C A P Í T U L O 29

Um confuso e tortuoso início

          Anton me olhava fixamente e aquele não era um olhar qualquer, havia uma profundidade atordoante, um desejo oculto e uma nitescência que me fazia lembrar o perigoso cintilar de um relâmpago. A minha respiração se reteve quando senti a sua mão atrevida subir pelas minhas costas até alcançar os meus cabelos, ombro, pescoço. O prazer que parecia tão errado naquele momento, ia latejando quente por onde ele me tocava, me olhava.

          ― Você ao menos se lembra das coisas que fez esta noite?

          A pergunta veio em uma voz fraca, sem que eu pudesse detê-la, e de repente o arrependimento atravessou como uma navalha para me mostrar que boa parte dos meus sentimentos ruins, eram autoinfligidos. Será que eu queria mesmo saber? Ou será que eu tinha esse direito? Não éramos nada, mas ainda assim existia aquela tola esperança de um coração apertado que tentava aliviar sua aflição. Eu buscava uma desculpa para fazer o errado parecer certo, como uma espécie de âncora, a qual eu poderia recorrer para reforçar a minha confiança de que eu não era louca e nem estúpida por desejá-lo tanto, mesmo depois de tudo.

          Anton piscou algumas vezes, e após um respirar vagaroso, sua voz enrouquecida ressoou sem qualquer titubeação.

          ― Eu devo ter feito muitas merdas hoje, e talvez a maior de todas, seja o fato de não me lembrar de nenhuma delas. ― Seu polegar foi levado até os meus lábios, onde passou a contorná-los suavemente. ― Não sei nem como vim embora.

          O seu dedo continuou brincando com o meu lábio, e talvez isso tenha me impedido de abrir o sorriso que eu queria ao ouvir aquilo. A afirmativa dele era condizente com a história contada pelas mulheres, me provando que elas foram sinceras e que ele estava falando a verdade. Será que eu estava me iludindo novamente? Mesmo com toda incerteza e fatos incompreendidos, aquele momento se assemelhava a um início.

          Um confuso e tortuoso início.

          ― Eu não entendo por que você faz essas coisas. ― Anton distanciou sua atenção da minha boca, de volta para os meus olhos. ― Na verdade, não entendo o que está acontecendo aqui, e nem porque você me trouxe pra cá.

          ― Talvez eu só queira te atormentar ― provocou com um elevar de ombros convencido. Franzi a testa o empurrando por eles, e até tentei sair do seu colo, mas ele me impediu.

          ― Estou cansada disso, por acaso pareço algum tipo de brinquedo pra você? ― A indignação veemente quase fez o meu tom se alterar, mas consegui mantê-lo paciente para ver até onde aquela conversa nos levaria.

          ― Essa é a sua maneira de descobrir o quão pesada é a sua sentença? ― replicou, os olhos cerrados como se tivesse me testando.

          ― Não, essa é a minha maneira de tentar te entender, de tentar compreender por que você me trata assim. ― A incômoda sensação que se avolumava em minha garganta, me fez calar, mas eu não iria voltar a chorar, não na frente dele. ― Eu nunca te fiz mal, nunca sequer te desejei mal. Sou tão vítima dessa situação quanto você, então... eu só queria entender por que, por que você é sempre tão cretino comigo.

          Um silêncio incisivo se fez, tão profundo que seria possível se ouvir um alfinete cair no chão, e os olhos límpidos como a luz do dia cravaram-se em mim com uma intensidade que dizia que a resposta estava bem ali, dentro deles. Só que não fui capaz de vê-la.

          ― Porque protege os meus limites ― respondeu por fim, capturando uma mecha do meu cabelo.

          Qual era o sentido daquilo? Por acaso ele me via como uma ameaça? Logo eu? Foi então que, pela primeira vez, tive a impressão de que eu não era a única a ter inúmeros conflitos internos, dos mais subversivos e esgotantes. Eu poderia ser a única a não saber lidar com eles, mas percebi que Anton também os tinha.

          ― Mas eu... eu não sou uma ameaça aos seus limites.

          Ele sorriu fraco deixando a minha mecha deslizar por entre os seus dedos, e então balançou a cabeça sutilmente.

          ― Você não é só uma ameaça, fada, você é a completa destruição deles.

          ― O que você quer dizer com isso? ― De modo lento, Anton deixou a cabeça cair para trás outra vez, e em igual maneira, seus olhos se fecharam. Fiquei esperando uma resposta, e como ela não veio, exigi saber. ― O que você quer de mim, Anton?

          A sua garganta se movimentou devagar, e as suas narinas se abriram sutilmente num suspiro calmo.

          ― Não é óbvio? ― perguntou, na mesma posição, do mesmo jeito.

          ― Eu disse que não iria dormir com você e ainda assim, você não me expulsou daqui, então... sinceramente, não é mais óbvio. A verdade é que maioria das coisas que você faz, não são óbvias pra mim. ― Ele teve a audácia de descerrar um sorriso de canto antes de abrir os olhos e erguer a cabeça. ― Além do mais, eu não sou como essas mulheres que você está acostumado.

          ― Não, não é, infelizmente.

          Levei alguns segundos ponderando se fora uma afirmação irônica, e quando percebi que estava longe de ser uma, a verdade me atingiu como um raio, dissipando toda aquela bolha alucinógena, a qual parecia que estávamos tendo uma conversa decente. Rapidamente empurrei suas mãos de mim, e tentei me levantar outra vez, mas Anton foi mais rápido, atou os meus pulsos me puxando de volta, fazendo ecoar o som do choque da minha bunda contra a sua virilha e contra aquela saliência que estava ainda mais sólida. Sem me dar tempo para reagir, ele elevou sua boca até a minha, eu até tentei desviar, mas seus dedos se encaixaram na minha nuca obrigando-me a aceitar os seus lábios entre os meus, e foi nesse momento que aproveitei para mordê-lo com toda a fúria represada daquela noite.

          Não demorou para que Anton se afastasse rindo, o lábio inferior sangrando superficialmente, o mesmo sangue salgado que eu sentia na minha boca, o mesmo que agora ele limpava com a língua.

          ― Quem é o animal selvagem agora, fada? ― alfinetou ele, a sobrancelha incitadora elevada, e eu o empurrei com toda força que eu não tinha, tentando me livrar daquelas mãos grandes. ― Uma fadinha selvagem e enraivecida.

          ― Você é um idiota. Me solta! Eu não sou o seu animalzinho de estimação para atender às suas expectativas. Me deixa sair daqui!

          Anton exalou longamente até o maldito sorriso pretensioso diminuir, e restar apenas a linha rígida dos lábios e o olhar enigmático.

          ― Seria mais fácil resistir a você, se você fosse como as outras mulheres. ― Ele inclinou a cabeça de um lado a outro, parecendo mais uma negação mental do que uma advertência explícita. ― Mas não é, porra. Você tem sempre que me desobedecer e desafiar...

          ― Você não manda em mim, e eu te desafio porque você me desafia primeiro! ― bradei o interrompendo e me esforçando para livrar das suas garras, mas em um rápido movimento fui jogada sobre o sofá, os meus pulsos foram presos acima da minha cabeça e a sua mão se fechou na minha garganta.

          ― Você não para, não aprende, merda ― repreendeu ele, a voz baixa e profunda, o olhar impetuoso penetrando o meu. ― Não tem medo do que eu possa fazer com você, não tem medo de se machucar. Você nunca cala essa boca insolente, e sempre tenta se aproximar sem enxergar o quão perigoso pode ser. Você acredita em coisas que não existem, acredita em compaixão e em corações cheios de promessas. Você não vê as coisas como elas realmente são, é sempre tão cheia de vida, de utopias irrelevantes e como se não fosse o bastante, é tão perturbadoramente inocente e isso a torna tão fodidamente excitante, que me faz sentir como se tivesse algo de errado comigo.

          O fulgor feroz que vi em seus olhos me revelava que ele estava perto de perder o controle, e quando seus dentes prenderam o meu lábio inferior, tive a certeza de que o maldito iria se vingar pela minha mordida. A pressão que ele fazia era dolorosa, mas não chegava a ferir. Era como uma tortura, como se ele quisesse prolongar a dor da qual eu não tinha como escapar, pois se eu puxasse minha cabeça para qualquer lado, certamente as suas presas me rasgariam.

          Mas se aquele vampiro acreditava que eu iria protestar, ele estava enganado, eu não iria ceder.

          Foi um tempo me punindo, até que os seus dentes deram lugar aos seus lábios, à sua língua, mas sempre deixando claro que era ele quem tinha o domínio da situação. Ora suave, ora com força, variando a pressão e a velocidade. Se eu buscava aprofundar, ele se afastava e o aperto da sua mão no meu pescoço aumentava.

          À cada movimento, o desejo ia se agravando e logo passou a correr quente pela minha pele, se tornando ávido e impaciente. Tudo que eu queria era acabar com aquele jogo sem sentido, eu queria exigir mais, queria dar mais, mas ele não permitia. Anton levou os lábios ao meu pescoço e passou a trilhar leves mordidas até a sua boca chegar à minha orelha, e o calor da sua respiração se misturar ao da sua língua. Eu tremi deixando escapar um gemido ofegante, enquanto aquela sensação encontrava o caminho para entre as minhas pernas.

          ― Quando você me provoca, tudo que eu penso é em fazê-la sentir cada centímetro do meu pau, para depois transformá-la em uma linda obra de arte. 

          O meu coração bateu forte, o fôlego que já era pouco, se extinguiu, e um latejar intenso desceu fazendo-me arquear as costas quando a tensão dos dedos em minha garganta cresceu, e aquela poderosa proeminência se encaixou dura e perfeitamente entre as minhas coxas. Olhei para o fundo daquelas profundezas sombrias, e o que eu vi foi o próprio fogo queimar em um vermelho-escuro fascinante. 

          ― E quando você me olha assim, com esses olhos grandes e ingênuos ― devagar, Anton soltou os meus pulsos, seu corpo se enrijeceu sobre o meu, e seu exalar soprou áspero convertendo sua voz a um sussurro cansado ―, a única coisa que eu desejo, é vê-la embrulhada em alguns lençóis frios e úmidos para que possa sentir o que eu sou.

          Um arrepio na espinha se assomou aos meus batimentos acelerados, várias emoções confusas quiserem se manifestar ao mesmo tempo. Eu não estava certa se Anton havia acabado de me dar um motivo para sair correndo, ou se acabava de dar alguma declaração aberta a respeito da minha influência sobre ele. Mas naquele momento nada disso importou, eu parei de pensar.

          Acariciei o seu cabelo, e desci uma das mãos pelas suas costas sentindo o metal gelado de uma das argolas presas a ela. Percebi que o seu corpo continuava muito rígido, muito tenso, e não demorou para retesar quase como se ele estivesse sentindo dor. Um espasmo veio com força, e na primeira onda de relaxamento, ele saiu de cima de mim sorvendo uma porção de ar, deixando-se desabar no sofá com a cabeça caída para trás.

          ― Anton? ― Coloquei-me de pé rapidamente, ele parecia ainda mais pálido, suas veias voltaram a saltar, e parecia estar tendo dificuldades para respirar. ― Você está sentindo dor? O que está acontecendo?

          Não houve nenhuma resposta, nenhuma reação, eu não sabia se devia tocá-lo ou se era melhor aguardar. Alguns segundos se passaram e eu começava a me desesperar, ele permanecia imóvel, os olhos ainda fechados.

          ― Anton, o que está acontecendo, me diz, por favor!

          Seguiram-se mais alguns segundos agoniantes de silêncio, e eu já estava quase o sacudindo quando voltei a ouvir a sua voz.

          ― Eu só preciso de um tempo. ― Será que ainda eram os efeitos da droga no corpo dele? Anton se levantou, os olhos apertados como se a claridade o incomodasse, então caminhou até a cama e se deixou cair sobre ela, as pernas esticadas, o braço esquerdo sobre o rosto e a mão direita no abdômen. ― Três mil e vinte sete. ― Olhei para ele sem entender, o que era isso agora? Ele estava delirando também? ― A senha que abre o quarto. Você está livre, fada.

          Eu estava livre ou ele estava me expulsando? O meu coração se apertou com a possibilidade de deixá-lo sozinho daquele jeito. Eu não queria. Caminhei até o interruptor e desliguei as luzes principais, depois fui até o abajur ao lado da cama e o desliguei também, restando somente o que ficava do lado em que Anton estava. Segui até o objeto, mas a minha mão se reteve antes de desligá-lo, enquanto eu observava o vampiro deitado à minha frente.

          Como alguém podia ser tão perfeito fisicamente, e tão psicologicamente frustrante? Anton era um enigma que se escondia através das contradições. Sempre tão perto, mas longe demais. Tão atraente, mas muito perigoso. Tão inteligente, mas também incompreensível e tão controlado, mas confusamente intimidador.

          A pele branca era o mais lindo contraste com os cabelos negros, o corpo repousando em uma posição relaxada com todo seu esplendor masculino era a incoerência da fadiga e da tensão projetadas pelos músculos. Ele era todo controle, e não se permitia perdê-lo nem mesmo quando o seu corpo gritava dizendo que havia algo errado.

          Fechei os olhos guardando na memória mais aquela imagem dele, talvez ela pudesse apagar as piores recordações daquela noite, libertei um suspiro resignado e voltei a abri-los. Estava frio, o ar-condicionado parecia ter sido programado para diminuir a temperatura durante a noite. Puxei o edredom e o cobri até a metade do tórax.

          ― Se você não se importar, ficarei aqui até que melhore ― falei e desliguei o último abajur. Eu ia afastando para ir me deitar no sofá, mas Anton me agarrou pelo pulso e, em um movimento ágil que me fizera gritar assustada, ele passou o braço pela minha cintura e me puxou para cima dele. ― Anton, o que você...

          ― Shhh... apenas durma, fada.

          De repente, me vi deitada com a metade do corpo sobre a cama, a outra sobre ele, e o edredom entre os nossos corpos, o mesmo que ele puxou a ponta para me cobrir. Eu estava envolvida em uma nuvem macia, sobre um corpo musculoso, com o rosto encaixado na pele nua e calorosa do seu peito.

          As suas mãos não me tocavam, elas haviam voltado para cima da sua cabeça, mas isso não me impediu de me acomodar e deslizar o meu nariz por ele, apreciando o cheiro maravilhoso. Acredito que o meu gemido de prazer saíra alto, pois ouvi o chio de um riso, mas não me importei, porque pela primeira vez naquela noite, eu realmente me sentia feliz, e esta mesma felicidade espontânea, me trouxe uma sensação de conforto e segurança que eu nunca havia experimentado antes.

          Um dos vários efeitos dele sobre mim, e apenas mais uma das suas contradições.

          À cada inspirar a sua essência me preenchia o corpo, relaxando-o gradativamente até dormência levar embora os meus sentidos. Não houve sonhos ou pesadelos, e não acordei nenhuma vez, o sono fora profundo e revigorante. Eu não saberia dizer quantas, mas horas mais tarde, minha consciência foi desperta pelo mesmo cheiro incrível que primeiro me fez pensar estar sonhando, para só então abrir os olhos e ter a certeza de que não estava.

          A luz do sol penetrava debilmente o tecido das persianas provendo não muita claridade, mas o suficiente para iluminar parcialmente o quarto. Eu estava sozinha na cama e não havia nenhum sinal do Anton por ali. Sentei-me apressada, será que ele estava bem? Provavelmente sim, apesar de tudo, ele era um vampiro imortal e já devia ter se recuperado.

          Chutei o edredom para longe e deixei-me escorregar de volta naqueles lençóis macios com um sorriso bobo nos lábios, eu só queria sentir a textura e o perfume deles. Rolei para um lado, depois para o outro, e enfiei o meu rosto no travesseiro dele quase gemendo de satisfação.

          ― Ainda aqui, fada?

          Num segundo eu gelei, e então dei um pulo me sentando enquanto olhava em direção à porta que agora estava aberta, com um Anton impecável e sedutor sob um terno todo preto, parado, com a mão na maçaneta. Levantei a alça da minha blusa sorrindo sem graça, e as presas salientes destacaram-se quando ele me devolveu o sorriso.

          ― Você está bem? ― indaguei e só recebi um breve meneio positivo como resposta. 

          Aparentemente, ele não queria falar sobre o que havia acontecido na noite anterior, e eu também não. Com os olhos tempestuosos atados a mim, Anton deu um passo à frente e fechou a porta, antes de se aproximar até o récamier e colocar sobre ele uma sacola de papel pardo. Havia outra também, toda preta, mas essa ele continuou segurando.

          ― Creio que essas coisas são suas ― disse ele apontando para a sacola em cima do móvel, e tão logo seguiu para o closet.

          Assim que ele sumiu lá para dentro, engatinhei sobre a cama e peguei a sacola me surpreendendo ao ver os objetos que eu havia deixado dentro do meu carro, e como se um estalo me viesse à mente, saltei para fora da cama e fui para o closet. Agora ele não teria como fugir, eu exigiria uma explicação.

          ― Anton, cadê o meu carro?

          Ele, que já tinha se livrado dos sapatos e que acabava de pendurar o paletó em um dos cabides, permaneceu de costas enquanto desabotoava o colarinho e retirava a gravata.

          ― O James ainda está à sua disposição.

          ― Não foi isso que perguntei. Quero saber cadê o meu carro e quando você vai me devolver ele. ― Anton se manteve em silêncio desabotoando o colete do terno. Se ele soubesse o quanto eu odiava quando ele me ignorava, provavelmente faria mais vezes só para me irritar. ― Escuta, eu não quero brigar, mas já faz duas semanas, poxa. Já passou da hora desse meu castigo sem sentido acabar. Se você me devolvê-lo, juro que esqueço que você o roubou.

          Desta vez consegui a sua atenção, ele se virou devagar, levou as mãos aos bolsos e me fitou com os olhos cerrados sob uma expressão convencida e maquiavélica que fez um friozinho me descer pela barriga.

          ― Você tem um histórico de mau comportamento bem extenso, fada. Se analisarmos por este lado, o seu castigo seria eterno. ― Eu iria protestar, mas ele me lançou um daqueles olhares que dizia que qualquer palavra que eu dissesse me comprometeria ainda mais. ― O que devo fazer com você depois da sua mensagem ontem, através da câmera da sala de segurança?

          Foi inevitável, os meus olhos se arregalaram com a lembrança. Eu em cima da cadeira, virada para a câmera, o chamando de babaca e idiota na frente do Mike. Céus! O que ele faria comigo agora? As minhas pernas já se sacudiam tensas, e eu olhava para todos os lados preparando uma rota de fuga. Anton deu um passo lento na minha direção e eu me agarrei à parede o armário.

          ― Não, Anton! ― gritei balançando a cabeça, e ele deu outro passo à frente tal qual um caçador ardiloso. ― Não fui eu, é uma montagem! ― Era a mentira mais descarada de toda a minha vida, mas foi o que me veio à mente e pareceu ter surtido efeito, porque ele parou e começou a rir.

          Sim, ele riu, tão lindo, mas tão imprevisível e genioso.

          ― Isso não tem graça ― murmurei e caminhei até próximo à porta do closet, só para prevenir, era melhor ficar por lá. ― Quero o meu carro de volta, Anton, por favor.

          ― Tarde demais, fada ― falou voltando a desabotoar a camisa preta. ― Ele estava na oficina para conserto, mas houve complicações. O motor fundiu e não compensava a troca, então, mandei descartá-lo.

          ― Você fez o quê? ― Eu quase berrei, mas a minha voz foi engolfada pela indignação. ― Eu não acredito nisso...

          ― Foi o que aconteceu. ― Anton retirou a camisa e a jogou no pufe de couro que ficava no centro do cômodo. Por que raios ele estava tirando a roupa? Eu não precisava disso para me desconcentrar quando o assunto era tão sério! ― No entanto, veja pelo lado bom, te privei de ficar no meio do caminho com aquela lata velha.

          Era só o que me faltava! Ele estava esperando algum tipo de agradecimento?

          ― Você é um desgraçado! ― A minha raiva quase falou mais alto, a minha vontade era de ir para cima dele, mas ele começou a desafivelar o cinto...

          Ah, não... isso não

          Era um golpe muito sujo.

          Virei-me para o outro lado para não cair em tentação, mas a maldição era que havia o espelho e eu continuei tendo a visão paradisíaca daquele ser e de cada gesto provocador dele. Reparei quando seu olhar intenso desceu pelo meu corpo, se demorando por um longo tempo na minha bunda. Além de maldito, era um safado. Um safado cínico e sexy.

          A temperatura havia subido ou eu quem estava com febre?

          ― Se soubesse o que estou disposto a fazer, você pensaria muito bem antes de me insultar. ― Anton levou as mãos até o botão da calça, e após abri-lo, passou a descer a braguilha devagar, consciente do meu olhar sobre ele. ― Ou eu posso mudar de ideia.

          ― Do que você está falando? ― questionei virando-me novamente para ele. Era hora de acabar com aqueles joguinhos, o meu corpo já estava entregando as minhas fraquezas, e eu estava cansada daquela espécie de arte marcial mental.

          ― Escolha um carro novo, qualquer um, que eu te dou ― disse simplesmente, e confesso que fiquei surpresa, mas ao mesmo tempo eu sabia que não era justo esperar menos dele.

          Anton iria mesmo me dar um carro? Cruzei meus braços e o encarei desconfiada. Por que será que ele estava fazendo essas coisas? Eu não queria nada, a minha parte orgulhosa não gostava de depender de ninguém, e já bastavam as despesas da casa que eram só dele.

          ― Não quero um carro novo, quero o meu carro.

          ― Se não quer, então terá de ser contentar com o James.

          Ele desceu as calças sem a mínima vergonha, ciente de todo poder que aquele corpo magnífico projetava para quem quer que o contemplasse, e foi então que percebi que aquela era uma batalha perdida, eu não conseguia mais pensar direito. Desviei meu olhar para um ponto qualquer, bem longe dele, e prendi o ar por um longo momento de incerteza, para em seguida soltá-lo de uma vez, completamente rendida.

          ― Então acho bom que James esteja disponível hoje à noite, pois vou precisar dele ― falei e saí do closet, porque o meu corpo já estava implorando para se aproximar do dele.

          ― Espera aí. ― Aquela voz ressoou muito mais rouca e autoritária, e foi muito rapidamente que a sua mão segurou o meu braço, fazendo-me parar e a pulsação latejar naquele ponto. ― Aonde você vai à noite?

          Voltei-me para ele, não era só a voz autoritária, o seu olhar não era de alguém contente, longe disso, ele parecia... irritado?

          ― Vou ao aniversário do seu pai, a sua mãe me convidou. ― Eu não sabia se ele iria, pois pelo que eu já havia percebido, a sua relação com os pais não era muito boa, mas se ele fosse, talvez até pudéssemos ir juntos. ― Você vai?

          ― Não, e nem você.

          Tive que rir, porque ele não podia estar falando sério, mas não havia nenhum sinal de graça em sua expressão, e tampouco nos seus gestos corporais quando, com os pés afastados, postura rígida, ele cruzou os braços e me olhou desafiadoramente.

          ― É claro que eu vou, a sua mãe teve o cuidado de me convidar e os seus pais sempre foram tão gentis comigo, que eu jamais faria uma desfeita dessas a eles. ― Era a verdade, eu iria e o Anton não ia me impedir, nem se proibisse o James de me levar. ― Se eu não for com o James, vou de táxi, não importa.

          ― Você não vai.

          ― Ah, eu vou sim!

          Mais do que depressa peguei a minha sacola e saí do quarto antes que ele resolvesse me trancar lá dentro.


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