C A P Í T U L O 5
Cuidado insolúvel
Dois dias dormindo!
"Após o ritual você parecia outra pessoa, filha, depois acabou desmaiando. Foi então que Avigayil nos revelou que era apenas uma reação do seu corpo ao sangue do Anton, e que só precisava descansar. A levamos para casa e cuidamos de você. Eu queria ter ficado todo o tempo aí ao seu lado, até que acordasse, mas Avigayil não permitiu. Não pude fazer nada a não ser acreditar na promessa dela de que você ficaria bem. Mas a visitei no domingo à noite, e na tarde de hoje, além de ligar várias vezes para a Rose, que se mostrou muito solícita, não se esqueça de agradecê-la por mim."
Estas foram as palavras de Ava, e eu fiquei tão atormentada ao ouvi-las, que precisei da confirmação de Rose, a qual me garantiu na noite anterior que já era segunda-feira. O que tinha acontecido comigo, eu não fazia a menor ideia e não me lembrava de absolutamente nada. Contudo, foi um grande consolo saber que fora a minha mãe e Avigayil que cuidaram de mim.
Olhei para o meu relógio de pulso pela décima vez, Ava estava trinta minutos atrasada. Definitivamente eu deveria ter escolhido pegar um táxi ao invés de aceitar a sua carona, já que o meu carro havia ficado no apartamento da Sophi, o qual eu só poderia buscar à tarde depois que saísse da Wedo.
A pior parte de toda aquela história, não era nem a falta de lembranças ou eu ter desmaiado por dois dias, mas sim, o fato de ter perdido um dia de trabalho sem ao menos ter avisado ao Sr. Landon. Eu não podia ser demitida. Não sei o que seria de mim caso perdesse o meu último sonho, e a única coisa que ainda me ligava a uma vida normal e feliz.
Inquieta, e com a paciência menor que um grão de areia, peguei a minha bolsa e saí de casa fechando a porta envidraçada atrás de mim. Lá fora o suave calor do sol característico do início da manhã, abraçou o meu corpo. Soltei um murmúrio de regozijo fechando os olhos e apenas sentindo a brisa singular à primavera soprar cautelosa, me conferindo o sutil aroma das wistérias e jasmins. Essa sensação me acalmou de tal forma, que por um momento me esqueci de tudo.
Momento este, que acabou no instante em que um ressonar de buzina me trouxe de volta, fazendo com que eu abrisse os olhos e me deparasse com o carro de Ava parado nos limites da escada. Apressei os passos pela ponte de granito negro que passava por cima do lago artificial existente na soleira da casa, desci as escadas correndo e entrei no carro dela.
― Bom dia, dorminhoca. ― Ava me puxou para um abraço apertado. ― Fiquei tão preocupada, filha. ― Ela me beijou a testa e logo me soltou.
― Estou bem, mãe ― assegurei, mas a dúvida ainda refletia em seus olhos. ― É sério, está tudo bem. ― Me virei para frente e coloquei o cinto. ― Agora vamos, porque a senhora demorou e eu não quero chegar ainda mais atrasada.
― A minha demora teve um bom motivo, precisei passar em uma loja antes. ― Bom motivo? Eu iria chegar atrasada por que Ava decidira fazer compras àquela hora? Já estava preparando a minha melhor reprimenda, quando ela levou o braço até o banco de trás, trazendo uma sacola preta de papel encorpado e colocando-a sobre o meu colo. ― Eu precisava comprar isso pra você.
Ela me deu uma piscadela repuxando os lábios rosados em um sorriso finório, e tão rápido saiu com o carro.
― O que é isso? ― Abri a sacola encontrando uma caixa retangular, de textura encourada e cor preta. A peguei, e após uma rápida análise, descobri como abri-la. Desprendi o fecho magnético em sua lateral, e então levantei a parte de cima me deparando com um aparelho de tela grande e detalhes metálicos em um suave rosé. ― Um celular!
Eu nunca havia dado tanta importância a um aparelho celular, e praticamente não senti falta do meu até a noite anterior, quando acordei completamente perdida e deslocada. Só assim percebi que ficar naquela casa sem qualquer meio de comunicação, seria me entregar de vez à loucura.
― Eu não sei como você quebrou o seu celular antigo, mas não gosto da ideia de você ficar naquela casa sozinha sem um. ― Mal sabia Ava o que tinha acontecido, e se dependesse de mim, nunca iria saber.
Afastei aquelas recordações e sorri para ela.
― Obrigada, mãe.
― Gostou? ― Anuí com um gesto breve fazendo seu sorriso se ampliar. ― A vendedora me disse que esse um dos melhores disponíveis no mercado, não quebra fácil e pode até molhar. E... não sei você sabe, mas essa empresa ― disse ela apontando para o logo prensado da caixa de couro. ― É do Anton.
Dele? A Skar Technologies era dele? Skar... de Skarsgard? Fazia sentido, embora me admirasse o seu próprio nome não estar junto, dado o tamanho do ego que ele possuía.
Como se não bastasse eu ter de respirar a atmosfera gélida e sombria que ele transformara a nossa casa, o meu celular também faria eu lembrar dele. Anton parecia uma intensa sombra que aos ia penetrando a minha vida e dominando cada espaço claro e sensato que ainda existia nela, como se me conhecesse tão profundamente que soubesse exatamente aonde ir e quais lugares controlar. Enquanto eu, permanecia no escuro sem saber nada sobre ele, sem saber até que ponto aquela escuridão poderia me levar.
Contudo, isso não ficaria assim, eu ainda daria um jeito de desvendar todo aquele mistério que o envolvia. Alguma vantagem sobre ele, eu iria ter.
― Por falar nele, vocês já se viram depois que você acordou? ― O timbre melindroso de Ava me trouxe de volta das minhas abstrações.
― Só o vi ontem durante o jantar ― respondi não querendo me aprofundar no assunto, pois não havia nada sobre ele que eu pudesse dizer à minha família sem deixá-los apavorados. ― Ele não fala muito e eu também não, então, não tenho muito o que contar.
Não sei dizer se ela acreditou, mas também não insistiu no assunto pelo restante do caminho.
― Que horas você quer que eu venha te buscar? ― questionou ela ao parar em frente à Wedo.
― Não precisa, vou pegar um táxi até o apartamento da Sophi, e de lá vou embora no meu carro.
― Tem certeza?
― Tenho, mãe. ― Soltei-me do cinto e a abracei dando-lhe um beijo na bochecha. ― Muito obrigada pela carona e pelo presente.
― Por nada, meu amor ― falou ela, abrindo um sorriso esfuziante, mas que logo se desfez dando forma a uma expressão dura. Ava esticou a mão até o porta-luvas, e de lá retirou um saco preto aveludado. ― Quero que fique com isso.
O objeto pesou nas minhas mãos, e quando me dei conta do que era aquilo, meus olhos se arregalaram. Era uma arma! Provavelmente a mesma arma prateada que ela retirara dali no dia em tínhamos ido almoçar na casa de Eleonora.
― Mãe! ― Tentei largar o saco, mas suas mãos seguraram as minhas fazendo-me segurá-lo com força.
― É uma precaução, filha. Apenas isso. Deixe-a escondida no seu quarto para caso ele tente alguma coisa. Isso irá atrasá-lo enquanto você foge.
― Eu... eu... não posso! ― Balancei minha cabeça exasperada. ― Nem sei usar isso!
Ava pegou o saco das minhas mãos retirando de dentro a arma junto de uma pequena caixa preta, como se soubesse muito bem o que estava fazendo. Céus, ela havia enlouquecido! Comecei a suar frio olhando para os lados, por sorte os vidros do carro dela eram bem escuros.
― Isso aqui é o cartucho de munição ― falou ela me mostrando a caixa preta antes de encaixá-la na parte de baixo da arma com uma destreza assustadora. ― Você precisa colocar assim, depois é só puxar a parte de cima para trás, e depois subir essa pequena trave para cima. ― Indicou uma pequena alavanca na lateral. ― Apontar e atirar.
― Mãe, eu não quero isso! ― Eu já estava exaltada, o nervosismo ecoando através da minha voz.
Com uma calma pavorosa, habilmente ela desmontou a arma e a voltou para o saco, então se virou para mim, segurou a minha mão e me olhou nos olhos.
― Não estou pedindo para que a use indiscriminadamente, filha. É só para caso algo aconteça. Por favor, seu pai e eu ficaremos mais tranquilos sabendo que terá como se defender. ― Meu pai também sabia daquilo?
― Desde quando a senhora sabe usar uma arma? ― interroguei, atordoada com a naturalidade das suas reações.
Ava soltou a minha mão, voltando-se para frente. Seu olhar parecia ter se perdido, ficou distante, vago, assim como o silêncio que se precedeu momentaneamente.
― Seu pai e eu começamos a ter aulas de tiro a oito anos atrás. Você sabe, se não houvesse justiça, nós íamos...
― Para ― a cortei antes que a situação piorasse.
Eu não podia acreditar no que acabara de escutar. Eles teriam sido mesmo capazes? Outra vez ela me olhou, a súplica implícita em seus olhos azuis e o sorriso tenro que curvou seus lábios, fizeram meu coração balançar.
― Por favor, meu amor...
Levei as mãos até o rosto respirando fundo, enquanto tentava buscar a voz da razão em algum lugar dentro de mim, mas ultimamente ela havia desaparecido. Eu poderia só guardar a arma, e isso não queria dizer que eu precisaria ou que iria usá-la. Acredito que só concordei com aquela loucura por receio de que Ava quisesse me revelar detalhes ainda mais corrompidos a respeito deles, na tentativa de me convencer.
Após enfiar o saco preto dentro da bolsa, saí do carro e entrei correndo na Wedo. Acenei para a Mel que estava conversando com um cliente, e passei direto para o elevador. Eu estava trinta minutos atrasada e ainda não tinha pensado na desculpa que daria ao Sr. Landon, por hora a minha intenção era contar uma meia-verdade.
Guardei as minhas coisas na gaveta da mesa, e segui direto para o seu escritório. A porta estava aberta, e ele falava ao telefone. Esperei o seu aceno autorizando a minha entrada, e só então me aproximei de sua mesa. Mais alguns minutos se passaram, até que o Sr. Landon finalizou a ligação e voltou-se para mim com um sorriso carinhoso.
Que estranho, ele não parecia bravo.
― Estou surpreso em te ver aqui hoje. ― Como? Onde eu deveria estar? Despedida? Já me desesperei e comecei a falar sem pensar muito.
― Sr. Landon, sinto muito por não ter vindo ontem e por não ter avisado, mas aconteceu um imprevisto e...
― Minha filha, se acalme. ― Ele soltou um riso divertido, então me apontou a cadeira para que eu me sentasse. ― Desde quando você me avisou que iria se casar, já me programei pensando que me pediria pelo menos uma semana de folga, então não se preocupe, o Vinícius me auxiliará enquanto estiver fora.
Ele pensou mesmo isso? Uma onda instantânea de alívio relaxou os meus músculos.
― Agradeço muito a consideração, Sr. Landon, mas não pretendo tirar essa folga. ― Ele me deu um de seus olhares pensativos, um tanto intrigado, no entanto, era discreto demais para me perguntar o porquê. Só que me senti tão desconcertada que acabei emendando uma mentira na outra. ― Meu esposo não poderá tirar férias por agora, então não adianta se eu o fizer.
Dei um sorriso sem graça, e para a minha sorte o seu semblante logo se suavizou como se ele tivesse compreendido. Outra onda de alívio sobreveio seguida de um profundo suspiro.
― Bom, se é assim, fico feliz em tê-la de volta ― concluiu ele sorrindo largamente.
Por Aine, não havia sido daquela vez que eu ficara sem meu emprego. Deixei o escritório do Sr. Landon em meio a uma prece mental de agradecimento a ela, sentindo-me ainda mais motivada a dar o meu melhor. Praticamente não vi a manhã passar tentando colocar o trabalho do dia anterior em ordem, e, também não saí para almoçar com a Mel, me contentando com um sanduíche que ela me trouxera.
Já eram cinco horas da tarde quando resolvi tirar uma folga para respirar e tomar um café. Até tentei ligar na recepção a fim de convidar a minha amiga, mas insolitamente o telefone não fora atendido, talvez ela tivesse ido ao banheiro. Abandonei o meu cubículo e segui para a área do café, me arrependendo no mesmo instante em que coloquei os pés ali dentro. Pensei em dar meia volta e sair discretamente, mas a minha parada brusca com o susto que levei, fez com que Adam desviasse os olhos da sua caneca para mim. Eu não o via desde a noite na RedDoor, e segundo a Mel, ele havia viajado para Londres, por isso sumira da empresa.
Fiquei parada perto da porta de vidro incerta sobre o que fazer, enquanto ele me encarava fixamente. Para o meu azar, estávamos sozinhos.
― Pode entrar, eu não mordo ― falou ele abrindo um sorriso, antes de dar um passo para o lado deixando o caminho livre para a cafeteira.
Certo, eu tinha que ser profissional. Coloquei um sorriso nos lábios, e segui até o armário para pegar uma caneca.
― Adam, como vai? ― indaguei me esforçando para soar o mais relaxada possível. Eu estava de costas para ele, mas podia senti-lo me observar.
― Bem, e você? ― Peguei a caneca e me virei para ele, apertando o objeto entre as mãos.
― Bem.
Sentindo-me um tanto sem jeito, sorri fraco e dei um passo em direção à cafeteira, parando ao seu lado. Enquanto eu me servia com café, fiquei atenta a todos os movimentos dele através da visão periférica. Adam terminou o conteúdo de sua caneca em um último gole, a abandonou sobre a bancada de mármore, e então se voltou para mim.
― Fiquei pensando em um jeito de chegar em você para abordar esse assunto, no entanto, imaginei que não quisesse me ver tão cedo. ― Ele soltou um riso curto e sem-graça seguido de um inspirar profundo. ― Me desculpa por aquele dia, sei que não justifica o que fiz, mas eu estava bêbado.
― É passado, Adam. ― Dei um passo para trás me encostando na bancada do outro lado, tentando ficar o mais longe possível. ― Só espero que não se repita.
― Não vai, é uma promessa. ― O observei por cima da minha caneca fumegante, enquanto soprava o café. Ele sustentava uma expressão séria com os olhos presos à minha aliança, o que instintivamente me fez descer minha mão esquerda. ― O Max me disse que você se casou... meus parabéns.
― Obrigada.
Novamente estava eu ali, forçando outro sorriso. Adam deu um passo à frente, até parar bem próximo a mim, mas não me fitou, seu olhar passava reto por sobre o meu ombro.
― Suponho que o seu marido não deve saber que você estava ficando com um colega de trabalho a dois meses atrás em uma boate ― sussurrou ele, e no momento eu não soube distinguir se o seu tom fora de ameaça ou apenas provocação.
Adam se afastou e saiu, me deixando sozinha com a boca aberta, perplexa e indignada. Senti uma mistura de constrangimento, aflição e medo pelo que ele estaria espalhando sobre mim. Várias ideias do que eu poderia ter falado para me defender começaram a me torturar, mas tão breve percebi que ele não valia o esforço e o meu mal-estar virara apenas raiva.
Eu não tinha o que temer ou do que me envergonhar, além de não ter acontecido nada entre mim e o Alex, o meu casamento não era como todos pensavam. No mais, eu sabia que a cautela teria de ser a minha companheira para tudo que fizesse ali dentro, e que teria de ser ainda mais cuidadosa do que sempre havia sido. Eu não só me manteria o mais longe possível do Adam, assim como também do Alex.
Perdi completamente a vontade de beber café, e só me restou voltar à minha mesa e terminar meu expediente. Pouco depois das dezoito horas, me despedi do Sr. Landon e fui para a recepção onde Mel me aguardava para pegarmos um táxi juntas. Enquanto esperávamos do lado de fora, contei a ela sobre o meu desagradável encontro com o Adam.
― Eu não acredito que ele falou isso, Li ― disse ela tão chocada quanto eu havia ficado. ― Cara, o que o Adam tem de bonito tem de cínico. E por que você não me chamou para tomar café com você? Quero só ver se ele ousaria te falar alguma coisa na minha frente. ― Mel levantou os punhos e os fechou como se estivesse pronta para uma briga, o que me fez soltar uma gargalhada. Só ela mesmo para me fazer rir naquelas circunstâncias.
― Liguei na recepção, mas você não atendeu.
Ela pareceu pensar, e então logo seu semblante se iluminou.
― Tive de dar uma saída. Richard me chamou na sala dele ― revelou toda sorridente. ― Advinha só quem vai sair da recepção para se tornar a nova secretária de um dos chefões?
― Nãããoooo?! ― Meus lábios se abriram, e ela já estava balançando a cabeça em um frenético "sim". A abracei e começamos a pular e soltar alguns gritinhos extasiados como duas loucas no meio da calçada. Só depois que a euforia passou que me dei conta de um detalhe. ― Espera, e a Helga?
― Ela se separou e vai voltar para a casa da mãe, no interior.
Um solícito "Ah" me escapou antes que eu a abraçasse novamente. Eu estava tão feliz por ela.
― Tenho certeza de que você será a melhor e a mais gata secretária da Wedo. ― Ela gargalhou e jogou o cabelo para o lado fazendo pose.
― Obrigada ― agradeceu entrelaçando seus dedos nos meus. ― Mas olha, eu acho que você não tem que se preocupar com o Adam, fiquei sabendo que ele vai voltar para Londres.
Será que iria mesmo?
Melissa Hierro
Max Landon
Adam Landon
Richard Landon
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