Aconteceu na Primavera
Eu quero você, tenho medo de não ser capaz.
Meu medo é querer demais... Demais.
Barriga na Minha - Jonavo
O aroma forte do líquido fumegante em minhas mãos me deixou inebriada. Ergui a xícara lentamente e tomei um gole, saboreando de olhos fechados, o café doce e forte. Impossível não comparar a Vinícius, o motivo da minha distração nos últimos dois meses. Um sorrisinho nasce em meus lábios quando lembro da foto que ele me enviou no whatsapp. É difícil acreditar na audácia daquele homem... Não consigo mais adiar. Eu quero vê-lo.
― Terra chamando Dulce! ― Duda estalou os dedos, diante do meu nariz. ― Você está fazendo aquela cara novamente...
― Não estou fazendo cara nenhuma ― tomei outro gole demorado, tentando ganhar tempo. ― Não mude de assunto, Duda. Pensa que eu não notei o clima esquisito entre você e Marcelo?
Duda começou a esfregar o braço sem parar e desviou o olhar. Franzi o cenho, observando aquele comportamento estranho. Pigarreei, tentando chamar sua atenção e recebi um sorriso forçado em troca.
― Não está acontecendo nada, Dulce...
― Ora, Duda, eu sou velha mas não sou cega. ― Estiquei o braço e segurei a mão de minha filha, tentando fazê-la parar o movimento repetitivo. ― Eu te conheço muito bem, filha e sei que alguma coisa está acontecendo.
― De verdade, Dulce, não é nada.
Ela segurou a xícara com as duas mãos e tomou um gole, longo demais, do cappuccino. Notei o leve tremor em seus dedos, mas preferi me calar.
― Tudo bem se não quiser falar. Você sabe que pode contar tudo para mim, não sabe?
Antes que Duda respondesse, uma morena usando um lenço que cobria a cabeça e metade do rosto, entrou na cafeteria, causando uma leve comoção, e caminhou apressada em nossa direção. Apesar dos óculos escuros, reconheci a dona daquele andar exuberante. Alguns clientes, ao notá-la, cochichavam, balançando a cabeça de um lado para o outro, com carrancas de desaprovação.
― Desculpem o atraso. ― Tábata sentou ao lado de Duda, ofegante. ― Recebi uma ligação de São Paulo e acabei demorando mais do que o previsto. ― Suspirou, retirando os óculos. ― O que estão bebendo?
― Cappuccino. ― falou Duda.
As mulheres sentadas na mesa ao lado, levantaram resmungando, e ouvi quando uma delas disse "é a gorda devassa".
― Ah! Barbaridade! ― O sangue latejando em meus ouvidos me fizeram aumentar o tom da voz em alguns decibéis. ― As solteironas puritanas da cidade se incomodaram com a presença de uma mulher que foi vítima de um cara escroto? ― Algumas cabeças viraram, me encarando.
― Dulce... deixa. ― Tábata retirou o lenço da cabeça, observando as mulheres paradas no meio do salão e falou alto. ― Não se estresse com elas! São dignas de pena, não sabem o que significa ter empatia. São vítimas de uma cultura patriarcal e machista. Aprenderam a culpar a mulher por atos criminosos de machos escrotos como o Caio. Vamos tomar o nosso café que é melhor!
As duas puritanas, pararam bem no meio do salão, nos encarando, horrorizadas ao notar o silêncio na cafeteria. A cena seria cômica se não fosse tão trágica. Todos os clientes seguravam suas xícaras ou copos a meio caminho da boca, virando os pescoços de um lado para o outro, olhando das mulheres para a minha mesa. E de novo, da minha mesa para as mulheres. Apenas a voz melodiosa de Tábata ecoava no recinto. As duas estavam com as bochechas quase roxas, não sei se de vergonha ou raiva, ou talvez um misto das duas coisas. Suspirei profundamente, segurando a colherinha e mexi meu café, espalhando mais do chantilly na xícara.
― Sim, vamos.
As mulheres saíram batendo o pé e todos os clientes soltaram o ar preso de uma vez, reverberando um som de "uh". Alguns segundos depois, parecia que nada havia acontecido e o burburinho voltou a ser ouvido. Sorri, satisfeita. "Essa é minha garota!" pensei. Marcela tirou o pedido de Tábi, se desculpando sem graça pelo ocorrido.
― Eu preciso ir à São Paulo. ― Tábata segurava forte o lenço. ― Eu não queria, mas o Miguel me ligou e...
― Espere aí! ― Duda deu um pequeno salto na cadeira, apoiando um cotovelo na mesa para se aproximar mais de Tábata. ― O Miguel te ligou? Hummm ― Sorriu com sarcasmo.
― Nada de "hummmm", vaca. Ele me ligou para falar sobre o processo de Caio e...
― E onde está a sua advogada? ― Interrompeu Duda, mantendo o sorriso sarcástico. ― Não era pra ela ter te ligado?
― Ah! Vá à merda, Duda! ― Tábata jogou um saquinho de açúcar na amiga, que desviou, encostando-se na cadeira. Eu sorri, observando as duas. O tempo passou mas elas continuam as mesmas meninas de sempre... ― Ela me ligou também e... Quer saber? Não importa. O importante é que preciso ir para São Paulo amanhã e não queria ir sozinha.
― Que horas nós iremos, então? ― As duas pararam as caretas que faziam uma para a outra e me olharam espantadas.
― Como assim "nós iremos"?
― Eu vou com você, guria.
― Você está falando sério, Dulce?
― Sim, querida. Eu te falei que não deixaria você enfrentar esse idiota sozinha. ― Estiquei o braço e afaguei a mão fria de Tábata. ― De que horas nós viajaremos amanhã?
― O mais cedo possível. Preciso estar na delegacia às 11h.
― Está bem, vou comprar as nossas passagens de ônibus.
***
A delegacia estava um completo caos. Uma policial nos pediu para aguardar um pouco no estreito corredor de paredes imundas, próximo à porta do delegado, e nos pediu mil desculpas pelo tumulto, informando que o "doutor Miguel" já ia nos atender. Parece ser comum o lugar estar sempre superlotado. Observei Tábata, disfarçadamente, e notei o leve tremor em seu corpo. Ela colocava uma bala de caramelo atrás da outra, dentro da boca. Estou me odiando por isso, mas agradeço aos céus por ela estar tão nervosa e não ter percebido o quanto eu também estou. Por dentro, pareço uma adolescente prestes a ter seu primeiro encontro. Não consegui dormir e tentei me acalmar fazendo meditação mas os nervos à flor da pele me impediram de pregar os olhos.
Uma porta abriu no final do corredor e uma mulher com os olhos roxos, deformados de tão inchados, saiu amparada por uma outra mulher. Olhei para aquilo, sentindo um misto de revolta e pena. Um homem de semblante cansado, com enormes bolsas penduradas abaixo dos olhos e a maior papada que já vi, nos mandou entrar. Tábata desgrudou da parede e andou apressada, parecendo um furacão. Eu a segui, aguardando ouvir, a qualquer momento, o policial coaxar. "O homem parece um sapo!" Seguimos o corpanzil em forma de barril, e ele fechou a porta, abafando um pouco as vozes e gritos do salão.
― Esse lugar é sempre assim? ― Perguntou Tábata para o sapo.
― Uhum. ― O sapão resmungou, movendo a cabeça lentamente, provocando um chacoalhar esquisito das bolsas e papada, e sentou em uma cadeira, de frente para o laptop, ao lado da mesa do delegado.
― Que bom ver vocês novamente! ― Miguel levantou de sua cadeira, caminhando com os braços abertos em minha direção. ― Tia Dulce, que saudade! Não esperava ver a senhora por aqui.
― Bah! Tu não está feliz em me ver, guri? ― Sorri, abraçando-o.
Ele beijou minhas bochechas, com beijos estalados, e tentou fazer o mesmo com Tábi, mas ela o impediu, afastando-o com uma das mãos. Vi o leve rubor aparecer em suas maçãs do rosto e sorri. Miguel também sorriu, balançando a cabeça de um lado para o outro e voltou para sua cadeira.
― Sentem-se. Fizeram boa viagem?
― Foi uma viagem tranquila. ― Tábata falou e em seguida colocou uma bala de caramelo na boca. ― Miguel, vamos direto ao assunto.
― Está bem, senhora apressadinha. Vejo que está louca para se livrar de mim, mas sinto te decepcionar, pois ficaremos algumas horas juntos...
― O que?
― Nossa, me emociona tanto ver o seu desejo de estar perto de mim. ― falou com sarcasmo. ― Nem sempre foi assim...
― Crianças, parem de brigar! ― Eu intervi antes de acontecer uma catástrofe. Miguel olhava para Tábata com um misto de mágoa e culpa. ― Isso não é o momento e nem o local para uma pelea! ― O cara de sapo me olhou, abrindo um sorriso cheio de dentes tortos. Senti meu corpo inteiro arrepiar; ele era assustador.
― Sim, tia. ― Miguel suspirou, derrotado, e se recompôs, assumindo a postura de delegado de polícia. ― Fomos convocados para depor, Tábi. Hoje a tarde ficaremos diante do juíz e é provável que Caio também esteja lá.
― Era só o que me faltava! Não quero ver a cara daquele canalha!
― Calma, querida. Não esqueça que estarei ao seu lado. Se aquele piá fizer alguma gracinha eu...
A porta foi aberta abruptamente, batendo com força na parede, nos assustando. Me virei, sobressaltada, para olhar o que havia acontecido e meu coração quase saiu pela boca quando vi o homem entrando na sala.
― Chefe, finalmente encontrei os papéis que... ― Ele ergueu a cabeça das pastas em suas mãos e olhou para a frente, esbugalhando as órbitas quando me viu. ― Desculpa, chefe! Não sabia que o senhor estava ocupado.
Meu coração parou e voltou a bater várias vezes. A voz grossa, forte como um trovão, invadiu meus ouvidos, numa melodia perfeita, me fazendo esquecer de todos ao meu redor. Remexi-me na cadeira, arrumando a blusa de cetim, desarrumada apenas em meus pensamentos. Meu estômago deu cambalhotas, uma infinidade de pequenas borboletas brincando lá dentro. Nossos olhos se cruzaram e um sorriso lascivo tomou conta daqueles lábios carnudos. Vinícius fechou a porta e deu um passo à frente, sem deixar de me encarar. O mundo parou, os sons desapareceram. De repente só existia eu e ele. Juntos, no mesmo ambiente. Ele se aproximava rápido, mas minha noção de espaço-tempo parecia errada, pois ele nunca chegava perto.
Outro passo em minha direção e... O encanto se quebrou. Uma cadeira voou longe. Um "porra!" abafado. Uma chuva de pastas e papéis dentro da sala. Ouvi gritinhos e saí do transe. Olhei para o chão e havia um deus de ébano lá, estatelado aos meus pés, com papéis formando uma cama branca. Uma explosão de gargalhadas ecoou pela sala.
― Quem colocou essa merda de cadeira aí? Atrapalhou minha entrada triunfal. ― Vinícius rastejou em minha direção até ficar com o rosto próximo aos meus pés e segurou-os. ― Acho que ficar diante de uma deusa foi demais para mim. ― Ele beijou meus pés, apertando-os com as mãos fortes e deu um salto, levantando com agilidade. ― Desculpa a bagunça, Miguel. Oi Tábata.
Ele passava a mão na careca, olhando para o caos com a testa franzida. Eu o observava tentando controlar minha respiração pesada e os outros integrantes na sala choravam de tanto rir.
― Vinícius... ― Miguel falou com dificuldade. ― Que merda foi essa?
― Acho que ele tem 2 pés esquerdos. ― gemeu Tábata, tentando controlar o riso.
O cara de sapo chiava, numa risada ainda mais esquisita do que sua cara. Eu consegui me recompor do choque, entrando na brincadeira.
― Ah, querido, você sabe como elevar a autoestima de uma mulher muito bem! ― Levantei da cadeira, me jogando nos braços fortes, abertos, prontos para me envolver em um abraço.
― Uma rainha como você merece isso e muito mais. ― Vini deu um beijo molhado no canto de minha boca.
As risadas pararam e olhos curiosos nos observavam.
― Dulce, por que não me avisou que estava em São Paulo? ― Ele me segurava pela cintura, deixando nossos rostos bem próximos, um de frente para o outro.
― Hummm ― Miguel e Tábata trocaram olhares interrogativos.
― Eu queria te fazer uma surpresa. ― Sorri.
― Janta comigo hoje?
― Oh! ― Falaram ao mesmo tempo. Os olhos de Miguel e Tábata arregalaram. O cara de sapo arreganhou a boca cheia de dentes. Os 3 esperavam uma resposta. Encarei cada um, me demorando para responder.
― Depende. Onde tu pretendes me levar para jantar?
― Num lugar digno de uma deusa.
― Acabou o showzinho! ― Miguel bateu palmas, sorrindo. ― Vinícius, deixe o jantar para depois e comece a arrumar essa bagunça!
― Sim, chefe! ― Ele me soltou e bateu continência, começando a coletar os papéis espalhados. Voltei para a cadeira, observando o corpo escultural do homem que povoa meus pensamentos por 2 meses.
― Mas o que foi que acabou de acontecer aqui? ― Tábi puxou meu braço, aproximando a boca de meu ouvido, sussurrando. ― Vocês dois... ― Ela estreitou os olhos, olhando de mim para Vini.
― Depois eu te conto tudo. ― Dei batidinhas em sua mão. ― De que horas será o interrogatório?
― Às 14h.
***
São Paulo é uma cidade pulsante, vibrante e acordada 24h por dia. Um verdadeiro formigueiro humano, trabalhando em todos os turnos, incessantemente. Em qualquer direção que eu for, sempre vejo uma multidão caminhando apressada, atrasada, conversando ao celular, olhando para relógios nos pulsos; andam calados, no automático, sem enxergar os semelhantes do lado. Um organismo vivo e pulsante e assustador. Chegamos em cima da hora no fórum. Ficamos presos em um trânsito caótico, e precisei deixar de lado a minha ansiedade com o jantar de hoje para acalmar Tábata. Minha menina é dura na queda, mas está assustada. Digo isso porque ela não para de comer aquelas malditas balas. Nos mandaram esperar sentados em uns bancos duros de madeira, num corredor longo, ao lado de portas fechadas. Notei quando Miguel conduziu Tábata para um banco um pouco mais afastado e os dois sentaram, com ele segurando sua mão. Ela parecia aborrecida e agradecida ao mesmo tempo. Peguei meu celular, dando privacidade aos dois, e comecei a responder as mensagens de Vinícius.
― Ah, merda! ― gemeu Tábata, levantando-se imediatamente e assumindo uma postura de ataque. Sua defesa natural. Miguel também levantou e ficou em pé ao lado dela.
O tom de voz usado por Tábata chamou a minha atenção, então olhei para onde ela olhava. Um homem alto, vinha em nossa direção, caminhando como um felino, acompanhado por outro homem usando um terno. A atitude de predador, o sorrisinho debochado na cara e a postura relaxada, fez eu saber exatamente quem era. Caio também foi convocado para depor.
― Oi, sumida. Que saudades de você. ― Cínico, se aproximou tentando dar um beijo na bochecha de Tábata. ― Não respondeu mais as minhas mensagens...
― Não se aproxime dela. ― Miguel esticou um braço, empurrando de leve o ombro de Caio.
― Não preciso que me defenda, Miguel. ― Tábata ficou entre os dois homens, e olhou enfurecida para Caio. ― Não se aproxime de mim, ou vou arrancar esse sorrisinho cínico da sua cara com as minhas unhas.
― Ui! A tigresa continua bravinha... ― Deu um passo atrás e colocou as mãos nos bolsos. ― É justamente isso que eu gosto em você. ― Jogou a cabeça para trás, gargalhando.
Preciso admitir, Caio é muito confiante de si. O homem de terno, apresentou-se como advogado do imbecil e puxou o cliente para o lado. Miguel se mantinha em pé, com os braços esticados ao lado do corpo e punhos cerrados. Era possível ver as veias da têmpora pulsando. Notei a mágoa em seus olhos quando Tábi rejeitou ajuda, mas ele disfarçou, dirigindo sua raiva para nosso inimigo em comum.
― Desculpem o atraso. ― A advogada de Tábata caminhava apressada, em cima dos saltos de 15 centímetros. ― Está tudo bem por aqui, Tábata? ― Olhou enviesado para Caio e seu advogado.
― Está. ― Tábi respondeu sem tirar os olhos do cretino que piscou um olho para ela. Miguel apertou ainda mais a mão, ficando com os nós dos dedos branquíssimos, parecendo cera.
― Ótimo. ― A advogada olhou Caio de cima a baixo. ― Vamos, Tábata.
― Vou te esperar aqui, Tábi. ― Sorri, tentando tranquilizá-la. Ela agradeceu e seguiu a mulher do andar apressado.
Miguel bufou, soltando o ar preso em seus pulmões e me aproximei de Caio, enfiando meu dedo indicador no peitoral malhado.
― É o seguinte, babaca. ― Senti Miguel se aproximando. ― A Tábata não está sozinha nessa. Se aproxime novamente dela e eu vou caçar você até no inferno se for preciso. Vou arrancar suas bolas e fazer uma sopa com elas, depois vou enfiar goela abaixo até você se engasgar. Me ouviu bem?
― Nossa, vovó ― Ergueu as duas mãos, fingindo rendição e manteve o sorriso sarcástico nos lábios bem desenhados. ― Até me arrepiei de medo.
― Tu não sabes do que sou capaz, piá.
― Cuidado, vovó. Você quem não sabe do que eu sou capaz. ― O sorriso desapareceu do belo rosto e senti minha espinha congelar.
― Você a está ameaçando, Caio? ― Miguel cuspiu o nome do cretino com tanta raiva, que senti meu couro cabeludo arrepiar.
― Eu? ― Caio enfiou as mãos nos bolsos. ― Acha mesmo que eu seria capaz de fazer mal à uma velha?
Canalha!
― Chega, Caio. Isso não vai dar em nada. ― Interveio o engravatado. ― Vamos sair daqui.
Os dois saíram caminhando devagar. Caio ainda teve a audácia de olhar para trás, piscar um olho e me mandar um beijinho. O maldito sabe como as nossas leis são falhas e, com sua atitude, tem plena certeza de que sairá impune de seus crimes.
― Eu vou matar esse cara! ― Miguel socou a parede, liberando toda sua fúria.
― Acalme-se, querido. ― Me aproximei temerosa e passei a mão em suas costas. Miguel encostou a cabeça na parede, respirando com dificuldade. ― Ele não vale a pena.
***
"Passo aí às 19h. Esteja pronta, minha deusa."
Desde o momento em que recebi essa mensagem no whatsapp meu estômago não parou de dar cambalhotas. Estou andando de um lado para o outro na sala do apartamento de Tábata há 15 minutos. Ainda bem que ela não está aqui agora ou eu seria fuzilada com perguntas às quais não quero responder. Depois que saímos do fórum, ela e Miguel tentaram descobrir o que havia entre eu e Vini, após presenciarem a cena protagonizada por ele na delegacia, mas fui o mais evasiva possível; eles me deixaram no apartamento e depois saíram, falando algo ao qual não prestei atenção.
Segundo o relógio em meu pulso, faltam apenas 5 minutos para Vinícius chegar. Nunca me senti tão nervosa em toda a minha vida. Meu coração acelerado, martelando forte no peito, me deixa com dificuldade para respirar. Por mais atraída que eu esteja por Vinícius, começo a ficar em dúvida se realmente estou fazendo a coisa certa. Ele tem idade para ser meu filho, pelo amor de Deus! "Mas ele não é..." Minha mente grita de forma estridente me lembrando o óbvio. Vou até o espelho para conferir novamente minha roupa, e apoiando as mãos na cintura, viro de um lado para o outro, observando o vestido estampado com girassóis que escolhi. O tecido leve e solto é perfeito para a noite fresca desta primavera. Eu sei que estou muito bem conservada, afinal, me cuido bastante, mas nossa diferença de idade é gritante.
― Isso é uma grande bobagem. ― A mulher segura de si, a me encarar no espelho, fala.
― Não acho que seja... ― Respondo à minha versão segura, suspirando com pesar. Acabo de me dar conta que a mente liberal que eu sempre me orgulhei em ter, não é tão liberal assim. Será apenas insegurança ou um reflexo do preconceito que eu nem sabia existir em mim?
Peguei o celular para enviar uma mensagem e dar alguma desculpa para não ir ao jantar, quando sou interrompida pela campainha. "Tarde demais para cancelar... "
Abro a porta e perco o fôlego ao me deparar com a beleza negra, exalando um perfume cítrico com um leve toque de pimenta, penetrando profundamente por minhas narinas e alojando-se de maneira inquietante em meu baixo ventre. Ele sorria e encostando o ombro na ombreira da porta, cruzou as pernas displicentemente, enfiando as mãos nos bolsos, e me olhou de forma avaliativa, de cima a baixo.
― Uau! Não consigo definir se estou diante de uma deusa ou de uma fada. ― Umedeceu os lábios com a língua e pude ver um brilho lascivo refletido naqueles olhos escuros como uma noite sem luar.
Acho que desaprendi a falar, pois só conseguia abrir e fechar a boca, fazendo papel de boba. Tudo aconteceu muito rápido. Num piscar de olhos, Vinícius deu um passo à frente puxando com delicadeza a porta de minhas mãos e fechando-a. Ele me segurou pela cintura com mãos fortes e puxou-me, grudando os nossos corpos sem aviso prévio. O calor escapando por seus poros me envolveu como um cobertor acolhedor e senti meu corpo arder em resposta. Respirar se tornou ainda mais difícil depois que ele cobriu meus lábios com sua boca carnuda, de forma suave num primeiro momento, saboreando e explorando com a ponta da língua o meu sabor, para depois invadir a minha boca com um desejo profundo, compartilhado por nós dois. Meu corpo reagiu instintivamente ao seu toque, ao seu cheiro, à suas carícias e sem perceber, eu já estava com minhas pernas em volta da cintura dele, sendo prensada contra a parede. Os beijos e pequenas mordidas em meu pescoço ardiam, aumentando meu desejo dolorosamente. Vinícius me carregou pela sala, nossas bocas grudadas, uma sendo a continuidade da outra, corpos fundidos em um encaixe perfeito; ele tropeçou em algo, acredito ser a mesa de centro, e caímos no sofá, 100 quilos de músculo por cima de mim, me fizeram afundar no móvel confortável. Recobrei os sentidos neste exato instante e senti o tremor reverberando naquele corpo perfeito. Ele estava sorrindo. Não me contive e gargalhamos juntos, balançando a cabeça de um lado para o outro, diante da situação patética.
― Acho que meu destino é viver caindo aos seus pés, deusa. ― falou ofegante. ― Só hoje você me fez despencar duas vezes.
― Em minha defesa, nas duas vezes eu estava sentada, quieta, hipnotizada por seu olhar. ― Sorri, sentindo minhas bochechas esquentarem.
Ele levantou e um vazio terrível me tomou quando nossos corpos se afastaram. "Que ridículo!" pensei, surpresa com esse sentimento repentino. Estendeu a mão me ajudando a levantar e aproveitei para arrumar meu vestido. Olhando no espelho, vi que não amassou.
― Dulce, a noite está bem agradável, mas é melhor pegar uma blusa. O tempo pode virar a qualquer momento aqui em São Paulo e não quero te ver passando frio. Vamos, minha rainha? Estou morrendo de fome.
Em uma sincronicidade perfeita, nossos estômagos roncaram ao mesmo tempo, atestando as suas palavras e provocando mais uma gargalhada nossa. Peguei um casaquinho e deixei um bilhete em cima da mesa, antes de sair, avisando à Tábata que não precisava me esperar e que eu chegaria a tempo para nossa viagem amanhã.
***
― Bah! Essa é a sua visão de "lugar digno de uma deusa"? ― Fiz aspas com os dedos, enfatizando a fala dele de mais cedo, olhando para o lugar todo decorado em uma temática medieval. Lindo, mas muito diferente do que estou acostumada a frequentar. Tem jovens para todos os lados, sentados em mesas nos mais variados modelos: um barco viking, uma távola redonda, mesa de reunião para definir estratégias militares. Nas paredes e espalhados pelo ambiente, decorações que vão desde quadros a armaduras antigas; esculturas imitando cabeças de animais, escudos, tudo muito vivo e espaçoso; uma decoração para deixar o ambiente com ar de taverna medieval.
Vinícius me olhou com curiosidade e sorriu, me fazendo admirar a boca perfeita que havia me beijado com ardor pouco tempo atrás. Senti vontade de beijá-lo bem alí, mas me contive ao ouvir os gritos animados dos jovens jogando algum jogo de tabuleiro. Sentamos em uma mesa para dois, num lugar mais reservado e longe do barulho proveniente de uma das mesas-barco. Parecia haver alguma competição naquela noite.
― Você vai provar o melhor hambúrguer de São Paulo, Dulce. A comida aqui é toda artesanal e as bebidas são deliciosas.
O garçom, usando um chapéu viking com chifres, tirou nossos pedidos e uns 20 minutos depois despejou na mesa perfeitas obras de arte culinária. Minha boca encheu d'água só de olhar. Optei por um hambúrguer de javali com queijo caciocavallo, e Vinícius pediu o maior hambúrguer da casa. Ele agarrou o sanduíche com as duas mãos, dando uma mordida enorme, fechando os olhos em seguida, saboreando com satisfação a primeira mordida. Ele incorporou o ogro, fazendo juz ao nome do seu prato escolhido. Sorri e provei o meu. Uma explosão de sabores preencheu a minha língua e também fechei os olhos, com satisfação.
― Você tinha razão, é divino! ― A mistura de cheiros dos nossos pratos era inebriante.
Ele sorriu, orgulhoso de si. Dei um gole em meu mojito com rum, curiosa para descobrir como beber um drink em uma garrafa redonda de boca fina, parecendo um item de laboratório de ciências maluco.
― Hummm... tão delicioso quanto o hambúrguer. ― lambi os lábios e tomei mais um gole do líquido gelado e refrescante.
― Dulce... ― Vinícius estendeu o braço por cima da mesa e segurou a minha mão. Olhei para os lados, sentindo meu rosto esquentar e tentei puxar delicadamente a mão antes de alguém notar. Ele franziu a testa e virou um pouco a cabeça, sem compreender a minha reação. ― Está com vergonha de mim?
Minhas bochechas queimavam. Eu não queria dizer a ele que meu incômodo era com a situação em si, uma velha com um rapaz bem mais jovem, mas não podia deixá-lo pensar que eu sentia vergonha dele. Olhei para minha mão com a pele enrugada em contraste com o liso da dele e suspirei fundo.
― Eu não tenho motivos para sentir vergonha de você, Vini! ― Entrelacei meus dedos com os dele, cedendo.
― Então o que aconteceu? ― falou em um tom levemente magoado.
― É só que... Olhe para nós dois...
― O que tem nós dois? ― olhou desconfiado, em um misto de incredulidade e entendimento.
― Vini, você tem idade para ser meu filho. Se Lucas estivesse vivo, teria a sua idade e eu não sei se estou preparada para enfrentar os olhares de julgamento das pessoas...
― Ah! Isso... ― Apertou um pouco os dedos, me fazendo carinho com o polegar. ― Querida, olhe em volta. Tem alguma pessoa neste salão olhando torto para nós?
Olhei e percebi que ele tinha razão. Não havia ninguém preocupado com a gente. Balancei a cabeça de um lado para o outro.
― Viu só? E mesmo que todos estivessem incomodados com algo que só diz respeito a nós dois, o mais importante de tudo é que eu não estou nem aí para isso de idade. Você se importa em eu ser quase 30 anos mais novo do que você?
― A verdade é que eu não sei... ― falei vacilante.
― Minha deusa ― me interrompeu, erguendo as sobrancelhas, sorrindo maliciosamente e lambeu os lábios. ― não precisa ficar insegura. Você é perfeita para mim e hoje a noite eu vou te provar o quanto somos bons juntos. Que se dane o que os outros pensam!
Senti um arrepio percorrer minha espinha com a intensidade do olhar penetrante dele e a promessa implícita. Terminamos de comer e fiz questão de dividir a conta na hora de pagar. Quase tivemos nossa primeira briga, mas com muito custo Vinícius acabou cedendo.
― Vamos? Vou te mostrar como se trata uma rainha... A minha rainha. ― Sussurrou em meu ouvido com lascívia, fazendo o meu ponto mais secreto latejar. ― Preparei uma surpresinha para você.
Fomos para o carro andando de mãos dadas e durante todo o percurso para o tal lugar misterioso, Vini manteve uma mão possessiva alisando minha perna por cima do tecido fino do vestido. O simples toque queimando minha pele, provocando arrepios, uma promessa do que estava por vir. Esse homem bagunçou meus pensamentos, minhas emoções e estou gostando do que ele tem provocado em mim, apesar de todos os meus receios. Tudo está acontecendo rápido demais. Os dois meses trocando mensagens pelo whatsapp, nos aproximou de uma forma que jamais acreditei ser possível. Nossos papos apimentados culminou em um desejo reprimido, e pelo visto, estamos prestes a realizar todas as sacanagens prometidas por ele nos momentos mais indecorosos online. Olho novamente para minhas mãos enrugadas e observo o contorno quadrado de seu rosto, tão jovem e cheio de vida... "Onde eu estou me metendo..." Vinícius realmente parece não se importar com o abismo existente entre nós, mas e eu? Será que vou ter coragem de assumir um relacionamento com ele? E existe a possibilidade de um relacionamento ou isso se resume apenas a sexo? Preciso de um tempo para assimilar tudo isso.
― Dulce, ― apertou meu joelho com a mão quente, me tirando dos devaneios. Ele pareceu adivinhar os meus pensamentos. ― eu não me importo nem um pouco com nossa diferença de idade. Isso, pra mim, nunca será um problema. Você me fascina e estou hipnotizado desde o primeiro dia em que te vi.
Respirei fundo e sorri para ele, esticando o braço para fazer carinho em seu pescoço. Dei um beijo em sua bochecha e encostei minha cabeça em seu ombro, me deixando embalar por seu aroma cítrico.
***
― Chegamos. ― Ele me olhou com ansiedade e expectativa, perscrutando meu rosto, tentando definir o significado de minha reação.
― Uau!
Essas foram as únicas palavras pronunciadas, tamanha a minha surpresa diante da construção luxuosa à minha frente. Uma fachada, enorme e moderna, com vários triângulos e outras formas geométricas emitindo uma luz neon arroxeada, prometiam momentos de intenso prazer dentro de suas instalações. Olhei para Vinícius, um misto de desejo e medo refletido em minhas íris. Ele notou a minha relutância e apertou carinhosamente a minha mão, descansando sobre minha coxa.
― Eu preparei uma surpresa para você, deusa, mas só iremos entrar se você quiser. ― Puxou minha mão e levou até os lábios, beijando os nós dos meus dedos.
― Eu... ― Olhei novamente para a entrada e de volta para ele. ― Não sei se estou preparada para isso. Não me entenda mal, Vini. Eu desejo muito você mas não estou segura se o que estamos fazendo é realmente certo.
Ele sorriu, acariciando meu rosto.
― Dulce, se nós entrarmos aí, e eu espero que você queira entrar, só vai acontecer aquilo que você também desejar que aconteça. ― Acariciou o contorno de minha face com a ponta do dedo, fazendo cócegas e me provocando arrepios. ― Não vou mentir. Estou louco para fazer amor com você, desde o primeiro dia em que te vi, mas saberei respeitar a sua decisão. Prometo.
Pude sentir a sinceridade em sua voz e respirando fundo, aceitei. Confesso ter ficado curiosa para saber que surpresa era essa preparada por ele. Entramos e na recepção ele falou com a atendente sobre a reserva feita, pegando a chave da suíte em seguida. Fomos para o quarto indicado e na garagem, ele me pediu para esperar enquanto o portão fechava. Diante da porta, Vinícius me pediu para fechar os olhos e só abrir quando ele falasse. Obedeci, relutante, e senti sua mão forte tampando meus olhos e um corpo quente colado em minhas costas.
― Te prometi uma noite de rainha, não foi? ― A voz rouca dançou em meus ouvidos. Meu corpo reagiu imediatamente, arrepiando da base da espinha até a nuca. ― Se você permitir, serei o súdito mais fiel e comprometido a te proporcionar prazer esta noite.
A imagem do corpo perfeito e completamente nu de Vinícius aos meus pés, invadiu a minha mente, provocando um tremor excitante em meu centro sensível e latejante. Suspirei, ansiando pelo prazer que o deus de ébano à minhas costas poderia me proporcionar. Senti sua língua percorrendo meu pescoço e virei um pouco a cabeça de lado, incentivando-o a continuar.
― Preparada?
Sem esperar por resposta, abriu a porta e me conduziu, apertando meu corpo contra o seu, sua excitação roçando em minha bunda. Assim que entrei, o perfume suave exalando do quarto me invadiu, e respirei profundamente. O aroma delicioso de rosas, lavanda e pimenta aguçou meus sentidos, erguendo todos os pelos de meus braços.
― Pode abrir os olhos agora.
Pela segunda ou terceira vez nesta noite, fiquei sem fala. A suíte lindíssima estava toda decorada com velas aromáticas e pétalas de rosas faziam um caminho em direção à cama. Em cima da cama de dossel azul e luzes neon saindo de baixo, dando a impressão de um móvel flutuante, havia um coração feito com pétalas de rosas e uma caixa de chocolate. Do lado direito, em cima de uma bancada de cimento, uma garrafa de Prosecco italiano Mionetto DOC Treviso com uma taça de morangos e outra de chantilly. Mais à frente, uma banheira de hidromassagem toda decorada com velas aromáticas.
― Gostou?
Virei para ficar de frente para ele, sem emitir som algum, e o beijei profundamente. Nossas línguas se entrelaçaram em uma dança sensual, seguindo o ritmo das batidas de nossos corações. Eu o desejo com todas as minhas forças e isso me assusta profundamente, mas no momento, a única coisa que eu quero é me entregar ao homem jovem, com idade para ser meu filho, que faz eu me sentir a mulher mais desejada do mundo. Vinícius me ergueu nos braços com facilidade e cruzei minhas pernas ao redor de sua cintura sem descolar nossas bocas. Ele me olhava com olhos injetados, assegurando, sem dizer nada, que cumpriria a promessa feita na entrada do motel. Lentamente caminhou comigo em seu colo até a cama e me depositou ali, com carinho. Colocou a caixa de chocolate ao lado do vinho e voltou, levantando meu vestido devagar, cobrindo cada centímetro de minha pele com suas mãos fortes e a língua quente. Vini reverenciava meu corpo, agindo como um súdito fiel, beijando demoradamente cada pedacinho de pele exposta ao retirar o vestido. Seus toques, beijos e lambidas, misturados aos aromas do quarto, me levaram ao extremo e me entreguei completamente à ele.
***
Caminho descalça pelo ateliê, sentindo o toque áspero da madeira contra minha pele. Essa troca de energias com a natureza me inspira, me renova e me energiza. Estamos no início de outubro, é primavera, minha estação do ano predileta. A temperatura deveria estar mais amena, porém, Esperança foi bombardeada por uma onda de calor atípica. O que mais gosto na primavera, além do ar perfumado com o aroma doce das flores, é o meio termo entre os dias quentes do verão e os dias congelantes do inverno, sem falar na beleza que toma conta das ruas, praças e a fazenda de girassóis. Esperança se enche de cores vibrantes, em todas as nuances de tons, e é lindo observar os beija-flores visitando jardins em todos os lugares. Meu filho adorava frequentar o Lago dos Enamorados no outono, eu já prefiro nesta época do ano. As árvores florescem exalando aromas doces diversos e a grama ganha um tom de verde mais vívido, deixando o lugar com a aparência de um enorme tapete felpudo, convidando a todos para um piquenique no parque.
Uma gota de suor escorrega lentamente por meu pescoço, fazendo uma curva e morrendo entre os meus seios. Sorri, lembrando que dois dias atrás era Vinícius quem percorria esse mesmo caminho com a língua. Abro as portas de vidro do jardim de inverno que mantenho em meu ateliê na esperança de amenizar a quentura, e sou agraciada por uma brisa suave, carregada com o perfume de minhas roseiras e jasmim.
Volto para a tela onde estou trabalhando desde que voltei com Tábata de São Paulo e retomo as pinceladas, lentamente dando vida ao retrato dele. Gravei em minha memória a imagem perfeita de Vinícius nu, deitado relaxado na cama do motel e não resisti em eternizar a maravilhosa cena em uma tela. Pintá-lo tem me ajudado a pensar sobre o turbilhão de sentimentos que aquela noite me fez sentir. Aquele maldito guri mexeu além do que eu esperava com minha mente. Não nos falamos mais depois de nossa despedida na porta do apartamento de Tábata e o silêncio dele tem sido ensurdecedor. Antes do nosso encontro passamos dois meses conversando todo santo dia e agora... agora ele visualizou a minha mensagem dois dias atrás e não respondeu. Acho que o encanto se acabou! Talvez seja melhor assim, essa relação não tem futuro, ou melhor, tem sim, tem um futuro desastroso. Suspiro pesadamente, empregando no pincel toda a minha frustração. Detesto admitir isso, mas estou decepcionada e sentindo mais falta dele do que eu gostaria.
― Maldito guri! ― gritei para Mozart tocando Requiem, concentrado em seu piano, ecoando nos alto-falantes de meu ateliê. ― Quem ele pensa que é para fazer isso comigo?
― Falando sozinha, minha deusa?
(continua)
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