C A P Í T U L O 29

— Bháryon?

    O Alpha continuava lhe encarando.

    Olhos heterocromáticos eram atentos a cada ato que Camilla fazia e, mesmo assim, ela não sabia dizer se ele estava com tédio, cansado, ou bravo. O homem estava simplesmente de braços cruzados, encostado em uma árvore enquanto ela errava seu nome mais uma vez.

     Ela bufou.

— Pode repetir?

     Ikronyx riu. O Alpha moveu a íris em direção do Bhetta e ele teve que engolir a risada. O macho forçou um rosto sério quando o líder voltava a atenção para Camilla.

     A bruma estava encolhida em meio a casacos e uma manta felpuda. Parte das roupas lhe eram familiares e a origem logo ficou clara quando avistou sua mala não muito longe. Parte de seu próprio aquecimento se deve às chamas ardendo não muito longe.

     Ainda sim, a fêmea não parava de tagarelar.

— Estou ficando nervosa! Falem algo! — Exigiu, enfim.

     Uma necessidade para distrair a mente e ignorar o pânico crescente, notaram. A fêmea está confusa, está temerosa e precisa de informações simples e fáceis de lidar. Algo como tentar pronunciar o nome do Alpha sem travar a língua.

     O macho fecha os olhos e respira fundo, cedendo a ela:

— Bháryox.

     Os batimentos de Camilla se acalmaram. Mas ela continuou em silêncio.

     Com o tempo, o macho retornou a olha-la. Os olhos eram tão claros, que de longe, ela mal notava as cores diferenciadas. E se torna um albino tatuado e com sobrancelhas levemente escuras.

— Barionix?

     Dessa vez, o riso foi muito além do Bhetta. Todos ao redor manifestaram sua graça conforme o maxilar do Alpha se contraiu. Os músculos de seu peito nu pareciam maiores e as garras faiscaram discretamente em ameaça ao bando.

     Ele teve que morder a bochecha para não rosnar.

     E claro, não assustar sua mulher.

     Mas ela foi contagiada pelo bando e sorriu também.

     O Alpha avaliou a própria tensão muscular. Camilla tem um sorriso bonito… e esse ato simples indica um leve conforto.

     Contudo, ele prefere deixar as palhaçadas para os deltas — membros gerais — da alcateia. Por fim, a fêmea simulou uma tosse. O silêncio predominou a seguir.

     Diga, querida!

— Barionix é um dinossauro — começou ela. — Barionix é como… um crocodilo. Um bem grande e com pernas longas e não anda de quatro. Nem é lento.

— E o nome desse dinossauro lembra nosso Alpha? — Grhyamor sentia a gargalhada querendo escapar de sua boca.

    O Alpha o encarou como se o desafiasse a rir. E o lhycan disfarçava, mordendo a bochecha.

— Lembra.

— E você sabe disso como? — Ikronyx perguntou.

— Vi no YouTube.

    Agora é Ikronyx quem teve que controlar o riso.

— Bháryox! — Camilla finalmente acerta o nome, para alívio do Alpha. — Pensando no dinossauro, consegui!

     O Alpha levou a mão ao rosto, esfregou e suspirou fundo. Oh mulher que eu fui arrumar!

     Mas é tão linda que ele não resiste! O macho sorriu.

— E então? — Ela bateu as mãos na coxa. — O que acontece agora?

    Ikronyx se ajeitou onde estava sentado, atraindo o olhar involuntário de Camilla para seus longos fios sobre os ombros.

    O macho percebeu e por pura sedução esticou os músculos e começou a ajeitar o cabelo num ato que deveria ser comum. Ele fazia um coque qualquer e, mesmo assim, só o fato de ter bíceps erguido, as axilas completamente lisas à mostra e os movimentos a faziam querer babar.

     É tão atraente homens com cabelo longo…

     Bom, todo homem com pênis de tamanho adequado e força pra foder bem é apropriado para Camilla.

     Mas o ato trazia um certo ciúmes dos demais. Ikronyx pareceu perceber alguma tara nele ou, no mínimo, o tamanho do cabelo chamou e muito a atenção dela. Aquele platinado leve…

— Agora você será uma boa menina — Grhyamor disse, mas nem isso tirou a atenção de Camilla no macho orgulhoso se morando a prender os fios claros.

    A fêmea já estava sendo uma má menina.

— Camilla! — Grunhiu o Alpha e só assim, ela despertou, se recompondo onde estava sentada.

— Que é?! — E ainda parecia brava pela interrupção.

    Ikronyx estava com um grande ego. O peito estufado de orgulho e voltou a se encostar na árvore, exibindo o máximo de masculinidade possível para que Camilla visse seus demais dotes. O formato do abdômen e o quão exercitado é. Os punhos pálidos e, mesmo assim, com veias salientes. Os ombros largos e enfim o rosto projetado e desenvolvido para ser sensual.

     Para cortejar mulheres e atrair fêmeas desavisadas à morte.

— Parece mais calma — apenas o ato dele falar com ela atraiu desgosto dos demais. — Bem melhor de quando eu estava me banhando.

    Desgraçado! Alguém murmurou bem lá no fundo.

     Ikronyx simplesmente não perdeu tempo e conduziu a conversa para onde ela se lembraria de sua nudez. E deu certo. Camilla mordeu os lábios com a lembrança e seu cheiro mudou levemente para um almiscarado excitante.

— E você acha apropriado tomar banho no meio da neve?

— Minha querida, eu durmo pelado no meio da neve — maldito macho! Camilla agora criaria fetiche com isso.

    Ela já podia imaginá-lo, nu, todo aberto com a ventania resfriando pontos mais rentáveis.

— Só falta ter hábito de transar no meio da neve — a fêmea também não perdia tempo.

— Todos nós temos — Grhyamor se manifestou, querendo um pouco dessa atenção toda. Alguns encontraram brechas para tentar se aproximar e outros, se sentiram mais aliviados de toda atenção deixar Ikronyx. — Você mesma pode comprovar.

— Ah, é? Onde? Não faço ideia do que está falando…

— Primeiro comigo e depois com o Alpha — o macho exclareceu, não apenas para ela, mas para Ikronyx. Para deixar claro a vantagem dele.

— Calúnia.

— Nega nosso momento na floresta? — O Alpha disse, pela primeira vez em muito tempo.

    O cheiro de Camilla ficou mais forte.

    A dominância na voz do macho a deixa excitada. O tom daquela única pergunta sugeria uma punição para uma mentira descarada como a que saiu da sua boca, a seguir:

— Nego.

    O Alpha se descolou da árvore.

     E o movimento fez o ambiente ficar mais quente para Camilla.

     Foi puro instinto se justificar, defender, fazer alguma coisa.

— Você não vai me tocar.

— Já toquei — o macho se aproxima, determinado a fazê-la engolir as palavras.

— Mas eu não vi seu pau. Então não valeu! — ele parou. — Vou saber se é mesmo teu pinto que entrou dentro de mim? Vai ver foi o dedo.

    Grhyamor teve que engolir novamente o riso.

     O Alpha parecia incrédulo com tamanha cara de pau dessa bruma. Se tornou puro deboche ela limpando as sujeiras abaixo da unha.

— E mais, foi a última vez.

     O macho entrou em alerta.

     Ele se abaixou próximo da fêmea, um pouco mais sorrateiro e manhoso.

— Não gostou, meu amor?

     O tom gentil também surgiu efeito. A fêmea se remexeu.

— Grhyamor eu já chupei. Se for pra escolher um, escolho ele que já conheço onde vou sentar! — Ikronyx fez uma careta e Grhyamor sorriu amplamente.

     Os olhos do albino pareciam levemente mais escuros.

     Com certeza, Camilla é uma bruma.

     O Alpha por fim, suspirou fundo e coçou os olhos. Se já é assim agora, imagina quando despertar a bruma? Alcançar o auge da satisfação, com hormônios sexuais predominando cada ato e seu pensamento reduzido a um único instinto: acasalar.

— Está com fome? — Perguntou o Alpha, enfim. O estômago da mulher respondeu. — Coma. Descanse. Temos mais tempo para chegar ao Monte Sukakpak.

    Foi Ikronyx quem se apressou em conferir o estado da carne para a fêmea. Ela não contestou, ainda sim…

— Por que devo confiar em vocês?

— Salvamos sua vida — ela abriu a boca para contestar e não teve tempo — e impedimos que fosse estuprada.

— Troquei um estuprador pelo outro?

— Não te estuprei — o macho afirmou. — Foi repentino, mas você me quis tanto quanto eu te quero.

    "Tanto quanto eu te quero"…

     Camilla sentia o sangue correr mais rápido. Esse jogo de palavras a deixa completamente sem jeito, é eletrizante e fora do comum. A dominância desse homem mexe com seu corpo.

— E você me quer? — Sussurrou perigosamente.

     O macho não hesitou.

— Muito.

— Acha que vai ter?

— Claro.

— E como pretende fazer isso? Com sexo?

— Pretendo te conquistar com quaisquer meios necessários!

     Ikronyx interrompeu a conversa, estendendo um espeto de carne assada. Ele concluiu:

— Todos aqui iremos!

— Todos?

— Todos!

     Camilla deu uma mordida na carne. O gosto era diferente do habitual. É puro, intenso e sem as milhões de química de carne industrializada. Não precisa de tempero, é gostoso por si só e estava assado na medida certa.

— Gostou? — Ikronyx perguntou, se sentando ao seu lado.

— Uhum! — E deu mais uma mordida. — Não é de humano não, né?

— A carne humana é mais gostosa — Grhyamor se aproximou.

    Camilla parou de mastigar.

— Já comeu carne humana?

— O que você acha? — Ikronyx se divertiu.

    Camilla os encarou. Um por um.

     Ikronyx sentado ao seu lado. Bháryox a baixado a frente e Grhyamor em pé ao lado de seu Alpha.

— Vocês… Vocês não vão me comer, não é?

— Gastronomicamente falando? — Grhyamor sorriu. — Improvável.

— Como assim?

— Nosso povo é rigoroso em muitas coisas — O Alpha, aquele mais apropriado para falar sobre o assunto, começou. — E liberal em outras. Não toleramos traições. De nenhum tipo.

— E de que forma exatamente eu os trairia? — Camilla riu. — Não é minha escolha estar aqui.

— Será e quando for, simplesmente não nos traia — esclareceu Ikronyx.

    Camilla enrijeceu o corpo. A tensão, o instinto e até a raiva começaram a predominar. Todos os sentimentos que estava reprimindo e a realidade de que está sozinha com um bando de lobisomens!

— Ótima forma de me conquistar: me ameaçando. Isso me dá mais motivos para voltar ao Brasil e nunca mais pisar aqui!

    Grhyamor se aproximou, mais sutil, calmo e gentil para diminuir o medo da mulher.

— Isso não é uma ameaça, querida — o macho se abaixou.

— E seria o quê?

     Um aviso. Um fato!

     Bruma ou não, mãe ou não, mulher ou não, ninguém ali irá perdoá-la se forem traídos. E para traição, resta apenas sangue.

     Mas isso talvez deixasse ela mais nervosa.

— Interpetre como quiser, mas nos conheça primeiro. Não somos criaturas simplesmente selvagens — disse calmamente. — Você vai gostar de ficar com a gente, de ser leal a nós.

— Prefiro o meu Brasil, meus pais e meus amigos!

— Terá que passar pela lei humana, primeiramente — o Alpha decidiu apelar. — O que acha que aconteceu com aqueles estupradores? Você quer ser acusada de assassinato? Nós impedimos que eles a tocassem, não há qualquer prova de não a sua palavra de que eles tentaram violá-la.

    Os olhos da mulher se arregalaram.

— Gravei no meu celular!

— O quê? Um áudio pedindo socorro? A voz deles apareceu?

     A mulher estava ficando nervosa. Mais do que ficaria ao cair na real de que está lidando com bestas assassinas!

— Veja bem, minha querida — Ikronyx disse. — No áudio você pedia socorro, certo? É só questão de tempo até verem, darem falta de você e prestarem queixa contra seu ex.

— Que está morto — ela concluiu, sem emoções.

— Não há corpo para comprovar. Eles simplesmente estão desaparecidos e você com eles — o macho piscou para Camilla. — De tempo em tempo. Fique um tempo conosco. Prometemos que não lhe faremos mal algum.

— Não me convenceu — ela murmurou, apreensiva.

    Grhyamor decidiu se sentar ao lado dela. Como o macho já lidou com ela anteriormente, estudou e interagiu, tomou a dianteira no assunto.

— A Montanha Sukakpak tem vistas excelentes para fotografaria — sugeriu. — Estará segura para se aventurar no nosso território, as chances de nos encontrar nu na paisagem é grande, terá comida e conforto a vontade. Não é isso que você veio fazer aqui no Alaska? Férias?

    Ela mordeu a bochecha.

     Fotografia? Paisagem? Homem pelado? Tudo na mesma frase?

     Tentador.

      Camilla cruzou os braços.

— Ainda não é o bastante!

     Ikronyx sorriu.

— Não gostamos de traições. Então, qual o sentido de trair nossa palavra? — O macho ergueu o maxilar, orgulhoso. — Prometemos que estará segura conosco!

    A fêmea continou a pensar.

— Sem canibalismo?

— Hm… comermos uns ao outros? — Grhyamor apontou para o restante do bando.

— Não, sem me comer!

— Degustar carne humana não é canibalismo — Bháryox afirmou. — Não somos da mesma espécie.

— Nessa forma, parece. Ah! É a primeira vez que lido com lobisomens, sacou? Não me enche! Isso é confuso!

— Então, se estivermos em nossa forma chrynnos, será menos confuso? — Grhyamor provocou.

— Não! — os machos afastaram as cabeças e as orelhas do tom elevado. — Essa é mais uma regra! Não quero nenhuma criatura medonha perto de mim! Não interessa a promessa, se eu acordar e ver um bicho homem-lobo quando eu acordar, eu vou gritar e vou embora!

    Dessa vez, até o Alpha riu

— Tudo bem — por fim, concordou.

     Talvez Camilla goste de ficar um pouco. Só um pouquinho!

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