C A P Í T U L O 46

    Camilla havia cumprido com sua palavra. Ela não poderia ficar com lobisomens… não para sempre. Então partiu.

— E então?

— E eu corri para a floresta — Camilla murmurou. — Eu poderia subir em uma árvore ou me esconder em algum lugar… eu corri e… ninguém veio atrás.

— Você se perdeu, senhorita?

— Sim. Fiquei dias lá…

— Como sobreviveu?

— Alguns senhores me encontraram — revelou baixo. — Eles tinham uma casa lá… sem energia, com uma lareira quente e viviam de caça e pesca. Eles sabiam como cuidar de mim e me deram abrigo até que eu melhorasse.

    "Caça e pesca"…

    A fêmea não conseguia olhar para o rosto dos oficiais do governo… pois se sentia cansada demais… exausta demais depois de tudo.

     Ela só queria ir embora e mal entendeu como foi parar naquela situação.

— Seus exames apresentam os resquícios de infecção desconhecida — sim… ah sim! Bháryox, Ikronyx e Ghryamor já haviam a mordido ao menos uma vez durante seu tempo em Sukakpak. E a mordida de um lhycan é venenosa… exceto para ela. Porém deixa resquício. — Precisaremos fazer mais alguns exames.

    Agulhas, sangue, urina, remédios e fezes… ela já estava ficando estressada.

    Talvez o agente governamental soubesse que ela estava mentindo… ou talvez não. Mas aquela marca no ombro de Camilla não poderia ser feita nem mesmo pela mordida poderosa de um urso desperto de sua hibernação.

     E sim pelas mandíbulas colossais de um chrynnos!

     Ghryamor havia a alertado por três dias inteiros de que não a deixariam ir para a casa… porque sabiam que estava com eles. E se tivesse algo anormal em seu sangue — e tinha — nem que dissecasse todo o corpo de Camilla, pegariam tudo para descobrir o que é.

     Mas Bháryox deu a palavra final:

— Deixe-a.

     A ordem de um Alpha deve ser obedecida.

     Camilla então viajou a uma cidade com aeroporto disposta a pegar o primeiro voo para o Brasil. Mas agentes governamentais a pegaram antes.

     Foi uma surpresa.

     Ela era uma testemunha de Barrow, porém ninguém sabia. Não havia fotos, vídeos e nem nada lá exceto no mínimo uma queixa de desaparecimento. Mas as formas como eles aparecem… agiram. Camilla tinha quase certeza de que estavam esperando uma oportunidade de a pegar.

     Pois havia imagens dela com um lhycan… algo secreto demais para ser revelado mesmo que para ela e excencial para pegá-la.

— Vocês não podem me obrigar a ficar aqui para fazer parte dos seus testes — ela rosnou.

    E pela primeira vez, encarou o homem engravatado à sua frente. FBI. Um massacre como o que ocorreu em Barrow talvez seja realmente algo a ser investigado pelo FBI.

    E foi hesitação que ela viu nos olhos dele… um agente treinado?!

     Com a ordem final de Bháryox, Ghryamor então havia aconselhado:

— Vão tentar prendê-la aqui no Alaska com mil desculpas porque mesmo que minta, eles sabem que você esteve conosco. Então não dê brechas!

    E Camilla havia sido mordida! Ele sabia e todos ali sabiam. Não eram médicos comuns… seja lá o que aquela mordida tenha mudado nela — dentro dela —, a humana conseguia reparar em detalhes completamente inúteis.

     A visão de um lhycan é fotográfica e não possui eixo central. Frequentemente comparam as imagens de sua visão como um jogo de sete erros mental e realista. É necessário menos de um segundo para encontrar três mil erros no ambiente, seja uma caneta centímetros fora do lugar ou uma tampinha que não estava naquele ponto.

     Camilla vê como humana, mas não conseguia deixar de notar o olhar daquelas pessoas, das anotações que fazia em seu caderno e nem em câmeras lhe filmando. E o instinto… ela sabia que tinha algo de errado!

— Eu quero ir para a casa! — Sibilou.

— Sinto muito — disse o homem. — Mas não será possível.

— Vão me prender aqui? — Camilla provocou com a dominância de um Alpha, imitando a forma como Bháryox fala e olha para seus subordinados. Com superioridade, desafio e imponência!

    Surtiu efeito.

    A arma de choque do seu amigo já estava pronta para manuseio. Camilla franziu as sobrancelhas… mas quase podia ouvir armas de dardos tranquilizantes sendo preparadas para qualquer incidente.

    Como se ela fosse um animal.

— Eu quase fui estuprada! Quase fui morta! — Não era mentira. — E vocês querem me impedir de voltar para a minha casa?! Me de a porra de um telefone e vamos ver se eu não volto pra casa hoje e agora, mesmo que tenha que arrancar umas cabeças!

     Palavras imponentes e enfurecidas como as de um lhycan bravo. Como Ghryamor, ligeiro e perspicaz em ameaças! Não houve comportamento agresivo, mas as palavras, no entanto. Poderiam impedi-la de usar algum telefone? Mas lhycans são sensoriais e não precisam disso.

     Mesmo para um agente do FBI, havia motivos pelos quais ele deveria recuar.

     Principalmente quando se é encontrados rastros de seus predadores naturais ao redor da cidade e cidadãos ligando para a polícia falando que avistaram lobisomens. E lhycans não deixam rastros… eles estavam informando que estão ali. Aguardando.

     Mas Camilla é uma oportunidade boa demais para ser descartada.

     Eles optaram por enrolar mais um dia… saíram da sala deixando a mulher mais atraente que já viram numa camisola branca, num quarto branco. Ela contraiu o maxilar e gritou.

     Os gritos de uma bruma não são normais. Nos limites da cidade, cabeças de lobo se ergueram da na neve.

     Uma besta se levantou… era noite e havia pessoas andando de um lado para outro bem agasalhadas. Crianças correndo e se divertindo.

    Bastou uma se afastar mais do que deveria de seu pai…

    Em vinte minutos o homem procurava desesperado o filhote pelo qual nunca mais encontraria.

     Ao amanhecer… encontraram a cabeça da criança junto a de outras 9 vítimas.

     Camilla ficou inquieta durante a madrugada e só passou a dormir quando tinha certeza de que era dia. E então o quarto foi invadido por médicos de jaleco.

    Durante o sono, lhycans ficam mais atentos.

    Ela nunca seria um lhycan.

    E estava dormindo serenamente agarrada ao travesseiro. Ela não era a mais bela das mulheres… tinha imperfeições como qualquer outra — pele seca, estrias, celulite, espinhas nas costas e alguns quilos acima do ideal —, mas conseguia de alguma forma ser muito atraente aos olhos masculinos.

     O Dr. estendeu a mão…

     E Camilla o agarrou com força.

     A cor dos seus cabelos parecia ter contagiado o resto do rosto… e as pupilas… estavam extremamente dilatadas. Ela o empurrou com força para cima do segurança e correu deslizando pelas pernas de dois homens. O último quase a pegou se não fosse por um chute certeiro no saco.

     Ela correu pelos corredores brancos do hospital com cheiro de álcool sem avistar um único enfermeiro ou profissional de saúde. Ela estava sendo mantida numa ala tão especial que só notou ao ver o ponteiro do elevador. Subsolo.

    Quando ela chegou ao subsolo? Quando foi sedada para exames…

— Ei! — Homens gritaram atrás dela e a droga do elevador não abria.

    Não havia escadas.

— Não chegue perto de mim! — Ele apontou uma arma de choque.

     Camilla não conseguiu escapar.

     E soltou um grito alto e agudo que foi ouvido por quilômetros.

     De volta ao quarto, amarrada a cama, entre palavrões, havia ameaças:

— EU NÃO TE DOU AUTORIZAÇÃO PARA TOCAR EM MIM! — Gritou em direção ao médico.

— Por favor, acalme-se! — E ele continuava a tirar sangue de seu corpo.

— Eu vou processá-los! — Ninguém ouviu. Mas todos temeram quando ela gritou: — VOCÊS TODOS VÃO MORRER!

    Pois cada um deles havia sido marcado por ela.

    Um simples ato de caça herdado por lhycans. O fato de memorizar o rosto, o tamanho, o cheiro e inclusive o motivo que o leva a querer caçar. Ela não conseguia fareja-los… mas outros conseguiam.

    Quando saíram… mais um grito enfurecido foi ouvido.

    Fúria. Não frustração.

    Então outros herdaram sua fúria e a redirecionaram.

     Havia um número específico de pessoas que sabiam sobre a existência dos lhycans, e de quem mantinham no subsolo de um renomado hospital.

    E um grupo menor ainda com o cheiro dela… saindo daquele mesmo local.

    Um homem albino os esperava do lado de fora, comendo a salsicha do cachorro quente e entregando o pão cheio de molho para um cão faminto. Bháryox estava com uma careta no rosto… deveria ter comido já verdade o vendedor.

     Mas ele estava guardando espaço no estômago.

     A brisa suave balançou os cabelos de Ikronyx ao lado. O macho folgado sentado no banco já estava ficando com fome olhando o cachorro se alimentar do pão.

    Dois homens de cabelo branco.

    O médico notou.

    E desistiu do táxi.

    Mas ao se virar… na porta do hospital, havia mais três olhos azuis olhando diretamente para ele.

    Pensando bem… ele entrou no táxi.

    Ikronyx estava indeciso… o cachorro estava mais perto… mais fácil.

     Bháryox saiu de perto e seguiu através da rua… e do hospital parando logo em frente.

    Aquele que saiu era um segurança com um cheiro forte de bruma. Ele não estranhou em nada os homens de cabelo branco. Pegou o táxi e foi embora.

    Vinte minutos depois… outros dois seguranças reclamando sobre uma paciente escandalosa. Mas não tinham o cheiro de Camilla.

    E então, uma enfermeira também sem o cheiro dela.

— Boa noite — Bháryox se aproximou.

    E vinte pessoas morreram naquela noite. Seus corpos foram encontrados com um cachorro esquelético roubando um pedaço do braço.

    Era um médico novo entrando naquela sala.

     E o mesmo homem do FBI.

— Eu vou processar todos vocês por cárcere privado e uso de medicina não autorizada — foi o que Camilla disse antes do primeiro "bom dia."

— Sinto muito. Não pode sair. — Ela rangeu o maxilar.

— Uma infecção pega na floresta causa todo esse alvoroço?! Eu nem sei onde estou! Me deixe sair.

— Se sair, você irá para a delegacia — informou o homem.

    Ainda havia um massacre a ser investigado.

— Vocês estão me enrolando — ela disse calma. — E haverá consequências! Vocês não vão sair impune disso!

    Ela não gritou naquele dia. Mas quando a noite caiu, foram quarenta mortos.

     No quarto dia informaram que Camilla já poderia ir para o aeroporto e que um vôo já a aguardava. Quando a noite caiu, não houve mais nenhum morto.

     A bruma saiu com um sorriso radiante que logo se desmanchou ao ver o aeroporto lotado de pessoas ansiosas para sair da cidade depois de tantos assassinatos.

— Para a América do Sul só temos disponibilidade para a Argentina — informou a mulher quando Camilla se prestou a ir atrás das passagens.

    Passagens de avião internacionais não é bilhete de ônibus…

     Mas ela estava louca para voltar para seu país mesmo que tivesse que ajeitar uns papéis e trâmites exaustivos. Estava tão empenhada no que fazia que mal notava ou um outro homem olhando-a. Não que isso fosse anormal… brumas atraem naturalmente atenção de machos mesmo que a beleza física não seja escandalosa.

     Ela não sabia que estava sendo filmada.

     E que a mulher a vender sua passagem não trabalhava exatamente naquele lugar…

     Manter Camilla no Alaska se provou muito perigoso com todos os três massacres de sua chegada: Barrow, Caldolf e os recentes 70 mortos na cidade. Ela por si só não aparenta ser uma ameaça sem as feras que, por algum motivo, a protegem.

    Ela precisa se separar deles.

    Mas não pode voltar para o Brasil.

    Camilla estranhou a alternativa fácil de ir para a Argentina e de lá cruzar a fronteira com o Brasil. Seria mais dinheiro gasto, mas também uma opção viável visto que todas as passagens para o Brasil foram adquiridas.

    O estresse foi tanto que ela se contentou com essa hipótese e decidindo que não mais viajaria por anos. Exceto se conseguir dinheiro o suficiente para cobrir os gastos. Por sorte, ela havia pego cada centavo de Nicolas como indenização pelo sexo horrível que tiveram.

    E depois de tudo, ela só pensa no sexo deles… e não sente nada pelo fato dele estar morto, a cidade massacrada e ela ter trepado com lobisomens! Tudo não passa de meros detalhes. O sentimento é tão forte como se tivesse acabado de ver um filme a respeito.

    Com um notebook pessoal escondido no fundo de sua mala, Camilla resolvia as últimas pendências de sua viagem quando uma mulher com expresso na mão se aproximou e perguntou:

— Olá! Posso me sentar aqui? — Todas as mesas ao redor estavam lotadas.

    Camilla concordou.

    A mulher não parecia muito alta e se vestia elegantemente. Certamente aquela pinta próximo ao canto inferior da boca lhe dava um charme.

— Acabei de descobrir que meu vôo sofreu um atraso — ela suspirou. Camilla não respondeu e continuou a atenção em seu notebook. — Ah, perdão. Estou te atrapalhando?

— Sim.

    A mulher ficou séria.

    O notebook de Camilla começou a falhar.

— Merda… — murmurou.

— É brasileira? — ela insistiu… falando no mesmo que a bruma a alguns segundos.

    Ela ganhou a atenção.

— Sou — Camilla deixou o notebook de lado por um minuto — e você não parece brasileira.

— Sou metade francesa — ela sorriu. — Prazer. Meu nome é Bianca.

— Camilla.

— Vai para o Brasil, Camilla? Ou está chegando?

— Pretendo ir para o Brasil — ela coçou a têmpora. — Mas só consegui passagens para a Argentina.

— Hm… que estranho — Bianca cruzou os braços. — Conferi agora pouco os embarques disponíveis e havia passagens para o Brasil para amanhã.

— É mesmo? — Camilla se interessou mais ainda.

— De qualquer forma, não me importa mais — Bianca mexeu em sua bolsa. — Comprei para o Brasil. Chega a noite em São Paulo, mas surgiu um imprevisto e não vou conseguir ir e nem consegui devolver.

    Uma passagem direta para o Brasil foi como uma barra de ouro nas mãos de Bianca. Camilla não hesitou a dizer:

— Estaria interessada em me vender?

    A mulher sorriu.

    Foi necessário menos de uma hora para ambas concluírem os detalhes da venda de modo legal.

— Foi um prazer te conhecer, Camilla — e no fim, Bianca se despediu com dois beijinhos na bochecha da bruma.

    E saiu.

    Camilla estava tão aliviada que decidiu comemorar sua imensa sorte e pedir alguma coisa para comer.

    Foi quando olhares caíram sobre a mesa de Camilla. Cidadãos curiosos e machos e fêmeas cautelosos. Ele veio em passos silenciosos roubando atenção pelo seu tamanho imponente e beleza predatória. Do tipo que facilmente atrai as mais decentes moças para o covil e para a morte. Um pecado tão bem vestido que ostentava poder e riqueza.

    Camilla percebeu o quão insana ela é ao reparar que não se lembra de ver Ikronyx usar roupa em todo o tempo em que ficou com ele. E foi estranho vê-lo como um homem normal de longos cabelos brancos caindo até além do abdômen.

    Ele se sentou onde a francesa estava.

    O lhycan estava quase completamente de branco com exceção de uma blusa negra por baixo do casaco que realçava sua beleza natural. Camilla custou a fechar os olhos para uma simples e comum piscada… e sentia seu coração disparado.

    A garganta estava seca.

    Ele havia assumido a ilusão completa de seu homem ideal. Belo, robusto, sensual, dominante, fiel e não violento. Ele estava completamente calmo quando inclinou a cabeça em direção da fêmea. O ato mais animalesco do que humano a lembrou de que ele não é um macho comum.

— Quem estava aqui?

— Ikronyx… — ela sussurrou.

— Camilla — ronronou doce.

    Camilla sorriu… e desviou o olhar. O que ela poderia dizer?

— Você engordou — o macho levantou as sobrancelhas e passou as mão em sua barriga. Sim, estava mais carnudo.

— Andei comendo mais que o necessário nos últimos dias — justificou cauteloso. Para uma chrynnos, estar com mais peso não significa nada. Mas para humanos…

— Isso tem algo a ver com os corpos multilados encontrados pela cidade? — Ela indagou.

— Quem estava aqui?

— Ikronyx, até um cachorro estava no meio!

— Quem estava aqui?!

— Uma fêmea — respondeu por impulso.

    Ikronyx umedeceu a boca com sua língua e mordeu o lábio inferior. O maxilar se contraiu quando seus olhos vasculharam o lugar…

    Havia muitos olhares nele… porra! Camilla esqueceu que lhycans odeiam ser o centro de atenções e podem se tornar muito perigosos caso sejam.

— Há muitas fêmeas aqui — ela lembrou mais a si mesma. No último surto de violência causado por Bháryox o ambiente estava repleto de machos.

— Muitos cheiros — ele murmurou, enfim a encarando. Os olhos ficaram sombrios. — Não gosto desse lugar.

— Por que veio?

    Ikronyx se levantou.

    Para alguém acostumado a se camuflar na neve, o branco deveria ser muito apropriado, exceto ali. A calça branca era obscena as curvas de seus músculos da coxa e genitália. A blusa negra por baixo do casaco era colada aos músculos e embora parecesse que estava confortável ali, também parecia que as roupas mal serviam.

    O que mais chamou atenção, claro, era o enorme cabelo branco alcançando as nádegas. O macho rosnou quando um fio foi puxado por ele próprio num incidente ao se levantar. Ele organizou seu penteado e empurrou o corpo de Camilla para o lado ao se sentar bem ao seu lado e passando os braços pelos ombros da fêmea.

    Só então ela notou o quão minúscula é perto dele.

     Era tão novo vê-lo com roupa que Camilla esqueceu que já conheceu e trepou com aquele homem. Pareciam dois machos completamente diferentes: o Ikronyx pelado e o vestido.

    O macho fez uma careta hesitante. Camilla nunca o viu hesitar…

    Ele a encarou.

— Quero que fique comigo — revelou.

    Camilla piscou.

— O quê?

    O macho olhou ao redor. Entre os olhares de mulheres curiosas — como se ele fosse uma celebridade — ou surpresas, sempre havia uma ou outra acompanhada de um macho. Algumas não o viram, outras disfarçaram… e havia também as descaradas.

— Igual eles — Ikronyx apontou descaradamente para três mesas à frente de Camilla. Havia um casal lá.

    A mulher estava de frente para o lhycan, mas parecia não se importar com a beleza dele ou simplesmente não viu. Seu bebê m mamando o que parecia ser um suculento leite na mamadeira precisava de mais atenção. O marido, no entanto, tinha os braços ao redor dos ombros da esposa e segurava seus cabelos.

— Quero que você volte — Ikronyx apertou os ombros da bruma no ato primitivo de posse — para acasalar comigo e engravidar.

    A pele de Camilla ficou da cor de seus cabelos por ao menos três motivos diferentes.

    Ikronyx a encarou. A íris brilhava esperança e um sonho do qual ela poderia realizar.

— E então criamos nossa família.

— Eu não sou uma máquina de fazer filhos — ela disse num tom lento e calmo.

    Ikronyx a olhou de lentidão de cima a baixo.

— Não, não é… — ele sussurrou. — Mas é tão linda, tão saliente… tão mulher! E eu a quero para mim. Quero acasalar com você!

— Nossas espécies são diferentes — ela o lembrou.

— Quero que seja minha companheira — ele simplificou. — E… eu não vou te comer.

    Havia uma promessa no olhar dele… um fogo e um desejo único quando ficou o olhar nos lábios dela. Camilla estava nos braços dele e ele estava imitando os machos humanos… e talvez aquela posição fosse realmente agradável. Ela estava protegida e escondida e, ao mesmo tempo, próxima o suficiente para ser provada.

    Ele se inclinou.

    Ela desviou.

    Ele rosnou ao pé de seu ouvido e todo o corpo da mulher estremeceu.

— Por que fez isso? — ele choramingou, enfim, como um cão judiado. Mas o cão é bravo e a fez olhá-lo nos olhos. — Por que não quer me beijar?

— Porque não sei onde isso me levaria — ela confessou.

— Para o meu deleite — ele lhe roubou um beijo gentil. — Fica comigo, Camilla. Prometo que não vou te comer. Só te morder, mas você gosta quando eu te mordo… você geme tão gostoso quando sente meus dentes na sua carne que fico excitado!

     Ela sorri envergonhada.

     Camilla passa uma mecha de seus cabelos vermelhos para trás da orelha e Ikronyx reparou que prefere ela com suas ondas capilares desarrumadas. A bruma tem sua beleza peculiar quando está elegante, mas foi feita para ser contemplada nua e com ar de sexo.

    Ela reparou bem na pupila dos olhos daquele macho dilatando. Ele simplesmente estava a admirando. Vendo seu externo e interno e desmascarando sua alma.

— Não posso.

— Pode sim — ele grunhiu como um cão dramático. — Não seria lindo? Você, eu e nossos filhotes? Ah linda! Prometo que vou cuidar muito bem de você quando estiver grávida. Vou te dar muita comida, vou te lamber todinha e dormir juntinhos para que fique bem aquecida e confortável! Por Hyfhyttus, eu vou te mimar, então fique comigo!

— Esse é o seu sonho e não o meu… — talvez as palavras tenham saído muito duras.

    Mas ele… é um lobisomem.

    Se imaginar grávida de um lobisomem a assusta desde o momento em que confrontou os machos e exigiu respostas diretas a respeito do que querem com ela. Camilla fez o que Bháryox temia e adiou: ficar assustada com o acasalamento e fugisse.

     O Alpha a caçou pela floresta junto de dois outros machos.

     Camilla se lembra da sensação de se ver encurralada numa árvore por um albino grande, forte e muito dominador. As palavras eram tão delicadas como a de Ikronyx naquele momento:

— Não fuja de mim… não vá — as mesmas palavras saíram de Ghryamor após Bháryox e anterior a Ikronyx. Todos os três haviam implorado para ela ficar.

    O Alpha, seu Bhetta e agora Ikronyx.

    Camilla fez o mesmo que para os antecessores do macho: ficou em silêncio. Apenas a certeza de seus métodos contraceptivos a deixava calma a respeito de uma possível gravidez e, mesmo assim, havia três testes em sua bolsa e mais dois para fazer no avião quando se sentia tonta e enjoada. Ela sempre fica! Mas dessa vez queria garantir que não era por outra coisa já que o exame de sangue é inconclusivo depois de ter sido mordida.

     Seus hormônios estão alterados pela mordida, afinal. Qualquer indícios de gravidez será escondida a sete chaves pelo corpo e a única forma de notar seria através da urina se o chamado "filhote" estiver na idade apropriada para ser sentido pela mãe e revelado ao pai.

    As informações foram dadas por Ghryamor e confinadas por Bháryox. Os próprios humanos tiveram sua parte ao confirmar a bagunça hormonal que é o corpo dela depois da mordida.

     Camilla está horrorizada com essa possibilidade! Grávida de um lobisomem.

     Porém…

— Sabemos ambos que seu sonho é ter um macho grande, forte e muito fiel como capaz de lhe dar muito prazer e lhe proporcionar filhotes. Eu me enquadro perfeitamente nas suas exigências, porém, no currículo para seu homem não estava exigindo que o candidato fosse humano. Apenas que fosse companheiro.

— Currículo? — Ela riu.

— Um macho estava fazendo uma entrevista de emprego ali atrás — ele apontou para a cabeça. — Espero que tenha feito um uso correto da metáfora. Fiz?

— Mas ou menos — disse sorridente. — Para procurar emprego, o currículo é uma descrição das nossas competências não uma… fugiu a palavra… é… "anúncio" e "proposta" de emprego. Isso! Currículo não é igual a proposta de emprego.

— Mas entendeu o que eu disse, não foi? — Camilla confirma sorridente e quando percebeu que estava sorrindo demais para ele, fechou a boca e se obrigou a ficar séria. Ikronyx move seu rosto em direção ao dela, confortando-a em seus braços. Ele suspira: — O que você quer para ficar comigo, meu amor?

    Ela não resistiu a murmurar:

— O que você pode me oferecer?

— Um covil — Camilla franziu as sobrancelhas.

— Como? — Ela se afastou.

     Ikronyx passou os dedos entre os cabelos longos num gesto de nervosismo. Havia garras na ponta dos dedos e ele cortou seu lábio inferior com um canino levemente alongado. Uma gota de sangue escorreu pela mandíbula antes dele se limpar. Ele estava nervoso!

    Camilla nunca havia visto um lhycan nervoso.

— Fêmeas são… muito exigentes em relação a onde vão criar seus filhotes. Exigem um covil apropriado… uma "casa", em palavras mais humanas — ele se ajeita ao lado dela e retira a mão da boca. Não havia traço algum de sangue, mas seus olhos brilharam em promessa, certeza e expectativa. — Eu posso construir uma casa para você. Uma bem grande do jeitinho que desejar, bem segura e acolhedora para nossos filhotes e muito confortável para fazermos sexo enquanto eles dormem.

     Camilla cruzou as pernas.

     Tentador.

— E você pode fazer isso?

— Chrynnos são os melhores construtores de nossa espécie — ele se gabou sorridente. — Eu posso e faço isso e muito mais por você… apenas — ele acariciou seu rosto — fica comigo.

     Um lobisomem…

     Uma espécie diferente e, por tanto, desconhecida. Um homem que não apenas é forte, mas também é um assassino e muito violento.

     Camilla sabia como um homem violento poderia agir… principalmente se for ciumento e possessivo. Mesmo com todas as promessas e explicações, ela veio do Brasil onde tolas mulheres são vítimas frequentemente de feminicídio. E ela é uma mulher muito mais do que tola já que se envolveu com esses homens ao menos três vezes durante a vida.

     Não mais.

     E… ele é um "lobisomem"…

— Eu não posso…

    O macho flexionou o maxilar num rosnado desgostoso e o olhar escureceu com o aumento da pupila. Ela esperou uma repreensão.

— Então me deixe ir com você!

    Camilla arfou.

— O quê?! E o seu bando?!

— Não serei o primeiro e nem o último chrynnos solitário e nômade. Sou dominante e forte o suficiente para te acompanhar onde quer que vá… — ele beija seus lábios e ronrona em seu ouvido — para ficar com você!

— Mas…

— Sem mais, minha bruma — ele segura seu rosto. — Na minha situação atual, tenho duas escolhas: lutar para recuperar meu título de Bhetta e arrancar a cabeça de Ghryamor ou ir embora. Não seria inesperado a segunda opção.

— Ikronyx…

— Vamos, meu amor! — Ele implora. — Não me deixe…

— Por que quer tanto ficar comigo? — ela suspira.

     Ikronyx encarou os olhos de Camilla com a intensidade de um predador. O rosto do macho estava completamente sério e envolto de cabelos brancos. Ele estava confiante como um lobo e cheio de emoções quando confessou sem hesitar:

— Porque eu te amo.

     Sem cerimônia. Sem um preparo. Sem filtro. Camilla não estava acostumada com tanta honestidade transbordando até mesmo no olhar.

     Ele é um "lobisomem" — ela se forçou a lembrar. E dessa vez, esse fato a recordou de que esse decisivo detalhe é o que faz dele tão diferente e honesto.

     Camilla é a fêmea que ele escolheu para ser sua companheira. É ela quem ele quer para dormirem juntos nos dias mais frios e fazer sexo gostoso nos momentos mais carentes. É ela quem ele quer engravidar e ajudar a criar seus filhotes.

     Ikronyx já a imagina dentro de seus braços de chrynnos, com sua abundante pelagem branca a aquecendo e com uma grande barriga de quadrigêmeos dias antes de dar a luz.

    Um som agudo preencheu o ambiente e Ikronyx reagiu com um rosnado moderadamente alto. Todos os humanos próximos olharam como se tivesse um leão por perto… E isso fez o lhycan enrijecer o corpo.

    Então houve a primeira chamada para o Brasil.

— E-Eu tenho que ir.

— Não… — ele abriu os olhos. — Não! Por favor!

— Por favor, Ikronyx… — ela fechou os olhos, inquieta.

    O macho não teve opção exceto se levantar… e lhe dar espaço para sair.

    Camilla olhou o tempo todo para o sapato dele… um tênis de corrida cinza, cardaços negros e um ou outro detalhe em vermelho.

    Ela se aproximou, olhou em seus olhos… e se colocou na ponta dos pés para que enfim pudesse beijá-lo. Ikronyx não a tocou, mas correspondeu o beijo com delicadeza e gentileza. Até que sentisse algo sendo posto em sua mão.

    Ikronyx se afastou.

    E levantou o celular dela.

— Sabe como usar, né?

— Por que me entregou isso?

— Se tiver internet, posso me comunicar com você.

— Por que quer se comunicar comigo se está indo embora?

     Camilla respondeu com um sorriso hesitante e lhe deu as costas em direção à chamada. Ao Brasil… para a casa.

     Mas ela tinha que lhe dar uma última olhada! Tinha que tirar uma foto… e se arrependeu de olhar para trás.

     O grande homem estava parado com os grandes cabelos caindo sobre o ombro e olhos azulados de lobos… cheio de lágrimas. Elas escorriam pela bochecha tal como todo o pesar.

    Como se estivesse realmente perdendo sua companheira.

    E o coração de Camilla se apertou… pois homens são orgulhosos demais para um ato tão humilde como aquele. Mas ela não poderia ficar com lobisomens e então partiu.

    Dessa vez, sem olhar para trás.

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