C A P Í T U L O 15
As virtudes do pecado
Virei-me vagarosamente, encontrando-a sentada me observando, e porra, era daquilo que eu estava falando. Dos grandes olhos azuis cheios de lágrimas que pareciam o céu desabando, da nuvem loira bagunçada caída pelos ombros, e do jeito inocente como ela fungava e limpava as trilhas úmidas com o dorso das mãos. Olhando-a daquele modo, eu via apenas uma menina tão confusa quanto eu, com toda a situação a qual fomos submetidos, e embora quisesse, não conseguia culpá-la por nada. No entanto, eu bem sabia o que aquela boca atrevida me provocava.
A merda era que só de vê-la, eu me sentia tão irritado quanto excitado.
― Se não quer ser presa em um quarto, não me desobedeça da próxima vez. ― Não era porque eu não conseguia atribuir-lhe alguma culpa naquele momento, que eu iria incentivar o seu comportamento inadequado, ela precisava aprender a me obedecer, e se isso a afastasse de mim, melhor ainda.
― Por que você é assim, Anton? ― A sua voz saiu sufocada, seus olhos implorando para que eu a ouvisse.
Lá estava aquela forte sensação de que algo estava muito errado. Por que a necessidade de aproximação com uma pergunta tão íntima? Ela acabou trazendo à superfície uma parte da conversa que eu tivera com Avigayil.
― Só retomei este assunto, porque sei que ele definiu parte do que você se tornou, e o que você se tornou, interferirá no seu futuro. ― Ela ofereceu a mão, a qual neguei fazendo-a rir. A minha vida pertencia só mim, eu nunca permiti e nem permitiria que Avigayil obtivesse qualquer visão dela. Eu suspeitava que conseguir esta proeza era um dos seus maiores sonhos. ― Justo, compreendo que não queria compartilhar nada. Entretanto, quero que perceba que a minha intenção é despertar em você o desejo por viver a vida em sua plenitude. Amplie a sua consciência, abra a sua mente e controle os seus pensamentos ruins para evitar angústias desnecessárias. Controle a sua vida, Anton, não deixe o passado controlá-la por você. Não sobreponha a indiferença que você atribuiu aos seus pais, à sua esposa. Não é justo que ela também carregue o fardo deles.
― Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Nunca a relacionei com absolutamente nada do que aconteceu. ― Ela abrira a boca, mas a interrompi. ― Não. Você não pode simplesmente chegar em mim, exigindo que eu vá amá-la sob a ameaça de que isso faz parte da minha promessa a Chraos. Eu nunca prometi amor, até mesmo porque este sentimento nunca existiu em mim, nem quando eu era um simples humano. Não vou assumir nenhuma responsabilidade pelas emoções de outra pessoa, detesto caos emocional, e se você tem alguma estima por aquela fada, não deveria encorajá-la a ter este sentimento por mim, pois ele vai destrui-la, e eu vou assistir tudo calado, sabe por quê? Porque não dou a mínima.
E eu não dava a mínima mesmo. Não sabia nem porque ainda continuava parado ali. Novamente tentei sair, mas sua voz suplicante me fez parar.
― Ele não fez nada, por que você o matou?
Então ela realmente havia acreditado que eu o tinha matado. O que era estranho, pois se era esse o caso, eu esperava que se mostrasse desesperada e assustada com a minha presença, e não tão desafiadora e cheia de perguntas. Talvez eu devesse mesmo acreditar que ela não tinha medo de mim.
― Quem disse que eu o matei? ― Levei as mãos aos bolsos, virando-me para encará-la.
― Você... o corpo... eu vi... ― Ela ofegou as palavras intensificando o choro, e eu apenas inclinei-me para o lado apoiando meu ombro no umbral, assistindo a dúvida em seu rosto.
― É preciso muito mais que um nariz ou pescoço quebrado para matar um vampiro. Eu só o apaguei por alguns minutos, mas Nicolae Skarsgard continua vivo.
Seus grandes olhos se abriram, o que a deixava com um ar ingenuamente engraçado. Uma fisgada suspeita me pressionou o diafragma e aquela vontade de rir surgiu. Havia séculos que eu não precisava lidar com esse tipo de sensação, mas nos meus últimos encontros com a fada, de modo displicente, ela apareceu em algumas situações e eu tive de fazer um esforço para dispersá-la.
― Você... você está falando sério? ― perguntou limpando o nariz perfilado, enrubescido pelo choro.
Era interessante o quanto ela era intensa e transparente em suas emoções, e ainda mais intrigante era a habilidade de se reverter numa completa desordem em poucos segundos. Percebi que esse era um dos motivos que a tornava tão incompreensível na maioria das vezes.
― Acredite, quero mantê-lo vivo para que sempre haja a possibilidade de um assassinato mais tarde.
Ela sorriu, foi um sorriso sutil, mas havia sido o primeiro que me era direcionado naquela noite, e confesso que senti algo rastejar dentro de mim, como um gosto por isso.
― A sua loucura por acaso não tem limites? ― Nunca, e depois que aquela petulância em forma de fada entrou na minha vida, parecia ter piorado. ― As suas maneiras são abomináveis ― murmurou franzindo a testa, e novamente tive vontade de rir.
Mal sabia ela do que eu era capaz.
― E a suas são inconsequentes. Eu a alertei sobre qualquer envolvimento com pessoas próximas a mim.
― Você está me culpando pelo que fez com o Nicolae? ― Eu tinha que admitir que gostava de como ela era esperta e sempre absorvia as alusões das entrelinhas. Só que eu não podia negar que o Nicolae também teve a sua parcela de culpa.
Não me dei ao trabalho de respondê-la, não iria correr o risco de me envolver em uma conversa que não levaria a lugar algum, pois eu tinha certeza de que quando se tratava de discussão com aquela fada, havia uma espécie de furacão no horizonte, um que seria muito sedutor para eu conseguir me manter longe.
Colocando-se para fora da cama, ela escorregou as mãos pelos quadris descendo a barra do vestido cinza. E merda, se antes a atrevida parecia apenas uma menina, agora estava parecendo uma tempestade enfurecida e cheias de curvas. Definitivamente, ela tinha que parar de usar coisas que marcavam as formas do se corpo.
― Você me acusa como se eu tivesse ido atrás dele, mas saiba que foi ele quem veio aqui! ― bradou afastando alguns fios loiros da face. ― Se você não estivesse chegando em casa todos os dias de madrugada, estaria aqui para recebê-lo e eu não teria de ficar fazendo sala pra ele!
Um leve rosado lhe cobriu a face ao fim da sua última frase, realçando o azul-claro dos seus olhos que tremularam com alguma emoção que eu não soube identificar. A observei silenciosamente, tentando afastar a atração intensa que me varia por dentro, e que me fazia querer calar aquela boca presunçosa dela, de várias maneiras. Talvez com a sua cabeça submersa em água, ou com uma lâmina entre os lábios sinalizando que qualquer descuido a renderia um corte profundo, ou apenas com o que estava crescendo e me apertando as calças.
Merda.
Era o alerta vermelho para eu me retirar.
Exposição nunca foi uma das minhas predileções, por isso sempre tomei medidas adequadas para evitar me tonar uma pessoa pública. No entanto, eu tinha a minha fama. Era possível afirmar, com certeza, que todos os vampiros do mundo já tinham ouvido falar de mim, enquanto para as demais raças, eu não passava do misterioso dono da Skar Technologies que não gostava de mídias e afins.
Eu nunca me misturava, e não gostava de grandes concentrações de indivíduos em lugares fechados como aquele auditório. Mesmo que o evento fosse reservado para apenas trezentas pessoas e o local comportasse até mil, era muita conflagração reunida. Tedioso demais, cansativo demais. Se o lançamento do IA não fosse um fenômeno decisivo e delimitador da era da tecnologia, eu não me faria presente em hipótese alguma.
A voz que vinha do palco cessou seguida por uma série de intensos aplausos, e tão breve, os sutis feixes de luz foram ligados iluminando apenas os corredores, até as largas portas de saída. Ao primeiro sinal do Francis, me levantei da poltrona fechando o botão solitário do meu smoking, enquanto assistia aos seguranças se aproximarem e se colocarem a postos para evitarem qualquer tumulto que porventura pudesse ocorrer. Ao segundo sinal do meu assessor, me dirigi ao corredor lateral.
― Kaiser! Kaiser, por favor, preciso falar com você! ― Olhei para o lado, vendo Elvira Doubek sendo impedida de se aproximar por um dos seguranças. Ela continuava tentando falar comigo, mesmo depois de todas as escusas que Ezra dera à mesma durante a semana. ― Por favor, preciso falar com você! Dois minutos!
Ela não iria parar, e já era hora de dar um fim ao problema.
Ordenei ao Francis que a levasse para uma das salas particulares, e em seguida, fui atrás. Só me veio à mente que, o único motivo para um Doubek me procurar, seria o presente que eu mandara entregar diretamente no clã deles. Porém, o singular era a esposa do líder estar atrás de mim, e não o próprio Ephésius.
― Não vou demorar aqui ― falei ao entrar na sala privativa que ficava atrás do palco. Após um breve movimento de anuência, Francis saiu fechando a porta e nos deixando a sós.
Assim que pousei meus olhos na vampira, ela rapidamente desviou o olhar abaixando a cabeça. A postura trêmula, os ombros parcialmente encolhidos e as mãos que se apertavam fortemente uma na outra, evidenciavam o quanto estava nervosa. Eu diria até que ela poderia estar à beira de um colapso nervoso.
― Desculpe-me...
― Sem enrolações, Elvira. Fala logo.
Arriscando uma breve olhada em mim, ela se encolheu ainda mais, seu queixo tremeu e sua boca abriu algumas vezes parecendo fazer um esforço demasiado para que as palavras fossem proferidas.
― Medora...
Medora. Como eu havia imaginado, era ela o assunto.
Levei as mãos aos bolsos sentindo algo muito próximo a uma efêmera satisfação despontar. Inspirei profundamente, tão profundo que quase pude sentir o cheiro salgado do sangue impregnado na câmara onde ela fora colocada por Edgar. As memórias que eu retinha com uma certa singular perversão quase me fizeram ver, sentir e ouvir...
O brando ranger das correntes provocados por alguns espasmos do seu corpo pendurado. As mesmas que lhe prendiam os tornozelos junto dos ganchos cravados em suas panturrilhas e braços, os quais garantiam que os seus movimentos lhe fizessem o sangue escorrer pela pele nua, extremamente pálida, até os longos cabelos, tão vermelhos quanto o próprio sangue.
― Kaiser... ― sua débil voz sobreveio com uma lufada de sangue.
Aproximei-me sem pressa, analisando melhor a coleira de espinhos em seu pescoço. O objeto cumpria efetivamente o restante do propósito, fazendo com que mais sangue seguisse o mesmo fluxo e escorresse devagar, até a caixa de vidro estrategicamente posicionada no chão.
Abaixei-me à sua frente de modo que eu pudesse olhar diretamente em seus olhos. Era possível ver através deles, a agonia, o conflito, a sede por sangue e a dor a punindo, a corroendo, mas ainda existia aquela imobilidade como uma espécie de encantamento característico à sentimentos de admiração. O seu prazer em chamar a atenção era tão grande, que nem a sua vigente situação o inibia, o que me era, por vezes, repulsivo.
― Kaiser, me... me perdoa...
Ergui-me e retirei a sua coleira. Os três dias privados de sangue deixara seu corpo fraco e sedento, o que diminuía sua capacidade de regeneração, levando os furos deixados pelos espinhos em seu pescoço, demorarem para fechar. Fiz um gesto para que Edgar a soltasse dos ganchos e das correntes. Enquanto ele cumpria a minha ordem, livrei-me do meu casaco e me encostei na parede de cimento cruzando os braços.
Medora, ao ser colocada no chão, com muito custo conseguiu ficar de pé, ainda me encarando com aquele brilho inflamado em seus olhos. A passos calmos, andei até parar à sua frente. Apesar do corpo instável, ela não se afastou e nem os seus olhos deixaram de me observar. Desci suavemente meus dedos pela sua face, sentido a textura úmida e pegajosa do sangue que a cobria. Busquei seus olhos, e a minha cabeça pendeu para o lado.
― Você, na sua insanidade, inventou um idealismo bestial, Medora. Substituiu o desejo pela obsessão, a prudência pela urgência de ser percebida, e a sua eternidade pela morte.
― Por favor, me perdoa. Eu não devia ter feito aquilo, mas não... não foi loucura... ― asseverou ela balançando a cabeça, mas a inibi logo.
― Não? Se desobedecer a uma regra minha, mesmo sabendo o iria acontecer, não é loucura, então o que é? Suicídio?
― Sei que você não acredita em amor, mas acredita em desejo, em prazer, posso te dar isso. ― Tão previsível e irrisória que resolvi me aproveitar da sua eloquência para lhe oferecer uma morte ainda mais atormentada.
Levei os meus lábios até próximo à sua orelha.
― Essa possibilidade te excita? ― sussurrei, buscando seus cabelos com uma das mãos.
― Muito, posso fazer o que você quiser. ― Puxei sua cabeça para trás voltando a encará-la. Um sorriso provocador já havia se instalado em seus lábios. ― O que fará comigo?
― O que farei com você?
A encostei na parede envolvendo seu pescoço com os meus dedos, e eles continuaram descendo até os seios túmidos e frios. Medora estremeceu e ofegou fechando os olhos, que logo se abriram acompanhados de um grito esganiçado, quando a minha trilha terminou sobre o seu coração onde forcei os meus dedos contra a sua carne até rasgá-la.
― Serei o mais conciso que posso ser. ― Adentrei a minha mão um pouco mais em seu corpo, jorrando sangue por todo o meu braço. ― Não é o vazio do seu coração ou o do meio da suas pernas que precisa ser preenchido, é o da sua cabeça fodida. ― Um rastro de sangue começou a escorrer da sua boca entreaberta quando alcancei o seu órgão pulsante. ― Você é tão medíocre, Medora, tão desprezível. Essa sua carência irracional e a necessidade obsessiva de ser amada e desejada, me causa repulsa.
Não havia mais nada para ser dito, e o enfado me fizera acabar com tudo aquilo rapidamente. O coração dela foi parar dentro da caixa de vidro, e só então me lembrei que a minha promessa havia sido diferente, faltava a cabeça e esta não demorou para ser arrancada e, em igual, jogada lá dentro. Ao me livrar da minha camiseta encharcada e me limpar com uma toalha, dei ordens expressas a Edgar, que deveria fechar a caixa e enviá-la diretamente ao clã Doubek.
Ela, que tanto queria ser notada, não seria esquecida por eles tão cedo.
― Medora está desaparecida desde o dia do seu casamento. Já falei com a sua mãe, mas a rainha só soube dizer o que viu pelas câmeras da casa. Ela disse que a viu saindo com um dos vampiros que trabalham para você. ― Minha visão se fixou novamente na vampira à minha frente.
― Medora está morta ― revelei a verdade. Havia pouco mais de uma semana desde a morte dela, me estranhava a demora na entrega da caixa. ― Ela sangrou por três dias e foi decapitada no último deles. Você bem sabe que eu a avisei.
Elvira virou-se bruscamente levando as mãos ao rosto, enquanto um choro afogado se descerrava. Aquela cena já era demais, o tédio gritou e eu segui para a porta.
― Sei que ela era complicada, mas era como uma irmã para mim.
― Irmã? ― Parei com a mão na maçaneta, e a olhei de lado, um tanto debochado. ― Irmãs do tipo que dividem o marido, escondido, claro.
― Do que você está falando? ― inquiriu ela se voltando subitamente para mim. ― Ela não dormia com Ephésius.
― Pobre Elvira. Caso eu tivesse algum tipo de empatia, até sentiria pena. ― Abri a porta, mas me lembrei de um detalhe. ― Se não quiser acabar como a sua "irmã", não me procure mais.
Ao sair de lá, encontrei Francis parado a poucos metros me aguardando com a equipe de segurança. Fui guiado pelo corredor para a saída que levava para o saguão principal do lugar, onde se encontravam inúmeros fotógrafos e alguns dos diretores mais importantes da Skar. Já na porta fui abordado por alguns deles me parabenizando pelo sucesso da apresentação.
Fiquei algum tempo aturando aquela bajulação sem prestar muita atenção, porque as memórias do que acontecera na madrugada após a morte da Medora, continuaram emergindo na minha mente. Naquela noite, ao voltar para casa me deparei com fada na escada, tão fodidamente atraente e cheirosa, que eu quase perdi a razão, e foi quando percebi que me manter longe dela, era uma questão de sanidade mental.
Essa era uma lembrança tão expressiva, que eu quase podia sentir o perfume doce dela...
― Quem é aquela deusa? ― A voz de Nathan Saunders sobrelevou fazendo-me olhá-lo para em seguida buscar seu objeto de observação, o qual o deixara hipnotizado.
O objeto em questão era uma loira esbelta de vestido vermelho parada a vários metros de onde estávamos. Embora estivesse de costas e pouco eu pudesse ver, me veio a sensação de que a conhecia. Os longos cabelos loiros que caíam em ondas, a cintura muito fina marcada pelo vestido e a bela bunda que parecia se esconder por debaixo do mesmo, me pareciam muito familiares.
O intrigante era que essa sensação só aumentava à cada movimento que ela fazia. Seus gestos eram sutis e delicados, quase inibidos, mas eram o suficiente seduzir todos os homens à sua volta, ao ponto de interromperem suas conversas para olhá-la fixamente como se estivessem enfeitiçados. Não havia um ser sequer dentro do salão, que não a olhasse naquele momento.
Com um movimento elegante, a loira se virou de lado, revelando a fenda do vestido que quase lhe deixava a lateral do quadril, totalmente exposta. A mão lhe correu pelo rosto afastando uma mecha de cabelo, então ela se voltou para mim e me olhou, permitindo eu ver seu rost...
Ah, porra...
Porra!
Que merda a fada estava fazendo ali?
Francis Wallard
Elvira Doubek
Medora Doubek
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