Capítulo final

O que David viu ia contra qualquer coisa considerada aceitável, ou mesmo imaginável, pelo mais paranoico doente mental. Não havia alucinação que se comparasse com aquele desespero visual que presenciava.

As formas octópodes que atormentavam seus sonhos estavam agarradas às cabeças de todos na sala, fincando suas finas patas em volta de seus crânios. O ferrão que partia de trás do corpo fazia um arco para baixo e estava introduzido firmemente na nuca. As parasitas pareciam sugar algo das vítimas. Sangue, energia, ou qualquer outra coisa. Elas expandiam e comprimiam-se como um pulmão durante a respiração.

David não conseguia se mexer. Fechou os olhos e apertou-os contra o rosto, mas quando os abriu novamente, as criaturas ainda estavam lá. Os médicos, parecendo não perceber a que estavam sendo submetidos olhavam-no com certo ar de dúvida e preocupação.

- Senhor Tamille, está tudo bem? Quer que apaguemos as luzes novamente? - O médico que lhe disse essas palavras deu um passo em direção a David, fazendo a nojenta forma sobre sua cabeça ondular como uma gelatina.

David, perdendo completamente a sanidade, deu um grito de desespero e saltou da maca. Ele correu para o lado de uma porta com e, que havia um boneco palito desenhado. Parou de costas para ela, pegando um bisturi que haviam deixado na bancada ao lado dela. Apontou o objeto para todos na sala e berrou:

- PARADOS!! NÃO MEXAM UM MÚSCULO OU EU ARRANCO A CABEÇA DE VOCÊS JUNTO COM ESSAS PORCARIAS NOJENTAS QUE CARREGAM.

Os médicos, num ímpeto desesperado, paralisaram diante da ameaça e tentaram acalmar o jovem de alguma forma:

- Calma, Senhor David. - Falou o primeiro médico com a voz calma, mas imperativa. - Está tendo alucinações. Não perca o controle. Abaixe esse bisturi, por favor.

Ao olhar em volta, David viu através do vidro de uma segunda porta alguns seguranças do hospital se aproximarem. Eles também carregavam seus parasitas.

Levou a mão que não segurava o bisturi para trás do corpo, pegou a maçaneta da porta que estava atrás de si e certificou se estava aberta. Abriu a porta num movimento rápido e entrou. Teve um acesso de raiva quando percebeu que a chave não estava na fechadura. Ouviu passos correndo até onde estava e segurou a porta com toda a força que pôde.

Viu, pendurado por um prego na parede, um pedaço roliço de madeira talhado com a palavra "BANHEIRO MASC" e a chave presa. Esticou a mão com o bisturi para pegá-la, com a ponta fina do objeto direcionada para o meio da argola que prendia a chave.

Começaram a bater e empurrar a porta, gritando para que a abrissem pelo lado de fora. A obsessão de David pela chave era tão grande que ele não conseguia ouvir nada do que diziam. Só pensava em pegá-la e trancar a porta, na esperança de salvar-se daquele pesadelo.

Fez um movimento rápido com o pulso e conseguiu tocar a argola de leve. Num golpe de sorte, ela escorregou para o bisturi, batendo em seus dedos.

Quase sem forças para aguentar e com sua cabeça latejando mais do que nunca, ele pôs a chave no miolo da fechadura e a virou, separando-se momentaneamente daquelas monstruosidades.

Sentou na privada, ofegante. A dor não o deixava pensar e ele não conseguia organizar os pensamentos. As topadas na porta do lado de fora pareciam distantes. Ele olhou para a janela, levantou e caminhou com dificuldade até ela.

O que viu do lado de fora foi ainda mais inacreditável. As pessoas caminhavam nas ruas e todas elas tinham essas criaturas fincadas em suas cabeças. Sugando suas vidas. Todas. Homens, mulheres, até mesmo as crianças.

"Oh, meu Deus, crianças!" - Pensou David, torturado pela realidade.

Foi então ele que viu uma pessoa que não tinha sido atacada, uma mulher. Ela devia ter uns vinte anos, talvez menos, era loira e ele viu o desespero no seu rosto enquanto ela andava encostada sobre a parede de um beco escuro do outro lado da rua. David tentou abrir a janela para fugir, mas, além de emperrada, ela estava protegida por uma grade de ferro.

As batidas na porta voltaram com força total. David voltou-se para ela e ouviu o grito de um deles do lado de fora. Conseguiu entender somente as palavras "pegue" e "de cabra".

Olhou novamente pela a janela e para a garota. Agora, ela estava escondida atrás de uma caçamba de entulho. As pessoas passavam do outro lado como se vivessem suas vidas normalmente.

De repente, ele viu um vulto familiar e, num ato de desespero, começou a bater no vidro da janela e a gritar.

- EI!!! ATRÁS DE VOCÊ!!! ATRÁS DE VOCÊ!! CORRE!!! SAIA DAÍ!!!!

Algumas das híbridas criaturas humanas olharam para o alto da janela. A mulher também, no momento exato em que foi atacada por um parasita que a espreitava. Ele saltou nas suas costas e agarrou, com as patas afiadas, as têmporas da moça. Um fio de sangue escorreu de suas orelhas e ela gritou de dor. A maldita coisa tirou seu ferrão e rapidamente enfiou-o fundo por trás de seu pescoço. David viu a mulher estremecer e cambalear um pouco antes de parar, imóvel, com a cabeça baixa enquanto a criatura sugava sua vida. Após alguns segundos, uma ambulância chegou ao local onde ela estava. Diversas pessoas vestidas de branco - acompanhadas de seus respectivos pares - desceram do carro, pegaram-na pelos braços e a levaram. A ambulância partiu dali e as não-mais-pessoas voltaram a caminhar tranquilamente, como se nada tivesse acontecido.

David chorava desesperado enquanto batia sem forças no vidro da janela. Suas mãos tremiam muito agora e a dor e a pressão na cabeça haviam aumentado demais. Virou-se de costas para a janela e percebeu um barulho de lado de fora que sugeria a chegada do pé de cabra. Alguém estava pedindo para que todos se afastassem.

Caminhou em direção à porta, mas parou no meio do caminho. Do seu lado esquerdo havia uma pia com um espelho que não havia percebido quando entrou. David foi até ele e apoiou as duas mãos sobre a louça fria. Com o bisturi fechado no punho, ele observou o seu reflexo.

A risada começou baixa, como um gemido, e aumentou de uma vez, tornando-se uma gargalhada insana e desconcertante. Era a risada de alguém que perdeu tudo o que possui de consciência e senso de realidade. David apertava o bisturi com as mãos trêmulas e a lâmina brilhava em seus olhos.

A primeira investida com o pé de cabra foi suficiente para derrubar a porta, mas era tarde demais. A pia branca e fria daquele banheiro dentro do Hospital das Clínicas já transbordava sangue e lágrimas.

Fim... por enquanto.

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