C A P Í T U L O 18
Ciúmes, uma vaidade
― Assim? ― Senti aqueles dedos ardilosos apertando vigorosamente a carne macia do meu quadril.
Deuses, eu só queria entender o que estava acontecendo com ele. Era pedir muito? Aquela pele idiota estava formigando onde ele tocava. Fechei os olhos quase encostando a minha cabeça em seu peito, me esforçando para não me entregar aos tremores do meu corpo.
Foi quase imperceptível, mas ainda assim, percebi quando seu braço se enrijeceu nas minhas costas, e a sua mão subiu para a minha cintura fazendo-me abrir os olhos e virar para frente. Outro vampiro, de cabelos acobreados e olhos claros, que também identifiquei ser parte do comboio de diretores, acabava de se aproximar.
― Tenho ótimas notícias ― falou ele coçando a barba e, após uma ostensiva inspeção em mim, voltou-se para o Anton. ― Nosso lead atingiu a marca dos cem por cento no evento de hoje. O posicionamento já está sendo feito via internet, e acabei de dar uma breve entrevista, o suficiente para elevar a expectativa da mídia. Amanhã mesmo te apresentarei todo o clipping dessas primeiras doze horas.
Desviei minha atenção para o ser ao meu lado, a sua expressão era a mais indiferente possível, e não condizia com a tensão que ele projetava para os seus dedos em mim. Aparentemente, Anton não parecia nervoso, não parecia nada, como sempre, mas eu bem sabia que ele tinha aquela veia cruel e insensível, a impulsividade perversa quase paradoxal ao vampiro controlado que era. E talvez seja por isso que senti, senti que de repente, ele havia ficado muito irritado com alguma coisa.
― Que indelicadeza a minha ― continuou o vampiro inalando ansiosamente, enquanto voltava a me avaliar de cima a baixo com um cuidado desnecessário que muito me incomodou ―, não me apresentei a essa bela dama. ― Sua mão se elevou até mim. ― Muito prazer, sou Nathan Saunders, Diretor de Marketing da Skar.
Eu estava prestes a cumprimentá-lo, só por educação, quando senti um braço me laçar a cintura de maneira possessiva.
― Tome cuidado, Saunders. ― Anton falou, a sua voz gutural soando extremamente ímpia e ameaçadora. ― A curiosidade pode te fazer despencar e quebrar o pescoço, ou ainda pode te deixar cego, literalmente. É melhor manter a sua atenção apenas onde deve.
Acredito que os meus olhos se arregalaram naquele momento, à medida que eu processava o que o Anton tinha acabado de dizer. Havia sido algum tipo de ameaça? Será que fora por minha causa? Eu não tinha certeza, mas quem estivesse assistindo aquela cena, poderia até pensar que ele era o marido mais ciumento e possessivo do planeta. Se era esse o caso, aquele cretino era mesmo um excelente ator. Depois era eu a mentirosa da história, e ele que não gostava de fingimentos. Tive vontade de rir disso, mas existiam outras coisas me distraindo facilmente, como o braço dele me apertando e aquele paredão de músculos nas minhas costas.
O ruivo sorriu fraco e recolheu a mão, evidentemente constrangido.
― Claro, desculpe-me. Não foi a minha intenção desrespeitar a sua acompanhante.
― Esposa ― Anton o advertiu, e desta vez o vampiro não parecia só envergonhado, mas também atemorizado, ao ponto de logo se afastar a passos ansiosos.
Aquelas pessoas eram todas loucas, isso sim.
Entre uma taça de champanhe e outra, vieram outros tantos diretores, banqueiros e clientes da Skar, mas nenhum deles demoravam mais que poucos segundos, já que o Anton não parecia ter paciência alguma para conversar com eles. Contudo, eu não podia culpá-lo, aquelas pessoas pareciam um bando de bajuladores que queriam a sua aprovação à todo custo. Sorrisos falsos, pilhas de relações frias, corrosivas e desprovidas de sinceridade. Era engraçado perceber que o meu marido era o único que parecia ser verdadeiro ali, pois nem ao menos tentava camuflar a sua repulsa para com algumas pessoas.
Espera aí... meu marido?
Ótimo, eu já estava ficando perturbada com aquela encenação, a qual soava tão real e convincente, que todos pareciam acreditar genuinamente nela. Quer dizer, quase todos, exceto a jovem morena que acompanhava um cliente canadense com idade um pouco avançada. Ela não só parecia não ter levado a sério quando fui apresentada como esposa, mas também ignorou por completo a minha existência. A mulher não se importava em disfarçar as mordidas sugestivas nos lábios e o olhar fixo ao Anton, enquanto o marido dela simplesmente fingia não ver.
Reparei também que esse era um dos raros momentos no decorrer daquelas apresentações, em que o Anton não estava com a mão em mim, e isso de alguma forma tanto me enfureceu quanto frustrou. Eu sabia que só estava representando um papel que me foi dado, mas não parecia certo ele me tocar só quando havia algum homem me olhando diferente.
O mesmo devia valer para ele.
Pensando nisso, aproveitei-me do efeito do champanhe e me rebelei contra toda minha sensatez o abraçando de lado. Um dos meus braços foi parar nas suas costas, e a outra mão na musculatura do seu abdômen. Tudo bem, eu não devia ter feito isso, pois além de estar parcialmente alcoolizada, a fraca ali era eu. Senti aquela onda de ousadia se transformar em puro desejo, quando, lentamente, aqueles olhos pousaram nos meus, e aquela boca se movimentou próxima à minha dando forma a palavras roucas e sussurradas.
― O que você está fazendo, fada?
Não fui capaz de respondê-lo, porque naquele segundo meus olhos seguiram para a mão abusada cheia de garras gigantes pintadas de vermelho que se agarraram ao braço dele. Aquilo já era demais, e eu não deixaria por isso mesmo. Eu estava prestes a abrir a minha boca para perguntar qual era a daquela oferecida, quando Anton sutilmente retirou o braço do alcance do seu toque, e me puxou para que eu ficasse entre ele e a mulher.
O abracei novamente e abri o meu melhor sorriso.
― Quando for à Ottawa, reserve alguns dias para a estadia em nossa casa, será um enorme prazer recebê-lo, não é querido? ― falou a oferecida com o seu inglês forçadamente arrastado. O ápice da minha irritação se deu quando ela sorriu lançando uma piscadela para o Anton.
Infeliz.
Ele não falou nada, mas deu uma rápida olhada para o Francis, o que significava que aquelas pessoas deveriam ser dispensadas. Suspirei aliviada retirando a minha mão da sua barriga assim que eles foram afastados, mas a minha respiração se prendeu no caminho quando senti uma mão pesada na minha bunda, antes que meu corpo fosse pressionado contra o dele.
― Marcando território como uma esposa ciumenta, fada? ― provocou ele com a boca muito próxima ao meu pescoço.
Ele era mesmo um babaca, um babaca maravilhosamente cheiroso. Com os pulmões exigindo ar e o meu nariz quase grudado ao seu ombro, tudo que eu conseguia era absorver aquele cheiro inebriante. Mas tão breve quanto pude me livrar do delírio odorífero, curvei minha cabeça para trás e o encarei com um sorrisinho debochado, segurando firme as lapelas acetinadas do seu paletó.
― Se você pode ameaçar e afastar todos os meus pretendentes interessantes, também posso afastar as oferecidas que dão em cima de você ― devolvi em um sussurro incitador, e logo passei a sentir sua mão me apertando forte a bunda.
Aquele cretino ia me deixar uma marca ali!
― Pare com isso agora ― falei entredentes, tentando disfarçadamente retirar a sua mão de mim, o que não adiantou muito. Eu já ia começar a estapeá-lo, quando outras pessoas se aproximaram, e ele me soltou.
Desgraçado, ele ia me pagar por aquilo.
Os minutos foram se passando e eu já não aguentava mais, o burburinho, a música, e principalmente a forma alta e musculosa atrás de mim, me tocando o tempo todo, deixando um calor constante que só aumentava à cada toque. A tensão ia se construindo aos poucos, os arrepios, os tremores, tornando o meu corpo febril e dolorido desde os seios até o meio das coxas.
Eu precisava de um tempo longe dele para acalmar aquelas malditas sensações.
― Já volto ― sussurrei em seu ouvido, e tão breve senti o meu braço ser agarrado sem que eu ao menos saísse do lugar.
― Aonde você pensa que vai? ― E lá estavam aqueles abissos azuis me espreitando como se eu fosse uma prisioneira armando a minha fuga. Prisioneira eu até era, mas não pretendia fugir.
― Eu preciso... preciso ir ao toalete. ― Pronto, agora eu estava corando, e não era só pela mentira, mas também porque eu me sentia arder inteira.
Sem me soltar, Anton murmurou algo para o Francis, então segurou a minha mão e saiu me puxando para algum lugar. Percebi que vários seguranças nos seguiam, e assim que chegamos a uma abertura que dava para um corredor, outro deles saiu de dentro avisando que estava tudo limpo. Todos eles se aglomeraram em frente a abertura à medida que eu continuava sendo puxada para dentro, até uma porta de madeira com uma placa metálica, escrito "Ladies Toalete."
― Eu poderia ter vindo sozinha, sabia? ― Anton soltou a minha mão, sem nada dizer. ― Isso tudo é medo de que eu fugisse do meu castigo?
― Fada, não me provoque mais, porque estou muito perto de te arrastar para dentro desse banheiro e enterrar o meu p... ― O toque baixo de um celular o fizera se calar. Após pegar o aparelho de dentro do bolso e fixar seus olhos na tela, ele o atendeu.
― Grosso! ― murmurei, e o olhar mortal que me foi estendido me fez correr para dentro do banheiro na velocidade da luz.
Lá dentro, longe dele, a minha respiração foi voltando ao normal. Me envolvi, admirada, com o luxo ostentado por aquele lugar. Não tinha um milímetro sequer do chão, da pia e das paredes daquele banheiro que não era coberto por um mármore intensamente negro. O cheiro de limpeza era sofisticado e fresco, a iluminação amarelada se escondia nos cantos sob o gesso, e apenas batia sutilmente nas paredes. Do lado direito ficava a longa bancada da pia, do esquerdo, as cabines, e ainda havia um sofá preto de modelo rebuscado mais ao fundo, junto de alguns pufes arredondados.
Pensei em me sentar ali e ficar um bom tempo, apenas para enrolar mesmo e deixar aquele vampiro esperar, só para fazê-lo pagar pela marca que provavelmente havia me deixado na bunda. Era isso que eu iria fazer, mas antes eu precisava, de fato, usar o sanitário. Deixei a minha bolsa sobre a bancada e entrei na cabine fechando a porta em seguida.
Após apertar o botão da descarga, arrumei o meu vestido e saí dali, dando um sobressalto para trás ao ver o Anton com os braços cruzados e os quadris encostados na pia.
O maldito tinha ocultado a sua energia.
― Que droga, Anton! ― protestei ofegante colocando a mão no peito. ― O que é isso agora? Eu não posso nem mais usar o banheiro em paz.
― Você gosta de provocar, não gosta? Vejo isso nos seus olhos. É como uma droga pra você. ― Ignorando aquela maluquice dele, caminhei até a pia para lavar as mãos. ― Não tinha um vestido mais aberto para usar, não?
O olhei de lado, vendo sua atenção sobreposta à minha fenda que estava quase toda aberta. Rapidamente puxei o tecido para tampar.
― Não fui eu quem o escolheu. ― Anton entrecerrou os olhos, e me olhou com aquele ar de desconfiança. ― O que é? Não foi, tá bom. Eu nem tenho vestidos pra esse tipo de evento. Foi o Nicolae quem me deu... ― Maldição! Eu tinha falado demais. ― Não, não foi ele...
― Tsc, tsc... ― Sua cabeça virou de um lado a outro num movimento muito lento, que só me deixou ainda mais aflita. ― Não piore a sua situação com mentiras, fada.
― Anton, ele não tem nada a ver com as nossas desavenças, deixe-o em paz, por favor.
― Agora você vai me dizer que, ingenuamente, aceitou esse vestido sem nem passar pela sua cabeça que o único desejo dele era te ver seminua?
― Seminua? ― Tudo bem, eu concordava que o vestido era um tanto revelador, mas eu não iria assumir isso para ele. Soltei um riso forçado, virando-me de frente para aquele ser intimidador. ― Que exagero!
― Exagero? Se você der um passo em falso, aposto que dá pra ver a sua calcinha. ― Certo, desta vez eu ri de verdade, ri muito, e alto. E a confusão passageira que vi em seu semblante só aumentou o meu riso. ― Qual é a graça?
― É porque não estou usando uma calcinha, eu até tentei, mas ela apare...
― Shhh... não fala mais nada. Eu não preciso saber disso, porra. ― Droga! Outra vez eu havia falado demais. O sorriso em meus lábios deu lugar a uma vergonha tão grande que me fez virar para o outro lado. ― Saia daqui.
― Hã? ― O olhei completamente confusa, os seus braços estavam agora para baixo, os punhos cerrados e os olhos escurecidos se tornando quase vermelhos, expelindo uma advertência indômita, nervosa.
― Saia daqui agora, me espera no corredor. ― Permaneci parada tentando entender aquilo. ― Não vou falar de novo, saia da porra desse banheiro, agora.
Anton não alterou a voz, as suas palavras saíram uma a uma, com um equilíbrio frio e letal, que me fez capturar minha bolsa e sair correndo dali. Que raios tinha dado naquele vampiro? Ele parecia sempre estar encontrando jeitos de se superar, as suas sandices estavam ficando cada vez mais incompreensíveis.
A primeira coisa que pensei fora em tentar passar pelos seguranças e ir embora daquele lugar o mais rápido que conseguisse, mas nenhum deles pareciam amigáveis. Então restou-me esperar por longos minutos, até que o Anton resolveu sair de dentro do banheiro. O que será que ele ficou fazendo lá dentro?
― Vamos ― falou ele capturando a minha mão e me puxando para fora do corredor.
Muito perto de lá, estava o Nicolae parado conversando com um senhor de cabelos grisalhos. Ao nos ver, ele se despediu do homem e se dirigiu ligeiramente até nós com um sorriso radiante, mas nem a alegria contida nesse sorriso atenuou o forte pavor que me sobreveio. Fiquei sóbria num segundo.
― Ora, ora, o que temos aqui, se não é a minha belíssima acompanhante que foi roubada de mim, pelo meu desalmado irmão. ― Ele riu brevemente, e então me estendeu a mão. ― Vamos, sweetie, creio que mereço o restante da noite ao seu lado.
Essa não, ia começar.
Dizer que eu estava à beira de um ataque do coração, era pouco para me definir, porque eu estava tão desesperada que me sentia até zonza, muito perto de desabar naquele chão. Tanto, que só me dei conta de que estava sendo arrastada para o saguão central, quando olhei para trás e vi o Nick rindo e me acenando um tchau.
Naquele momento, eu só agradecia aos céus por não ter acontecido nada. Voltei a sentir aquela mão ínvida na minha cintura, e assim fui levada em direção à porta de saída. Alguns fotógrafos que esperavam à espreita do lado de fora, não perderam tempo em tirar algumas fotos, na verdade, dezenas, porque os flashes não paravam.
― Quem é ela, Sr. Skarsgard? ― perguntou um deles, no meio do tumulto. ― Ela é a sua namorada? Quanto tempo vocês estão juntos?
Os seguranças rapidamente apareceram e afastaram todos, aquelas luzes irritantes cessaram, então pude ver à frente, James, parado no fim do tapete azul com a porta da limousine aberta. Um profundo suspiro abandonou o meu corpo exausto, finalmente eu iria para casa, longe de toda a confusão, mas não longe do caos que seguia ao meu lado.
Nathan Saunders
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