C A P Í T U L O 52
Asserções inacabadas
Voltei-me para a tela percebendo que nunca havia parado para pensar nesse detalhe. Na verdade, eu nunca havia feito nenhuma analogia do nome à obra, assim como não havia nada em sua lenda que indicasse que Fressa possuía um segredo. De qualquer modo, ela era apenas uma crença antiga e aquela era somente uma pintura, uma personificação do ideal artístico e imaginário de Lavoie.
Um "Talvez" foi a minha resposta, recebida com um arquear de sobrancelha na evidente insinuação de algo que eu não soube definir e que só me deixou com um pé atrás. Anton continuava me analisando sem dizer uma palavra, esperando, e me veio a sugestão de que talvez ele soubesse dos meus pais e que estivesse esperando por uma confirmação minha ou até mesmo que eu soubesse alguma particularidade sobre a obra.
― Foram os meus pais que doaram esse quadro, mas não sei muito sobre ele além do fato de pertencer à família Aileen há algumas gerações ― admiti esperando diminuir aquela sensação incômoda de que tinha alguma coisa errada. No entanto, Anton permaneceu com a mesma expressão misteriosa e apenas se virou para o quadro.
― Eu sei, consultei algumas fontes e descobri quem são os doadores incógnitos. ― Claro que ele sabia, então qual era o problema? Qual era o porquê da alusão de algo a mais? ― Descobri também que todos os anos os seus pais fazem uma doação anônima muito generosa para algum reduto de proteção à crianças vítimas de abuso. ― Engoli seco, mas não ousei falar nada e talvez eu tenha parado de respirar por alguns instantes. ― Devo reconhecer, é enobrecedor da parte deles fazerem isso há oito anos. ― Anton havia pesquisado sobre a vida dos meus pais?! Qual era o intuito disso? ― Oito anos... ― repetiu reflexivo, deixando o silêncio se estender até seus abismos profundos se voltarem para mim novamente. ― Não foi há oito anos que você se mudou para a casa da sua avó?
Por que disso tudo agora? Nenhuma percepção do que ele poderia estar pensando me vinha, mas uma ideia se formava lá no fundo da minha mente, incerta, nublada, deixando-me muito vulnerável e me fazendo arrastar os olhos para o mais longe dele. O meu medo se definia em uma única questão, o que e o quanto ele descobrira?
― Sim ― afirmei apenas, pousando a mão sobre o meu estômago enrijecido, congelado, sentindo meu peito pesar uma tonelada com o pulsar desenfreado que o golpeava.
Céus, eu não estava pronta para lidar com a sua inesperada curiosidade sobre o meu passado e tinha medo de que quisesse se aprofundar, pois Anton saberia que eu estaria mentindo em todas as respostas que daria às suas possíveis indagações. Não era um caminho seguro, não agora, porque ele poderia não estar preparado para a verdade, e eu não suportaria as repercussões dela sobre o nosso relacionamento.
Calma, eu precisava manter a calma para raciocinar direito. Era apenas uma curiosidade dele e nada mais. Nada mais.
Retomei a minha embargada e quase escassa respiração. A sala grande e vazia se tornava menor e sufocante à cada segundo em que eu buscava algo para dissuadi-lo do assunto, e quando uma luz surgiu no fim do túnel me empenhei em deixar o meu semblante o mais neutro possível para só então encará-lo.
― Anton, se você tem interesse nesse quadro, posso falar com o meu pai. Tenho certeza de que ele pode doar outro para ser leiloado e então repor com esse, o que ele estragou.
Ele levou um momento quase infinito e saturado de tensão me observando, no qual prendi o ar sentindo sofridamente à cada batida intensa que fazia a minha cabeça retumbar. Até que então, um sorriso lento e fino, confusamente assustador e terno moldou-lhe os lábios, para em seguida ele se aproximar e parar bem à minha frente.
― Mais uma vez, não faço questão e pare de se responsabilizar por isso ― exigira ele retirando uma das mãos do bolso e levando-a à minha face, onde os seus dedos deslizaram, escorregando delicados e gélidos da minha têmpora ao queixo, em um preciso conforto que atenuou parte daquela aflição. ― Além do mais, não posso exigir muito do Petre. Mesmo contra a sua vontade, ele me deu a obra de arte mais caótica e perigosamente fascinante que já tive o prazer de contemplar.
Eu pisquei, pisquei várias vezes porque demorei um tempo entre o assimilar e o acreditar no que acabava de ouvir, e quando a realidade bateu foi difícil ignorar o pulo que o meu coração deu antes que aquele ardor apertado da exaltação me fizesse abrir o mais deslumbrado sorriso do mundo.
Sim, ele estava falando de mim, e isso sugeria alguma coisa? Uma do tipo que significava algum sentimento?
― Sabe reconhecer uma obra-prima? ― Anton indagou e eu neguei acomodando as minhas mãos em seu tórax, entregando-me com anseio à sua carícia que continuava morosa e afável. ― Você precisa observar, mas não pode exigir nada, não pode reter ilusões e nem se deixar levar pelo aparente belo. Você precisa enxergar além das formas, das cores, precisa descobrir o que há por detrás delas, o que elas escondem. Você precisa olhar fundo, como se estivesse olhando para a sua própria alma, só assim, pouco a pouco, essas mesmas formas e nuances se revestirão de significados e se revelarão como aquilo que realmente são: a verdade.
Eu tentei, tentei permanecer sorrindo, mas o enleio eufórico fora substituído pela volta da sensação de que essa era mais uma das suas perigosas insinuações, e aos poucos o meu sorriso foi diminuindo, morrendo, até a minha boca fechar e eu refluir aquele gosto amargo que surgia nela.
― Mas há aquelas tão especiais que observar não é o suficiente, você precisa senti-la ― prosseguia ele meticulosamente, o polegar delineando as linhas da minha boca, entreabrindo meus lábios. ― E ainda há mais raras, que nem sentindo você consegue desvendar todos os seus segredos, por isso se faz necessário ir além e pesquisar sobre os seus pintores. ― Anton terminara de falar com um sorriso torto lhe marcando castamente o rosto e um olhar tão penetrante, que me paralisara da cabeça aos pés. ― Fascinante, não?
Fascinante ou não, eu havia perdido a íntegra capacidade de respirar, aquele tremor por dentro elevando a minha temperatura, fazendo as minhas mãos suarem e o meu cérebro turvar. Não era só impressão, Anton estava jogando comigo, agindo como se soubesse ou suspeitasse de alguma coisa a qual estava disposto e empenhado a descobrir, e eu me encontrava apavorada demais com essa possibilidade para me enfurecer com sua atitude.
Sem esperar uma resposta, ele me tomou o queixo na mão direita com firmeza, e erguendo minha boca em direção à dele, me beijou suavemente enquanto eu permanecia petrificada, apática, mal conseguindo senti-lo. Nossos lábios pouco se tocaram e a porta foi aberta. Aubrey, constrangida, primeiro pediu desculpas pela intromissão, e então informou que o leilão estava prestes a começar e que deveríamos nos dirigir ao segundo andar.
― Precisamos da sua assinatura digital referente à participação, Sr. Skarsgard ― solicitou ela assim que deixamos a sala das obras especiais.
Vi essa deixa como uma oportunidade de distração do Anton para que eu pedisse licença e fugisse para o banheiro. Eu precisava desesperadamente desse momento sozinha para digerir o que acabava de acontecer, para retomar a clareza dos meus pensamentos, controlar aquelas malditas emoções e me livrar dos seus efeitos em meu corpo antes que me denunciassem.
Ele sabe. Ele sabe sobre tudo o que aconteceu com você... meu desespero rugia no caos da minha mente. Passei uma mão na testa e a outra agarrei ao mármore frio olhando para o espelho, mas sem conseguir definir nada. Não, ele não sabia, Anton sempre era muito direto e não perderia tempo com joguinhos quando o assunto era sério e pudesse comprometê-lo de alguma forma.
Será que eu estava delirando e vendo tempestade onde não havia? Porque uma coisa era certa, ele me confrontaria na primeira oportunidade, ou pior, ele me teria como um grande problema e abandonaria a nossa relação sem satisfações tal qual a sua indiferença imperaria. Entretanto, pelo contrário, Anton estava ainda mais carinhoso naquela noite.
Não, não fazia sentido.
Eu não podia me deixar levar, não podia me deixar perturbar assim por ideias difusas e hipotéticas abstraídas da fragilidade em que se encontrava a minha mente. Só havia uma razão para todo esse estresse, a minha discussão com Ava tinha me desestabilizado mais do que eu me permiti admitir.
Inspirei e expirei engolindo a salivação excessiva, meu estômago embrulhado começava a melhorar, a transpiração diminuir e aquela sensação de estrangulamento desaparecer. Aos poucos retomei o meu reflexo no espelho, e até que por fora eu não estava uma bagunça quanto me sentia por dentro. Maquiagem, cabelo e vestido conservavam-se arrumados, e eu somente enxuguei a umidade superficial entre os meus seios, pescoço e testa.
De volta ao salão principal da galeria, sentindo-me mais calma, procurei pelo Anton, porém, não o encontrei e nem senti a sua energia próxima, o que estranhei. Disposta a voltar para onde eu o havia deixado, no salão menor, embrenhei-me em um dos corredores de telas suspensas tentando não chamar a atenção, mas não demorou para que uma voz de timbre conhecido, logo atrás de mim, me fizesse parar.
― Loirinha?
Virei-me rapidamente alcançando a imagem do moreno alto, de sorriso generoso e intensas íris escuras, que cintilavam viajando pelo meu corpo com uma indisfarçável admiração.
― Alex... ― proferi surpresa e um tanto inquieta com sua perícia, e ele não hesitou em dar um passo à frente trazendo um sopro de ar com o seu perfume cítrico e fresco.
― Você está incrível ― elogiou abraçando-me e me beijando a bochecha meio sem jeito, já que eu não reagi, ainda sob o efeito tenso do inesperado.
― Obrigada. ― Alex se afastou olhando-me nos olhos, buscando aquela intimidade para a qual eu estava inacessível para ele ou qualquer outro. E assim o silêncio ia se fazendo constrangedor, até que por fim consegui sorrir e balbuciar alguma coisa. ― Você aqui... eu não... esperava.
Longe de ser preconceito, eu concluía que por ser um publicitário associado, Alex não ostentava as mesmas condições do restante das pessoas que ali se encontravam, além do fato de que ele não parecia ser um apreciador de obras de arte. Contudo, que a verdade fosse dita, apesar das suas tentativas de aproximação e das poucas conversas que tivemos, eu não o conhecia realmente e não sabia nada sobre a sua vida fora da Wedo. Era errado qualquer juízo a seu respeito.
― Esses lugares não têm mesmo muito a ver comigo ― afirmou ele, a expressão suave e o despreocupado jogar de ombros garantiam que não se sentira ofendido com a minha reação. ― Na verdade só estou aqui por causa da minha irmã caçula. Ela é uma das curadoras e esse é o seu primeiro grande evento, então vim dar uma força.
Oh... então ele tinha uma irmã e estava ali dando apoio moral a ela. Achei tão adorável da parte dele, e por um segundo até tentei imaginar como seria o nosso relacionamento caso eu o tivesse dado uma chance, mas nada me vinha à mente. Primeiro porque no fundo eu sabia que Alex não seria capaz de despertar nem um décimo da paixão tempestuosa que Anton despertava em mim, e segundo porque eu não conseguia mais me ver sem aquele vampiro atrevido que enclausurara a minha vida, o meu corpo e o meu coração.
A tentativa veio como um momento de elucidação em que me percebi em total alheação aos atributos do Alex. Sim, ele era uma boa pessoa e continuava bem-apessoado ao seu estilo calças jeans, camisa e blazer azul-marinho, com um dos sorrisos mais sinceros que eu já o tinha visto dar, mas a atração que um dia acreditei ter por ele, era como se nunca tivesse existido. Eu o via agora como via o Luc, apenas como um amigo.
― O nome dela é Aubrey, Aubrey Vidal ― acrescentou ele, e de repente a familiar aparência da garota fez sentido. Ela e Alex possuíam o mesmo sorriso, a mesma cor de olhos e cabelos.
― Oh, então Aubrey é sua irmã? ― Alex assentiu, o sorriso genuíno mostrando o quão orgulhoso estava. ― Que legal, ela me pareceu uma pessoa agradável e uma profissional bem competente.
― Ela é sim, ama isso aqui e apesar de estar um pouco nervosa com a sua estreia, está fazendo um bom trabalho.
Eu sorri, admirada com o carinho que ele falava dela, era um lado do Alex que ele nunca tivera a oportunidade de demonstrar na Wedo. Contudo, o assunto pareceu morrer por ali e muito rápido o silêncio havia voltado entre nós. Os segundos foram se passando, ele continuava me fitando intensamente e eu já não sabendo mais para onde olhar, sentindo meu sorriso se desfazendo em meio a falta do que dizer. Foi então que percebi ser essa a minha deixa antes que Anton aparecesse à minha procura, e até cheguei a abrir a boca para me despedir, mas Alex foi mais rápido.
― Só sendo uma coincidência para nos encontrarmos fora da Wedo, não é? ― A frustração imiscuída à sua entonação compassada era evidente, mas muito breve foi substituída pela expectativa. ― O que me diz de uma ida ao teatro? Um jantar? Já faz um tempo, quando vai me dar uma chance?
― Nunca.
A voz cavernosa e brusca que ressonara atrás de mim, me atingiu como um golpe certeiro no peito, e acrescida à energia que Anton liberara de uma vez, me fizera tremer. Ou talvez fosse a rigidez gélida da mão que me abraçou a cintura quando ele se colocou ao meu lado.
Por Aine, eu não estava fazendo nada de errado ali, mas a culpa despontou irremediável, arrastada pelo grande problema que me envolvi ao deixar que Anton acreditasse que Alex já havia sido meu namorado. Só pela ênfase perigosa em seu timbre e o aperto dos dedos em mim, eu percebia que ele não estava nada indiferente àquele encontro acidental.
Com cautela e discrição elevei o rosto e o fitei de lado. A serenidade dos traços inexpressivos e a mão que não estava em mim, dentro do bolso, eram o mais alarmante contraste com a postura imperiosa e ao olhar sombrio que ele dirigia ao Alex. E droga, era aquele olhar de advertência, o olhar letal que guardava o imprevisível, inimaginável, e que afirmava que eu estava prestes a colher as consequências de mais uma mentira impulsiva.
Céus, eu estava ferrada.
― Não me diga que até hoje ele não sabe que nos casamos? ― Anton indagou com uma calma deliberada, num tom conduzido pela ironia, pelo desafio, ainda medindo o homem à nossa frente conforme descia a mão sedosa pelo meu quadril até me espalmar a bunda.
O gesto não passou despercebido pelo Alex e me rendeu uma intensa onda de calor, a qual culminou principalmente nas minhas bochechas. Anton precisava mesmo agir descaradamente daquela forma, marcando o que era dele como um animal de instintos primitivos? Tentei pensar no que dizer ou no que fazer, mas novamente Alex não me deu tempo e o seu timbre grave e nitidamente afetado me pegou desprevenida.
― Sim, eu soube ― O cenho franzido sinalizava desconfiança ou até mesmo relutância em acreditar no que estava presenciando, e para o meu desespero, ele despejara mais uma leva de palavras com a mesma incredulidade reprimida. ― Assim como também sei que o casamento de vocês não passa de uma farsa da qual Liz foi coagida.
Por todos os Deuses!
O choque veio com uma palpitação forte e com mais uma tentativa fracassada de falar alguma coisa, onde os meus lábios pairaram abertos enquanto os meus sentidos me abandonavam e eu entrava numa espécie de estado suspenso como se nada daquilo estivesse acontecendo. O estrago está feito, era só o que me vinha à mente. Entretanto, muito breve voltei a mim quando lembrei de respirar ao mesmo tempo que sentia o toque em minha bunda pesar.
― Farsa, hum? ― Anton repetiu a palavra friamente virando o rosto para mim.
O movimento ponderado e a expressão inabalável eram um dos reflexos naturais do seu controle intransigente, e que poderia ser considerado por qualquer pessoa que o visse no momento como uma reação de calma. No entanto, mal sabiam elas que era justamente essa tranquilidade estoica um motivo de grande preocupação, porque Anton se tornava mais imprevisível assim, mas principalmente porque o que elas não viam estava submerso em seus olhos.
Tão escurecidos que mais se pareciam um tornado em meio ao oceano, respingando água como lâminas agudas, perfurando os meus. Da mesma forma, a sobrancelha que ele sutilmente arqueava podia ser tida como um escárnio ao que Alex havia dito, mas também era a sua maneira de me confrontar em silêncio, de me exigir uma explicação.
Ambos os gestos eram dúbios, quase indecifráveis e todos perigosos.
A culpa que em nenhum momento havia me deixado, agora trazia mais esse desespero. A sensação era a de ter uma corda no pescoço, como se fosse tudo ou nada, como se qualquer reação minha fosse a sentença da nossa relação, e o medo de que ele tirasse conclusões erradas sobre mim, o medo de afastá-lo e perdê-lo, se tornaram maiores que qualquer outro. Até mesmo o de expor os meus sentimentos e ser cruelmente rejeitada pela existência deles.
― Não, Anton ― neguei balançando a cabeça movida à necessidade incontrolável de me justificar e enfatizar a verdade. ― Você sabe que não é mais, pelo menos não pra mim.
A minha confissão saiu baixa e íntima, só para ele, mas com toda a convicção que fazia o meu coração bater enervado, e sei que ele sentiu a minha sinceridade, eu vi através do azul vívido e cristalino que voltava às suas profundezas e no modo discreto como acariciou a base das minhas costas, mas igualmente percebi a exigência de algo mais no gesto, e não demorei para compreender o que era.
Determinada desfazer qualquer mal-entendido de uma vez por todas, voltei-me para Alex, a desconfiança em seu semblante começava a dar lugar a uma melancolia ressentida, que fez meu peito se contrair ainda mais por tê-lo envolvido nessa situação. Eu nunca quis que as coisas se resolvessem dessa forma, mas o destino nos condicionara a ela e embora eu tivesse sido sincera com ele sobre as impossibilidades de ficarmos juntos, reconhecia com pesar a minha culpa por não ter sido mais direta e enfática e ter acabado por deixar em aberto uma chance que não existia.
O permiti guardar esperanças, e mesmo que Alex não tivesse nada a ver com a minha vida pessoal, sentia que devia esse encerramento a ele.
― Muitas coisas aconteceram desde que conversamos pela última vez, Alex ― falei cautelosa, buscando as palavras certas. ― Realmente, quando nos casamos Anton e eu não tínhamos a intenção de nos envolver, mas acabou acontecendo e estamos juntos agora.
Anton me soltou deixando a mão deslizar pela lateral do meu corpo, e eu mal tive tempo de assimilar a horrível sensação de abandono, quando ele deu um passo em direção ao Alex parando muito próximo dele.
O que ele pretendia fazer?!
― Para o seu próprio bem, Vidal, mantenha-se o mais longe dela. ― A entonação pautada de advertência e a modulação áspera me fizeram estremecer, o medo e o instinto falaram mais alto e eu me agarrei ao seu braço.
― Anton, por favor... ― supliquei assistindo de perto aos dois se encararem, e implorei a todos os Deuses para que aquela noite não acabasse com alguma morte.
― Não acha que é ela quem tem que me dizer isso? ― Qual era o problema do Alex?! Ele não tinha a mínima noção do quão perto estava da morte!
― Não, porque não é ela quem irá te fazer engolir o próprio pau caso não entenda o aviso.
Deuses!
Desfaleci. Bem ali, e só não caí dura no chão porque havia sido coisa de um segundo, e porque eu continuava segurando firme aquele braço como se a vida de todos dependessem disso. Se antes os meus olhos estavam arregalados, nesse momento eu os sentia saltar na velocidade das veias latejantes em minhas têmporas. Anton não podia ameaçá-lo dessa maneira, não podia! Apesar das circunstâncias desconcertantes, Alex e eu trabalhávamos no mesmo lugar e tínhamos que conviver diariamente no mesmo ambiente, e com que cara eu o olharia agora?
Anton segurou a minha mão e saiu me arrastando por entre as telas suspensas, e só tive tempo de lançar um olhar de desculpas para o Alex. Na Wedo eu tentaria conversar com ele e pedir desculpas verbalmente, sobretudo para que aquilo fosse esquecido. De qualquer forma, eu estava aliviada por ter passado pela situação sem que ela terminasse numa tragédia, mas ainda havia palavras presas na garganta e a necessidade de esclarecer tudo e dizer toda a verdade.
― Você não precisava ter ameaçado ele, sabia?! ― protestei assim que alcançamos a escada para o piso superior, a uma distância segura e onde não havia ninguém próximo.
― Não quero ele perto de você.
Devia ser loucura ou o excesso de sentimentos sobressaindo, mas tive vontade de rir, porque apesar do tom severo, o modo como Anton falara foi fofo, até parecia que estava mordido de ciúmes. Olhei para ele, meu coração borbulhando aquele calor de emoção, de apego, de fascínio, mas não pude ver muito além do seu perfil sério e perfeito, pois ele seguia me levando escada acima com tanta rapidez que eu tinha que tomar cuidado para não tropeçar nos degraus.
― Anton, não é como se essa fosse uma opção pra mim ou pra ele, nós trabalhamos no mesmo lugar e...
― Não por muito tempo ― interrompeu-me bruscamente, acabávamos de chegar ao segundo andar e o meu fôlego que já estava afetado pela pressa, praticamente se extinguiu.
― O que você quer dizer com isso? ― Não... não podia ser o que eu estava pensando. Mas a maneira proposital com que ignorou a minha pergunta só me afirmou essa percepção, e a minha exasperação gritou alertando que eu precisava contar a verdade antes que fosse tarde. ― Anton, por favor, me escuta!
Tentei puxar a minha mão para fazê-lo parar, mas ele não a soltava tampouco diminuía o ritmo, e o meu coração já fustigava aflito. O ar não chegava aos meus pulmões, os meus pés doíam sobre os saltos finos e as minhas pernas, apesar de longas, não eram páreas para as dele junto dos seus passos firmes e obstinados. Céus, o que tinha dado nele? Anton estava agindo esquisito como se estivesse com raiva, mas não aquela raiva fria e ferreamente contida que ele às vezes demonstrava, mas daquelas que agia silenciosamente através das nossas ações.
― Anton, espera, os meus pés... ― De nada adiantou a minha queixa, continuei sendo ignorada e arrastada pelo extenso corredor de chão azul acarpetado e paredes de vidro, o qual interligava o bloco em que estávamos a outro mais ao fundo. ― O Alex e eu nunca namoramos! ― exclamei já não aguentando mais, e para o meu alívio, ele parou me libertando. ― Nunca tivemos nada, ele é apenas um colega de trabalho e não tenho nenhum interesse nele, nenhum!
Anton voltou-se para mim devagar, nada nele me remetia à raiva e nem mesmo à surpresa ante a minha revelação. Em suas íris invernais, somente uma quietude muito límpida e plácida tal qual um ermo de gelo, suas pálpebras se fechando e abrindo numa mansidão calculada, um conjunto não menos intrigante e aflitivo. Suas reações em seus extremos antagônicos estavam me deixando confusa e muito preocupada.
― Naquela primeira conversa que tivemos no escritório dos seus pais, eu menti que tinha namorado, mas só porque você estava tentando me humilhar ― confessei com uma certa mágoa, me recordando do jeito que ele me tratava. Anton levou as mãos aos bolsos, a sua postura relaxou e eu me abracei a cintura, constrangida, sentindo-me exposta. Só que eu não desistiria agora, ele iria saber de tudo. ― Depois nos encontramos na RedDoor e você me viu com o Alex, mas só porque estávamos no aniversário de um colega de trabalho. Logo aconteceu que.... você supôs que ele era o meu namorado e... eu deixei.
Para o meu alento, um sorriso tênue ascendeu seus lábios e transcendeu através do fulgor dos olhos, então ele se aproximou, inclinando a cabeça e levando a mão ao meu ombro direito. Deixando-a deslizar em meu pescoço, seu dedo delineou-me o maxilar até encontrar os meus cabelos através da nuca. O gesto carinhoso me trouxe a certeza da sua compreensão, e ainda que eu estivesse um pouco envergonhada, pude sentir a libertação daquela mentira.
Sim, estava tudo bem agora.
― Eu sempre soube que você não tinha namorado, fada. Apenas a deixei pensar que eu havia acreditado em você, e usei isso a meu favor.
Eu pisquei absorvendo aquilo, e automaticamente um insulto se arrastou por entre os meus dentes cerrados.
― Maldito ardiloso...
O safado soltou uma risada, uma daquelas enrouquecidas e gostosas, mas fora isso, eu me recusava a me surpreender ou me chocar, até mesmo porque se eu fosse parar para analisar, iria me lembrar de todos os indícios de que ele sabia do meu blefe. Desde que começamos a ficar juntos, Anton nunca sequer me perguntara se eu continuava namorando, nem mesmo antes, quando me dera o aviso das repercussões de sair com outros homens e o expor na mídia.
Será o que mais ele sabia sobre mim?
Os meus pensamentos já migravam para regiões tormentosas quando fui laçada àquele corpo volumoso de dureza viril, e de repente me vi abraçando-o com a mente anestesiada para qualquer coisa que não fosse a minha pele sensível sob a seda, sentindo aqueles músculos tensionados; me derretendo à força dos seus braços e das mãos viajando pelas minhas costas e puxando-me o cabelo.
― Guarde a sua fúria para quando estivemos em casa ― Anton sussurrou próximo ao meu ouvido, e meu corpo reagiu com arrepios instantâneos à sombra da sua respiração quente. ― Vou saber usá-la a nosso favor.
Oh sim, ele saberia...
Tão provocador, o senti mover os lábios até se fecharem sugando delicadamente uma pequena porção da pele sobre a minha artéria pulsante, e apoiei minha cabeça na sua levada por um tipo de torpor, fechando os olhos e abrindo a boca; soltando o ar abafado com um sibilar lânguido.
― E só para que saiba, você ter ou não namorado aquele imbecil não muda o fato de que ele a deseja, e muito menos a certeza de que vou matá-lo caso chegue perto de você. ― Os meus olhos se abriram e aquela onda alucinógena desapareceu na velocidade em que Anton se afastou.
― Você não faria... ― calei-me com seu indicador sobre os meus lábios, sob a atenção ameaçadora daqueles olhos restritos.
― Você sabe que eu faria, e não há nada, absolutamente nada, que possa dizer ou fazer que vá mudar isso. Aliás, só há uma maneira, apenas ficando longe dele.
Aquilo era loucura!
⭐ + 💬 = 💓
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top