C A P Í T U L O 58
Um outro mundo
Terminei de calçar as botas e me levantei da poltrona passando a mão pelo tecido azul-claro, fofinho, que abraçava o meu tronco até a cintura e descia sutilmente rodado até as coxas. Um vestido poderia não ter sido a melhor escolha, mas era o que eu tinha para o momento e estava agradecida por ter me lembrado de colocá-lo dentro da bolsa, já que o meu cardigã se encontrava todo relaxado e a minha calça jeans havia perdido o botão na pressa dele em me livrar dela.
Havíamos acabado de pousar sabe-se lá onde, após pouco mais de doze horas de voo, nas quais apaguei por umas seis entre os intensos momentos que Anton e eu compartilhamos dentro daquele quarto. Um sorriso tímido ascendeu os meus lábios conforme eu corria os olhos pelo lugar. Na cama, na mesa, na poltrona durante o jantar, até no banheiro... Céus, eu ainda podia senti-lo entre as minhas pernas, um leve palpitar que me lembrava do quão profundamente ele estivera ali.
― Faltou o sofá do canto, hum?
Foi automático e desconcertante, meus olhos encontraram aquelas profundezas obscuras observando-me sob uma sobrancelha sugestivamente elevada, o sorriso oblíquo de quem sabia exatamente o que eu estava pensando. Negar não era uma opção quando se tinhas as bochechas pegando fogo e o corpo traiçoeiro evidenciando a verdade, por isso o melhor que eu tinha a fazer era fingir que não tinha entendido, buscando outro assunto.
― Vai pelo menos me dizer onde pousamos?
Passei o casaco de lã pelos ombros, capturei a bolsa e fui em direção a ele, que me aguardava perto da porta, intenso e enigmático, vestindo além das mesmas roupas de antes, um casaco preto de corte militar.
― Estamos no distrito de Doltrania, Romênia.
― Romênia? ― Parei à sua frente, as minhas feições se moldando com aquela estupefação que me deixava de lábios abertos. ― Esse não é o país com a maior concentração de vampiros por quilômetro quadrado?
― Basicamente. É um território quase exclusivo a humanos e vampiros, ressalvo alguns covens bruxos ao norte e algumas alcateias a oeste.
Anton havia perdido o juízo ou pretendia me usar como isca para algum plano maligno? Toda fada que prezava pela sua vida sabia que devia se manter longe daquele país, e não era por que eu era casada com o mais perigoso deles, que não devia temer a situação. O aniversário do Vincent fora uma prova de que a presença dos três líderes da espécie não me deixava completamente imune a intempestividade da natureza deles.
Segurando a minha mão, ele tentou me levar para fora do quarto, mas ao perceber a minha hesitação enquanto ainda avaliava as circunstâncias, parou girando outra vez para mim com uma expressão plácida, o olhar quase doce, mas ainda resguardando toda a sua predominância indubitável, fixo ao meu como se novamente estivesse lendo os meus pensamentos.
― Ninguém que eu não confio irá chegar perto de você, fada. ― Levantando a mão, Anton a acomodou na curvatura do meu pescoço, deslizando o polegar pela minha pele com uma delicadeza que me fez suspirar. Será que havia sido por isso que ele havia levado Rose e os outros conosco? ― Foi aqui que tudo começou. Esse é o meu mundo, as minhas leis, o meu domínio. Eu o controlo, o limito, o reduzo ao que eu quiser, e você já testemunhou que os meus métodos não são indulgentes e tampouco inócuos como os de Vincent e Eleonora.
Eu não só havia testemunhado como também jamais conseguiria me esquecer. Diante de tanta autoridade, que faziam suas palavras soarem como uma sentença de morte, o meu medo parecia uma tolice, porque sim, era óbvio que se havia alguém no mundo que poderia me proteger ali, esse alguém era ele. Analisei melhor, riscos existiriam em qualquer lugar, mas a ênfase em sua voz me fez recordar das razões que me faziam sentir segura ao seu lado. Ninguém ousaria enfrentá-lo e se ousasse não sairia ileso, isso era um fato e a única certeza que eu tinha.
― Eu confio em você ― murmurei colocando-me na ponta dos pés e depositando um beijo em seus lábios.
O meu coração estremeceu quando vi algo intenso brilhar no fundo cristalino dos seus olhos, algo como uma satisfação, tão genuína quanto os meus sentimentos por ele, e a qual me trouxera uma felicidade instantânea que se estendeu a um sorriso. Estávamos tão bem e no que dependesse de mim, permaneceríamos assim para sempre.
Quando Anton me guiou ao longo do avião até a saída, Rose, James, Edgar e Gianni já não se encontravam mais na sala. Ao primeiro passo para fora, fomos recebidos por um poderoso céu negro, com sua vastidão enegrecida realçada pela ausência da lua; um vento soprava fraco, mas gélido o bastante para que fizesse valer a intensa sensação das minhas pernas nuas. O inspirei fundo, sentindo em meio ao seu leve odor salgado, o mesmo frio me invadir e retrair por dentro.
Eu não sabia qual era a diferença de fuso horário, mas parecia ser madrugada, pois também estava silencioso, quieto demais, em especial para um aeroporto. Podia ser um mero efeito daquela ansiedade perturbadora, mas eu também sentia uma espécie de expectativa pairando no ar quase como se o tempo tivesse parado e ninguém mais respirasse, vindo das pessoas que nos aguardavam lá embaixo.
Um novo calafrio me percorreu quando atingimos o último degrau, levando-me a entrelaçar meus dedos aos do meu marido e a me agarrar ao seu braço. Nossos quatro acompanhantes de viagem, agora em seus uniformes, estavam parados logo à frente, próximos a um esportivo de luxo de cor preta, igual aos que Anton guardava na garagem de casa. Para além do automóvel, mais cinco carros altos estavam parados à espera, com seus faróis ligados e guarnecidos por uma fileira de mais ou menos quinze vampiros fardados de preto em posição militar, completamente imóveis.
Não reparei mais que isso, logo fui distraída pela movimentação de um deles ao vir na nossa direção. De perto, reconheci ser o mesmo vampiro que há duas semanas havíamos encontrado na RedDoor, o tal Kranz Soames. Ele se aproximou com um cumprimento breve, mas foi rapidamente interceptado pelo Anton quando paramos perto do carro.
― Você o encontrou?
Kranz se reteve ao nosso lado, pernas afastadas e as mãos atrás do corpo. A pouca luminosidade não me permitia ver todos os detalhes do seu rosto, mas a longa exalação que dera, era de quem não trazia boas notícias ou que não alcançara seus objetivos.
― Ainda não, ele não está morando na colina e pelo que descobri, há um século foi passar uma temporada na Escócia e não voltou mais.
― Algum contato? ― Anton insistiu e novamente o vampiro negou com um gesto, tomado por uma ligeira reticência.
― Também não, mas releve, só estou aqui há duas horas e você sabe o quanto Vlas é discreto e reservado, por...
― Ele pode ser, mas as suas crias não ― Anton o interrompera outra vez, a voz um pouco mais intransigente.
― Por isso fui atrás de Darius, não cheguei a ir ao clã Shvets, mas conversamos por telefone e ele me garantiu não terem contato há mais de cem anos. Só que conheço o tipo e não confio, por isso planejo fazer uma visita assim que sairmos daqui. ― Vlas... Shvets... será que estavam falando do pintor? Trazendo os braços para frente, o vampiro os cruzou sobre o tórax, alisando a densa barba que lhe cobria todo o maxilar. ― Você sabe como é, talvez lhe falte um incentivo.
― Bem, o incentivo acabou de chegar.
Não captei qual era a graça, mas Kranz gargalhou, a vibração grave e potente refletindo pelo local aberto, e por mais exagerada que fosse, não era uma gargalhada forçada ou de quem somente queria bajular. Era de verdade, e me trouxe uma nova percepção das relações que Anton mantinha com os vampiros que empregava.
Por um tempo acreditei que era medo o único sentimento que assegurava a ele toda a lealdade e respeito que possuía, mas aos poucos fui percebendo que medo não poderia motivar os olhares de admiração que vinha dessas pessoas ou a confiança e propriedade no que faziam com tanto orgulho, quase como se houvesse algum tipo de honra e apreço em servir, em serem dignos da sua confiança. Claro, eu não podia generalizar e muito menos ignorar o fato de que havia medo sim, e muito, só não parecia ser este o único motivador.
― Vou resolver isso agora, pelo que me recordo o clã Shvets ficava no caminho, eles permanecem no mesmo lugar? ― Anton quis saber, e virando o rosto para Edgar e Gianni, acenou com a cabeça, fazendo com que os dois seguissem em direção aos carros.
― No mesmo ― respondeu Kranz. ― Muitas coisas mudaram nesses trezentos anos em que você não pisou aqui, a cidade se modernizou, a população aumentou, o turismo também, mas outras coisas permaneceram as mesmas e os Shvets são uma delas.
Anton não pisava naquele país havia trezentos anos? Certo, eu já tinha desistido de tentar não me abalar ante naturalidade com que tratavam dos séculos como se fossem décadas.
― Vá na frente ― Anton deu a ordem e tão logo Kranz se afastou, ele se voltou para mim. ― Preciso resolver algumas coisas, você seguirá com Rose e James.
― Não... ― neguei baixinho agarrando-me mais ainda ao seu braço. Não era medo de estar correndo algum risco, mas sim medo de que ele desaparecesse por dias de novo. Havíamos acabado de chegar e eu não tinha a menor intenção de deixá-lo, ainda mais naquele país que eu não conhecia. ― Anton, por favor...
Não ousei olhar para os lados e mesmo assim fiquei meio sem jeito de continuar suplicando, todos presentes eram vampiros e por mais que estivessem relativamente distantes, poderiam ouvir. Talvez tenha sido por isso que Anton não disse nada, limitando-se a um suspiro antes de abrir a porta do esportivo de luxo e me guiar para dentro dele. Também tive vontade de pular em seu pescoço para agradecer, mas me controlei.
Acomodei-me no confortável banco do passageiro, inspirando o cheiro de carro novo e observando Anton falar alguma coisa para Rose e James, ainda retidos no mesmo lugar. Ela não demorou para entrar no carro junto comigo, se colocando no banco de trás, ao passo que James prontamente seguiu para um dos veículos que carregavam com as nossas malas.
O relógio do computador de bordo marcava três horas da manhã quando finalmente deixamos o aeroporto que, ao contrário dos que eu conhecia, não ficava dentro de uma cidade. Revezando os meus olhares entre o meu marido, a estrada iluminada pelos faróis e o comboio de carros que nos seguia, fora inevitável não sentir aquelas flechadas de adrenalina no meu abdômen. Eu estava prestes a entrar em um mundo completamente novo, não que eu esperasse uma cidade mirabolante, cheia de monstros, mas era um mundo que passei a vida aprendendo a temer, o mundo daquele ser ao meu lado e que agora, por causa dele, eu sentia a necessidade de conhecer.
Conforme avançávamos, a escuridão da noite era atenuada pelas luzes que iam surgindo ao longo do caminho. Logo estávamos de fato dentro do distrito de Doltrania, como Anton dissera. Não havia nada de diferente no local, exceto o intenso frenesi de carros, estabelecimentos abertos e a grande quantidade de pessoas transitando pelas calçadas das avenidas em plena madrugada.
Era evidente que aquela era uma cidade noturna, para seres da noite. Uma cidade de misturas inusitadas, que se dividia entre o moderno de linhas retas e texturas lisas vindas dos prédios, com uma arquitetura antiga composta por verdadeiros palacetes de ardósia com suas torres pontiagudas, detalhes rebuscados e enormes estátuas de pedra. E foi em frente a uma dessas construções excêntricas, isolada por um portão de ferro e uma longa entrada margeada por gárgulas assustadores, que Anton estacionou seguido dos outros carros que nos acompanhavam e que se dividiram parando alguns na frente e outros atrás.
― Fique aqui e não saia de dentro do carro ― Anton advertira, seus olhos cravados nos meus sob a sombra da luz amarelada recém acesa no teto. ― Não vou demorar.
Não tive nem chance de brincar dizendo um "Sim, senhor" ou de avisá-lo que eu precisava usar o banheiro, pois ele mal lançou uma olhadela de aviso para Rose e já saíra do carro. Depois de pegar algo de dentro da maleta que Edgar abrira, Anton seguiu ao lado de Kranz até a grande porta de entrada, resguardada por duas estátuas de mesmo tamanho e dois vampiros que ao primeiro reconhecimento, muito rápido abaixaram suas cabeças e se dedicaram a abertura das lâminas de madeira.
Reparei que Gianni também tinha saído do seu respectivo veículo assim como boa parte daqueles vampiros fardados, e encontravam-se a postos por todo o perímetro. Achei aquela vigilância estranha, um pouco exagerada talvez. Será que eu deveria me preocupar ou aquilo era apenas uma resolução para me fazer sentir segura?
― Rose, quem são e de onde surgiram esses vampiros fardados? ― questionei virando-me para trás de modo a olhá-la, mesmo que agora o carro se encontrasse completamente escuro, e que os vidros fumê pouco deixassem a luminosidade de fora entrar. ― Eles sempre trabalharam para o Anton?
O seu silêncio era prova de que ela estava avaliando o que podia ou não ser dito e eu já esperava uma das suas desculpas gentis para não responder, por isso precisei apelar para o seu lado emocional.
― Rose, já têm dois meses que convivemos e até hoje você não confia em mim? Eu respeito e compreendo a sua lealdade, mas eu só quero conhecer o meu marido, qual o problema nisso? Ninguém nunca me fala nada, e não é como se a cada informação sigilosa que vocês me dessem, eu fosse correr e contar pra ele. Eu jamais faria isso sabendo que poderia prejudicar vocês.
― Desculpe-me, Sra. Skarsgard, mas correr e contar é justamente o que deveria fazer caso eu lhe dissesse algo que não estivesse autorizada a revelar. Se eu o fizesse, estaria traindo a confiança do Sr. Skarsgard, e qualquer tipo de traição, por mais simples que seja, deve ser reportada a ele.
Que tipo lealdade era essa que valia a própria vida? Eu acabava de dizer que jamais a prejudicaria, e ela continuava fiel ao Anton independente das circunstâncias. Inalei frustrada, mais comigo do que com a repreenda dela, eu nunca aprendia. Mesmo sabendo que nunca, nunca conseguiria alguma informação com eles, eu ainda teimava em insistir. O que me restava era o próprio Anton, mas a sua capacidade de manipulação e de me fazer esquecer até o meu nome, reduziam as minhas chances de conseguir respostas, a zero.
― Não me interprete mal ― continuou ela, a voz um pouco mais pesarosa. ― Eu confio na senhora e sou grata pela consideração, mas é que...
― Tudo bem, Rose ― concordei ajeitando-me no banco e girando para frente, eu não iria insistir, ela não tinha culpa e embora essa dedicação insana não me favorecesse, era admirável alguém ser tão confiável. ― Eu entendi, você não pode me contar sobre quem são esses vampiros.
― Esse não é nenhum segredo, eles pertencem à Ordem de Akron e servem ao Sr. Skarsgard há mais ou menos um milênio, desde que a ordem foi fundada por ele.
― Uma ordem? ― O Anton possuía uma Ordem? Seria a mesma que eu havia ouvido ele mencionar na RedDoor? ― Do tipo militar?
― Sim, uma ordem, não necessariamente militar, embora todos nós tenhamos uma formação equivalente. ― "Todos nós?" fora a minha próxima pergunta com o queixo lá no chão, porque era demais para mim, imaginar Rose com a sua aparente meia-idade e seu pequeno corpo franzino, cheia de habilidades militares. ― Todos nós que servimos a ele, somos membros dela.
Controlando-me para não disparar todas as perguntas que piscavam na minha mente, aproveitei que ela estava disposta a falar e consegui sorrateiramente, algumas explicações. Segundo Rose, Anton criara a Ordem de Akron para acolher os vampiros que abdicavam dos seus clãs de origem para servirem exclusivamente a ele. Não chegava a ser um novo clã, mas uma organização em que, além de serem remunerados, eles pudessem mostrar o seu valor e ter uma vida independente dos laços sanguíneos entre cria e criador. Rose também mencionara que nos últimos quatrocentos anos, desde quando Anton se desligara do Conselho de Draos, a Ordem havia adquirido novas diretrizes, as quais, claro, ela se negara a dar detalhes, contendo-se em dizer que eram as razões que levaram uma Ordem tão fechada e seleta, a ser conhecida pelo mundo.
Tentei descobrir o que estávamos fazendo ali, mas a sua cota de respostas parecia ter se esgotado, e assim caímos em um silêncio incômodo que me fizera lembrar do quanto precisava ir ao banheiro. Cada minuto passado era um novo som de protesto do couro sob os meus quadris inquietos, o desconforto na parte baixa da minha barriga ia ficando mais forte, e nada do Anton retornar. Olhei aos arredores e não era nada animador, o palacete ficava no meio de um quarteirão, isolado pela escuridão das árvores que o cercavam, e não seria eu a me aventurar por elas em um lugar como aquele.
Não, não dava mais para aguentar, eu teria de entrar.
― Rose, preciso ir ao banheiro ― avisei já abrindo a porta.
― Sra. Skarsgard, seria prudente esperar...
― Sinto muito, mas já esperei demais, é urgente.
Eu mal saí do carro e Gianni e Edgar já estavam na minha frente me encarando com seus cenhos franzidos e olhares preocupados. Rose também já estava do lado de fora, estendendo um longo casaco preto para mim. De início não entendi a necessidade daquilo, mas não recusei e a compreensão veio em seguida, quando ela puxou um capuz sobre a minha cabeça com a recomendação severa para que eu a mantivesse abaixada.
― Pra que tudo isso, por acaso estou correndo algum perigo? ― indaguei cruzando as partes do casaco pela minha barriga enquanto viajava meus olhos entre os três, à espera de uma resposta que não veio. ― Rose, se estou correndo perigo, eu exijo saber!
― Não está, não se preocupe, não com o Sr. Skarsgard aqui. Ele apenas não quer expor a senhora ao clã e ao lugar. ― Àquela altura era uma desculpa aceitável, eu só queria ir para o maldito banheiro logo, e não tinha a menor intenção de ficar por lá mais que o necessário.
― Certo, só me leve ao banheiro.
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