C A P Í T U L O 39
Do destino, a rainha
Não estou com sono. Não estou com sono. Não estou com sono, repeti para mim mesma dando tapinhas nas minhas bochechas, enquanto tentava enxergar além da chuva torrencial que caía sobre o para-brisa do carro. Por sorte, um letreiro neon avermelhado me permitiu ler claramente a palavra "Cafeteria" pendurada ao longe, na parede de um estabelecimento solitário à margem da estrada.
Sim, café seria a minha salvação.
Sem pensar duas vezes, entrei no desvio e parei em frente à pequena lanchonete. Provavelmente eu molharia muito até chegar à porta, mas dado o meu estado quase sonâmbulo, a água gelada ajudaria a me manter despertada. Joguei a jaqueta sobre a cabeça, peguei minha bolsa, e saí correndo do carro em direção à entrada.
Uma sineta tocou quando abri a porta de vidro e adentrei o lugar correndo os olhos pelos quatro cantos e desvencilhando-me do tecido grosso posto sobre os cabelos. Não havia ninguém, mas devido ao isolamento da região e o temporal que ameaçava desabar o céu lá fora, não fiquei surpresa.
O estabelecimento era simples, mas muito limpo. De um lado havia freezers e prateleiras carregadas com alimentos industrializados e até mesmo alguns souvenirs. No meio existiam pequenas mesas espalhadas em fileiras, cobertas com foros de estampa xadrez num tom sutil de rosa, que combinava com os vasinhos de lilases sobre elas. Já do outro lado ficava o balcão com vários bancos altos, remetendo de fato a uma cafeteria. Era certo que a rusticidade do piso de madeira e a modéstia dos móveis presentes davam uma atmosfera bucólica e reconfortante ao local, mas a real sensação de conforto vinha principalmente do delicioso cheiro de bolo caseiro e café.
Céus, como eu estava faminta. Com a correria das últimas horas, só naquele momento percebi o quanto meu estômago reclamava. Já deviam ser quase quatro horas da tarde, três delas ininterruptas na estrada, e a minha única refeição havia sido uma maçã que Rose me obrigara a levar para a faculdade, já que nem tempo para tomar café da manhã ou para almoçar, eu tive.
Caminhei até o balcão e já estava quase batendo na campainha que havia ali em cima, quando uma garota aparecera correndo pela portinhola que, possivelmente, levava para a cozinha daquele lugar. Ela parou com as mãos nos joelhos como se estivesse recuperando o fôlego, e me olhou com um sorriso caloroso.
― Me desculpa ― disse ofegante, antes de se endireitar e passar as mãos pelo avental branco. ― Mamãe foi buscar minha irmã na escola e estou aqui sozinha cuidando dos fornos.
Era perceptível a sua pouca idade, não só na aparência, nos seus gestos ou na voz de menina, mas na inocência de falar que estava sozinha para uma estranha, que para a sorte dela, era eu.
― Não se preocupe, acabei de chegar ― respondi devolvendo-lhe o sorriso e sentando-me em uma das banquetas.
Ela se aproximou parando bem à minha frente, do outro lado do balcão. O cabelo castanho-claro preso no alto da cabeça, o nariz arrebitado e as sobrancelhas grossas que se destacavam na pele oliva. De perto foi mais fácil sentir a sutil energia que emanava dela. Era uma fada, uma linda e jovem fadinha que, dada a sua leve intensidade, devia ter acabado de adquirir seus poderes, portanto, provavelmente não tinha mais que quatorze anos, ou ainda era muito híbrida, pertencente à quarta ou quinta casta de fadas.
Eu diria que pertencia à quinta, uma Trabalhadora, as mais híbridas e de poderes mais brandos que viviam suas vidas alheias aos deveres da raça, e que representavam a esmo cinquenta por cento das fadas espalhadas pelo mundo. Diferente das que pertenciam à quarta casta, chamadas de Organizadoras, que eram um pouco menos híbridas e que já nasciam envolvidas com a administração e arranjo dos centros de concentração de fadas, como vilas, bairros e comunidades, exercendo funções principalmente em benefício da espécie. Estas, já representavam vinte e cinco por cento de nós.
― Você é uma fada, não é? ― perguntou ela, seus brilhantes olhos amendoados eram rápidos e pareciam não perder nenhum detalhe, enquanto me fitavam com curiosidade. Acenei um "sim", e ela soltou uma risadinha junto de um pequeno pulo animado, tão infantil que foi impossível não rir também. ― Puxa, eu te sinto com tanta intensidade! Nem a energia do papai é assim! Qual casta você pertence? Eu também sou uma fada, você me sente? Meus poderes vieram para mim semana passada, e estou tão feliz! Por um tempo pensei que seria bruxa, assim como mamãe, mas então me revelei fada assim como o papai. Posso ver a sua luz?
― Aeliana! ― Uma morena surgira pela mesma porta que a garota, pelos traços dava para ver a semelhança entre as duas, e pela energia bruxa, concluí que deveria ser a mãe dela. ― O que já conversamos sobre isso, mocinha?
― Mamãe, ela é uma fada! E é diferente, eu sei!
O meu sorriso cresceu, em parte por presenciar um entusiasmo tão sincero, mas também havia a intenção de disfarçar o meu desespero, porque as últimas horas eu passara justamente desejando não ser esse "diferente" cujo qual ela se referira. Vendo a alegria daquela garota, perguntei-me como seria se eu fosse uma fada normal, se não pertencesse à primeira casta, se não fosse uma Aileen Irwin, se não houvesse um Contrato de Destino, e se eu não fosse uma rainha...
Droga, se não existisse um Contrato, eu não teria me casado, e agora essa ideia não era tão ruim, pelo contrário, a verdade era que eu já não conseguia mais imaginar a minha vida sem aquele vampiro que havia transformado o meu mundo. O que seria de mim? Ficara óbvio que uma overdose de Anton não tinha me feito bem, pois nem havia se passado dez horas que eu o tinha visto pela última vez, e já sentia tanto a sua falta.
Não, não era hora de pensar nisso, havia coisas mais importantes para resolver antes de começar a remoer a confusão dos meus sentimentos e as aflições da nossa relação complicada.
― Vá cuidar da sua irmã, eu assumo aqui. ― A fadinha me lançou um último sorriso acompanhado de um "tchau", e rapidamente saiu de lá. ― Desculpe-me por isso ― disse a mulher com um sorriso constrangido, entregando-me um cardápio de uma folha. ― Os poderes dela afloraram recentemente, e ela ainda está na fase da empolgação.
― Tudo bem, eu entendo.
Quem quer que visse o cintilar dos olhos da garota, entenderia, mas que a verdade fosse dita, eu nunca havia passado por essa fase. Desde o início os meus poderes resultaram em problemas, mudanças angustiantes e grandes responsabilidades. Certo, eu não devia ser injusta e me esquecer que eles também me despertaram para a realidade de um mundo que eu havia sido privada. Assim como me trouxeram um lindo e excêntrico marido que do mesmo modo que bagunçara a minha cabeça e os meus sentimentos, tinha me proporcionado momentos únicos e especiais, como fora o dia anterior. Momentos estes, que acabariam virando apenas uma lembrança, um sonho, porque provavelmente nunca mais iriam ocorrer.
A vontade de chorar era grande, eu só queria dormir e acordar daquele pesadelo, porque se antes eu acreditava que a minha vida estava um caos, agora percebia que ela não estava nem perto disso. Descobri que o meu futuro era ainda mais incerto do que imaginava, e que as adversidades se tornariam piores.
Eu estava com medo.
Medo do que viria, medo de falhar, de perder as poucas coisas boas que eu havia conquistado no meu casamento, na minha vida. Olhei para além do vidro da janela, a chuva continuava a cair como um dilúvio, e apesar de adorar dias chuvosos, aquela parecia estar afogando o meu coração desde o instante em que eu recebera a ligação de Louise pela manhã. A intensa felicidade que preenchia cada célula do meu ser se desfez com uma única frase.
"Você precisa vir para Aiden o mais breve, um portal foi aberto no jardim."
Eu deveria ficar feliz, porque finalmente iria libertar as fadas daquele purgatório, mas eu não conseguia! Não conseguia sentir nada além de medo, tristeza e... culpa. A culpa me punia por ser tão egoísta, por ter medo do meu casamento acabar agora que atingira meu objetivo, por não querer assumir tantas imposições, por não achar justo e por ter pensado em fugir das minhas obrigações.
Eu não queria, a escolha pesava e sufocava, mas ainda que doesse, a fiz.
Larguei tudo para a assumir a responsabilidade que tanto tentei adiar. Obriguei-me a vestir a máscara de rainha para exigir que meus avós ou qualquer outra fada, não se atrevessem a passar pelo portal sem a minha presença ou autorização. Esse problema não era deles, era meu, foi destinado a mim e eu fui destinada a ele, e jamais permitiria que meus avós entrassem naquele lugar sabendo o que existia lá dentro.
Voltei-me para a bruxa que continuava esperando à minha frente, e abri o melhor sorriso que consegui.
― Vou querer uma xícara de café, aliás, vou querer duas, e também um pedaço desse bolo que está cheirando tanto, se já estiver pronto, é claro ― pedi e instantaneamente fui acolhida com um extenso sorriso de satisfação.
Primeiro Cosmina, assim como se apresentara, me servira café fresco, e então um grande e delicioso pedaço de bolo formigueiro recém-saído do forno, o qual devorei em poucas garfadas sob o seu olhar atento e orgulhoso. Ela me contara que por causa do marido conhecia a predileção natural que nós, fadas, tínhamos para os doces, por isso fizera questão de acrescentar uma maravilhosa calda de chocolate à cada fatia que me servia.
Quando terminei minha última xícara de café já eram exatas quatro horas da tarde. Pelo gps do celular, ainda faltavam uns quarenta minutos até o litoral, onde haveria um barco me esperando para me levar até a Ilha de Aiden. Se quisesse pelo menos chegar ao porto de dia, precisaria agilizar, muito embora, pela escuridão do céu coberto de nuvens carregadas, não fizesse diferença.
Só esperava que a viagem de barco não fosse adiada por causa do temporal.
Aproveitei a ocasião para pegar uma garrafa de chá energético, assim como também algumas guloseimas para ir me distraindo durante o resto caminho. Paguei pelas compras e pelo que eu havia consumido, e enquanto assistia à mulher colocar tudo dentro de uma sacola, me peguei pensando em sua filha.
― Aqui está, muito obrigada, e volte sempre que passar por aqui e quiser comer um bolo fresquinho ― agradeceu entregando-me a sacola.
― Imagina, eu quem agradeço. ― Ajeitei a jaqueta no braço e a bolsa em meu ombro. ― Estava uma delícia, pode deixar que voltarei na primeira oportunidade. ― Correspondendo seu sorriso gentil, a olhei nos olhos, vendo tão de perto, percebi que eles tinham o mesmo tom amendoado dos da garota. ― A sua filha se chama Aeliana, certo? ― Ela confirmara com um meneio. ― Por favor, diga a ela que me chamo Liz Aileen Irwin Skarsgard, e que sim, eu a senti, mas mais do que isso, diga que eu vi em seus olhos o quanto ela é uma fada incrível.
Eu não saberia dizer ao certo por que, mas Cosmina ficara surpresa, pois permaneceu alguns segundos com a boca entreaberta e os olhos esgazeados, antes que adquirissem um fulgor expressivo e o seu sorriso se alargasse ainda mais, se era possível. Ela me agradeceu novamente, nos despedimos e eu saí da cafeteria.
A primeira sensação fora a do vento frio batendo em meu rosto e balançando os meus cabelos, mas quase no mesmo segundo senti a presença de uma energia acentuada, seguida do odor de cigarro. Olhei para o lado, sob a mesma marquise que me protegia da chuva, havia um vampiro com as costas e um dos pés apoiados na parede. Uma de suas mãos levava o cigarro até a boca e a outra descansava dentro do bolso da jaqueta de couro, numa postura que realçava a aparência jovem que seus bagunçados cabelos loiros caídos sobre a testa lhe conferiam. Da mesma forma que, de perfil, o nariz e queixo pronunciados lhe davam um ar rebelde.
Virando a cabeça, o vampiro me olhou de cima a baixo soprando a fumaça devagar. Um dos cantos de seus lábios se elevaram num sorriso sugestivo, e quando os olhos cinzas encontraram com os meus, ele me lançou uma piscadela. O arrepio foi instantâneo, e a assimilação ficara confusa, porque de frente eu tinha a estranha sensação de que já o tinha visto em algum lugar.
Talvez no evento da Skar ou até mesmo no aniversário do Vincent. Provavelmente fora neste último, pois pela intensidade da sua energia, era um vampiro velho, e se andava de dia, como uma vez Eleonora me revelara, era porque havia sido agraciado com esse dom por eles. Como? Não fazia ideia, mas era algo que eu perguntaria ao Anton se voltasse a ter uma oportunidade.
De qualquer maneira, não deixava de ser intrigante a coincidência de encontrar aquele vampiro ali...
Ah céus, e se não havia sido uma mera coincidência? Não, eu não tinha motivos para ser seguida, a não ser pelo vampiro que me atacara e que eu... Não, não... O Anton havia resolvido o problema, e eu não tinha tempo para ficar paranoica pensando nessas coisas, as minhas prioridades naquele momento eram outras.
Desviei minha atenção para o carro parado à frente fingindo não ter percebido o jeito que ele continuava a me analisar, e ignorando a apreensão que me enrijecia o estômago, peguei a chave dentro da bolsa, destravei o carro, e usei como desculpa a chuva para correr até ele enquanto na verdade, eu só queria sair o mais rápido dali.
Pisei no acelerador e voltei para a estrada seguindo o meu caminho, agora ainda mais atenta e vigilante. À todo instante olhando pelos retrovisores para ver se tinha alguém me seguindo, mas para o meu alívio, a estrada estava vazia, e não havia sinal de nenhum carro à espreita, e assim continuou até que eu chegasse ao litoral.
A primeira parada fora no Argwen Hotel, uma das unidades da rede de hotéis pertencentes ao tio Ivo, onde sempre ficava alguém esperando para nos levar até o porto e, principalmente, onde eu poderia deixar o carro do Anton em segurança. Céus, ele ia me matar por ter pegado o carro dele, ou no mínimo teríamos uma briga daquelas. Tive que sorrir com essa perspectiva, não importava mais. Não saber o que iria acontecer depois que eu atravessasse aquele portal, fazia com que a simples e familiar possibilidade de voltar a brigar com ele, me deixasse um pouco feliz.
Entreguei a chave do carro para o manobrista do hotel com mil recomendações para que cuidasse bem dele, e enquanto esperava o concierge retirar a minha mala do porta-malas, reparei que um fada-homem se aproximava com a sua nada discreta compleição física coberta pelo tradicional uniforme branco com detalhes dourados dos guardas-oficiais de Aiden.
Esse uniforme era uma clara identificação não apenas da sua função, mas também da casta a qual pertencia, uma vez que, apenas fadas da terceira casta, chamadas de Guardiãs, eram aptas a esse encargo. Ainda menos híbridas do que as da quarta, seus poderes eram fortes o bastante para protegerem as Ilhas de Aiden, e também para serem responsáveis pela vigilância e manutenção dos ciclos da Natureza. Elas compunham aproximados quinze por cento da espécie.
Ao se colocar diante de mim, ele curvou os ombros largos levando todo o tronco robusto para frente, e eu observei o gesto sem entender.
Por todos os Deuses, o que era isso agora?
― Majestade ― saudou o homem, e essa única palavra me deixou tão atordoada que tive que olhar para os lados só para ter certeza se era comigo que ele falava. Acabou que além de confusa, fiquei envergonhada com todos os olhares se voltando para mim. Ao endireitar-se, ele me olhou. ― Morain Emor, capitão da Guarda de Aiden. Estou aqui para levá-la à Ilha.
Eu tinha que admitir, o fada era bem-apessoado, embora homens loiros não me chamassem a atenção, menos ainda depois que um certo vampiro de olhos frios invadiu a minha vida. Os olhares femininos que o tal capitão atraía à nossa volta, não eram somente pela importância atribuída ao uniforme, pela sua altura ou pelo corpo musculoso, ele tinha olhos azuis profundos, os cabelos curtos, e uma barba cerrada que realçava a masculinidade do seu ofício.
― Não precisa me chamar assim, ainda não estou acostumada com essa convenção e acho que nem todos sabem que eu sou... ― Abri um sorriso sem graça diminuindo o tom da minha voz. ― Você sabe.
Acredito que vi a sombra de um sorriso em sua expressão, mas sua resposta viera pronta.
― Peço desculpas, mas Vossa Majestade é a minha rainha, e eu não poderia tratá-la de outra forma.
Pronto, era só o que me faltava.
Me senti tão estranha quanto àquelas espécies de peixe pré-histórico recém-descobertas nas profundezas do oceano. Será que os meus avós haviam revelado para todos? Por Aine, não! Ocorreu-me uma leve ânsia com o pensamento, mas aproveitei para afastá-lo quando o concierge entregara a minha mala para Morain. O agradeci, e então segui o fada até um carro que nos aguardava.
A chuva ainda caía forte quando chegamos ao porto, e vendo o mar tão de perto, comecei a me indagar se realmente era uma boa ideia a viagem de barco naquelas condições. Pelo que me lembrava, da costa até a Ilha demorava pouco mais de uma hora, mas com aquele tempo, eu já não tinha certeza. De qualquer forma, a dúvida maior nem era se eu chegaria viva a Aiden, mas se eu sairia viva de lá.
Certo, pensar nessas coisas não estava ajudando.
Outro guarda, que me esperava a postos com um guarda-chuva, gentilmente me guiou até o barco. Na verdade, aquilo mais parecia um navio blindado, bem diferente dos que nos buscavam quando eu era criança. Morain, que não havia saído do meu lado, percebendo os meus olhares apreensivos, explicara que a embarcação havia sido escolhida pela segurança e em razão do mau tempo, como eu já havia suspeitado.
O navio até poderia ser seguro, mas não me impedira de gastar todas as minhas preces à Aine. Mesmo sentada na segurança da cabine do capitão, senti toda a ira do mar através das ondas altas e revoltas. Fora até irônico refletir que aquele momento resumia a minha vida nos últimos meses.
Um destino em mente, mas um caminho melindroso, estruturado sobre incertezas constantes. A necessidade de me agarrar a um fio de esperança, esta que era a minha vida e a de todas as fadas presas, para dar conta de sobreviver ao mar tempestuoso, caótico e enlouquecedor, assim como o meu lindo marido. Céus, por que eu não conseguia parar de pensar nele nem nesses momentos críticos?
Quando, por fim, desembarcamos na Ilha de Aiden, eu já não sentia as minhas pernas e não havia mais nada no meu estômago, mas continuava viva, e com uma necessidade louca de ficar sozinha para conseguir respirar, ou talvez... chorar. Meu coração pesava, e se encolhia à cada inspiração que não dava conta de aliviar aquela pressão angustiante.
Eu precisava de um tempo para assimilar, precisava pensar.
Recusando-me a seguir com Morain de carro até à soleira do Palácio de Aiden, pedi que me deixasse no início do parque frontal. Parada, debaixo do guarda-chuva, olhei para o extenso caminho de pedra margeado pelo suntuoso jardim que levava para a imponente edificação de pedras claras ao estilo greco-romano. A visão fizera uma nostalgia se somar ao nervosismo e me congelar por dentro.
A escuridão da noite me privava de boa parte dos belos detalhes, mas as lembranças os traziam com perfeição. Foram tantos momentos bons ali, tantos sentimentos, tantas sensações que eu sabia que nunca mais seriam as mesmas. Apertei os olhos inspirando uma porção de ar úmido com força, e o soltei devagar contando até dez. Um passo à frente, e um arrepio súbito.
"Liz..."
Abri os olhos e olhei para os lados, não havia ninguém. Fora uma lembrança ou apenas a minha imaginação? Por que agora os ruídos dos ventos pareciam sobressair-se aos da chuva?
"Liz..."
Outra vez o meu nome, mas não havia voz, era a sensação, como se ele rastejasse pelo meu corpo deixando uma trilha de calafrios. Mais um passo, e então um tremor.
"Liz..."
Havia sido um sussurro das árvores? Eu devia estar enlouquecendo, mas a sensação se intensificara. Quando dei por mim, a minha luz dourada estava sendo expelida pela minha pele, eu já havia abandonado o guarda-chuva no chão, retirado as sapatilhas, e estava andando sob a chuva forte em direção às árvores. Ao primeiro toque dos meus pés na grama, o mundo parou, os sons desapareceram, e o ar se tornou um vazio frio, e o vazio pintou a minha mente de branco.
"Liz..."
O eco de uma batida veio lá do fundo, outro, outro, e outro, aumentando gradativamente até eu ter a certeza de que estava ouvindo o meu próprio coração. Calmo, rumoroso, constante. Então, de repente, o sangue que eu ouvia rastejar pelo meu corpo, se tornara a seiva que corria dentro de cada uma daquelas árvores.
Eu podia sentir a vida orgânica que clamava à minha volta. Eu a ouvia respirar, sentia suas ramificações se agarrarem aos meus pés à cada passo que dava, como se quisessem se unir a mim, ou me puxar para elas, guiando-me para algum lugar. De olhos fechados me deixei levar, sentindo a lenta troca de poder, na qual a minha alma se unia àquele meio, e ele se tornava parte de mim, enquanto atingíamos um equilíbrio entorpecente.
― Liz?! ― O grito me despertara fazendo-me abrir os olhos, Louise estava parada ao lado de alguns guardas, no caminho de pedra. ― Por Aine! O que você está fazendo debaixo dessa chuva?!
Eu não tinha a menor ideia do que acontecera, e muito menos porque eu estava me embrenhando no jardim naquelas circunstâncias. Sem ter uma resposta razoável, limitei-me a sorrir e correr até a minha avó, descalça, cabelo, jaqueta e calça jeans encharcados. Em um segundo já tinha um guarda ao meu lado segurando o guarda-chuva em cima de mim, o que já não adiantava muita coisa.
Após um forte abraço, rapidamente Louise me arrastou para dentro do Palácio, onde meus avós Johan e Agnes me esperavam sorridentes e de braços abertos. A conversa e os cumprimentos não duraram muito, pois sob os protestos das minhas avós, fui obrigada a ir para o meu quarto tomar banho.
Ao sair do banheiro devidamente limpa, seca e vestida com um vestido confortável, encontrei uma das funcionárias terminando de desfazer a minha mala. Era outra que, assim como Morain, não dispensara a formalidade antes de me avisar que os meus avós me esperavam no salão de jantar.
Definitivamente, aquilo era perturbador, e não era somente pela exaltação quase sagrada a mim, mas principalmente pelas expectativas que as mesmas sobrepunham àquele título e, consequentemente, à minha pessoa, com a crença de que eu fosse especial por causa dele.
Saí do meu quarto direto para o salão de jantar, um dos inúmeros cômodos majestosos do Palácio de Aiden. Eu me lembrava de esconder detrás das altas colunas gregas que existiam ali quando Ava e Petre chegavam à Ilha para me buscar ao final das férias. Ou ainda de me deitar no chão de mármore para ficar olhando as cores que as flores desenhadas nos vitrais que compunham o teto, refletiam nas paredes claras. Também me lembrava de engatinhar debaixo da longa mesa quando o vovô brincava de pique-e-pega comigo, só porque ele não cabia lá embaixo para me pegar.
― Boas recordações?
Olhei para o meu avô, percebendo que girava à minha volta enquanto me perdia nas minhas memórias. Dei-lhe um sorriso caminhando até a mesa, e fora nesse momento que reparei que ao contrário das minhas avós, ele não estava sentado em sua costumeira cadeira à ponta da mesa, mas acabava de puxá-la para mim. A cadeira principal, a da cabeceira e a mais importante.
Aquilo parecia tão errado, que novamente me veio uma ânsia passageira e uma vontade de chorar. A aceitação estava sendo muito mais difícil do que havia previsto, e se já era estranho uma fada que eu não conhecia me tratar como rainha, quando eram os meus avós, tornava a situação desesperadora.
― Não faça isso, por favor ― pedi baixinho, balançando a cabeça. ― É a sua cadeira, vô.
― Considere um presente, minha princesinha, ou melhor, minha rainha ― disse ele tentando soar engraçado, mas o máximo que conseguiu fora me arrancar um riso nervoso que congelou um sorriso doloroso em meus lábios. ― Esse é o seu lugar.
Aquele não era o meu lugar, na verdade, tudo ali me parecia estar fora de lugar. Do teto, por onde devia estar entrando os raios de sol coloridos, agora só se ouvia o barulho pesado da chuva. Eu devia estar feliz e sorrindo verdadeiramente para os meus avós, e não quase sucumbindo ao choro. O meu coração devia estar aberto, e não tão esmagado. Eu devia saber o que fazer, e não estar tão perdida.
Eu queria gritar, mas preferi me sentar em silêncio.
Para o meu alívio, a conversa durante o jantar se resumira às ternas recordações da minha infância em Aiden, e às melhorias que estavam sendo feitas na ilha, mas de maneira casual, e não como uma tentativa de me inteirar sobre os assuntos. Também me perguntaram sobre o meu casamento, e eu me abstive à simples resposta de que estava tudo bem, e eles eram discretos o bastante para entenderem que eu não queria falar sobre.
Quando terminamos, meus avós me guiaram para o escritório deles, e fora lá que o pesadelo começou. Parei de ouvir no instante em que Johan planejava montar uma milícia de guardas para atravessarem o portal, excluindo completamente o fato que era eu quem devia abrir o portão que existia lá dentro.
― Isso não vai acontecer ― assegurei levantando-me do sofá. ― Ninguém vai entrar lá, vô. ― Confusos, os três abriram a boca para falar alguma coisa, mas já os cortei logo. ― Eu não queria fazer isso, não queria usar esse título, porque pra mim, ele não significa nada, mas se ele me garantir a segurança de vocês, vou usá-lo. Como rainha, digo que nenhuma fada vai entrar naquele portal até que eu tenha a certeza de que é seguro, e esta é uma ordem.
Eu não iria entrar em detalhes sobre os motivos, não queria deixá-los ainda mais preocupados, embora Louise soubesse sobre o que existia lá dentro. Talvez fosse por isso que ela se levantara do sofá tão aterrorizada.
― Liz, meu amor, você não está pensando...
― Vó, me leve até o portal.
Estava de noite e a chuva continuava, mas eu não queria esperar mais e correr o risco de alguma fada curiosa acabar passado por aquele portal, ou pior, que algo não esperado saísse lá de dentro. As súplicas que seguiram foram fervorosas, e foi preciso muita paciência para fazê-los aceitar que eu havia nascido para fazer aquilo, e que cabia só a mim, resolver. Eles sabiam que não teriam como me impedir, então, com muita relutância, me levaram para dentro do labirinto de tumbérgias existente no jardim central do Palácio.
Novamente o meu corpo fora coberto por intensos calafrios, e não era o tempo úmido ou o vento, os causadores, mas sim a forte energia que vinha do centro do labirinto, e que parecia me atrair para ela. Contrariamente às plantas, que grudavam nos meus pés como se quisessem me impedir de andar.
Aquilo realmente era estranho, as paredes de arbustos até pareciam ter mudado de lugar só para nos confundir, pois nem mesmo os meus avós estavam reconhecendo o caminho. Meu coração vibrava em meus ouvidos e se acelerava à cada corredor sem saída que virávamos. Ao mesmo tempo que parecíamos estar perto, eu sabia que estávamos longe, porque a intensidade da força parecia estar diminuindo.
Impaciente com aquela situação, projetei a minha luz na direção em que senti que a energia vinha mais forte, fazendo com que as tumbérgias se afastassem abrindo um caminho reto até o centro. E fora então que eu vi, tão dourada quanto o sol, a grande elipse formada por uma intensa luz. O aperto em meu peito veio profundo e abrupto, e eu não sabia se era pelo que via ou se era pelo grito que aqueles arbustos pareciam dar em protesto. De alguma forma, eu sentia que eles não me queriam ali, mas eu tinha que fazer o que precisava ser feito.
Ao lado dos meus avós, cheguei até o portal, e agora era a mão do meu avô que segurava a minha e o braço da minha avô Louise que me abraçava a cintura como se quisessem me impedir. Fechei os olhos e apreciei aquele contato por alguns instantes. E se eu nunca mais voltasse a senti-los? A onda de pânico fora inevitável, mas eu precisava ser forte e manter o controle, por mim e por eles.
― Liz, por favor, não faça isso...
― Vai ficar tudo bem, vó ― assegurei abrindo os olhos e fitando a luz que me tragava logo à frente. ― Voltarei assim que tiver a certeza de que é seguro.
Dei um passo adiante, e já estava preparada para me despedir, quando vi uma mariposa saindo de dentro do portal. A princípio, ela ficara desorientada com os pesados pingos de água, mas rapidamente conseguiu abrigo no cabo do meu guarda-chuva, parando bem próximo ao meu rosto.
Ela era grande, as asas muito negras, e as suas antenas mexiam buscando algum equilíbrio na fina haste, até que ela voou e pousou no meu ombro esquerdo. A sensação das pequenas patinhas em contato direto com a minha pele, não foi nada agradável, mas não tão ruim quanto à ardência que viera em seguida.
A mariposa começou a me queimar enquanto grudava as asas na minha pele, pulei tentando afastá-la com a mão, mas como se houvesse alguma magia envolvida, ela simplesmente desapareceu, restando somente uma marca avermelhada no meu ombro junto de um suave formigamento.
O que havia sido aquilo? Algum sinal?
Olhei para os meus avós que, assim como eu, pareciam intrigados, embora não fossem adeptos a simbolismos. Se tinha sido um sinal, então significava que eu daria conta de enfrentar o que existia lá dentro, certo? De qualquer forma, eu só saberia se tentasse, se acreditasse no contrato que dizia que aquela era a minha missão.
Vamos, Liz, faça o que tem que ser feito.
Meu coração parecia estar na garganta fugindo da intensa dormência que nascia em meu âmago e ameaçava paralisar todo o meu corpo. Respirei fundo contando até dez e entreguei o guarda-chuva para a minha avó. Havia chegado a hora, eu iria abrir o portão de Aiden e salvar as fadas daquele lugar.
Souvenirs – (plural de souvernir), do francês, lembrança. Algum objeto/artigo vendido como uma lembrança de algum lugar ou alguém importante.
Concierge – do francês, porteiro. Profissional do ramo hoteleiro responsável por atender as necessidades básicas dos hóspedes.
(??? - Vampiro desconhecido)
Morain Emor
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