C A P Í T U L O 20
Sons que completam a alma
Ah droga... droga!
Nunca imaginei que a minha morte se daria dentro de uma cozinha!
Ainda de costas, o vi balançar a cabeça negativamente, e mais do que depressa corri para o outro lado da ilha. O meu estômago se revirava com a pulsação desenfreada do meu coração, e eu já olhava para todos os lados à procura de algo para me defender, quando ouvi um ruído enrouquecido, que parecia ter vindo do fundo da sua garganta.
Olhei para ele achando aquilo estranho, Anton me observava de lado com aquele olhar implacável, que parecia dizer "você não vai escapar desta vez", mas ao mesmo tempo havia um certo brilho de divertimento, o que me deixou confusa e igualmente desesperada. Ele pigarreou, tencionou as costas endireitando os ombros, e estralou os dedos.
Eu ia morrer! Eu ia morrer bem ali!
Anton deu o primeiro passo para o lado esquerdo da ilha, e eu dei outro para o direito. Ele continuou vindo e eu seguindo no sentido contrário, então deu um passo em falso para um lado, mas voltou com tudo para o outro, e eu comecei a gritar me esquivando como podia e correndo para o lado oposto, conseguindo retomar uma certa distância.
― Quer dizer que sou eu o animal selvagem aqui, não é, fada? ― questionou ele ameaçador, diminuindo os passos igual a uma pantera perigosa pronta para me atacar.
― É sim! ― respondi ofegante, o coração pulsando na garganta, e aquela tensão álgida me congelando por dentro. Não era porque eu estava fugindo da morte, que iria negar minhas palavras como uma covarde.
Aqueles olhos cintilaram enervados e apertados, parecendo adorar aquela provocação. Eu era a mosca presa em sua teia, e ele, era a aranha me observando faminta. Com a sua velocidade vampírica, Anton poderia me alcançar facilmente, eu só não entendia o porquê ele continuava naquele jogo de gato e rato. Na verdade, eu até compreendia, pois também estava sentindo aquela adrenalina, a tensão e a euforia estimuladas pelo jogo da perseguição. Até que era... divertido.
― Sabe o que eu acho, fada? Que você está querendo que eu te pegue ― sacudi a cabeça em um "não" frenético ―, quer que eu te jogue em cima dessa bancada, e que rasgue esse minúsculo pedaço de pano que você chama de vestido.
― Me deixe em paz! Eu não tenho medo de você! ― bradei o olhando com rebeldia, vendo-o elevar a sobrancelha numa incitação cínica.
― Depois você quer que eu te foda, com força, igual a um animal selvagem, até que fique sem ar.
Eu paralisei, meus olhos se abriram além do normal bem como a minha boca, mas bem rápido consegui me recuperar do susto momentâneo, e reagi capturando a primeira coisa que estava perto, um moedor e inox.
― Eu não sou uma pervertida igual a você! ― berrei arremessando o objeto em sua direção.
Anton se esquivou com destreza, e o moedor passou direto pela abertura da porta que levava para a lavanderia, e tão logo ecoou o barulho como se ele tivesse batido em alguma coisa e caído no chão. Perdi completamente a noção do que acontecia, abstraída na culpa pelo que havia feito, eu tinha ido longe demais desta vez.
Foi então que sobreveio aquele mesmo ruído enrouquecido que eu ouvira escapar da sua garganta anteriormente. Voltei meus olhos para ele vendo seu antebraço se erguer e a mão lhe parar espalmada sobre a face. Estranhei o gesto. Era quase como se ele quisesse se esconder, e eu bem sabia que Anton não era do tipo que fazia isso, em hipótese alguma. Será que ele estava bem? Novamente outro ruído, e sem que eu pudesse esperar, ele retirou a mão do rosto e soltou uma gargalhada.
Sim, uma gargalhada. Ele estava rindo. Rindo! Como nunca imaginei ser possível, e por um momento senti como se tivesse sido transportada para outra dimensão, levada por algum tipo de delírio, pois eu estava vendo coisas imaginárias e sentindo coisas esquisitas. Aquele som me preenchia tão profundamente, que eu podia senti-lo ritmando as batidas do meu coração, fluindo através da minha alma; e a sua visão era tão fascinante, que parecia ser uma das razões da minha existência.
Mas durou tão pouco. O riso mais agradável que eu já ouvira na vida, se converteu a um sorriso silencioso, no entanto, malditamente sedutor. Quando acreditei que aquele vampiro não tinha como ser mais perfeito, ele simplesmente ri, e então sorri, expondo aqueles caninos sutilmente sobressalentes, que conseguiram me deixar fora de mim por um tempo. Esse detalhe, esse pequeno detalhe foi a coisa mais sexy que eu já havia visto em um ser.
Eu queria tocá-lo. A necessidade urgente se revirou em meu ventre de um jeito muito íntimo, apertado e ardente. De repente, eu já não queria mais fugir dele, então esperei. Esperei ansiosamente os seus últimos passos até mim, mas ele não veio. Aos poucos seus lábios foram se fechando até formarem uma linha rígida e sensual, enquanto seus olhos iam perdendo aquele lume espirituoso e a sua expressão revertia-se em pura indolência.
― A propósito, a Rose está de folga hoje, e você, como uma boa esposa, fará o nosso almoço. Não use muito tempero, porque não gosto, e me chame quando estiver pronto, estarei no meu escritório ― falou ele, por fim, então caminhou até a porta e saiu da cozinha, me deixando lá, engasgada com tamanho desaforo.
Como uma boa esposa?
Aquele vampiro era inacreditável. Uma hora me ameaçava, me caçava, falava coisas sujas e ria de mim, outra me exigia o almoço, e ainda se atrevia a me tocar como se tivéssemos aquele tipo de intimidade permitida somente em um matrimônio de verdade, como a que compartilhamos na noite anterior... Não. Eu me negava a ponderar esses detalhes. Havia sido somente uma noite fantasiosa e simulada, nada havia mudado.
No entanto, eu não podia negar que um recanto escondido dentro de mim, gostou de ouvir a palavra "esposa" saindo da boca dele sem que houvesse uma plateia para quem representar, e por um momento, até me senti instigada a tentar cozinhar algo só para ter uma trégua. Mas então me lembrei que eu não sabia fazer nada além de estrogonofe, e isso não era nada se comparado à todas as comidas que a Rose costumava fazer. E ele também não estava merecendo o meu esforço.
Certo, o meu senso de consideração apitou avisando que eu devia pelo menos avisá-lo.
Minutos se passaram, e talvez até uma hora, quando reuni coragem para ir ao escritório dele. Me aproximando da porta fechada, comecei a ouvir um rock pesado e muito alto. Pensei em bater, mas sabia que ele não ouviria, então entrei. Meus olhos seguiram direto para a mesa, que se encontrava vazia, assim como o resto do local. No entanto, uma luz acesa resplandecia da abertura presente na parede com a cortina de correntes, e foi para lá que caminhei.
Ao contrário do ambiente atrás de mim, que se contrastava entre o preto, branco e cinza, o da minha frente era todo branco e se contrastava com o brilho prateado das mesas de inox, e das enormes peças metálicas dispostas sobre elas. Em uma das paredes, existiam inúmeros monitores com códigos fluorescentes e desenhos em 3D. Tudo era muito frio, tecnológico e maquinal.
Aquilo parecia um laboratório mecânico, ou algo do tipo.
A música parou, e eu voltei a minha atenção para o vampiro sentado numa banqueta, encaixando uma peça de metal entre um amontoado de outras.
― Irei em dois minutos ― avisou, sem nem me olhar.
Ótimo, ele estava pensando que o almoço já estava pronto.
― Anton... ― Dei um passo à frente entrando de vez no lugar, e recebendo uma chuva de feixes vermelhos, que correram por todo o meu corpo antes de desaparecerem. Eu já estava me preparando para ouvir a voz da Aly me chamando de intrusa, mas para o meu espanto, ela falou o meu nome completo, incluindo o Skarsgard no final. ― Ela... agora ela sabe o meu nome?
― Obviamente, senhora ― respondeu a robô toda atrevida, e emendou expondo todas as minhas informações pessoais, desde a data e local de nascimento, a minha espécie, o grau de pureza do meu sangue, o nome dos meus pais, os locais onde morei, estudei e trabalhei, a data do meu casamento, e para o meu assombro, ela sabia até qual era minha comida e cor favorita.
― Desligar, Aly ― Anton ordenou se levantando e largando uma chave de fenda sobre a mesa.
O meu horror se tornou tão grande quanto a minha estupefação, ao me dar conta que ele tinha acesso a todas aquelas informações sobre mim, enquanto eu, não sabia praticamente nada sobre o ser à minha frente.
― Como ela sabe tudo isso sobre mim? ― Olhei para ele em puro choque, recebendo de volta um de seus olhares indiferentes.
― Aly teve acesso ao seu DNA e ao seu nome. Com eles, obteve as demais informações através da internet em uma busca por dados telefônicos, bancários, e registros legais desde o dia do seu nascimento ― revelou ele, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Que sandice era aquela? Eu não sabia se entrava em pânico ou se ficava com raiva por ter a minha vida vasculhada dessa forma.
Caminhando até a pia de inox que existia em um dos cantos, Anton lavou as mãos, e as enxugou em uma toalha que havia ao lado.
― Como ela teve acesso ao meu DNA? E como ela sabe até a minha comida e cor favorita? Tenho certeza de que essa informação não está na internet. ― Um tremor de mau pressentimento me dominou, será que ela também sabia... Não. Eu não devia temer, os meus pais limparam qualquer registro que ficara daquela época.
― O seu DNA veio de um fio de cabelo. Você deixou vários na minha cama, naquela visita ao meu apartamento. ― Não havia como a sua voz ter saído mais presunçosa, o que só elevou a arrogância daquela mania que ele tinha de enfiar as mãos nos bolsos. ― Agora quanto à sua comida e cor favorita, ela não sabe, foi apenas um palpite baseado em duas análises principais. A primeira, baseada no seu DNA, cada indivíduo entrega em seus genes uma percepção diferente das cores, e através dela, é definida a sua sensibilidade ótica, ou seja, ela define quais cores você tem predileção a gostar mais do que outras. Da mesma forma é feito o estudo sobre a sua percepção dos sabores e a contagem de vitaminas presentes no seu corpo, que podem sugerir certos tipos de alimentos para os quais você tem propensão a achar mais agradável. A segunda análise é baseada nas suas compras de roupas, refeições em restaurantes, compras de supermercado, e até mesmo nas compras das pessoas que moravam com você.
Céus, aquela era a maior loucura que eu já ouvira em toda a minha vida.
Sem me permitir refletir sobre aquela enxurrada de novas informações, Anton passou por mim, seguindo para fora do escritório, e eu tive de sair correndo atrás dele.
― Espera, Anton! ― Ele não parou, e eu aumentei o ritmo até alcançá-lo. ― Escuta, o almoço... eu...
Seus passos cessaram bruscamente, e eu quase colidi com aquelas costas largas e vigorosas. O assisti se virar em câmera lenta, os braços fortes sendo cruzados, e então aqueles olhos entrecerrados como se fossem finas lâminas de gelo, me fitando com uma certa impaciência, como se soubesse o que estava por vir.
― Eu... ― Que constrangedor, nunca pensei que revelar uma coisa tão simples e irrelevante pudesse ser tão embaraçoso. O problema era aquele olhar dominador, que estava fazendo eu me sentir uma boba. Mordi o lábio, a ansiedade irritante me impedindo de encontrar as palavras certas, e fixei meus olhos ao relógio preto que abraçava o seu pulso. ― Eu... eu... não sei cozinhar.
Pronto, eu havia falado, e pensei que me sentiria aliviada, mas o silêncio que se regeu não foi nada reconfortante. Então veio aquela voz profunda e sensual que me preenchia todo o corpo e a alma, fazendo-me buscar aqueles oceanos insondáveis.
― Por que não me falou isso antes?
― Você... você saiu correndo da cozinha ― murmurei, ficando ainda mais ruborizada enquanto ele erguia as sobrancelhas e abria um sorriso mínimo, lento e deliberado.
Seus braços se soltaram, e o seu amplo peito se expandiu.
― Certo, o almoço estará pronto em trinta minutos.
Anton me deu as costas e saiu em direção à cozinha. O ar frio da sala me envolveu quando ele se afastou, trazendo-me de volta daquela confusão de sentimentos e sensações. Algum tipo de vazio inusitado e nada agradável rebateu-se sobre mim, me levando em direção à cozinha quase que involuntariamente. Parei à porta o observando retirar algumas coisas da geladeira e colocar sobre a bancada da ilha. Eu não sabia se ficava mais surpresa por ele encontrar habilmente as coisas lá dentro, ou se era pelo fato dele parecer obstinado a fazer o almoço.
― Você sabe cozinhar? ― indaguei me aproximando a passos lentos e comedidos.
― Tenho três mil e vinte sete anos, quatro meses e oito dias. Cozinhar é o mínimo que eu deveria saber.
Assustador. Era essa palavra que definia o que era ouvir aquilo. O vampiro à minha frente não aparentava ter nem vinte sete anos, com aquela pele lisa, porte elevado e generosa compleição física formada de músculos nos lugares certos, nem muito, e nem pouco, somente o tanto para ser perfeito.
No entanto, o pior não era a idade, mas sim, as coisas pelas quais ele já devia ter passado durante todo esse tempo, que o levaram a se tornar uma pessoa tão complicada e inacessível. De repente, senti medo. Não era medo dele, mas medo por ele, pelo que o tempo trouxe para a sua vida, e então, outra vez, a conversa que tive com Avigayil me veio à mente:
"Imagine-o como uma casa muito antiga, tão antiga quanto o tempo,"; "É preciso que chegue até a soleira desta casa, livre de juízo e convicções, é preciso que se livre de qualquer julgamento, pois deve-se lembrar, ela é antiga, e o tempo corrói a maioria das coisas."; "Ele está cansado da vida, e esta é a mais cruel condenação que um imortal possa ter."
Percebi que aquela era a oportunidade que eu precisava para tentar me aproximar dele, e eu não ia deixar passar.
― Anton... ― Ele, que estava concentrado separando algumas verduras e condimentos, olhou para cima e me absorveu em seus abismos azuis. ― Posso fazer uma pergunta?
― Você já está fazendo, fada ― respondeu com um certo alheamento pretensioso, e eu só respirei fundo.
"Para fazer dar certo, querida, se faz necessário que adentre de modo resoluto este território intencionalmente bem guardado e protegido..."
Eu não iria desistir fácil.
― Vou entender isso como um sim. ― Aproximei-me cautelosa, pegando as verduras, e o ajudando a lavá-las em uma das pias duplas. ― Como é ter vivido todo esse tempo? Digo, você viu o mundo evoluir, e provavelmente ajudou de alguma forma para que isso acontecesse, e está ajudando ainda mais com toda essa tecnologia que a sua empresa fabrica. Imagino o quanto deve ter sido fantástico, vivenciar isso tudo.
Anton balançou a cabeça com um olhar que dizia que eu havia enlouquecido.
― Não é fantástico assistir à ignorância dos seres por mais de três mil anos. É tedioso e exaustivo. O mundo evoluiu em decorrência de seus erros, porém, não adianta o mundo ter evoluído, mas eles não. Chegará um momento em que a própria evolução se tornará o fim. ― Anton ficou calado durante um tempo, e eu estava quase a ponto de puxar um novo assunto, quando ele voltou a falar com uma casualidade imperativa. ― Tudo é apenas uma questão de perspectiva. A Skar Technologies não é um meio para que o mundo evolua, pelo contrário, ela está apenas acelerando o processo da sua destruição, aproveitando dessa ignorância que rege os mortais, para afundá-los em um mundo solitário, egoísta, e subversivo aos padrões cruéis de consumo de trivialidades e estereótipos.
A batata que eu segurava deslizou da minha mão e caiu na pia de inox, fazendo o barulho alto se destacar. Ligeiramente a recuperei e voltei a enxaguá-la, me esforçando para ocultar o quanto aquelas palavras me deixaram preocupada. Eu me recusava a acreditar que aquilo fosse verdade, e que ele fosse tão nocivo assim, pois o cuidado e o interesse que o presenciei sobrepor a tudo relacionado à sua empresa não era dissimulado, era sincero e parecia ser o único traço emocional existente nele.
Como essa devoção poderia ser tão vazia ao ponto de conduzir a algo tão ruim?
― Como você disse, é uma questão de perspectiva ― concordei buscando amenizar a situação. Eu sabia que conversar com o Anton era uma estrada melindrosa, que precisava de toda a minha atenção e ponderação de palavras para que eu não tropeçasse e caísse no primeiro barranco que nela aparecesse. ― Talvez esse seja o lado negativo de tudo, que pode ser facilmente evitado. No entanto, também existe o lado positivo, a Skar está facilitando a vida das pessoas, e isso soa para mim como um ato benévolo, e não destrutivo. ― Após lavar a última verdura, desliguei a torneira e me virei para ele. ― Você pode ser um louco às vezes, mas sei que não é tão alheio assim, e que também não gastaria o seu tempo e a sua atenção com coisas irrelevantes e sem propósito. A Aly, por exemplo, ela é fantástica. Ela poderia ajudar nos centros médicos, identificando doenças a tempo de salvar uma vida, ou poderia ajudar à lei a capturar criminosos. Na verdade, ouso dizer que você a criou para esses fins.
Anton, parado ao meu lado, largou as verduras na pia e me olhou por um longo tempo, com uma intensidade que fez suas íris se escurecerem de leve. Era quase como se ele estivesse confuso à procura de uma resposta, ou tentando resistir a alguma coisa. Minha respiração se reteve, e por um segundo, temi ter ido longe demais, porém, sua expressão logo se suavizou e tudo pareceu voltar ao seu desinteresse habitual.
― Em que mundo você vive, fada? ― Sua voz soou irônica e mecânica, como se estivesse falando com uma criança, e tão breve ele se pôs a capturar uma faca e a tábua de corte. ― A Aly ainda é só um projeto.
Ele não me contrapôs, não negou e nem afirmou, o que me pareceu um bom sinal. De tão boba que eu era, me rendeu um sorriso satisfeito. Anton começou a cortar as verduras numa rapidez surreal que me deixou assustada, com medo de ver um dedo sair voando dali. Fiquei calada para não o desconcentrar, e só depois que ele terminou e colocou tudo dentro de uma forma de vidro, junto dos grandes bifes retirados anteriormente da geladeira, que ousei falar alguma coisa.
― Precisa de ajuda com algo?
― Não. Não quero que as suas inabilidades estraguem o meu preparo, além do mais, já está quase tudo pronto. ― Percebi a sua tentativa óbvia de me provocar e resolvi entrar na brincadeira. Curvei os lábios para cima em um sorriso forçado e o desfiz em seguida adquirindo uma expressão muito séria, e isso o fez dar um sorriso ínfimo, muito discreto.
Céus, eu estava adorando aquela trégua, mas ao mesmo tempo sabia o quanto ela era perigosa para os meus sentimentos.
Mais alguns condimentos e algumas ervas foram colocados sobre as verduras, e então, em sua velocidade vampírica, Anton saiu da cozinha. Fiquei meio sem saber o que fazer, olhando para aquela travessa largada ali em cima. Caminhei até uma das banquetas e me sentei, poucos segundos se passaram e ele voltou com uma garrafa de vinho tinto na mão. Metade da bebida foi parar sobre a comida, antes de ser levada ao forno, e a outra metade foi parar em duas taças.
Eu estava feliz, na verdade, estava muito feliz. Tanto, que não estava conseguindo desfazer o maldito sorriso que se instalou em meus lábios quando ele se aproximou e me ofereceu uma das taças. A peguei agradecendo, e como resposta, Anton franziu ligeiramente a testa sobre um olhar enviesado, enquanto se afastava indo em direção à parede de vidro.
― Qual é a graça? ― indagou ele num tom desconfiado, olhando para o jardim além do vidro. ― Ou melhor, qual é o segredo, porque esse seu sorriso me parece esconder um.
Era um sorriso tímido apenas, mas os motivos sim, eram um segredo que eu pretendia guardar só para mim. Ele não precisava saber o quanto eu desejei aquela aproximação, e o quanto estar perto dele me deixava feliz, principalmente quando estávamos nos dando bem, e quando eu havia visto aquele sorriso que ainda parecia tão irreal na minha cabeça.
― Nenhuma ― refutei e me apressei em beber um gole do vinho, desejando que o clima não ficasse estranho e a leveza do momento se dissipasse. ― O que são aquelas peças que você estava mexendo no seu escritório?
De perfil, o vi levar uma mão para dentro do bolso, e com a outra, levar a taça até o nariz e inspirar-lhe o aroma até seu tórax se expandir. Tão logo ele a afastou girando-a sutilmente, enquanto observava o redemoinho que o líquido rubro se convergia.
― Um motor de alta performance ― respondeu ele, após alguns segundos de silêncio.
― Você... você também faz essas coisas?
Anton verteu a taça entre os lábios, o vinho demorou em sua boca, até que seu pomo-de-adão se movimentou sem pressa.
― Desenvolvo máquinas voltadas para eletrônica, de todos os tipos, principalmente motores de carros e aeronaves. ― Então até fazia sentido ele ter todos aqueles carros na garagem, talvez fosse uma de suas paixões.
― Como um mecânico?
― Como um engenheiro mecatrônico.
― Ah... pensei que você fizesse a mesma coisa que o Nicolae ― falei sem pensar, e me arrependi no segundo em que aquele olhar feroz caiu sobre mim. Rapidamente tentei compensar com outro assunto. ― Eu acreditava que a Skar fosse apenas uma fabricante de celulares e computadores.
― Também desenvolvo softwares, mas não gosto, por isso o pago para fazer isso por mim ― revelou ele, cheio de uma austeridade súbita. De novo, sua atenção se voltou para o jardim, e quando pensei que a conversa havia morrido por ali, a sua voz veio, um pouco mais branda. ― Quanto à Skar, poucos sabem, mas o seu maior faturamento é com motores de alto desempenho. Para conseguir o equivalente ao que apenas um dos meus projetos rende, teriam de ser vendidos aproximadamente cem mil celulares.
A minha boca se abriu e assim ficou, inepta a emitir um som sequer, até que a sineta do forno tocou avisando que a comida estava pronta. Almoçamos na mesa da cozinha, em silêncio, pois Anton não me deixou fazer nenhuma outra pergunta. Não me importei, o pouco que havia descoberto sobre ele naquele dia, me soou como uma vitória, e eu sabia que seria apenas o começo. Se eu quisesse que ele se abrisse ainda mais comigo, teria que ter paciência, pois só o tempo o faria se soltar e me trazer todas as respostas.
Uma hora mais tarde, eu já tinha tomado banho e estava pronta, caminhando em direção ao portão da propriedade para pegar o meu carro e ir ao apartamento da Sophi. Era preciso preparar o espírito para aguentar todos os questionamentos que ela iria me fazer, e desta vez, era certo que não teria como fugir. Ao mesmo tempo que eu tinha receio de expor tudo o que estava sentindo à minha amiga, sabia que de todas as pessoas que eu conhecia, ela era a única que poderia me ajudar a reorganizar os meus pensamentos e assimilar o que estava acontecendo.
― Boa tarde, Sra. Skarsgard. ― A voz grave de Edgar me trouxe de volta, eu mal tinha notado que já havia chegado à entrada.
― Boa tarde, Edgar!
Acenei abrindo um sorriso, e agradeci quando ele abriu o portão, mas não consegui dar um passo para além dele, pois de onde estava, dava para ver que o meu carro não estava no mesmo lugar que eu havia parado na noite anterior.
― Cadê o meu carro?
⭐ + 💬 = 💓
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top