C A P Í T U L O 10

Fechando os olhos

          Depois do salão de jogos, as levei para conhecer a academia que ficava na última porta do corredor, e depois dela, as apresentei a incrível biblioteca dele. Outro detalhe que eu havia descoberto sobre o Anton, era que ele parecia gostar de ler. Existiam milhares de livros lá dentro, dos mais velhos e manuscritos, até os mais novos e recentes sobre tecnologia, dispostos nas altas prateleiras de madeira que cercavam o único cômodo da casa que fora decorado para parecer antigo, acolhedor e confortável.

          ― Aqui ― apontei para a porta fechada que ficava ao lado da biblioteca ―, é o escritório dele. ― As duas pararam com notável expectativa de que fôssemos entrar, mas passei direto. ― Nem pensem nisso, é um espaço muito pessoal e eu não me atreveria a entrar aí sem a permissão dele.

          Voltamos para a sala de entrada, de lá passamos para a sala de jantar, e então saímos pela porta de vidro que dava para o pátio. Essa parte funcionava como um limiar entre a casa e o jardim que cercava os fundos dela. Exatamente ali, onde estávamos, ficava uma longa piscina retangular, diferentemente da que ficava na área de lazer, a qual possuía um formato irregular.

          Após descermos para a área de lazer, continuamos pelo jardim até uma lateral mais afastada, local em que ficava a estufa, e então seguimos pelo caminho de pedra que nos levava de volta para casa, especificamente, para a entrada da lavanderia que ficava nos fundos da cozinha.

          ― O que há ali? ― indagou Mel apontando para um estreito portão de metal retorcido, sustentado por muros de cercas vivas. De onde estávamos não dava para ver, mas existia uma pequena casa do outro lado.

          ― É onde a Rose mora ― respondi.

          Este era um dos detalhes curiosos que acabei descobrindo sobre a Rose nos últimos dias, já que ela parecia bem mais relaxada para conversar com a ausência do Anton. Além de me contar que morava naquela casa dos fundos, para a minha surpresa, descobri que ela era casada com o James, e adorei saber disso, porque eles realmente combinavam e formavam um casal muito agradável.

          O tour do primeiro andar terminou na enorme cozinha, equipada com o que existia da mais alta tecnologia. Armários brancos embutidos, e brilhantes eletrodomésticos de inox ocupavam tudo, já nas bancadas de mármore escuro, apenas o essencial. Na ilha que ficava no centro existiam três banquetas altas, e próxima à parede de vidro, a qual dava para ver uma parte do pátio e do jardim, tinha uma pequena mesa com seis cadeiras.

          Aproveitando que já era quase meio-dia, ficamos por lá para que a Mel pudesse fazer o almoço. Rose até ofereceu ajuda, mas lhe assegurei que ela poderia tirar o restante do sábado de folga. Eu não fazia ideia de quantos e quais dias na semana ela trabalhava, mas pela sua disposição, os sábados pareciam ser um dia comum de trabalho.

          Quando tudo já estava pronto, organizamos a mesa próxima à piscina do pátio, e então subimos para colocarmos nossos biquínis. Assim que voltamos, Mel não se intimidou em ir até o bar da sala dar uma olhada nas bebidas disponíveis por lá. Ela acabou encontrando a tequila que tanto queria, entre outras coisas alcoólicas que eu não fazia a menor ideia do que eram, mas que foram misturadas em uma jarra de vidro. Ao final, parecia que estávamos bebendo álcool puro com algumas rodelas de limão.

          ― O casamento tem te feito bem ― falou Sophi, e eu tive de levantar meus óculos de sol fitá-la com os olhos apertados. Ela sorria, não de um jeito irônico, mas sincero. ― O que foi? Estou falando a verdade. Em uma semana você recuperou parte do peso que tinha perdido nesses últimos meses, está mais linda, mais radiante.

          ― Nada a ver. ― Abaixei meus óculos e reclinei-me na espreguiçadeira.

          ― Tudo a ver, tenho que concordar com a Sophi. Reparei que você voltou a comer melhor essa semana.

          Que mania de ver coisas onde não existiam. 

          Na verdade, dada a minha desordem mental daqueles dias, eu já nem estava mais sabendo distinguir se elas estavam brincando, ou se era de fato algo que realmente acreditavam. De qualquer modo, eu não queria considerar, não queria fixar ideias erradas na minha cabeça. Afinal, a minha aparência não poderia ter melhorado só pelo simples fato de eu estar casada, ou poderia? Não, não mesmo. 

          ― Até você, Mel? ― Levei o canudo da minha bebida até a boca me virando para a linda morena deitada de bruços na espreguiçadeira ao meu lado, a qual mexia freneticamente em um celular. ― Ei, esse é o meu celular?

          Ela me estendeu seu olhar abrindo um sorrisinho travesso.

          ― Isso tem a ver com o vampirão, não tem? ― indagou ignorando a minha pergunta. ― Vocês andaram dando uns pegas pelos corredores desta casa? ― Sophi soltou uma gargalhada, e eu apenas arquejei. ― Pode confessar, Li, está toda lindona assim porque andou dando pra ele, não é?

          ― Mel! ― gritei jogando meu canudo nela. ― Você sabe muito bem que isso jamais vai acontecer! Além do mais, tem três dias que não o vejo.

          ― Está com tanta saudade assim, que já está contando, minha amiga? ― Sophi se engasgou com outra gargalhada, e eu quase joguei a minha bebida nela. Aquela traíra já estava ficando vermelha de tanto rir.

          ― Quer saber, calem a boca vocês duas. ― Larguei o meu copo ao lado e então abaixei o encosto do móvel, onde virei e me deitei de bruços ignorando as risadas de hienas das duas.

          ― Ei, quem é esse "Maldito" que está aqui nos seus contatos? ― Olhei para a Mel que continuava futricando no meu celular.

          ― Posso saber o que você tanto mexe aí? ― Levantei a cabeça para tentar espiar de longe, mas ela afastou o celular.

          ― Para de ser chata, só estou olhando. Vai, responde, quem é?

          Expulsei uma respiração rápida e impaciente. Eu devia ter previsto que elas tirariam o dia para me atazanar e fazer todas as piadinhas confabuladas durante a semana.

          ― Só há um maldito na minha vida ― confessei terminando de completar o meu copo. ― Vulgo, Anton Skarsgard.

          Elas estavam adorando rir da minha cara, e parecia que ao invés de relaxar, aquela bebida estava me deixando irritadiça. Certo, talvez não fosse a bebida, mas sim, falar sobre ele. Durante aquela semana eu havia evitado qualquer questão relacionada ao Anton, porque tive medo de que percebessem as minhas recentes inseguranças e perturbação em relação a ele. Eu sequer havia mencionado para a Sophi sobre a visita de Avigayil, e muito menos as descobertas sobre os meus sonhos.

          ― Vou dar um mergulho ― anunciou Mel se levantando e ajeitando o biquíni tomara-que-caia vermelho. Dei um tchauzinho para ela a assistindo ir em direção à piscina, antes de voltar a deitar minha cabeça na espreguiçadeira. 

          ― Você está bem? ― inquiriu Sophi fazendo-me olhá-la. Aquelas duas esmeraldas que ela possuía no lugar nos olhos, pareciam ainda mais realçadas pelo sol da tarde. ― Eu acreditava que era apenas a tensão pré-casamento, mas falar dele continua te deixando muito irritada, e agora parece que você também está... inquieta, talvez?

          Essa não, estava demorando.

          Inquieta era apenas uma das palavras que me definiam naquele momento. Embora não soubesse exatamente o que, eu podia sentir que algo estava mudando dentro de mim. Eu estava começando a ver as coisas de uma maneira diferente, pensando nelas diferente, de um jeito que parecia que a vida me estava oculta antes. Ainda tinha aquela estranha sensação de que o destino havia me reservado intensas alegrias, mas também intensas dores.

          Eu sabia que a Sophi havia reparado qualquer mudança, seja ela psicológica ou física, no segundo em que colocara os olhos em mim, e não importava o quanto eu tentasse disfarçar. Entretanto, naquele momento, não mesmo que eu a deixaria prosseguir com qualquer assunto que envolvesse o Anton. Os meus próprios pensamentos excedentes já eram uma tortura, e eu não precisava de mais ninguém para tornar a minha confusão ainda mais evidente.

          A ignorando, fiz um gesto displicente com a mão e me estiquei até a mesa para pegar outro canudo.

          ― Estou bem, é impressão sua. ― Sorri para aliviar a tensão, e puxei alguns goles do líquido transparente, fazendo uma careta. ― Essa mistureira que a Mel fez é horrível, não sei como continuo bebendo isso. ― Ela riu e bateu seu copo no meu, concordando. ― E você como está? ― Aproveitei para mudar o foco da conversa.

          ― Hum... bem. Estou muito bem na verdade. ― Fora o sorriso bobo dela, percebi um certo entusiasmo em sua voz, o qual me fez analisá-la melhor. Sophi estava diferente também, o brilho nos olhos e as bochechas rosadas me indicavam que ela parecia mais do que feliz. 

          ― O que aconteceu nessa semana que te deixou tão feliz assim? ― Ela afastou uma mecha ruiva dos olhos e então se virou deitando de lado.

          ― Aconteceu uma coisa que tenho que te contar...

          A música alta ao estilo new wave que veio das caixinhas de som a interrompeu. Mel estava perto do pequeno aparelho de bluetooth, toda molhada e sorridente.

          ― Ei, vocês duas, vem, vamos dançar! ― gritou ela remexendo os quadris.

          Sophi se colocou de pé em um pulo, e era certo que aquela conversa ficaria para depois. Me juntei a elas, e logo estávamos as três dançando, rindo e nos jogando na piscina. Menos assuntos inconvenientes, mais movimento e muito barulho. Depois da guerra de água que se desenrolou lá dentro, estávamos sem fôlego, cada uma estirada para um lado tentado se recuperar como podia.

          ― Acho que não tenho mais idade pra isso ― ofegou Sophi deitando na borda da piscina.

          ― Nem me fale. ― Voltei para a espreguiçadeira e só me joguei de bruços.

          ― Ahh qual é, suas molengas! ― gritou Mel jogando água na Sophi.

          Fechei os olhos e inspirei fundo aproveitando o aconchegante contraste do calor do sol sobre a minha pele molhada. Só ouvi o barulho do corpo de alguém se chocando contra a água e então o ecoar das risadas delas. Um sorriso me escapou, e tão breve senti aquele característico adormecimento que fazia o corpo relaxar e os ruídos ficarem cada vez mais distantes.

          Fui trazida de volta com uma leve dorzinha causada por um tipo de beliscão nas minhas costas. Abri os olhos e me deparei com a Mel sorrindo arteiramente, e não demorou para que eu sentisse um jato de água vir com tudo para cima de mim. Num sobressalto, me levantei correndo vendo a Sophi com um copo na mão se acabando de tanto rir.

          ― Vocês me pagam, suas ridículas! ― gritei, e elas gargalharam ainda mais. Foi então que comecei a sentir algo diferente, algo livre demais. Olhei para baixo e vi que eu estava sem a parte de cima do meu biquíni. Rapidamente cobri meus seios com o braço tentando entender como as duas amarrações detrás haviam sido desfeitas. ― Como... como saiu? ― Encarei aquelas duas loucas, completamente atordoada, e foi aí que liguei uma coisa com a outra. O beliscão, o sorriso travesso da Mel... ― Mel!

          Ela deu um pulo para trás com o meu berro, e foi se esconder atrás da Sophi.

          ― Não fui eu! ― Apertei os olhos e balancei minha cabeça em censura. ― Tá, fui eu, mas foi ideia dela. ― Sophi nem teve tempo de se defender, porque a Mel a empurrou com tudo para dentro da piscina. ― Me vinguei por você.

          Nessa hora não aguentei e ri. Ri muito e alto, vendo a Sophi tentando se recuperar do empurrão, e do sorriso largo e descarado que a Mel abria fingindo inocência.

          ― Espera, espera, não se mova ― falou ela correndo até a espreguiçadeira e pegando o meu celular. O que tanto ela queria com esse celular? ― Fique assim, você está tão linda que merece uma foto.

          O meu sorriso foi morrendo aos poucos.

          ― Para com isso, sua louca! ― Apertei meu braço contra os seios. ― Estou sem meu biquíni!

          ― Só um sorriso, vai?! ― pediu ela fazendo uma careta engraçada para me fazer rir.

          Dei um sorriso tímido, só porque não tive como evitar. Eu não sabia dizer se ela tinha tirado a tal foto ou não, mas nem dei tempo ou assunto, tratei de pegar a parte de cima do meu biquíni e ir até o banheiro mais próximo, que ficava ali ao lado. Assim que voltei, fui direto para a cozinha preparar alguns sanduíches para o lanche da tarde.

          Após comermos, voltamos para a piscina e ficamos lá por mais um tempo, até o sol começar a se esconder atrás das árvores que compunham o pano de fundo do lugar. Quando subimos para o meu quarto, eu estava completamente exausta, com o corpo todo ardido pela exposição ao sol, e concluí que pelo abrandamento da histeria das duas, elas também estavam cansadas.

          Fui a última a tomar banho, e acredito que a que mais demorou, pois levei um tempo tentando acalmar a minha pele com algum hidratante. Ao sair do banheiro, estranhei encontrar o quarto vazio, e eu as conhecia bem demais para não ficar preocupada, então me apressei em colocar um vestido e ir atrás delas.

          Já no corredor, ouvi a risada da Sophi vinda do final dele. Meu coração bateu forte e eu quase gritei quando vi que a porta do quarto do Anton estava entreaberta, e que o barulho delas ecoava dali. Não era possível. Corri até lá encontrando a Mel saindo do banheiro e a Sophi mexendo no abajur da mesinha de cabeceira.

          ― Vocês ficaram malucas? ― indaguei meio sem ar, a voz saindo como um sussurro nervoso. Meu coração batia tão exaltado que parecia querer me atravessar o peito.

          ― Você estava demorando, Li, e ainda falta conhecer o terceiro e o segundo andar ― articulou Mel com um elevar de ombros inocente, mas eu bem sabia que aquele sorriso em seus lábios, não era confiável.

          ― Este aqui é o quarto dele! ― Eu não queria nem pensar no que aconteceria caso o Anton descobrisse que havíamos entrado escondido em seu quarto. Ia virar uma grande confusão, e eu não estava pronta para começar outra briga com ele.

          ― Nós percebemos, esse cheiro é inconfundível ― falou Sophi, seu risinho levado vibrando no silêncio.

          ― Vocês se lembram do que eu disse sobre espaço pessoal? Isso se aplica aqui também! ― Por que eu continuava sussurrando? Droga, já estava com medo até da Rose descobrir, mas por sorte não havia mais ninguém dentro da casa.

          Não tinha motivo para tanto desespero.

          Olhei à minha volta admirada com a decoração. Aquele quarto era quase idêntico ao quarto dele da cobertura. Anton definitivamente gostava de cores monocromáticas, em toda a casa não havia nenhuma cor que fugisse do preto, branco ou da escala de cinza. Encostei a porta devagarinho com a sensação de estar fazendo algo muito errado, mas a quem eu queria enganar, entrar escondido em seu quarto era malditamente emocionante.

          ― Só não toquem e nem tirem nada do lugar, está bem? ― pedi e as duas abriram um sorriso maquiavélico acenando um sim. ― Estou falando sério!

          Aproveitando que elas sumiram para dentro do closet dele, me aproximei da cama. A colcha daquele dia era de um cinza quase grafite, e era tão macia e cheirosa quanto a branca que eu já conhecia. Não resisti ao impulso de correr a minha mão sobre ela, e nem de pegar um dos travesseiros e inspirar profundamente aquele perfume delicioso.

         Minha nossa. Aquele cheiro era tão maravilhoso, que eu poderia passar o resto da minha vida apenas o sentindo. Ele me provocava tantas sensações incomuns e desconhecidas, que as minhas faces ardiam só de pensar aonde elas poderiam me levar.

          ― Li, olha o que achei! ― No susto lancei o travesseiro longe, e rapidamente me virei para a porta do closet. Com um sorriso safado nos lábios, Mel afastou as mãos abrindo uma cueca boxer de cor preta. ― Eu acho que ele é bem-dotado.

          Meus olhos se arregalaram, e eu praticamente voei até ela pegando a cueca das suas mãos.

          ― Você está louca?! ― quase berrei e ela começou a rir junto da Sophi que ainda estava lá dentro. ― Qual a parte do "não tirar nada do lugar" você não entendeu? ― Tentei inutilmente dobrar aquele pedaço de malha preta. ― Droga, ele vai perceber se não estiver dobrada como as outras.

          ― Fica com essa pra você, assim não precisa pôr de volta ― Sophi sugeriu aparecendo ao lado da Mel.

          ― Rá-Rá muito engraçado! Isso não é brincadeira! ― explodi e a minha boca parou aberta quando a porta do quarto fora empurrada de uma vez.




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