melhorar a situação? Você dá prazer a elas e...

          ― Não ― interrompeu-me, tão incisivo e autoritário que todas as minhas convicções e objeções subitamente ficaram fora de projeção. ― Eu disse apenas que comparam, mas há uma grande diferença entre a realidade e a fantasia de um viciado. A elas ofereço apenas uma ilusão, a sensação de morte, o desejo por algo que nunca irão possuir e que nunca será satisfeito. ― Havíamos parado, e só naquele momento eu percebia que estávamos de volta ao corredor, mas ainda banhados pela luz da lua; eu com meu coração trovejando e as minhas costas muito próximas à superfície rochosa de uma coluna. ― Agora prazer?

          Anton me apertou ainda mais contra ele, fazendo-me sentir cada centímetro poderoso do qual era feito, uma de suas mãos segurando firme a minha bunda, pressionando-me contra a rigidez encorpada do seu sexo, a outra em minha cabeça mantendo nossos rostos a um suspiro de distância.

          ― Prazer eu dou a você ― completou, o seu fôlego curiosamente mentolado atiçando minha boca.

          Havia tanta certeza e ao mesmo tempo tanta ambição em suas palavras, que até parecia que a sua obstinação em garantir o prazer alheio era um ato exclusivo a mim, mas pouco tive para refletir sobre, pois a mão que se encontrava em meu traseiro havia subido pela minha cintura até os meus seios, dedos longos agarrando cada pedaço disponível da carne volumosa, e eu lutando contra o ar que me escapava aos espasmos, para impedir um gemido.

          ― Prazer eu dou quando te faço gozar na minha boca usando apenas a minha língua ― provocou, e talvez as minhas pernas tenham fraquejado um pouquinho, mas Anton tornou a me envolver a cintura e tão logo o meu lábio inferior estava entre os seus dentes, a minha necessidade ecoando e os meus dedos cravados nas bordas do seu casaco tentando trazê-lo mais para mim. ― Ou quando coloco você de quatro e te fodo tão gostoso que você goza cinco vezes seguidas.

          Céus! 

          Agora ele ia despejar todas as safadezas que fazia comigo na minha cara? A minha sorte foi que ele nem percebeu o rubor que me subiu, pois por fim cedeu aos meus avanços, permitindo que a minha boca alcançasse a sua. Era tarde demais para pensar, para reprimir, todos aqueles sentimentos tornaram-se físicos e estavam à superfície da minha pele, em êxtase por finalmente tê-lo.

          O seu cheiro, o seu gosto, a violência daqueles toques, tudo meu e só para mim. A sua língua na minha, a minha fome na sua, e toda a luxúria que fervilhara sob a minha pele durante o jantar, enfim se lançando para além do meu corpo, nos meus gestos, na minha reciprocidade à cada reação possessiva dele, à cada sussurro de conexão que os nossos lábios faziam.

          ― Não é o suficiente, hum? ― ele indagou, as nossas respirações agitadas, a sua testa colada na minha e as suas mãos segurando minhas coxas ao redor de seus quadris, sustentando-me contra a parede.

          Passando um dos braços pelos meus quadris, Anton me levou pelo corredor, mas era muito para esperar e logo as minhas costas estavam de volta a outra superfície fria, e mais uma vez os seus lábios reivindicavam os meus, a sua língua me preenchendo, e então as suas presas me arranhando o queixo, o pescoço, incendiando-me na sua pressa, e eu no meu desespero correspondendo e esfregando meu centro em sua ereção. Novamente, eu tinha aquelas mãos explorando o meu corpo, o deslizar por cima da seda que cobria os meus quadris, o meu ventre, arrepiando-me e me arrancando alguns gemidos lânguidos quando encontraram os meus seios inchados, a minha clavícula e as finas alças do vestido.

          ― O que mais você quer? ― insistiu ele, e foi só um arrastar das alças pelos meus ombros e braços para que a seda escorregasse expondo os meus seios. Apertei as pálpebras levando meus dedos aos seus cabelos, trêmula, com o coração pulsando ensandecido vindo à boca, sentindo tudo dentro de mim em descompasso.

          ― Eu quero você ― abri meus olhos e mirei os seus, apesar das sombras, os remanescentes raios da lua ainda permitia ver a fome que emanava deles, como se o corroesse por dentro, tal como se estivesse sendo consumido pelo fogo ―, só pra mim.

          Com umas das mãos agarrada à minha garganta, Anton avançou sobre a minha boca sufocando o som que ressonei, primeiro de susto, depois de desejo, quando seu membro foi esfregado em seu sexo. Brusco, vigoroso, irradiando um calor que ultrapassava sua calça e penetrava a minha calcinha de renda.

          ― Você diz que sou sua ― ofeguei em sua boca cravando minhas unhas em seus ombros, sentindo minha intimidade arder e pulsar a cada movimento. "É minha e só minha" , declarou ele e eu reafirmei: ― Eu sou. 

          Um bramido rouco foi a sua réplica possessiva desta vez enquanto lábios inquietos e sedentos desciam devorando a minha garganta, suas presas afiadas me marcando. 

          ― Mas também preciso que você seja... ― prossegui, tão logo me engasgando ao senti-lo abocanhar meu seio direito, a minha voz virando uma sequência de ruídos desconexos em meio às sucções enlouquecedoras. 

          Íris cintilantes me observaram de baixo, apreciando o que aquela língua fazia comigo, vendo a urgência em meu rosto e refletindo o prazer que tensionava a minha carne. Ele, deliciando-se, compartilhando a ânsia dos meus sussurros e sorrindo da força com que eu agarrava os seus cabelos.

          ― Meu... me diz... me diz que é só pra mim ― pedi aumentando os movimentos dos meus quadris, intensificando o atrito entre nossos sexos.

          No prazer do momento, o meu corpo apenas correspondia às sensações, e eu já nem sabia mais o que estava falando. A troca para o outro seio me rendeu um choramingo agoniado, porque só foi um beijo de língua para umedecê-lo, antes que Anton se endireitasse alinhando seus lábios nos meus.

          ― Já há algum tempo ― disse pegando a minha mão e levando à saliência extremamente rija contida em sua calça ―, é só por você.

          Estanquei, totalmente sem ar, sentindo o golpe de suas palavras em meu coração.

          Não, não era amor, não era sentimento e eu poderia estar sendo uma idiota por me contentar com menos, mas naquele momento um calor gostoso transcendeu meu peito, e eu me senti a mulher mais feliz do mundo. Ele acabava de me dizer que era eu e somente eu, a razão do seu desejo, e por saber que não podia esperar muito mais dele, me pareceu tão significativo que me soara quase como uma promessa de fidelidade, e Anton nunca me prometeria algo que não pudesse me dar. Eu o tinha, o tinha exclusivamente de alguma forma.

          Ele havia se afastado sutilmente e me olhava como estivesse tentando desvendar o motivo da minha inércia. Pisquei algumas vezes e, levada por aquela paixão avassaladora, ataquei a sua boca sendo recebida com um riso breve de quem foi surpreendido, e a tomei com desespero em um beijo ávido e inflamado. 

          "Você me deixa louco, merda" ele grunhiu e eu murmurei um "Não mais do que você me deixa" sem interromper a dança sedenta dos nossos lábios. Entre pulsões de línguas, dentes e puxões de cabelo, a sua respiração ia se tornando o ar que eu inalava e a falta deste conforme eu entregava tudo o que era dele, até não me sobrar mais nada, até que meus sentidos falhassem e tudo que eu conseguisse fazer, fosse me agarrar às sensações e às batidas arrebatadas que efervesciam meu corpo.

          ― Abra ― Anton rosnou, os dentes cerrados em meu lábio. Levei alguns segundos para processar que ele se referia ao botão da sua calça, perto de onde a minha mão continuava a acariciá-lo. ― Preciso foder você aqui, agora.

          No meu estado, não era preciso pedir de novo. Unindo uma mão trêmula à outra, tentei abrir a droga do botão uma, duas vezes, mas só na terceira consegui, arquejando ao senti-lo enfiar a mão entre nós e arrastar a minha calcinha para o lado. Esperei ansiosamente o toque dos seus dedos, forçando a malha da cueca para baixo, mas tão de repente o seu corpo se enrijeceu, e Anton interrompeu nosso beijo retornando a minha peça íntima para o lugar.

          Um xingamento qualquer fora proferido enquanto ele me devolvia para o chão, mas eu estava atordoada demais para processar, tentando me estabilizar em minhas pernas trépidas e entender o que estava acontecendo, principalmente por que Anton puxava a seda vermelha para cima dos meus seios.

          ― Anton... ― Calei-me ao ouvir passos pesados, e tomada por um raio de lucidez, virei-me apressada para o outro lado procurando as alças do vestido.

          Tudo aconteceu tão depressa, que não tive tempo de passá-las pelos meus braços, num segundo eu estava com o blazer do Anton jogado em meus ombros e no outro eu agarrava firme a frente do vestido contra meus seios, ciente de que o dono daqueles passos, já havia nos encontrado.

          ― É bom que você tenha uma boa razão para ter vindo até aqui, se quiser sair deste corredor com vida ― Anton advertiu, seu timbre cadenciado soando mortífero.

          Tentei ignorar seu efeito congelante e discretamente, sem soltar o braço que protegia meus seios, capturei as laterais do casaco fechando-as por dentro com uma mão, em seguida me virei dando um passo à frente, parando com metade do meu corpo atrás do Anton. No mesmo segundo, os olhos de Kranz Soames me encontraram em uma olhadela fugaz, talvez impulsiva, que o levou a disfarçar inclinando a cabeça em reverência. Eu nem queria imaginar o meu estado, provavelmente comprometedor, apenas me encolhi, aconchegando-me um pouco mais às costas do meu marido.

          ― Você me conhece e sabe que eu jamais o incomodaria se isso não implicasse desobedecer a uma ordem sua. Você exigiu que eu o mantivesse informado em tempo real, e bem, tentei ligar e...

          ― Sem mais enrolação, fala logo.

          Foi sucinto, mas percebi que o vampiro vacilou o olhar antes firmá-lo outra vez no ser à minha frente. Uma espécie de compaixão me preencheu, pois eu compreendia como qualquer reação do Anton podia ser intimidadora, se não, apavorante, ainda mais quando era contrariado. Kranz, em seu traje tipicamente militar, levou as mãos para trás e pigarreou como se precisasse destravar a voz.

          ― Confirmei minhas suspeitas, o desgraçado é só um viciado inventando histórias. Mas a boa notícia é que encontrei o cocheiro que trabalhava naquela noite. Imagino que você irá querer interrogá-lo.

          ― Prepare-o.

          Sem rodeios e decisivo. Anton se virou de lado e passou o braço pela minha cintura. Sobre o que falavam, eu não fazia ideia, mas só reafirmava que aquela viagem não era apenas a nossa suposta lua de mel. No entanto, até o momento eu não podia reclamar, porque estávamos passando a maior parte do tempo juntos. Ele só havia me deixado sozinha depois que adormeci.

          ― E quanto ao outro? ― o vampiro quis saber.

          ― Não vale o meu tempo, mas faça-o lembrar do porquê ninguém tenta me enganar. ― Apertando-me contra seu corpo, Anton me levou em direção ao fim do corredor, mas poucos passos após passarmos por Kranz, ele nos parou e sem se virar, o chamou: ― E, Soames?

         No intervalo de um instante, o ruído das botas que o vampiro usava, reverberou, sinalizando que ele havia se virado para nós.

          ― Sim?

          ― Não pense que este inconveniente será esquecido, nos acertaremos mais tarde quando eu descer. 




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