C A P Í T U L O 41
Os desígnios do Contrato
Um pensamento, uma possibilidade, viera como um tapa na minha face; eu até podia sentir o formigamento proveniente do sangue se acumulando nela. Será que fora por que o Anton e eu havíamos feito... Não! Não era possível. Isso era loucura! Balancei a cabeça, obrigando-me a ter alguma reação antes que a minha consciência me paralisasse.
Nem isso passara despercebido por aquele maldito Contrato?!
Como se o fato de eu ter dormido com o meu marido já não fosse um risco suficiente à minha sanidade e aos meus sentimentos, eu acabava de descobrir que talvez tenha sido isso que abrira o portal e que causara um reboliço no limbo. Aquilo era muita loucura para lidar. Eu estremecia só de imaginar que algo tão íntimo assim, pudesse ser exposto às pessoas.
Será que Avigayil sabia exatamente o que tinha acontecido entre nós dois?
Não, eu me recusava a acreditar nisso, mas naquele momento eu nem conseguia mais encará-la, retendo-me a olhar para todos os lados, menos para ela; as bochechas pegando fogo, a respiração descompassada, e um embaraço que eu não estava sabendo desfazer.
Droga, eu não estava conseguindo disfarçar! Era só manter a porcaria da calma! Forcei-me a respirar fundo, e depois de alguns segundos desconcertantes, consegui olhar para ela outra vez.
― Estamos nos entendendo ― limitei-me a dizer, tentando não desenvolver aquela conversa que tinha tomado um rumo tão errado. ― De qualquer maneira, pode ser que isso não seja tão relevante, já que o portão continua fechado.
Avigayil não se incomodou em rir, sublimando o seu contentamento, e comprovando o meu fracasso em esconder os fatos.
― Não se martirize, minha linda. Como assegurei, a abertura do portão é uma circunstância imprevisível, e no momento a espera é o único recurso. O que posso aconselhar é que continue se "entendendo" com o Anton ― insistiu ela, dando uma clara ênfase à definição dada por mim, e provavelmente eu já estava ficando roxa. ― Trate essa união como um diamante a ser lapidado, refina, aperfeiçoe, preserve, ensine e aprenda. Quanto mais rápido vocês oferecerem ao Contrato o que ele deseja, mais rápido desfrutarão de suas promessas.
Avigayil discursava como se fosse óbvio e extremamente fácil. Mas não era, pelo contrário, havia uma distância muito cruel entre o falar e o colocar o que havia sido dito em prática, e no que se referia ao meu casamento, não dependia só de mim. Eu não era tão tola, e podia enxergar nitidamente a grande disparidade emocional que sustentava a minha relação com o Anton. Embora ele não fosse mais indiferente a mim, eu não sabia exatamente o quanto se importava comigo, e enquanto os meus sentimentos tinham aumentado de um modo assustador, eu ainda não havia conseguido sentir nenhum vindo dele, exceto o desejo.
Para piorar a situação, eu não tinha a menor ideia de como estávamos depois daqueles dias fora de casa, e principalmente depois que eu lhe havia furtado o carro, porque apesar dos nossos avanços, lidar com a sua intempestividade e o seu humor aleatório estava longe de ser uma das minhas competências. Eu nem ao menos sabia se o que havia acontecido entre nós tinha sido apenas um caso de uma noite e um dia, e muito menos tinha certeza se conseguiríamos construir ou manter uma relação como um casal.
E se ao descobrir que o portal havia sido aberto, ele quisesse acabar com o casamento?
Céus! Não.
Eu não estava preparada para analisar essa possibilidade, só a sua dedução já me fazia sentir um aperto no peito e um nó doloroso na garganta. Ainda havia aquele terrível cansaço que me consumia e me causava um revertério horrível na mente, tornando o momento o menos adequado para me atropelar com uma avalanche de perturbações referentes ao meu casamento.
― Se desejar, posso analisar suas inscrições novamente para ver o que foi transfigurado ― Avigayil ofereceu e eu aproveitei para puxar algumas respirações e afastar aquelas sensações e pensamentos ruins. ― Pode ser que nos revelem algum sinal.
Sim, eu queria. Qualquer sinal, qualquer resposta que pudesse ter, seria bem-vinda.
Nós não demoramos muito mais por ali. O sol declinava no horizonte conforme a tarde avançava quando seguimos para dentro do Palácio. Depois de abraçar o meu avô, responder a todas as suas perguntas e conversar mais um pouco com as minhas avós, fui para o meu quarto tomar um banho e tirar aquela roupa suja antes de Avigayil aparecer para ver as minhas inscrições.
Após vestir uma lingerie, coloquei um roupão por cima para facilitar, logo mais, eu colocaria uma roupa quando fosse sair do quarto. Enquanto esperava por Avigayil, busquei na minha bolsa pelo meu celular e o carregador dele. O gps havia consumido toda a sua bateria na viagem para a Ilha, e eu não me lembrara de colocá-lo para carregar quando cheguei. Devia ser por isso que Ava e Sophi ficaram tão preocupadas, provavelmente me ligaram inúmeras vezes e só o encontraram desligado.
Conforme Louise dissera em nossa breve conversa, minha mãe e minha melhor amiga ligaram desesperadas procurando por mim, e fora a vez da minha avó inventar a desculpa de que eu estava ocupada resolvendo alguns assuntos por lá, para não dizer a elas o que realmente estava acontecendo. Caso contrário, era certo que os meus pais e Sophi fossem parar na Ilha, ou pior, que atravessassem o portal atrás de mim.
Naturalmente, meu coração pesava cheio de culpa por não ter avisado nenhum deles, mas eu saíra de casa tão angustiada, desorientada e preocupada com os meus avós, que esse fato virou apenas um detalhe soterrado por inúmeras aflições. Apenas agi, agi no calor das emoções e por puro impulso, e não me arrependia, porque pelo menos agora eu sabia o que encontrar do outro lado do portal, e apesar de estar assombrada com o que passei e com o que não se resolveu, eu não sentia mais medo e nem aquela ansiedade nauseante.
Esperar, segundo Avigayil, eu deveria esperar.
O suave barulho do celular tocou avisando que ele acabava de ser ligado. Após a sua inicialização, várias notificações começaram a chegar ao mesmo tempo. Quinze ligações da Sophi, vinte de Ava, sete do Petre, cinco da Mel, duas da Wedo... Ah, droga. Eu não tinha avisado nem ao Sr. Landon! Qual era a probabilidade de eu ainda possuir um estágio?
O arrependimento começou a bater. Talvez se não tivesse sido tão precipitada, a bagunça não teria sido tão grande.
Continuei verificando as minhas ligações, e havia só mais uma, mas foi apenas essa uma que fez o meu coração bater enlouquecido. Era do Anton. Não pude deixar de me indagar se ele também ficara preocupado comigo, ou se estava apenas nervoso por causa do carro. Será que ele havia decidido me matar de vez? O mais preocupante era que nem essa possibilidade diminuía a minha saudade e a vontade de vê-lo.
Que catástrofe estava a minha vida e os meus sentimentos.
Ainda com o celular na mão, sentei-me na cama e abracei minhas pernas. Abri o aplicativo de mensagens, e como já imaginava, havia inúmeras delas, vinda dos meus pais, da Sophi e da Mel querendo saber onde eu estava e o que tinha acontecido comigo. As do meu pai se resumiam a acusações e ameaças ao Anton, o que me fez rir. Petre não tinha jeito mesmo.
Nas últimas, eles pareciam mais tranquilos, apenas pedindo que eu ligasse assim que pudesse, provavelmente enviaram depois que conversaram com a minha avó. No entanto, ainda havia uma última mensagem, na verdade, fora a primeira de todas elas, enviada na segunda-feira à noite, e era dele.
"Não perguntarei as suas razões, porque sei que irei ter apenas as suas mentiras, mas vou descobrir o que você está aprontando, fada, e farei questão de fazê-la sentir os efeitos da sua insolência."
Ah droga. A situação não era nada boa, e esta constatação fez minha cabeça girar. Era impressão minha ou Anton ficara furioso? Temi pelo que faria comigo quando chegasse em casa, mas agora só me restava fazer uma prece fervorosa aos Deuses para que a sua ira tivesse se abrandado depois daqueles últimos três dias.
Não tive muito tempo para me desesperar, pois naquele momento Avigayil bateu na porta e eu tive de deixar o celular carregando para ir recebê-la. Poucos segundos depois, estávamos sozinhas no quarto, eu já tinha me livrado do roupão e ela andava à minha volta averiguando as inscrições que eu projetava junto da minha luz.
Segundo Avigayil, a árvore-da-vida nas minhas costas continuava inalterada, e pelo que eu conseguia ver na parte da frente, o Contrato ainda brilhava transcrito na minha costela esquerda, enquanto o portão, intacto e bem fechado na direita, sem nenhum sinal da ferida que horas antes me fez chorar de dor. Também não havia nenhuma alteração na cruz de Ankh e nem no nome do Anton.
― Oh, uma borboleta e uma mariposa ― Avigayil murmurou, e no mesmo instante segui o seu olhar até os meus ombros.
Havia uma mariposa no meu ombro esquerdo refletindo uma luz negra, e uma borboleta no direito refletido uma luz dourada, exatamente onde os insetos tinham me queimado. Passei o dedo sobre os desenhos e não senti nada, mas eles eram tão reais e expressivos, que mesmo parecendo loucura, realmente acreditei que os bichos tinham me penetrado a pele, e se instalado ali, sob ela.
O que será que elas queriam me dizer?
Avigayil deu um passo para trás para ter uma visão mais ampla, e eu estava prestes a lhe contar sobre o ocorrido, quando seu olhar se fixou em meu ventre e o seu cenho se franziu numa expressão muito intrigada e misteriosa. A sua reação me preocupou, e a sensação alarmante só piorou ao vê-la se colocar de joelhos, ainda encarando a minha barriga parecendo enfeitiçada por ela, o que imediatamente me levou a descer o olhar para a mesma direção. No jardim que ficava sobre a minha pélvis não havia mais cápsula ou semente, e o que antes parecia ser uma chave, havia desaparecido, subsistindo apenas um pequeno broto saindo do desenho da grama.
Ainda no chão, Avigayil abriu a mão e a levou ao meu ventre, mas a parou a poucos centímetros dele. Vi seus olhos se fecharem, um pequeno espasmo oscilar o seu corpo para frente e a sua cabeça cair para trás, enquanto puxava uma generosa dose de ar para dentro dos pulmões. Algumas palavras incompreensíveis foram sussurradas, e então os seus olhos se abriram revelando-se inteiramente brancos, assim como eu vira no ritual do casamento.
― Sacrum consilio contemplare et praeludium autem novus tempus... ― ela entoou um pouco mais alto, e novamente mais baixo, outra vez, e outra, até sua voz desvanecer e restar somente o convulso tremor de seu corpo.
Aquilo estava me assustando e me deixando nervosa. Que raios estava acontecendo com ela?!
Com o rosto completamente virado para o teto, uma mão agarrada ao ônix de seu colar e a outra próxima à minha barriga, Avigayil soltou todo o ar retido, e então fechou os olhos para em seguida abri-los de uma vez, expondo-os agora normais, com suas íris negras e fúlgidas. Rapidamente ela se levantou parecendo um pouco aturdida, andando pelo quarto e olhando para os lados com o semblante confuso e as mãos fazendo gestos como se estivesse conversando consigo mesma.
― Avigayil? ― a chamei, mas ela pareceu não ouvir. ― Avigayil, está tudo bem?
Toquei em seu ombro, e ela me encarou parando abruptamente, como se tivesse voltado a si naquele segundo. Gradualmente, conforme ela me olhava, o lume dos seus olhos foi resplandecendo, se intensificando, até se tornar uma chama intensa e vívida que escorria para os seus lábios em um sorriso amplo e maravilhado.
― O que...
― Preciso ir, minha linda ― interrompeu-me dando um passo para trás. ― Os Deuses me chamam.
― Avigayil, mas...
― Guarde os meus conselhos em seu coração, e não se esqueça do meu livro ― interrompeu-me outra vez, e então segurou firme a pedra do seu colar sussurrando palavras que fizeram um vento forte surgir e dar forma a uma densa névoa violácea. Esta, girou à sua volta até que todo o seu corpo fosse absorvido, para enfim, desaparecer.
Fiquei ali parada durante um tempo, tentando compreender o que havia acabado de acontecer. O peito pesado, a mente perdida. Nada se conectava, nada fazia sentido. Tantas dúvidas, e nenhuma resposta. Só consegui sair do meu transe quando minhas avós bateram na porta do quarto, e logo entraram cheias de perguntas.
Contei sem muitos detalhes o que ocorrera, porque não havia muito o que ser dito. Avigayil tinha ido embora daquele jeito estranho e nem me dera tempo de questionar o que eram aquelas mudanças nas minhas inscrições. Depois eu teria de entrar em contato para que me esclarecesse tudo. No mais, não tinha do que reclamar, pois ela havia me ajudado muito naquele dia.
― O que você pretende fazer agora? ― perguntou-me Louise.
Abraçada às laterais do roupão em meu corpo, a encarei, e deixei que o peso da responsabilidade me tomasse um suspiro exausto. Havia tantas coisas para serem feitas, mas apenas uma delas, a de maior carga emocional, brilhava no fundo da minha mente ofuscando todas as outras.
Eu precisava, desejava, voltar para casa, mas antes sabia que teria de resolver outro problema para conseguir ir embora tranquila. Seria preciso isolar e proteger o portal para que nenhum curioso o adentrasse, pois além dos meus avós, existiam vários funcionários e guardas-oficiais que moravam com suas famílias em uma vila próxima ao Palácio, fundada especialmente para acomodá-los na ilha. De acordo com Louise, só ela, Johan, Agnes e alguns guardas sabiam do portal, mas todo cuidado era pouco, e eu não queria ninguém correndo perigo.
― Precisamos encontrar uma maneira de esconder o portal, e assim que o fizermos, pretendo voltar para casa.
Não que eu esperasse, mas não houve nenhuma objeção por parte das minhas avós. Logo ambas deixaram o meu quarto para que eu pudesse descansar, e eu aproveitei para enviar uma mensagem para a Sophi e realizar uma rápida ligação para os meus pais a fim dizer que estava tudo bem e que voltaria no dia seguinte para a capital. Eles não fizeram muitas perguntas, mas tive que prometer que os visitaria no final de semana.
Por último, me peguei olhando fixamente para o nome "Maldito" na minha lista de contatos. Meu dedo fora para cima do ícone de ligação umas dez vezes, antes que eu desistisse de vez. Era tentadora possibilidade de ouvir a sua voz, mas a verdade era que eu não saberia o que dizer. Uma desculpa por telefone não parecia apropriado, e muito provável que brigaríamos e que a situação piorasse. Também pensei em mandar uma mensagem, mas o que eu responderia àquela ameaça dele?
Ah, Anton...
O que será que ele faria comigo?
Eu só queria ter algum poder de influência sobre ele, e ser capaz de acalmá-lo da mesma forma que ele me acalmava, com o meu cheiro ou beijo. Se antes a minha capacidade de compreendê-lo era tida como um desafio, um desejo, agora teria de se tornar a minha principal meta de vida. Para fazer tudo dar certo, eu teria que treinar a minha paciência e aprender a lidar com aquele vampiro nas mais adversas circunstâncias.
Sim, eu faria isso por mim, por ele, pelo contrato.
Deixei o celular de lado e resolvi dormir, mas antes me certifiquei de dispensar o jantar. Eu não sabia nem como ainda estava de pé, dado o estado de exaustão em que me encontrava. Parando para analisar, eu não dormia desde a madrugada de sábado da semana anterior, e com a confusão do tempo entre os dois mundos, já era quinta-feira, ou seja, havia quase uma semana que eu não tinha uma boa noite de sono.
Mal me deitei na cama e apaguei.
O dia seguinte começou cedo, às oito da manhã eu já tomava café com os meus avós enquanto decidíamos o que faríamos em relação ao portal. De acordo com a história contada no livro de Avigayil, o Rei Áed e a Rainha Aelie conseguiam abri-lo e fechá-lo quando bem-quisessem, e de algum modo eu sentia que conseguiria absorver toda a energia dele até encerrá-lo, e então usá-la novamente para a sua abertura. No entanto, como agora tudo estava relacionado ao Contrato de Destino, se tornava arriscado tentar.
Eu não queria fechar o portal e depois não ser capaz de abri-lo, por essa razão meus avós e eu decidimos interditar o centro do labirinto com altos arbustos e algumas grades. Isso o manteria oculto e longe dos que não sabiam de sua existência, e sempre teriam guardas vigilantes à qualquer violação.
Ao final daquela manhã, arrumei as minhas malas e almocei com os meus avós. Foi um momento alegre e reconfortante, embora o clima fosse de despedida. Aproveitei para observá-los, eles estavam, de certa forma, felizes e orgulhosos de mim, e eu, eternamente agradecida a eles e a Aine por ter me dado uma família tão amorosa e completa.
Pedi que continuassem mantendo segredo sobre o meu título para não causar nenhuma confusão ou despertar a atenção desnecessária dos meus tios-avôs. No entanto, os três me garantiram que eles haviam aceitado a desculpa que deram na última reunião do conselho e que, além dos funcionários da Ilha de Aiden América, ninguém mais tinha conhecimento.
Só restava saber até quando.
Voltei para o litoral sob a responsabilidade do capitão da Guarda, e assim como havia sido ao me buscar, Morain fez questão de me levar pessoalmente para o Hotel Argwen. Enquanto ele descia a minha mala, me encaminhei até a recepção, falei o meu nome e pedi que me trouxessem o carro que havia deixado lá, na segunda.
― Desculpe-me, Sra. Aileen, mas o seu carro foi retirado daqui na terça-feira pela manhã ― falou a recepcionista, e talvez eu tenha tido um pequeno ataque cardíaco acompanhado de uma breve vertigem.
Do que aquela mulher estava falando?! Eu quis gritar, mas me contentei em apenas balançar a cabeça e soltar uma risada nervosa, porque não era possível.
― Imagino que houve algum engano...
― Sra. Skarsgard.
A voz conhecida e a energia intensa que destoava do ambiente me fizeram calar, e então virar-me rapidamente para trás encontrando James parado a poucos metros, sob seu habitual terno preto, mãos para trás e um casto sorriso de lábios fechados. De repente tudo fez sentido, claro que o Anton havia mandado buscar o carro, e claro que devia existir algum rastreador para ter sido encontrado tão rápido.
No entanto, se o carro fora retirado a dois dias atrás, o que o motorista do meu marido continuava fazendo ali?
― Mike e eu chegamos na terça-feira ― explicou James. ― Ele foi embora com o carro, e eu fiquei aguardando pela senhora, para levá-la de volta.
Ele ficara me esperando ali por todo esse tempo? Céus! Logo naquele hotel, em que a maioria dos funcionários e hóspedes eram fadas. Era um tanto desagradável os olhares cerrados e desconfiados das pessoas à nossa volta, dirigidos à James. Fiquei incomodada por ele. Fadas realmente conseguiam ser bem esnobes quando queriam, mas dado a nossa história, eu não podia culpá-las, e me peguei pensando se algum dia essa relação hostil entre as duas raças mudaria.
― Anton quem o mandou me esperar? ― perguntei, o tom sutilmente ansioso acabando por transparecer uma expectativa que eu não queria demonstrar.
― Precisamente, a ordem era para que eu não retornasse sem a senhora.
Certo, Anton poderia ter dado a ordem só para garantir que eu não escapasse do castigo que provavelmente estava armando para mim, mas mesmo assim, não me importei. Pouco disfarcei o meu sorriso de contentamento ao ouvir aquilo, porque na minha cabeça ele me queria de volta em casa.
― Majestade! ― exclamou Morain.
Sua entonação agravada me pegou desprevenida, e fiquei ainda mais confusa quando o capitão, agilmente, largou a mala ao meu lado e se colocou à minha frente como se estivesse me protegendo de algo. Confesso que demorei alguns segundos para perceber que esse algo era o James.
― Tudo bem, Sr. Emor ― falei saindo de trás dele, e apontei para o vampiro. ― James é o motorista do meu marido, e veio me buscar.
Com toda sua elegância, placidez e humildade, James educadamente estendeu a mão para Morain que, após alguns olhares para mim e outro para o vampiro demonstrando todo o seu desgosto, apertou a sua mão com uma sucinta apresentação. Era um começo, e no que dependesse de mim, essas diferenças iriam mudar. Tinham que mudar.
Despedi-me do capitão da Guarda de Aiden, e então segui James até o carro. O anseio, a expectativa, e uma pequena pontada de nervosismo formigavam em meu ventre e me traziam à mente aquelas intensas profundezas azuis. Suspirei fundo encostando a cabeça na janela e fechei os olhos sentindo um sorriso bobo repuxar os meus lábios.
Eu estava voltando para casa, voltando para ele.
Descobri que a longa noite de sono não havia sido suficiente para tanto cansaço, pois os meus olhos só voltaram a se abrir quando James, delicadamente, tocou o meu ombro e me acordou avisando que havíamos chegado. Desci do carro já na garagem, sem ter ideia de que horas eram, e somente no primeiro andar, vi que o céu começava a escurecer.
Tudo estava igual, silencioso, frio e vazio, mas eu não poderia estar mais feliz. À cada degrau avançado, era uma recordação libidinosa, e um desconcertante calor nas bochechas. Eu ainda as sentia arder, quando encontrei com a Rose no segundo andar. A cumprimentei com um abraço, e não perdi a oportunidade de perguntar pelo Anton.
Inevitavelmente a decepção veio ao ouvir que ele ainda não havia chegado, mas também senti alívio, porque apesar de estar ansiosa para vê-lo, sentia que ainda não estava preparada para enfrentá-lo. A minha entrega a ele havia sido tão verdadeira e intensa, que eu temia pelo que as suas mínimas ações ou ameaças pudessem causar aos meus sentimentos. Eu só desejava que a decepção não fosse tão grande e aguda, de preferência, que não houvesse nenhuma.
Droga, eu não queria criar esperanças em relação a nós dois, mas depois de todos aqueles conselhos de Avigayil, pareciam que elas já haviam sido criadas.
Tão logo recolhi-me em meu quarto, fui tomar um banho, longo, calmo, introspectivo, pensando e refletindo sobre algumas possíveis desculpas para dar ao Anton. Pensei nos efeitos da verdade sobre o portal, e nada me tirava da cabeça que ele poderia querer acabar com o casamento, por isso estava fora de cogitação. De qualquer maneira, eu não devia me preocupar com isso antes do tempo, Anton não iria procurar saber sobre mim, mas sim, o porquê havia pegado o seu carro, e para isso, eu tinha uma resposta na ponta da língua.
Sem pressa, passei um hidratante no corpo, sequei o meu cabelo, mecha a mecha, até ficar todo seco e liso, e após escovar os dentes, enrolei-me na toalha e saí do banheiro. O susto foi súbito, com um pulo para trás e um engasgo ao tentar reprimir o grito. Não que aquela visão tenha sido assustadora, longe, muito longe disso, eu só não estava esperando.
Como o mais lindo, penetrante e tentador dos delírios, sentado na poltrona ao canto, inibindo a sua energia, Anton me encarava. Os olhos invernais entrecerrados, o maxilar teso, e a sutil respiração espelhada pelo imperturbável sobe e desce de seu peito sob o terno negro.
Céus, eu quase havia me esquecido do quanto tudo nele podia ser tão insinuante, perigoso e estremecedor.
Lá estava aquele calor incontrolável provocado por toda a tensão sexual que ele naturalmente expelia, mas agora agravado pelos momentos íntimos que havíamos trocado. Do meu coração trêmulo e enlouquecido, despontava uma vontade insana e desesperadora de correr até ele, pular em seu colo e abraçá-lo, de sentir o seu cheiro, as suas mãos, e dizer o quanto senti a sua falta.
A vontade era tão grande que chegava a doer, mas ainda persistia uma pequena parte sã em mim, na qual habitava o meu instinto de autopreservação. Eu ainda não estava preparada para lidar com a decepção de uma rejeição, se é que algum dia estaria, mas era certo que Anton não iria corresponder ao meu afeto naquele momento. Eu bem sabia que por debaixo da sua serenidade fria, rigidamente controlada, se escondia um vampiro furioso e disposto a me punir. Vê-lo ali, tão clínico, imparcial e comedido, só me comprovou que as consequências dos meus atos viriam com um alto preço a ser pago.
― Antes que comece a brigar ― levantei uma mão, o outro braço me abraçava a cintura ―, saiba que... eu...
As palavras foram sumindo da minha mente, à medida que meus olhos absorviam o movimento calmo e preciso em que Anton se colocou de pé. Elegantemente, ele escorregou as mãos para dentro dos bolsos, nenhum passo foi dado, mas a sua violenta atenção permanecia cravada em mim, como se sussurrasse as mesmas tentações de quando me tocava.
Havia um fogo intenso em seus olhos, eu só não tinha certeza se era raiva ou desejo.
― Vou perguntar apenas uma vez, e para o seu bem, é melhor que me diga a verdade. ― Apoiei as costas na parede, sentindo minhas pernas tremerem ante a voz incisiva e tempestuosa. ― Onde você estava?
Sacrum consilio contemplare et praeludium autem novus tempus – do latim, "O desígnio sagrado agraciará com o prelúdio de uma nova era."
Coming Home – Urban Myth Club
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