Capítulo 2 - Prazer, Srta.

Ruby era livre. Pelo menos, naquela pequena cidade com múltiplos parques da linha 3. Nela, Ruby não era ninguém além da própria — ganhara um novo nome e uma nova identidade. Um novo conforto. Abraçou aquilo. Sorriu às crianças, entregou sua joia cara a um morador de rua, na esperança de fazer algo bom. Coçou o nariz e espirrou sem se preocupar se alguém iria a parar na rua para mandá-la ao médico.

Dançou nas festas, bebeu um copo de Sex on The Beach e retocou o batom agressivo que havia ficado marcado no canudo. Quando se embelezava a sair, de madrugada, estava sempre tudo lindo. O céu era destacado, não havia hologramas como de onde vinha. Não havia a tecnologia bastarda para os controlar. O mundo ainda era puro.

Naquela cidade sem joias, sua felicidade brilhava como ouro.

Fazia cerca de seis ciclos desde que tivera 20, ou melhor, seis anos. Lucas a dizia que aquelas pequenas diferenças de palavras a faria ser pega, ou pior, taxada como hipster. Ela riu quando ele a disse isso.

Lucas costumava apresentar aquele mundo como Inércia — Ruby sabia que não era aquele o real nome. Brumas, como as pessoas reais chamavam, era muito mais do que corpos movimentados a trabalhos. No domingo, elas iam a praia e aproveitavam a maresia, no sábado, aos parques. Não existia parque em Império. Apenas controle. Olhou seu pulso, nele, um pequeno ponto verde acendia. Escondeu com um relógio.

Lucas estaria seguro enquanto seguisse usando roupas de mangas longas e pulseiras no pulso esquerdo. Aquele pensamento fez o pib diminuir, e diminuir, e diminuir.

Mas ela estava livre. Livre de tudo, de todos. Então, para que se importar? Sentou-se em um banco, escutando uma adolescente ensinar um senhor a ler as palavras cruzadas. Naquela praça, jovens se reuniam para ensinar e aprender.

Naquela cidade, pessoas andavam para amar e receber. Tão diferente de sua cidade natal. Suspirou. O verde passou a ser roxo. O sorriso típico sumiu de seus lábios. Tocou nos brincos com cuidado, uma perfeita economia da Rose's 97, havia sido de sua avó.

Ruby sempre se sentiu diferente. Distante. Sabia que algo a chamava — uma voz de sereia, que logo a afundaria. Ela escutava, mas não ia.

Até que decidiu pular.

Viu a pobreza, viu a pureza, viu o reflexo. Viu o mundo. Então, viu Brumas. E aquilo foi o mais perto de paraíso que encontrou. As vezes queria abraçar Lucas, pedi-lo para parar, mas sabia que o garoto nunca a escutaria — estava perplexo com as safiras expostas a céu aberto nas vitrines, perplexo demais para enxergar que a real joia ia além do olhar.

Piscou.

Não pegaria mais o trem, ouviu a voz chiar. Sabia que era loucura, mas tinha certeza que a voz chiou, a chamou. A implorou. Naquela tarde, Ruby sentiu o vento, tocou a brisa e beijou o ar.

Ela perguntou se algum dia ele a perdoaria. Se entenderia na encrenca que estava se metendo, ou se estava tão preso a Império quanto ela estava presa naquele mundo, ambos presos na inércia de serem de mundos distantes. Não se preocupou com os pensamentos negativos, naquele lugar tão longe de casa, as pessoas poderiam ser elas mesmas.

Então, ela chegou. Trocaram alguns comunicados, não falou de Lucas — era egoísta tê-lo como irmão mais novo? Tê-lo como proteção? Se, caso se, um dia, ela o descobrisse... o usaria? Enxergaria no garoto Ruby? Ou seria a eterna safira, exposta nos corredores?

— Você conseguiu? — sua voz continua uma esperança clara. Ruby negou. Havia achado. Havia visto.

— Não, mas... Você poderia ir comigo, poderíamos procurar juntas.

A solidão era solitária, não era, Ruby?

— Chamamos atenção demais, não? Fora que... Seu mundo... Não é um bom lugar.

O rosto vazio causava uma sensação de pânico, mas a garota dos brincos vermelhos apenas sorriu e retirou um deles, entregando na mão da amiga.

— Eu prometo que vou te levar para casa, escutou? Dê-me tempo...

— Já faz tempo, eu acho que, talvez, desistir...

Ela observou o semblante triste. Sua marca vermelha apitou. Maldita marcação. Engoliu seco, deixando as lágrimas de fora da conversa, então, começou:

— Eu estou te prometendo, não estou? Você... Vai ser feliz...

Lucas irá ser feliz. Quase completou. Ela queria completar. Até ela sabia que Império não era um bom lugar, então, por que o rapaz permanecia viajando para lá?

O que havia de tão importante na riqueza?

Para quem não tem nada; tudo.

Pegou o trem mais cedo naquele dia. Não querendo cruzar com o menino — talvez, fosse o certo a se fazer. Sua taxa de felicidade estava já roxa e os federais perguntaram a razão — sorriu timidamente e suspirou sobre a queda que levou ao vestir os sapatos carmesim e como os havia manchados. É claro, os guardas não engoliram seu papo furado, mas a entregaram a ficha de recuperação.

Jogou no lixo mais próximo. Fichas. Fichas. Fichas. Uma sociedade doente, dominada por antidepressivos tecnológicos que impediam sentimentos de reinarem — se ao menos pudesse viver em Brumas... No lugar que a alegria era real, tanto quanto a tristeza. No lugar que ela era tão real quanto agora. Lembrou da promessa, tinha que ser forte. Tinha que ser capaz. Naquele universo, em que sua presença era ofuscada, ela ligou para a central de alegria enquanto procurava suas chaves, esperando que, por uma vez, as coisas funcionassem:

— Lucas Vaz, boa tarde.

E desligou.

Com o corpo paralisado, ouviu a voz da infância chorar. Era assim que ele soava ao trabalhar?

Era assim que a morte lhe dava bom dia?

Ou seria boa noite?

Lembrou da canção que escutou em Brumas, dos anos 60, que dizia: acorda, amor.

Eu tive um pesadelo agora.

Sonhei que tinha gente lá fora.

Batendo no portão.

Que aflição.

Ao abrir a porta, sentou-se no sofá, preparou o chá, tentando se lembrar do nome do cantor: Chico? Sim. Buarque. Chico Buarque.

Não houve luta, ou histeria. Os federais chegaram, mas o sinal já estava fechado.

A felicidade está nos pequenos atos.

Haviam chamado o ladrão.

*

Chegou em seu apartamento e deu um beijo em sua mãe. Abraçou o pai. Viu a irmã caçula correr em círculos à sua volta e sorriu mais que nunca, talvez, aquela voz estivesse certa: poderia se acostumar com aquilo. Com aquele mundo.

Olhou a janela. Sentiria falta de tudo aquilo quando acabasse. Apertou o brinco — um par separado do outro, igual ela estava separada de sua real casa.

Porque dizem que casa é onde você deita a cabeça e dorme com a consciência tranquila.

Olhou novamente a irmã correndo, de cinco anos, mexia em tudo e queria a resposta de mais coisa que poderia dizer. Se gastasse menos tempo no metrô e mais tempo em casa, talvez soubesse que a menina crescera alguns centímetros recentemente.

Sorriu.

Sim, ela poderia se acostumar com isso.

Ela esperava que todos a perdoassem quando pegasse o trem. 

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