C A P Í T U L O 37
O executor da diplomacia
Resistir à vontade de rir, foi árduo. De fato, fadas sempre foram seres mais sexuais do que bruxos e humanos, estes últimos sendo os menos intensos. Todavia, não eram tanto quanto lobisomens e, sobretudo, vampiros, que se encontravam no topo da escala. Mas naquela primeira noite juntos, ela se mostrara bem diferente dos padrões da sua espécie.
Seu instinto era maravilhosamente primitivo, tal como o meu, e embora suas piscadas espaçadas denotassem cansaço, a sua libido superava qualquer limite físico. O que a tornava ideal para mim, mas que também poderia antecipar os danos das circunstâncias.
O fogo secreto daquelas íris havia virado ressentimento, e talvez raiva. Era desconcertante perceber que até mesmo a exasperação a tornava ainda mais sedutora. Capturei o queixo fino e dei-lhe um beijo, mas de tão insolente que ela era, não fui correspondido. Descerrei um sorriso intencionalmente presunçoso, encarando os grossos lábios avermelhados rigidamente cerrados.
― Estou me controlando muito para não enfiar o meu pau em você agora mesmo, porque se eu o fizer, você não fechará as pernas durante dias. ― Ela tentou esgueirar-se do meu toque, mas adstringi um pouco mais os dedos em seu maxilar mantendo-a imóvel. ― Prometo que você terá muito mais disso, mas só depois que descansar, tarada.
― Idiota! ― esbravejou enfurecida empurrando a minha mão. ― O único tarado aqui é você! ― Percebi o seu empenho para se controlar, mas um sorriso tímido aflorou; uma olhada de lado com o cenho franzido, e um jato de água que me fizera desviar rápido.
Nenhuma diligência pode refrear a gargalhada que dei enquanto saía do banheiro. Ela era terrivelmente atrevida.
Em uma reflexão à ironia do destino, percebi que aquela fada era uma singular convergência de tudo o que me faltava acontecer na vida. Talvez porque fora o que sempre evitei, mas principalmente, porque nunca conheci nada similar a tamanha contradição.
Segui para a cozinha, em específico, para a despensa que acomodava a câmara de armazenagem de sangue. As costumeiras duas bolsas não seriam o suficiente, então me apropriei de quatro. Eu ainda vertia a segunda no meu copo quando Rose aparecera em seu uniforme preto segurando algumas toalhas dobradas.
― Bom dia, Sr. Skarsgard ― cumprimentou com uma breve deferência.
― Bom dia ― devolvi a mesura, mas estranhei ela estar trabalhando em pleno domingo, dia que lhe era conferido para descanso. ― Não deveria estar de folga hoje, Rose?
Ela abriu um dos seus sorrisos amistosos.
― Sim, eu deveria, no entanto, creio que senhor não deve ser lembrar que precisei resolver alguns assuntos pessoais na quarta-feira passada, por isso, a estou repondo hoje.
Nas contorções da minha mente, existia uma vaga lembrança do seu comunicado, porém, nas últimas semanas eu havia tomado por hábito desvanecer informações desnecessárias.
― Não há necessidade ― asseverei terminando de verter a última bolsa de sangue. ― Pode retirar o dia de folga.
Rose me olhou incerta, atenta aos plásticos vazios que eu juntava para jogar no lixo. Pela expressão preocupada era possível concluir que ela estava avaliando se havia algo errado. Não por ter sido dispensada, visto que, desde que cumprissem com seus deveres pelos quais eram pagos, eu não me importava com esses detalhes. Entretanto, ela sabia que não era comum que eu excedesse duas bolsas de sangue pela manhã, e se tal ocorrência viera, significava algum acontecimento inusual, e em sua maioria, adverso.
Caminhando até a ilha, Rose abandonou as toalhas que segurava, e então voltou-se para mim, as mãos sendo esfregadas uma na outra em um gesto quase apreensivo.
― Há algo que posso fazer pelo senhor antes de me retirar, Sr. Skarsgard?
Um lesto aceno assegurou o meu "não" antes que eu entornasse um dos copos. Uma pausa, enquanto me enterrava dentro de mim mesmo absorvendo às sensações que traziam meu corpo de volta à vida. No triunfal inebriamento se dava a impressão de estar fora do mundo, mas em comunicação com ele, por isso percebi que Rose permanecia imóvel, ainda pensativa.
― Devo esperar pela Sra. Skarsgard, caso ela precise dos meus serviços?
― Ela não vai precisar dos seus serviços... ― emudeci à medida que uma recordação diluída tomava forma. ― Na verdade, quero que você faça três coisas antes de se retirar. Preciso que troque os lençóis da minha cama, depois limpe o chão do escritório, e então deixe algo pronto para o café da manhã da Sra. Skarsgard. Nesta ordem, e a sua agilidade será bem-vinda. ― Rose anuiu com um sorriso vultoso, e assim saiu pela porta que direcionava para sala.
Transcorreram-se alguns minutos até ela voltar com um amontoado de lençóis e edredom avisando que as duas primeiras tarefas já haviam sido executadas, e se antes Rose sorria apenas com os lábios, agora toda a sua expressão era puro contentamento, bem diferente da inquietação que demonstrara anteriormente. Estranhei, mas preferi ignorar, havia coisas mais importantes para fazer.
Passei no bar para pegar uma garrafa de BlackOpus, e então me dirigi ao escritório. Abri aporta e o adentrei fechando-a atrás de mim. A simples ação ocasionou o fugaz e inevitável som metálico abafado pela madeira maciça, o qual ressonara não apenas pelo ar, mas também pela minha mente, trazendo de volta algumas reminiscências.
― Você tem um minuto ― anunciei fechando a porta.
Ignorando a presença de Eleonora em um dos sofás, dei alguns passos em direção à mesa, e olhei diretamente para o imbecil sentado atrás dela. As feições duras e os olhos vazios não refulgiam nenhuma emoção. Ele se levantou, um botão debaixo da mesa fora pressionado e o isolamento acústico estava feito.
― Não perguntarei, porquanto, sei que você reconhece o grave problema que acabou por nos colocar esta noite.
― Dispenso a sua moralidade hipócrita, já passamos desta fase, Vincent. ― Mais alguns passos para o lado, e me servi com uma generosa dose de BlackOpus.
― Não há nenhuma moralidade, são as regras e você as conhece! ― O olhei de lado, com tão pouco e ele já estava ficando puto. Os meus fins iam ser fáceis e ardilosamente alcançados.
O infeliz alinhou os ombros, e estufou o peito em um respirar defesso.
― No tocante à morte do vampiro, aquiesço que o seu crime fora o indício de que ainda existem virtudes em você ― prosseguiu voltando a se sentar, aparentemente mais calmo. Apenas aparente, pois eu sabia que aquela falsa postura fora coagida pelos olhares severos de Eleonora. ― Você atuou consoante as regras, e ainda mais meritório, estava preservando a sua esposa.
Se ele fosse menos desprezível e não me causasse tamanha repugnância, eu até riria, no entanto, apenas esvaziei o meu copo e o encarei.
― Também dispenso a sua adulação simulada ― provoquei, assistindo à cólera desgastar a sua expressão complacente através do músculo pulsante acima do maxilar pronunciado, e das narinas se inflando em um laborioso esforço para manter a decência e o autodomínio.
Era um fato, eu era um especialista em levar qualquer pessoa aos extremos de suas ordinárias emoções, e esta habilidade dava um ar de divertimento em conversas inúteis e enfadonhas como aquela. Caminhei até a minha mesa, abandonei a garrafa sobre ela e liguei o meu notebook, deixando-me levar pelas lembranças novamente.
"Vamos, Vincent, se entregue ao assassino reprimido que você é."
― Todavia ― continuou ele, a rispidez viscosa escorrendo da voz ―, você sabe que não devia ter matado a garota, agora nos é reclamado...
― Não só devia, como matei e mataria de novo ― o interrompi abandonando o copo vazio no aparador. ― Aliás, matarei todos eles.
― Já chega! ― bradou batendo as mãos na mesa.
O desgraçado se levantara em um acesso de fúria, e os meus punhos se fecharam no rompante. Ele estava se perdendo, e eu, estava pronto, esperando que a sua máscara caísse para fazê-lo pagar por ser o filho da puta traidor que ele era. Em um segundo, Eleonora cingira a mesa e o segurara pelo braço. Seus olhares eram dirigidos de um ao outro, entregue a uma pesarosa estafa.
― Vincent, mantenha-se calmo. A exacerbação nos abstrai o raciocínio e a circunspecção ― enunciou ela em tom repreensor.
― É impraticável, Nora. Não percebe que é inviável toda a intenção de haver um diálogo construtivo com ele?
Eleonora o soltou para então se aproximar de mim com um daqueles seus sorrisos obsequiosos, mas que naquele momento, era dado apenas para ocultar o nervosismo.
― Querido, o desígnio de seu pai é fazê-lo compreender que não havia necessidade de providências tão extremas. Skylar Hartell sempre fora obediente em demasia, por conseguinte, merecia outra punição análoga às suas transgressões. Decerto, lhe seria abscindido o direito de criar...
― Conheço bem essa diplomacia medíocre, Eleonora ― elevei os ombros em desdém e escorreguei as mãos para dentro dos bolsos ―, mas adivinhem só, estou pouco me fodendo para ela.
Era um demérito testemunhar que ainda depois de três mil anos, Eleonora e Vincent permaneciam afogados nos mesmos defeitos. Preferiam fechar os olhos ao invés de enxergar a verdadeira natureza por debaixo do aparente caráter moral dos seres. Preferiam ignorar que o enobrecedor era o disfarce mais persuasivo para esconder a deformidade que carregavam dentro de si. Para eles, o mal do mundo era flexível e corrigível. Revestiam os problemas com diplomacia, e faziam dela as suas razões, e acabavam por nunca resolverem merda nenhuma.
― Mil e duzentos anos, porra! ― Vincent voltara a esbravejar. ― Hartell acabou de perder uma filha que o acompanhou por mil e duzentos anos! Pode se imaginar sem o Sebastian, o Andrei, a Madeleine, o Nicolae ou a Katerina?
― Se as minhas crias fizessem merdas por aí, já não mais estariam vivas, porque seria eu mesmo a matá-las ― respondi facilmente, apoiando os quadris no aparador e cruzando os braços e tornozelos. O horror que se fazia presente no semblante de Eleonora, se tornava descrença na expressão dele. Prossegui com o desafio lhe perdurando o olhar. ― O excesso de confiança arruína a sua razão, Vincent. Você está sempre inocentando as profanações, e idealizando a escória. Hilbert Hartell não sente nada mais do que o ego que o define. Para mim, ele e o seu clã de merda, não são mais que um rebanho que passou da hora de ser abatido.
A troca de olhares entre os dois fora pitoresca, e me fizera inclinar uma sobrancelha, quando voltaram a me encarar.
― Os seus olhos não mais veem, Anton. São de pedra, e só olham para fora, mas se esquecem do que está dentro ― continuou o infeliz com seu discursinho tedioso. ― Na verdade, eles não veem muito mais do que está morto e deteriorado. Você acredita mesmo que a sua insatisfação com a vida pode ser curada através do espetáculo da morte? Ser um executor te faz sentir justo e honrável? Ou é apenas uma maneira covarde de se mostrar superior aos outros?
Aquilo era uma tentativa de me fazer sentir ultrajado? O encarei tentando encontrar qualquer prenúncio de que ele realmente acreditava que podia me afetar com aquelas palavras. O pior era que parecia que sim. Descruzei os braços e escorreguei minhas mãos para dentro dos bolsos meneando um lento, porém, enfático indeferimento.
― Tsc, tsc... Não sou um mero executor, Vincent. Sou um observador, e se eu executo, é porque isso me permite uma melhor contemplação do caos. ― Desencostando-me do móvel de madeira, dei alguns passos até à mesa. ― O problema não é o que se vê, é o que se compreende. Enquanto você adéqua os seus pensamentos aos fatos em exaltação à sua diplomacia, eu julgo os fatos segundo às minhas convicções, e as minhas convicções originam ações efetivas quando é necessário.
Olhei para o relógio e constatei ser pouco mais de sete horas, seria preciso alguns minutos para o descriptografar de algumas informações sigilosas do meu banco de dados. Havia um relatório técnico das evoluções do SkarLex-One para ser feito, mas antes, eu precisava reaver outro assunto premente e inconcluso.
Ao chegar em casa na noite anterior, eu havia determinado a um dos meus confiáveis oficiais de Londres para que estivesse em uma das minhas alcovas de segurança aguardando pela minha holo-conferência. Como o leal e obsequente colaborador que era, Kranz Soames atendeu a chamada no segundo toque, me conferindo a sua imagem holográfica logo em frente à mesa.
― Kaiser ― reverenciou inclinando a cabeça ligeiramente. Devolvi o cumprimento com um gesto. ― Recebemos a sua mensagem, Rodger também está aqui.
A imagem de Hooker apareceu ao seu lado. Este, com as mãos postas para trás do corpo, e a sua postura tradicionalmente militar, um dos resquícios da sua vida como humano. Enquanto a inteligência e perspicácia eram atribuídas à Soames em sua função de investigador, a praticidade e o sangue-frio de Rodger faziam a diferença. Sem conversas, sem enrolação, uma olhada e um rápido aceno bastavam para me provar seu respeito.
― Apenas um nome. ― Inclinei-me para trás na cadeira, estendendo minhas pernas. ― Hilbert Hartell.
Soames cruzou os braços e coçou a barba densa, se fechando em uma introspecção silenciosa.
― Furtivo e questionável, faz sentido ― observou por fim, compreendendo a minha finalidade. ― Posso saber como chegou a ele?
Exalei fundo avaliando a conjunção em sua completude. Seria preciso visitar uma fodida parte do meu passado, mas eu estava preparado, sempre estive. Esperei por trezentos anos, e agora algo me intuía a pensar que estava prestes a descobrir quem havia ajudado Vincent a me ferrar.
― Ontem tive uma conversa um tanto auspiciosa com Vincent ― revelei capturando a garrafa de BlackOpus. ― A sua eloquência o levou a falar mais do que intencionava, o nome do Hartell surgiu, e assim me veio algumas possibilidades admissíveis.
Após encher o copo que estava perto, elevei o líquido até o nariz e inalei o suave agror frutado.
― Não era necessário matá-la! Hartell sempre fora um amigo fiel da família. Mesmo após a infausta dissidência entre vocês relacionado à Samanta Hartell, ele tentou te ajudar, portanto, merece suas escusas.
Tentou me ajudar? Essa era a hora em que eu deveria rir? Se o desgraçado não estivesse tão sério, eu diria que ele estava sendo irônico ou até mesmo arriscando uma graça.
Eu conhecia muito bem seres desprezíveis como Hilbert Hartell, os quais acreditavam que o mundo era um palco e o seu próprio ego, o grande intérprete. Todavia, a infelicidade dele havia sido cruzar o meu caminho em algum momento da sua ignóbil vida de mil e quinhentos anos.
Por quase cinquenta deles, eu tinha fodido a mulher que ele devotava e amava. Ele até havia matado o filho lunático dela só para atribuir a autoria a mim, por essa entre outras, se existia um ser que o velho odiava, este certamente era eu. A sua hostilidade para comigo era muito mais que recíproca. Sempre o detestei, e muitas das coisas que fiz, fora principalmente para me aprazer vendo-o engolir a raiva e se deteriorar no ódio.
Ficara evidente que todo aquele teatrinho estúpido do Vincent, havia sido fruto de alguma exigência do Hartell devaneando com o dia em que eu o olharia como um igual. Iludido. Todos eles. A única desculpa que o imbecil obteria da minha parte, seria quando eu lhe conferisse uma morte penosa, lenta e criativa.
― Seria risível se não fosse tão absurdo. Diga-me, Vincent, como Hilbert Hartell tentou me ajudar?
Prontamente, seus olhos se desviaram dos meus. Um ato reflexivo efetivamente estranho vindo dele.
― Esqueça ― replicou numa evasiva. Fora então que a desconfiança fizera minha intuição reagir, e aos poucos a percepção de algo errado veio.
A relação de cumplicidade de ambos era suspeita. Um desgraçado acobertando o outro, cujo qual tinha todas as razões para querer me ferrar, e que poderia muito bem tê-lo ajudado a fazer exatamente isso. Se antes as referências estavam gravadas em meu cérebro apenas como fatos desconexos, depois daquela conversa, alguns deles começaram a se unir à razões verossímeis e consideráveis o bastante para atraírem a minha atenção.
― A investigação não será tão fácil quanto as dos outros, e pode ser que demande um pouco mais de tempo ― reconheceu Kranz. ― O clã Hartell é grande e antigo. ― Sim, havia sido um dos primeiros clãs a ser outorgado, e o fim dele iria deixar Vincent descontroladamente puto. ― Hilbert não só possui poder de influência no Conselho de Draos, mas também possui informantes espalhados pelo mundo todo.
Circunstâncias irrelevantes que pouco alterariam os resultados, meramente porque eu era Anton Skarsgard, e sempre concluía com maestria as minhas deliberações. A vida por si só já era um livre espetáculo de degradações, e eu preferia visualizar a situação como um jogo de proporções catastróficas, por consequência, ainda mais instigante. Quanto mais difícil a caça, mais prazeroso era a conquista, e quanto maior a magnitude do cenário, maior seria a danificação.
Desviei meus olhos do líquido negro para Kranz, e então para Rodger.
― Matem todos. ― Abandonei o copo sobre a mesa. ― Comecem por baixo, pelos informantes, e deixem os maiores para mim. Estando envolvido ou não, Hilbert não durará muito mais tempo.
Graças a uma cortesia do Vincent, todos eles iriam morrer muito antes do que eu havia planejado.
― Eu também tentei, Anton. Tentei ajudá-lo, consoante ao que considerei ser coerente, íntegro e cabível.
Por um momento ainda cogitei a possibilidade de estarmos em duas conversas paralelas em que os assuntos não eram referentes, mas quando distingui a porra do olhar de falsa modéstia, percebi que realmente havíamos migrado para o passado. Ele era um puto de um fodido mentiroso, e estava me testando, mas o meu autocontrole sempre superava os seus intuitos.
Calmamente, caminhei até ele e parei à sua frente lhe sustentando o olhar com toda frieza e repúdio que a sua presença me ocasionava.
― Quando você aprendeu a ser tão complacente? ― ironizei, e tão logo presenciei o seu oscilar, e a presunção em seus olhos se dissipar. O silêncio era rompido somente pelo miserável ruído do frêmito crescente do seu coração. ― Deixe-me adivinhar, foi depois de ter me ferrado por setenta anos? ― Como um covarde, incapaz de encarar a verdade, ele recuou um passo virando-se para o outro lado. ― Ou talvez você apenas tenha me odiado em segredo desde que nasci, e acabou por inventar uma desculpa conveniente para colocar sua aversão em prática, hum?
Rapidamente ele voltou a me encarar, a perplexidade fingida dando forma às suas feições.
― Eu não o odeio e nunca o odiei, meu filho. Tudo o que fiz, foi com a veraz intenção...
Um segundo, um movimento, e os meus dedos lhe esmagavam o pescoço contra a parede. Fitei-lhe o fundo dos olhos, imóveis e inertes tal como a morte, esperando alguma maldita reação, mas o desgraçado nem ao menos tentava diminuir a constrição da minha mão. Eu não iria lutar sozinho, eu queria a sua tirania, a sua renitência, e qualquer ação que o fizesse golfar todo o ódio que tinha por mim.
Aproximei meu rosto do seu, mirando-o bem de perto.
― Acredita mesmo que as suas palavras me comovem? ― indaguei entredentes. ― Um homem quando se esconde atrás da diplomacia e generosidade, tende a possuir os piores vícios e os segredos mais sórdidos.
― Meu filho, por favor... ― Eleonora clamou, já parada ao lado.
― Você é, junto de toda essa escória, um dos fodidos motivos da minha aversão ao mundo. Eu o odeio, Vincent Sgard. E vou ensiná-lo a me odiar um pouco mais à cada infeliz dia que terá de viver em sua eternidade.
Era uma promessa, e eu sempre cumpria as minhas promessas.
― Suponho que irá adiar a viagem a Yakutsk, e até mesmo cancelá-la dependendo do resultado desta investigação? ― perguntou Kranz ainda me avaliando.
― Não, nós iremos mês que vem. ― Abri um dos arquivos que acabavam de ser descriptografados. ― Farei da minha visita ao clã Radkov um teste, mas especialmente, um aviso. Além do mais, os vinte e cinco graus negativos característicos à essa época do ano, irão me prover parte da diversão.
― Algo a ver com esculturas e gelo? ― gracejou Soames.
O olhei por cima da tela do computador e elevei uma sobrancelha. Rodger e ele trocaram olhares, e ambos descerraram um meio sorriso de quem havia entendido a minha resposta silenciosa. Não era uma trivial ventura que me conheciam há quase um milênio. A lealdade inquestionável deles a mim, era o mais próximo que eu poderia atribuir a uma relação de amizade. Finalizei a conferência com a ordem para que me mantivessem informado sobre os progressos da investigação.
A verdade era que Vincent não só havia me revelado o nome do Hartell, mas também tinha me reafirmado uma de suas fraquezas. Era inegável que sempre haveria uma fatalidade em boas conclusões, mas apenas se dava ao final dela, quando o propósito era atingido e a carência de um novo se fazia presente, entretanto, com o desgraçado seria diferente. A sua imortalidade me impedia de torturá-lo até a morte, mas eu ainda podia fazê-lo por toda a sua eternidade, de um modo menos físico e mais emocional, colocando os seus valores à prova, manipulando-o e fazendo-o agir contra suas próprias convicções.
Era um fato, o destino devia ser adequadamente reconhecido, a conversa com o infeliz havia sido uma experiência atípica, que o acaso tinha preparado magistralmente para me prover algumas possíveis resoluções que há malditos três séculos, eu rastreava de maneira incansável. Agora algumas perspectivas começavam a se modificar, e o próximo passo era aguardado ansiosamente.
De certo modo, eu devia um agradecimento especial à fada por isso.
Levantei-me e segui até a parede olhando para a paisagem além do vidro, o céu ainda estava nublado, e agora a chuva caía em pesados murmúrios, refrescando o ar e abstergendo solo. Inalei o frescor agradável com um deleite que, dado a última vez que eu o tivera, era quase desconhecido.
Voltei para o computador e passei a trabalhar em alguns relatórios e exigências burocráticas da Skar, só então, minutos mais tarde, pude ir para o laboratório dar início ao desenvolvimento do protótipo do SkarLex-Two. Horas já haviam se passado e a chuva continuava a cair de forma torrencial, quando comecei a ouvir uma suave batida harmonicamente sonora, que se misturava ao som aquoso.
Ao sair do escritório, constatei que os ruídos eram provenientes da melodia de uma música que ressonava do salão de jogos. Atravessei o corredor em direção a ele, sentindo o ar gélido prover-me em longos haustos a essência doce da fada. Abri a porta e adentrei o cômodo, mas não havia qualquer sinal dela, exceto pelo cheiro e por uma caneca fumegante sobre a mesa próxima à porta de vidro que levava para o jardim, a qual se encontrava aberta.
Deixei-me levar até ela, e novamente estagnei, observando a cena à minha frente. Um tipo de tranquilidade onírica refletia do céu cinza, cujos ventos arrastavam as nuvens e traziam a tempestade em gotas espessas. Do jardim era exalado o odor de terra úmida, enquanto o respingar que caía sobre as plantas subia e se espalhava para todos os lados ofuscando os tons de verde.
No entanto, nada era mais significativo do que o furacão loiro que girava sob a chuva. Com os olhos fechados e a face voltada para o céu, ela parecia feliz, como eu nunca a havia visto. Encostei-me na porta e, como se estivesse com uma espécie de feitiço nos cinco sentidos, não consegui parar de olhá-la.
Outra vez, estava a percepção de que para ela a magnitude da vida estava no sentir e no fazer das suas consequências algo especial. Agora ela estava ali, concentrada em um momento que era em si, apenas um momento qualquer. Ainda me era estranho essa transfiguração que a realidade sofria pela sua paixão ao viver, mas insolitamente, eu estava começando a me acostumar.
Antes, quanto mais eu vivia, mais percebia que não havia nada suficientemente bom para mim, as ocorrências da vida me eram fatos irrevogáveis e irrelevantes, as quais as soluções eram sempre óbvias. Ao contrário dela, que tinha uma maneira intensa de lidar com essas situações, fossem elas boas ou ruins. Havia importância demais, sensações demais, e uma vontade e apego pela sua existência que nem mesmo quando eu era humano, experimentei.
De alguma maneira, vê-la assim, reacendia a minha própria existência.
Fiquei ali um tempo, até que ela me notou e, caminhando de volta para a área coberta pelo ressalto do andar de cima, parou a poucos metros de mim. Inteiramente encharcada, dos cabelos compridos e escorridos pelos ombros, ao largo suéter cor-de-rosa de tricô e as meias altas que usava. Os enormes e ingênuos olhos me fitaram longamente, profundamente, e as mãos correram-lhe pelos braços como se tivesse com frio, então veio aquele sorriso retraído, meigo, que exprimia um certa reserva.
Merda, eu precisava dela de novo.
Kranz Soames
Rodger Hooker
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