C A P Í T U L O 51
O caminho para uma intenção
Para onde ele pretende me levar em plena terça-feira? Era a pergunta que não saía da minha cabeça desde quando Rose, alegremente, me mostrara uma seleção de dez vestidos finos entregues para mim naquela tarde. "São todos seus, escolha um e esteja pronta às vinte horas" dissera ela, e ainda completara quando a olhei intrigada e procurei saber aonde iríamos, "Não faço ideia, essas foram as únicas palavras do Sr. Skarsgard.".
Eu ainda não tinha me recuperado totalmente do que acontecera sábado e não estava com o ânimo adequado para sobreviver a uma noite fora de casa, mas havia sido um convite todo arquitetado por ele, e a minha necessidade de estar ao seu lado bastava para me prover coragem. Além disso, eu tinha que seguir com a minha vida e mais uma vez deixar o passado em seu devido lugar.
Para começar, eu não aceitaria aqueles vestidos, mas por não saber o que me esperava, achei melhor usar um deles já que haviam sido selecionados para a tal ocasião misteriosa. Pela elegância das peças, deduzi que não seria um simples jantar, então talvez pudesse ser outro evento da Skar Technologies.
A exatas vinte horas eu estava devidamente pronta, trajando um lindo vestido de seda e renda douradas, atravessando a ponte da entrada de casa e indo em direção ao James, que me aguardava com a porta do carro aberta. Após cumprimentá-lo fui guiada para dentro do veículo, onde íris glaciais me receberam com uma lentidão calculada, detalhando minuciosamente o meu corpo antes de buscarem os meus olhos.
A minha submissão ao poder intrínseco àquele vampiro parecia ser algo que nunca iria mudar, não importava se compartilhávamos a mesma casa há quase dois meses, ou o alto nível de intimidade que havíamos conquistado. Lá estavam todas as sensações que faziam meu corpo se render, trêmulo e receptível. A temperatura subindo, aquele ardor sendo desperto, se acentuando, me aflorando à pele e se espalhando por entre a desordem enérgica e perfumosa que ele emanava.
Sempre perfeito, sempre enigmático, e sedutor demais naquele smoking sob medida para manter as boas maneiras. Sem esperar que Anton dissesse alguma coisa, deixei que a saudade de um dia sem vê-lo agisse e, subindo a longa saia do vestido, me joguei em seu colo beijando-o agradecida pelo vidro que isolava o James estar fechado.
Senti a sua surpresa através do corpo retesado, mas que muito rápido relaxou e me recebeu em seus braços com o mesmo entusiasmo que a sua boca se abrira, aceitando a minha e promovendo o impaciente encontro das nossas línguas. Provei a sua investida ardente e mentolada, sentindo-a se misturar ao doce do meu hálito e ao fogo que o nosso toque irradiava. O suguei, o mordi e fui mordida, só parando quando aquela sensação incômoda que me queimava o tórax, se tornou insuportável.
― Oi... ― ofeguei, nossos olhares ébrios se cruzando cúmplices ante ao inegável e indômito efeito que tínhamos um sobre o outro, e em minha boca sensível, um sorriso tímido surgindo.
― Oi, furacão ― devolveu ele atenuando a pressão dos dedos em minha nuca, e eu ri, admirando-o agora com os cabelos bagunçados e a gravata borboleta toda torta.
Eu tinha que admitir, o meu novo apelido até que fazia sentido.
― Aonde vamos? ― questionei ajudando-o a arrumar o sofisticado laço preto, atenta ao carro já em movimento e ainda mais à carícia suave que Anton iniciava em meu pescoço.
― Se me atacar assim de novo... ― O tom rouco de aviso veio seguido de um silêncio fugaz, em que os meus sentidos inflamados voaram para as duas chamas escorregando pelas minhas costas nuas e me espalmando a bunda ―, garanto que não iremos a lugar algum, porque vou começar a foder você aqui mesmo até James nos levar de volta para casa.
Intuitiva e atenciosa, mordisquei o lábio sob sua contemplação penetrante, e aos dedos safados que ameaçavam entrar pela fenda do vestido. O calor subindo, eu ainda sentindo o seu agradável sabor em minha boca, o ardor do seu toque em minha pele, e na mente o desejo secreto e desavergonhado de que ele cumprisse a ameaça. Ali mesmo.
Céus, como eu queria.
Eu queria atacá-lo de novo, queria morder aquele sorrisinho safado dele, mas também reconhecia a oportunidade para explorar outros caminhos que não se resumissem a sexo. Quanto mais longe do desejo carnal eu o mantivesse, mais nítidos se tornariam os sentimentos que talvez ele pudesse ter por mim.
Seria doloroso me afastar naquele momento, mas precisava ser feito.
― Não era a intenção mudar os seus planos. ― Deslizando as mãos pelas lapelas acetinadas, dei-lhe um último beijo e então voltei para o banco encourado com o cuidado de alinhar o meu vestido nos quadris, e o decote pronunciado que quase deixara meus seios à mostra. ― E então, para onde vamos? ― insisti sustendo-lhe as profundezas enervadas ainda mais flamejantes expostas à luz amarela do carro.
― Iremos a um leilão ― respondeu e logo emendou entregando-me um sofisticado livro de capa preta emborrachada ―, de obras de arte.
Um leilão de obras de arte?
Eu nunca havia ido a um, de nenhum tipo, e apesar de os meus pais e avós serem engajados em alguns projetos sociais que por vezes envolviam leilões beneficentes, eu nunca tive vontade de participar, mas tal detalhe não anulava a minha curiosidade em saber como funcionavam. No entanto, o mais curioso ali eram as razões que o levariam a querer participar de um evento desses, pois obras de arte não pareciam ser o seu forte. Esculturas talvez, mas não pinturas, já que todos os quadros de casa eram pretos.
― Pretende trocar as telas negras por algumas pinturas? ― indaguei passando os olhos pelas páginas fotográficas repletas de cores, formas abstratas e figuras de objetos e pessoas.
Eu não entendia muito de arte, mas reconhecia algumas delas dos livros da época de escola e sabia que eram antigas e valiosas, mas pouco me interessavam. A verdade era que o simples pensamento da troca me trouxera uma onda de tristeza. Na minha cabeça os quadros que ornavam a nossa casa eram parte do Anton e, estranhamente, imaginar trocá-los era como se eu fosse perdê-la, perder parte da essência dele.
― Não vou trocar nenhuma, apenas repor a da sala que foi danificada.
Ah, droga.
Devagar, elevei meu olhar, a ardência inerente ao rubor vindo incomodar. Claro que Anton queria repor o quadro que o meu pai tinha ateado fogo, não sobrara muita coisa dele e havia ficado um vazio no painel de vidro onde o objeto se sustentava. Ao fazer um levantamento do estrago causado naquele dia, descobri que no meu surto eu também acabei quebrando uma luminária e uma escultura.
― Anton, vou pagar por tudo que foi danificado por mim ou pelo meu pai ― afirmei convicta, e apesar de em nenhum momento ele ter me cobrado pelo prejuízo, era o certo a se fazer e eu me sentiria melhor assim. ― Já andei apurando os valores para as substituições dos objetos e...
― Eu já te disse uma vez, não quero o seu dinheiro ― interveio ele, e eu gesticulei uma recusa antes mesmo que pudesse terminar. ― Você não precisa pagar por nada.
― Não, não é justo, eu tenho algumas economias e posso pagar. Acredito que uma tela preta não deve ser tão cara assim. ― Contraindo os lábios de um jeito muito suspeito, Anton desviou o olhar, e eu tive a impressão de que ele estava lutando contra uma risada, que acabou num sorriso apertado de olhos fechados seguido de um sutil meneio. Só depois de puxar uma inspiração e limpar a garganta, ele voltou a me encarar. Seus olhos estavam mais escuros e intensos, mas não anulavam o lampejo de divertimento. ― Não sei o que é tão engraçado, estou falando sério.
― Aquela não era uma simples tela monocromática, fada ― revelou ele inclinando a cabeça para o lado, muito tranquilo, mas atento às minhas reações. ― Debaixo da tinta preta estava toda a podridão francesa em um René Parisiense de duzentos anos que eu havia comprado há seis, em um leilão, por meros trinta e cinco milhões de euros.
Trinta e cinco milhões de euros?! Ele era louco?!
Quase gritei, mas faltaram-me pensamentos coesos para reagir a essa loucura, da mesma maneira que me faltava dinheiro para pagar por ela. Nesse instante eu nem tinha certeza se estava me sentindo estúpida por ter sido tão simplória ou se estava apavorada ante a perturbação que levava um ser a cobrir de preto uma tela que valia milhões.
Lançada à perplexidade, por uma fração de segundo tive receio. Receio de todos os pensamentos e lembranças obscuras que poderia existir por detrás daqueles olhos tão calmos e abúlicos. Às vezes eu me pegava imaginando todas as coisas que ele sofrera durante os séculos, tudo o que viu, tudo que sentiu e em tudo que guardava para si, mas principalmente, em como a eternidade podia ser cruel. A sensação era que sempre existia mais, muito mais do que eu podia enxergar ou imaginar. E naquele momento eu percebia que a sua falta de apego às pessoas, à vida e às emoções também transmutava para o dinheiro e os bens materiais.
Anton não tinha apego a nada. Absolutamente nada. E embora o seu aparente egocentrismo me indicasse o contrário, o meu coração ousava dizer que ele não possuía apego nem a ele mesmo, conforme alguns flashes me traziam a imagem dele sangrando no escritório. O que se passava em sua mente que o levara a fazer aquele tipo de coisa?
Antes que pairassem como um pesadelo, enterrei esses pensamentos de volta. A lógica me afirmava que observações excedentes só me trariam problemas que não precisavam existir, e que as coisas se tornariam mais fáceis se eu apenas deixasse acontecer. Numa tentativa de reaver os reflexos do meu corpo, suspirei com calma me acostumando à sensação de derrota e à ideia de que não havia mais nada a ser contestado ou feito.
― Certo, não tenho trinta e cinco milhões de euros ― admiti virando-me para a janela vendo a cidade correr lá fora, o vidro escuro ofuscando parcialmente as luzes e tornando a noite mais intensa.
― Eu não os aceitaria de qualquer forma.
Direcionei minha atenção ao meu marido outra vez, a entonação suave e a expressão espirituosa renderam-me um sorriso. Ele conseguia ser mandão mesmo quando tentava soar extrovertido, em algumas ocasiões isso me irritava, mas na maioria delas apenas acrescia poder ao seu charme ainda que ele não parecesse ter muita consciência disso. Era o seu jeito instintivo de ser, de lidar com as coisas, que agora eu entendia.
O carro parou e do lado de fora, uma fila de seguranças guardavam a entrada ataviada por grama densa e palmeiras altas. Ao final dela, um prédio de arquitetura vanguardista composto por três blocos gigantes de concreto branco e vidro, dispostos um sobre o outro de maneira desalinhada.
"Van Baarle" era o nome metálico que reluzia ao lado da porta automática pela qual entramos. No primeiro ambiente, uma recepção que era praticamente uma caixa de vidro cercada por plantas ornamentais, descobri que assim como eu imaginava, o local se tratava de uma galeria de arte.
Após feitas as nossas identificações, nos orientaram para o ambiente seguinte, e não que algum dia eu fosse me acostumar, mas mal tive tempo para me preparar para os olhares que no mesmo instante caíram sobre nós, vindo dos poucos grupos de indivíduos espalhados na imensa sala branca, fria, insípida e silenciosa.
O lugar reunia harmonia e um quase vazio em um conjunto de elementos que juntos se ampliavam. Talvez fosse a extrema claridade que fazia com que seu tamanho parecesse bem maior do que seu exterior sugeria, ou talvez fosse essa grandiosidade que fazia parecer que existiam poucas pessoas e que estas, em vez de falarem, parecessem sussurrar.
Os quadros solitários muito precisos e alinhados enobreciam as paredes como janelas emolduradas, coberta de cores, traços, feições, ou qualquer paisagem de arte definida ou abstrata. Outros ainda se mantinham suspensos por cabos enquanto essas mesmas pessoas transitavam por eles. Humanos, lobisomens, bruxas e vampiros reunidos, sofisticados em seus trajes finos, vaidosos com seus narizes empinados e olhares analíticos, a maioria velhos, provavelmente a classe milionária do país.
― Boa noite, Sr. e Sra. Skarsgard ― cumprimentou uma humana jovem de cabelos castanhos ondulados e sorriso jovial, pelo terno preto parecia ser alguém que trabalhava ali. ― Me chamo Aubrey e sou uma das curadoras desta exposição, estarei à disposição para dúvidas.
À primeira vista, até que ela se mostrou simpática, não ficava encarando o Anton como a maioria das mulheres e o seu comportamento soava bem profissional, embora o corpo rígido e um tanto encolhido entregasse o seu nervosismo. No mais, o que me intrigava nela eram os olhos escuros e aquele sorriso que me lembrava alguém que não se definia na minha mente.
― Fui informada de que o senhor prefere analisar as obras especiais antes de qualquer aquisição, confere?
Sem proferir nada, Anton apenas anuiu e logo fomos escoltados para outra sala branca, porém menor, igualmente repleta de telas as quais reconheci serem as do catálogo. Continuamos seguindo-a até uma porta de madeira laqueada guardada por dois seguranças, onde Aubrey digitou alguns números no painel da maçaneta.
― Por aqui, por favor ― disse ela apontando para dentro do cômodo que acabava de abrir.
Anton e eu adentramos o que parecia ser uma sala reservada também quase vazia e de uma estagnação desconfortável. Sem janelas e sem nenhuma outra porta além da qual havíamos entrado, possuía os mesmos padrões e tamanho da anterior, mas nesta existiam somente seis quadros dispostos em cabos de aço numa fileira ao centro.
― Como devem ter visto no catálogo, A pequena Juliete, de Perrot; O Espinhaço das Trevas, de Grósz; e Espelho de Amerighi, de Velvela; que são de acervos particulares ― apresentou Aubrey gesticulando para as três primeiras telas da direita para a esquerda, e em sequência para as demais. ― Sacra Lunar e as Sete Misericórdias, de Rulphino; Calabouço, de Vlas Maksin Shvets; e O Segredo de Fressa, de Lavoie, que são doações e a renda arrecadada com o leilão será destinada a orfanatos e casas de apoio às vítimas de...
― Deixe-nos a sós ― Anton exigiu incisivo interceptando-a.
Ele já se encontrava a dois passos da primeira tela mencionada inspecionando-a, integralmente alheio à curadora. E eu, que havia parado um pouco atrás, presenciei no semblante dela uma conflituosa hesitação, provavelmente por ser um pedido que fugia às regras. No entanto, também reconheci a apreensão através dos olhos fugazes e da força com que segurava o tablet como se fosse um refúgio, e talvez tenha sido este último sentimento que a fez pedir licença e se retirar em silêncio.
Só quando o som da porta sendo fechada ecoou, que fechei a distância entre mim e Anton.
― Você tem predileção a alguma? ― indaguei acompanhando seus passos para a pintura seguinte.
― Sim, tenho duas.
Anton levou as mãos aos bolsos e, deixando a cabeça pender para o lado, fixou os olhos estreitados no quadro à frente. Acredito que eu nunca o vira tão compenetrado com algo, não de maneira contemplativa, mas avaliativa. Era ao mesmo tempo fascinante e intrigante vê-lo assim. Ainda que reflexivo, ele parecia medir traço a traço, tom a tom, numa precisão muito clínica, cuidadosa. Como se pudesse ver além do castelo sombrio, além dos rochedos que formavam o penhasco e que quebravam as ondas de águas negras. "O Espinhaço das Trevas, Grósz" era o nome escrito na plaquinha dourada pendurada acima do segundo quadro, o maior de todos que estavam ali.
Longos segundos se passaram, talvez minutos, e a quietude me incomodou de modo que busquei quebrar o silêncio com a primeira coisa que me veio à memória.
― Quando eu era pequena adorava ir à biblioteca do Palácio de Aiden, e me lembro de pegar aqueles livros que falavam sobre o mundo antigo, sabe? ― revelei e tão logo senti aqueles abismos glaciais pesarem sobre mim. ― Eu gostava de ficar vendo as imagens, a maioria pinturas, especialmente as das partes que falavam sobre castelos. Acredito que por serem uma configuração diferente à das culturas das fadas, sempre guardei um encanto secreto por eles, e esse ― apontei para a pintura ―, apesar das estátuas assustadoras, é realmente lindo.
― Não acredite no que os seus olhos veem, fada. Essa é uma representação adulterada, malfeita e mal-acabada do Castelo de Vemphur. ― Castelo de Vemphur... eu já havia lido algo sobre, pois o nome não me era estranho. ― A lembrança é a única pintura em que se pode confiar ― completou ele, a voz tão baixa que quase não consegui ouvir, mas ouvi, e o modo como se referiu ao castelo em questão fez parecer que ele conhecia o lugar, e foi essa constatação que me acendeu um pensamento.
― Você já morou em um castelo?
― Por vários séculos, sim ― afirmou prontamente, e muito rápido aquele sólito fascínio se acentuou e me embeveceu, e tentei me segurar para não disparar todas as dúvidas que eu tinha desde criança, como uma louca deslumbrada.
― E é legal? ― Anton ascendeu os ombros infimamente, e eu não devia ter esperado mais que um inflexível "Normal" vindo dele, mesmo assim não me deixei abater pela frustração. ― Normal? Deve ser tudo menos normal. Sempre tive curiosidade de conhecer um, daqueles bem antigos, de torres pontiagudas, corredores ocultos que guardam histórias secretas, passados intrigantes, paixões proibidas... ― A minha voz foi reduzindo até cessar consoante à percepção de que havia me empolgado demais, e a vergonha veio rápida sob o fulgor de graça daqueles olhos. ― Certo, acho melhor irmos para o próximo.
Anton riu breve e sincero, e como sempre, tudo se desmanchava, mas antes que eu me derretesse em um sorriso tolo, agarrei-me ao seu braço o acompanhando à terceira tela, aproveitando a oportunidade para pressionar meu nariz contra a textura sedosa do paletó e inspirar o seu perfume.
― Qualquer dia desses te levo para conhecer a autêntica treva do Vemphur ― prometeu ele franzindo as sobrancelhas ao me olhar por cima do ombro e me pegar no ato, levando-me no mesmo segundo a reter a respiração. Foram três piscadelas longas que dei analisando como deveria afastar meu nariz dele sem parecer aqueles cãezinhos farejadores, mas novamente ele riu e, retirando as mãos dos bolsos, me puxou contra aquele corpo grande e firme que acomodava tão bem o meu. ― Pare de me olhar assim.
Eu não tinha certeza de como exatamente o olhava, mas possuía a vívida e carnal consciência das emoções que a sua visão me despertava, assim como sabia que havia uma verossímil possibilidade dos meus olhos desnudarem o meu coração para ele, por isso os fechei. Os fechei e me entreguei ao seu toque acentuado e ansioso, entreguei-me ao seu beijo feroz e tórrido, segurando-o com força, sentindo-o e fazendo-me presente.
― Merda, você me tira o juízo ― praguejou sussurrante ainda em resistência com os lábios grudados nos meus. ― A sala possui câmeras.
Era só o que eu precisava ouvir para conseguir soltá-lo. Juízo era o que faltava a nós dois quando nos encostávamos, mais a mim do que a ele. Reprimindo a vontade de procurar a prova do crime nos quatro cantos, voltei a me colocar ao seu lado enquanto caminhávamos para a quarta pintura, "Sacra Lunar e as Sete Misericórdias, Rulphino" que assim como a anterior, Anton não pareceu se interessar. Somente no quadro seguinte, "Calabouço, Vlas Maksin Shvets" que ele parou, as mãos voltaram para os bolsos e os olhos se retraíram. Muito rápido a sua expressão perdeu a suavidade moldando-se em linhas rígidas de um quase desdém.
― Desgraçados, estavam todo esse tempo com ela ― murmurou ele encarando a imagem da cela escura, cheia de objetos estranhos como gaiolas com espinhos, mesas cobertas de lâminas, garras, açoites, uma imensa roda com correntes e um "X" de madeira na parede.
A excentricidade do conjunto era algo agoniante de se ver. Quando perguntei quem eram as pessoas das quais se referia, Anton pareceu surpreso e eu concluí que as suas palavras haviam sido um pensamento alto, mesmo assim ele não se negou a responder.
― Vincent e Eleonora.
E foi ao ouvir o nome da Eleonora que a associei ao do pintor. "Vlas Maksin Shvets... O escultor e amigo da família que nos presenteou com essa obra de arte." Como ela dissera sobre a estátua de pedra que existia em sua casa. O fato incontestável era que a família Skarsgard parecia ser bem ligada a esse mundo das artes soturnas. Pensei em confirmar se havia sido ela quem doara a pintura, mas me pareceu óbvio e logo a pergunta se perdeu quando Anton me arrastou para o sexto e último quadro.
"O Segredo de Fressa, Lavoie" Esse eu conhecia. A mulher de rosto belo e atrativo, de longos cabelos loiros, seios fartos e pele rosada que se debruçava sobre um poço em meio à floresta, era a personificação do espírito puro das fadas. Segundo as nossas lendas mais antigas, fora Fressa que protegera e guiara o rei Ámed e a rainha Amelie em sua fuga pela floresta após o violento ataque dos vampiros.
Entretanto, não era dos livros que eu reconhecia a pintura, mas sim, do escritório dos meus pais. Eu sempre soube que há vários anos eles colaboravam com algumas associações beneficentes e o ato da doação em si não me surpreendeu. O singular era o fato de estarem se desfazendo de um quadro tão antigo quanto aquele, que era como se fosse uma relíquia da nossa família.
― O segredo de Fressa ― Anton entoou baixo, articulando as palavras devagar ―, com certeza essa é uma das minhas predileções desta noite. ― Por um momento ponderei se ele sabia quem eram os doadores e até pensei em falar, mas fui pega desprevenida por sua pergunta. ― Você acha que ele está no fundo do poço?
― Como?
Como se estivesse sob o foco de uma câmera lenta, observei Anton arrastar o olhar da tela para mim, profundo e frio, as pupilas inertes realçando a sua beleza única, não revelando nada e tornando-o ainda mais ambíguo, tão abstrato e incompreensível quanto algumas daquelas obras.
― O segredo dela, você acha que está no fundo do poço?
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Queridas leitoras,
Preparem-se que lá vem textão...
Achei melhor escrever aqui, já que nas notificações nem todas vocês me seguem para ler.
Já relatei aqui diversas vezes o quanto sou neurótica e perfeccionista, crítica comigo mesma e cheia das manias. Vocês sabem que se o capítulo não estiver apropriado e nos padrões minimamente aceitáveis por mim, não irei postá-lo. Não vou mudar esse processo, além do meu tic nervoso não permitir, seria um demérito a todo esforço que tive até aqui.
Estou basicamente "escrevendo" a saga toda de novo, mas nos critérios de exigência de uma reescrita. É como se eu não pudesse errar mais, entendem? Não tenho mais esse direito, é tudo ou nada, porque são três longos anos escrevendo, me dedicando, vivendo e respirando somente esta história. Sim, comecei a escrevê-la em março de 2017, e agora vocês já sabem de onde vem a característica obsessiva dos meus personagens.
Eu escrevo, reviso, apago, reescrevo, ajusto aqui e ali o mesmo capítulo inúmeras vezes até eu conseguir lê-lo sem interrupções, sem a mão coçar para ajustar algum detalhe. São várias leituras e releituras, e mesmo assim trilhões de erros passam despercebidos. É cansativo, exaustivo. Às vezes fico tão saturada que dá vontade de apagar tudo, mas então eu respiro e deixo a minha mente acalmar, para depois voltar com mais clareza.
É um trabalho árduo (sim, a relevância que atribuo à escrita é a de um trabalho), mas não reclamo, pois sou completamente apaixonada pela arte de escrever e principalmente pela história. Sem contar que tudo isso é feito num tempo bem restrito, o qual consigo arranjar entre minhas prioridades de subsistência.
Sem falar nos bloqueios criativos que ando tendo, uma vez que os capítulos estão ficando enormes, mesmo seguindo à risca o cronograma feito no fichamento. O livro 2 está ficando gigante e isso tem me atormentado, às vezes me pego paralisada com medo de escrever demais. Eu simplesmente travo, gente. Ou tudo que é escrito não me parece suficientemente bom.
Enfim, eu poderia continuar aqui enumerando outros tantos motivos para justificar meu atraso nas postagens, mas sei que vocês entenderam. Ah, e quero deixar claro que não estou reclamando por vocês me cobrarem capítulos novos, NÃO GENTE, longe disso. Eu AMO o interesse e a procura de vocês, pois só me comprovam que realmente estão gostando.
Vocês são tão incríveis e carinhosas comigo, sempre me mandando mensagens de apoio e carinho que me emocionam profundamente e me motivam a sempre dar o meu melhor, a não desistir quando quero gritar e deletar tudo. Sou muito, muito grata a vocês por isso.
E só estou falando essas coisas, porque eu, como escritora, me sinto na obrigação de me justificar a vocês que são tão fiéis e que estão aguardando pacientemente.
No mais é isso, estou a disposição de vocês para dúvidas, posso demorar um pouquinho para responder, mas sempre o faço. Desculpem-me mais uma vez, e postarei o próximo o mais breve.
Beijos!😘
Kass Colim
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