C A P Í T U L O 38

     Naquela manhã, Camilla sentia sua cabeça doer e rodar de modo estranhamente anormal. Tudo rodava. Seu corpo estava leve como uma pena e seus ossos doloridos e enferrujados.

    Algo no estômago borbulhava e sua garganta exigia água como se tivesse passado a noite inteira gritando. Os machos do covil estavam todos calados quando ela simplesmente se jogou no chão e gemeu profundamente.

     A rocha fria além do berçário era um alívio, mas a bruma sentiu muito mais necessidade da água que Ghryamor lhe trouxe. Camilla esvaziou o cantil em menos de um minuto.

— Tive um sonho muito louco — confessou ao homem.

— Ah, é? Conte-me.

     Então ela percebeu que essa vergonha não passaria. Não quando o que tem que falar incluía ela achando que era uma lobisomem e uivava chamando todos os homens que via para fode-la. Ah não! Ela queria esquecer aquilo e agradecia por não passar de um sonho.

     Camilla levantou o olhar.

     O ambiente estava calmo, todos os homens estavam tão quietos que a voz poderia fazer oco na caverna.

— Aconteceu alguma coisa? — ela sussurrou. — Clima pesado… parece até que estão de luto.

    E então sorrisos surgiram no rosto deles.

— Como você está? — Ghryamor indagou, rouco, baixo e sonolento.

    O dia havia amanhecido e o corpo cobrava seu sono da beleza. Ghryamor, sentia suas pálpebras pesarem e, seus músculos pedindo um lugar quentinho e seus instintos querendo abraçar Camilla e pousa a cabeça entre a curva de seu pescoço.

    Mas a mulher estava mal.

— Não sei responder isso… E… E… Preciso de um banho — deduziu ela — e comida.

     Mas ao sentir melhor a sensação térmica do ambiente e saber que nunca vai querer sair da água quente, Camilla optou por adiar o banho. Talvez mais tarde… quando estiver calor.

     Mas aceitou de bom grado a comida. No que antes parecia churrasco, agora era carne assada. Independente de como faziam, tinha um sabor forte. Não tinha química, não era industrializado… é selvagem. Lembra a caça. O puro ato predatório.

     Camilla se estufou de carne de cervo até enjoar. Até sentir que precisava arrotar, até notar que tinha o dia inteiro pela frente sem absolutamente nada pra fazer. Ela quis aquilo que foi prometido pelo Alpha e Bháryox não pode dar pretexto algum quando ela estava tão confiante.

    A bolota de casaco saiu do covil logo em seguida, com uma câmera e meia dúzia de homens seminus atrás. Entre eles, Grhyamor e Anoor junto dos trigêmeos e… mais alguém.

— Então, para onde quer ir? — Grhyamor perguntou preguiçoso.

    Quanto mais o sol brilhava, mais sonolento o homem ficava. Não era de se estranhar, o dia para Camilla é a noite deles. Bháryox particularmente não saiu da caverna por se sentir incomodado com a luz, mas cada um ali, no mínimo, já havia sido ameaçado pelo líder.

    Camilla saiu saltitante pela floresta.

     E Grhyamor bocejou longamente conforme estica os músculos.

— Então… onde está Ikronyx? — Ao menos metade dos machos se engasgaram com a pergunta.

     Eles não gostam dessa… pergunta. Significa que Camilla sente falta dele? Que gosta dele? Que ele se tornou algo a mais?

— Por quê? — Anoor soltou, rouco e duro.

     Camilla o tinha visto apenas uma vez e se surpreendeu com seu grande porte. O homem deveria ser o mais alto lhycan do bando… e também o mais musculoso.

     A atenção para Ikronyx se foi… rapidinho!

     Anoor lhe lançou seu olhar intenso e brutal. Talvez não conseguisse ser delicado e certamente deve preferir um sexo selvagem.

— Desculpe — ela sentiu necessidade disso. Intenso demais.

— Por quê?

— Você é… bem grande — confessou.

    Os gêmeos cruzaram os braços e Anoor sorriu. De fato, a cabeça vermelha de Camilla alcança apenas o meio do peito daquele homem.

— E isso é bom? — Tentou demonstrar cordialidade… disponível para conversar. — Com que palavras exatamente você me definiria além de "grande"?

— Bom… meu inglês é bom mas não sei defini-lo com nada que não seja em português — Camilla parou de andar e o encarou de cima a baixo. Anoor exibiu seus músculos, estufou o peito nu e tentou parecer fisicamente maior. — Eu te defino como um homem… maromba.

— E o que isso significa?

— Muito musculoso — ele ampliou o sorriso. — Você deve ser muito forte.

    Ghryamor cuspiu uma risada.

    Tal piada tirava até seu sono.

— Ainda é abaixo de mim na hierarquia — com confiança e uma imensa folga, o homem passou os braços ao redor do pescoço de Camilla a trouxe para junto de seu calor. — O que Anoor tem é apenas tamanho.

    A face do grandão ficou mais rígida conforme a de Ghryamor ficava mais risonha.

— Você é mais forte que ele? — Custava para Camilla acreditar.

    O que mais iria diferenciar Grhyamor de Anoor além do tamanho é o corpo. Um é grande, musculoso, maromba… e o outro, robusto. Somente isso.

    Como todos os demais.

    Os homens são todos atléticos e fortes com abdômen com gominhos definidos e bíceps largos pesados o suficiente para entortar o pescoço de Camilla. Ah, como ela delirava nos músculos de Ikronyx… e porra! Como Ghryamor é gostoso!

    O desgraçado abriu a boca e, com todo o tempo do mundo, bocejou. O peso de toda sua massa muscular foi posta sobre os ombros de Camilla e o ar pareceu mais quente por isso. O chrynnos é quente e a deixa quente!

    A alcateia inteira é assim! Todos são altos para os padrões humanos, contudo igualmente robustos.

    Mas Anoor é corpulento, carnudo.

— A dominância de um lhycan vem da força bruta. E os mais fortes são o Alpha, o Bhetta e eu. Anoor é o quarto mais dominante e, por tanto, está abaixo de mim. — Ghryamor explicou, lento e sem dar importância. Como se Anoor fosse apenas um detalhe a mais. — Ou seja, sou mais forte do que todas essa musculatura exagerada!

    E o fato dele não se defender comprova as palavras de Grhyamor. Pelo menos, até que o derrote em combate, contudo o último foi interrompido pelo Alpha.

— É tudo aparência — O sexto macho, um completamente desconhecido por Camilla se manifestou. Toda a atenção foi para ele. — Anoor não é original de nosso bando.

— E você quem seria? — Ela soltou para o descontentamento do homem.

— Auuro — se apresentou. — Décimo nono mais dominante.

    E por isso ele estava quietinho.

    Ghryamor o terceiro, Anoor o quarto, os gêmeos Thricce, Thrik e Thiark ocupando a posição de sétimo, oitavo e nono… Auuro é muito submisso na hierarquia.

— Vocês levam isso de hierarquia muito a sério, hein — Camilla suspirou. — Mas o que quer dizer isso de que Amor não é original do bando?

— Significa que nasceu em outra alcateia — Thiark, o mais velho dos gêmeos falou.

    Camilla encarou Anoor.

— Cada bando tem sua diversidade. Nós, aqui no Monte Sukakpak somos assim. Mas onde Anoor nasceu, os membros são mais parecidos com ele. — Thricce, o caçula do trigêmeo explicou. — Grandes, corpulentos, musculosos.

— Meu pai foi morto quando era um filhote. Sem ele, o bando me mataria. Então fui embora — Anoor revelou, sério.

— Sinto muito…

— Não sinta — ele disse num sorriso convincente — Não é difícil caçar nessas terras. Comer é fácil.

    O sorriso foi geral.

     Todos ali já caçaram daquela forma… uma criança perdida e encolhida na floresta ou à beira de estrada. Passa um carro, e sempre tem um humano preocupado disposto a ajudar a inocente criança. E bem, sempre que se aproximam, é hora de comer!

     Para Anoor, teria apenas que evitar ao máximo ser pego por algum lhycan adulto até que tivesse idade e corpo suficientes para se defender. E com isso, entrar em um bando e conquistar seu lugar na hierarquia.

     Os trigêmeos, no entanto, não chegaram a isso. Quando Bháryox matou o pai deles, todos já tinham tamanho e posição no bando.

— Sinto que vocês estão me prendendo aqui — Camilla tirou o braço de Ghryamor de seu pescoço. — Quero tirar fotos!

     E assim a humana deixou seis homens para trás enquanto buscava uma paisagem. Enquanto, cada passo para dentro na neve, sentia sua boceta arder como se tivesse passado dias trepando sem pausa.

     Ela tinha que dar um tempo do sexo.

     E faria isso ao buscar paisagens.

     A floresta em conta do Monte Sukakpak não é dessa. Tão pouco cobre a covil. O lugar todo é rochoso, com trilhas que podem levar ao topo e, naquele momento, estava coberto de neve.

     Camilla queria uma foto daquele lugar.

     Mas as árvores não revelavam muito. Talvez porque não conhecia a região. Mas os machos não ajudavam, pois estavam com sono e preferiam jogar a humana numa manta bem fofinha, abraçar e dormir.

— As Auroras boreais não irão demorar a surgir — Ghryamor revelou preguiçoso. — Ninfetinha, o melhor momento para tirar fotografia é a noite!

    Camilla sequer conseguiu uma foto decente. Estava muito próximo do rochedo para tirar uma foto de toda sua extensão. A floresta não é densa e há vários descampados ao redor, neve e vastidão.

    A fêmea bufou frustrada com suas imagens obtidas. Não importa onde apontar, não há paisagem.

— Eu não quero voltar — afirmou. — Vocês conhecem esse lugar, me mostre onde posso tirar boas fotos!

    E havia uma seriedade que deveria ganhar atenção.

     Por que ela ficaria com eles, se não consegue achar um meio de se divertir e fazer o que gosta? Passar o dia inteiro transando no covil não irá mantê-la junto deles para sempre. E a bocetinha também precisa de folga.

    Camilla quer paisagem, sabe que o Alaska tem e muitas!

    E está se irritando por não encontrá-las.

    Aquilo era efeito da mordida.

    Eles tem o que ela quer? Ou vai ter que buscar em outro lugar?

— Vamos nos afastar um pouco — alertou o macho.

     E Camilla aceitou a resposta.

— Tenho o dia inteiro.

     Ghryamor já havia tomado a decisão. E guiou Camilla e mais cinco homens pelo território nevado.

     A caminhada pela neve a deixou mais estressada. Talvez, por isso, o macho tenha decidido puni-la assim. Contudo, no fim, valeu a pena.

     Camilla estava diante de uma paisagem.

     Longe o suficiente para ver o Monte Sukakpak em todo seu esplendor coberto de neve e de um ângulo privilegiado. O monte era torto de um lado e talvez isso aumentasse o charme. Ela sorriu… largamente.

— Os fotógrafos geralmente gostam daqui para fotografar — Anoor comentou. — Evitamos as câmeras então não aparecemos muito aqui.

    Mas o coitado foi completamente ignorado. Camilla tirou suas fotos e um pouquinho mais… ela entregou a câmera para Ghryamor e pediu que tirasse fotos dela.

    Ele tirou.

    Camilla fez uma careta assim que viu a imagem.

— Isso está horrível! — Ela disse, logo depois. — Não apareceu a paisagem!

— Me pediu para tirar uma foto sua e não dá paisagem — Ghryamor se defendeu.

— É para tirar uma foto minha com a paisagem!

    Ghryamor sorriu amplamente.

— Cale a boca e volte pra lá, vai!

    Camilla foi.

    E como alguém que já havia observado muitos fotógrafos, se abaixou e buscou um melhor ângulo com a imagem.

    Fez uma pose. Ele tirou a foto.

    E outra. Outra. Outra. E outra.

    Camilla era a sua modelo e ele queria impressioná-la. E irritá-la.

     A fêmea dava as costas, abria os braços, empinava o bumbum, fazia poses descontraídas e ensaiadas. E esperava que Ghryamor estivesse fazendo certo.

    Mas quando viu as imagens…

— Essa é a foto da minha bunda e não do Monte Suka pau!

— Suka o quê?

— Sei lá como se chama essa porra!

— Monte Sukakpak — Anoor se intrometeu, desesperado para receber atenção dela.

— Separe as palavras — Thiark aconselhou. E então, repetiu o nome: — Su-ka-k-pak. Suka kpak.

    Camilla imaginou a palavra em português.

    No inglês, o "a" tem som de "e". E pela forma como ele falou…

— Pode repetir? — Ele repetiu. 

— Su-ka-k-pak.

    Então o nome seria… Sukakpek? Suka qui pek…

    Ela tentou novamente.

— Suka — o macho incentivou a continuar — qui… pek?

    O sorriso foi a resposta. Camilla havia conseguido!

    A atenção voltou para Grhyamor.

— Você não tirou as fotos corretamente!

    Ghryamor olhou para a câmera. Ao menos as últimas fotos eram da bunda dela… mas ele a confundiu com o Monte Sukakpak, ora!

     Ele passou as imagens. E mostrou outra foto. Uma imagem perfeita dela, de sua beleza, e da paisagem com toda a perfeição exigida. Quase como se ele fosse um profissional.

— Desculpe, gosto da sua bunda — confessou, descaradamente.

     Camilla teve que se lembrar de que deve se manter longe do sexo… mas porra, foi tão bom chupar Ghryamor!

— É melhor eu continuar com as fotos.

    Mas Ghryamor não lhe entregou a câmera.

    E ao olhar em seus olhos, recuou um passo. O azul estava mais cintilante, suas sobrancelhas abaixadas e um brilho incomum era visível. Um lhycan tudo repara.

— Que resposta inusitada — ele murmurou. 

    Dela, poderia esperar uma revidação, mas não um pretexto para sair do assunto. Mas o que adiantaria discutir?

    Antes que Camilla dissesse algo, Ghryamor devolveu o equipamento. E no ato, envolveu os músculos ao redor do corpo da fêmea. Ela não teve como escapar.

    A bruma sentiu o calor. A força, o tamanho. Ele é o homem que mais teve tesão desde que chegou no Alaska e mesmo que se envolver com Ikronyx a tenha feito se esquecer dele, lá estava… o lobo dominante ao seu ouvido.

    Ghryamor estranhou a resposta.

    Uma única resposta que não é comum nela. Não em situações normais.

    Camilla arquejou quando sentiu o seu nariz abrir caminho pelos cabelos vermelhos e seu hálito bater contra os ouvidos gelados. A fêmea estava tão desesperada para sair que não colocou uma touca e agora sua cabeça estava gelada.

    O homem é grande.

    E impulsiona o peito contra as costas  conforme a coloca abaixo dele, dobrando o corpo feminino. Os demais machos só tinham que ficar olhando, pois entre eles, é Ghryamor quem manda.

    Camilla se permitiu ser fisicamente dominada. Também estava mais submissa… por quê?

— Vamos fazer isso do jeito certo, ninfetinha — ele sussurrou para o fundo da alma congelada que Camilla possuía. Todo seu corpo respondeu, se animando mesmo com a decisão de se manter longe do sexo por um momento. — Caralho… como eu gosto dessa sua bunda!

    Ela suspirou.

    E empinou até que o chrynnos sentisse a pressão em seu pau.

— Ui, então bate nela, vai!

     Ah! Essa é a Camilla que ele conhece!

    O homem fez questão de olhar para cada um dos membros de seu bando quando mergulhou uma mão entre ela e ele e agarrou as nádegas da fêmea. O tecido era grosso para aguentar tamanha temperatura negativa, mas nem ele foi suficiente. Camilla sentiu as garras Grhyamor espertando-a como um aviso erótico.

     Completamente possessivo.

     Porque Bháryox não está lá, muito menos Ikronyx. Então ele quem tem privilégios!

— Bem que está merecendo! — caralho!

    O tom era de uma ameaça e ela tinha a impressão de que seria cumprida. E porra, como ela queria que fosse! Caralho! Sua boceta se acendeu! E não era para ter acontecido…

     Mil palavrões voaram pela mente dela que havia decretado o afastamento do sexo! Por quê? Ela já havia esquecido.

     Ghryamor apertou com mais afinco as nádegas de Camilla. As garras a espetou e a fêmea gemeu. Esse foi o aviso antes do homem lhe soltar tão rápido quanto a agarrou.

     E como se nada tivesse acontecido, ele bocejou.

     E esticou os músculos, exibindo toda a protuberância de curvas alvas. Mais do que isso, o ato pareceu deixar ainda maior o volume excitado entre as pernas. Aquela era a maior prova do tesão que sentia por Camilla.

     Ela não resistiu.

     Tinha que fotografar!

     Porém, ao observar a foto, bem no pau, algo chama a atenção de Camilla.

      Ela amplia a imagem para observar melhor. E não acredita…

      Ela aponta a câmera para o pau de Ghryamor deu zoom. O macho olha sua protuberância, depois ela, e depois volta para o volume. Enfim, arqueia a sobrancelha. Ué?

     Camilla bateu umas fotos, sim, mas o que ela mais observava era o que estava além. Quase como se o pênis estivesse apontando…

     Ela tira os olhos da máquina e encara os homens.

— Há uma estrada naquela direção?

     Oh, merda! Os olhos de todos se arregalaram.

— Uma — o mais submisso respondeu.

     E se arrependeu em seguida.

     Camilla não disse mais nada. Apenas moveu suas perninhas em direção a onde achou ter visto uma estrada. E Auuro recebeu o peso da mão de Anoor em sua cabeça. O impacto causou um baixo rosnado de insatisfação, porém, também havia os gêmeos nada contentes em revelar aquela informação.

     Enquanto Camilla apontava a câmera em direção ao horizonte e tentava ver mais daquela ligeira faixa branca, Auuro era segurado por Thricce e Thrik.

     O mais velho, Thiark agarrou seu pescoço com garras afiadas esperando sua carne. Ghryamor e Anoor ficaram bem atrás de Camilla.

— Para onde leva? — A fêmea perguntou.

    Ambos os homens se entreolharam.

— Coldfoot — Ghryamor revelou suavemente.

     E aos seus ouvidos, a brisa trouxe a ameaça dos gêneros proferidos a Auuro.

Na próxima vez cale a boca! — A ameaça era baixa demais para ser ouvida por Camilla e, mesmo que de alguma forma escutasse, o idioma um que ela tenha conhecimento.

    Mas a mulher olhou para trás e viu os trigêmeos em pé, encarando-a com suavidade. Contudo, Auuro estava de joelhos no chão. Ela levantou uma sobrancelha.

— Não está com frio? — Anoor tirou sua atenção de Auuro tocando seu rosto. A pele bronzeada estava frio, os lábios descascados e o nariz vermelho. Em contrapartida, as mãos do grandão estavam quentes mesmo estando expostas ao frio por tanto tempo. — Você está muito gelada, Camilla!

    Ghryamor puxou a fêmea das mãos de Anoor, se afastou e a examinou. Camilla estava agasalhada, porém, não o bastante para aquecer alguém acostumada com o ambiente de um lugar tropical. E as temperaturas de inverno no Alaska, naquele ano, estavam severas.

— É melhor voltarmos. Irei aquecê-la e preparar algo quente para comer.

— Não quero mais carne — revelou em uma careta. — Cansei de comer cervo!

    Grhyamor levantou o queixo.

— E uma sopa? — Sugeriu. — Uma sopa quente com legumes não é difícil de fazer.

— E de onde vai tirar o legume?

— Isso importa?

    Não, não importava. Mas Camilla não queria saber de voltar para o covil e passar o resto do dia sem fazer nada. Claro, teria as fotos para editar, estaria aquecida…

    Ela se afastou de Ghryamor.

    Mas ela queria ir até aquela estrada.

    E para lá, foi.

— Só mais algumas fotos — ela prometeu — na estrada.

     E os machos a acompanharam a contragosto. Carros e caminhões passavam ali. No inverno, caçadores ou comerciantes estão dispostos a garantir lucro de quem não conseguiu um bom abastecimento para passar a temporada fria.

     Mas o que os deixava desconfortáveis era a exposição.

     Deixaram a floresta, se aproximaram dos humanos e do campo aberto. Para onde o vento levaria o cheiro de Camilla? O quão bom é o sinal ali para cientistas enfiarem câmeras e drones em suas cabeças?

    E não é necessário ser um gênio para saber que se Camilla seguir por um dos lados, cedo ou tarde encontraria ajuda. Não que ela esteja sequestrada ou seja uma prisioneira, mas também não querem que vá embora.

— Para que lado é Coldfoot? — Ela indagou diretamente para Auuro.

    O macho sentiu sua nuca arrepiar mesmo que nenhum dos homens lhe encarasse diretamente 

— Por quê? — Ele perguntou.

— Curiosidade — ela respondeu e então sorriu. — Não conheço o Alaska, tenho curiosidade. E qual o problema de eu saber onde é Coldfoot?

— Para lá — Ghryamor apontou em uma direção.

     A estrada era longa e de duas vias, se estendia coberta de neve e dava a impressão de que serpenteava pela floresta. A vista do Monte Sukakpak era perfeita daquela distância, visto que o covil não era exatamente uma exuberante montanha.

    Mas pelo horizonte, Camilla conseguia ver contornos azulados de onde provavelmente estava o covil de muitas outras alcateias. Sim! Ela poderia tirar fotos ali e iria se divertir ao fazer.

    Da natureza ao redor, com seu manto de neve, da estrada congelada, do monte Sukakpak e do horizonte cinza esbranquiçado daquela parte do mundo. E claro, dela mesma.

     E dos homens.

     Um de cada vez.

     Dos trigêmeos, esbeltos, com pele alva, olhos azuis e cabelos esbranquiçados. Idênticos um ao outro com aparência de homens feitos próximos a idade de Camilla. Estavam sérios, mas a partir da quinta foto, começaram as palhaçadas.

     De Auuro, quieto, silencioso e passando a vibe tímido. Ou talvez alguém sem muito interesse em se enturmar. Se parecia um irmão mais velho dos trigêmeos, com os mesmos olhos, cabelo e pele pálida. Contudo, tinha lábios mais carnudos e perfeitinhos no interior de uma rala barlba branca. Dele, Camilla arrancou uma piscada e sorrisos marotos.

    De Ghryamor, conseguiu apenas uma imagem, pois o macho arrancou a câmera de sua mão e ordenou que posasse para ele. Camilla obedeceu.

    Ela andou pelo meio da estrada, contemplava a paisagem.

    Então parou. Olhou para seu fotógrafo e o paralisou.

— Trava na pose — cantarolou — chama no zoom! E dá o close!

     Seja o que for que ela esteja falando em português, começou a dançar.

     Os homens se entreolharam confusos. E apesar de gostarem do rebolado, não entendiam nada do que acontecia.

Do que porra essa pirada está falando? — Anoor indagou no idioma materno.

     Camilla gargalhou e apesar de não ter o mesmo efeito da letra em inglês, traduziu.

— É isso que brasileiras dançam!? — Grhyamor perguntou. — Por Azhulla, que vergonha…

    Uma bola de neve acertou Camilla. Veio de Auuro e ela parou.

     E então, dela, veio o sorriso largo e espontâneo como só ela poderia fazer. A bruma estava feliz, se divertiu. Recebeu bolas de neve em sua cabeleira vermelha para complementar as fotos.

     Uma chuva de neve falsificada e gargalhadas que atraiu atenção até mesmo de outros membros do bando que perambulavam pela redondeza.

     E então, um som. As orelhas ficaram atentas e os corpos rígidos. Os rosnados inundaram o ambiente e tentaram tirar Camilla do local.

     Mas ela já tinha visto.

     E os chrynnos nunca odiaram tanto aquela câmera como naquele momento.

     Um carro se aproximava.

     E Camilla não quis voltar com eles.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top