C A P Í T U L O 47

Faltava uma hora para o amanhecer. A água do rio estava transparente, com as folhagens iluminando qualquer predador que estivesse em seu interior. Mas a margem estava escura. As gramas não brilham e a copa das árvores era o mais absoluto breu.

Até que os pares de olhos dourados foram vistos, refletindo qualquer luminosidade ambiente.

Estão por todos lados.

Dandara é uma figura pequena e trêmula saindo de seu esconderijo e proteção quando vultos escuros foram vistos se movendo entre as folhagens. Foi necessário coragem para que ela ousasse ir para o campo.

Para o nada.

Nem mesmo o capim podia lhe dar um conforto de camuflagem. Cobrindo e se enroscando até a altura do joelho, a vegetação não é mais do que um estorvo caso queira correr.

— Estou aqui! — ela elevou a voz, permitindo que ecoe pelo silêncio anormal do ambiente. — Mas não falo a mesma língua que vocês! Se alguém me compreende…

O final saiu mais baixo, mostrando sua hesitação. Em resposta, da árvore, alguma coisa caiu, se agachando na folhagem. Um conjunto de movimentos silencioso que Dandara, pouco a pouco, encontra um padrão.

Mas aquilo que se levantou não é uma fera.

É um homem.

Quando Mandão jogou a carta para longe do covil, essa foi a primeira exigência: um homem deve se apresentar. Uma fera em forma humana.

Mas não havia nada de humano naquele homem de pele negra, garras tão grandes que são visíveis em meio a sombra e olhos dourados refletindo a mínima iluminação ambiente. Ele se aproximou com a cautela de um felino e se mostrou enorme, robusto e quase completamente pelado.

Dandara precisou de mais coragem para não recuar.

Segunda exigência: deve manter uma distância de no mínimo dez metros. Apenas Dandara, sendo mais fraca, pode se aproximar caso queira.

Ele respeitou as exigências, parando entre a sombra e o que Dandara consegue ver de luz. E o que ela viu foram traços similares de um rosto nem bruto, nem delicado. Um homem formado, belo e fisicamente idêntico ao Comunicativo até mesmo no comprimento do cabelo.

— Me reconhece? — Dandara soube que revelou demais quando se surpreendeu até mesmo com a voz.

De fato, são mestres em analisar expressões faciais. Dandara não tinha como esconder, então o imitou:

— Você me conhece?

A convivência com seu povo trouxe resultados já que estava driblando uma confirmação óbvia. Dandara o reconhece, pois o já viu antes. Mas não era ele. O homem à frente não tinha o braço ferido e só poderia ser um dos irmãos de Comunicativo.

Irmão de uma Alpha. Filho de uma Alpha. Prole de um Bhetta.

Outro Gaamma, talvez?

— Não — ele respondeu. — Você não se apresentou.

— Sou Dandara.

— Sou Crynoux.

Dandara franziu o cenho. Dez segundos se passaram e ela já havia esquecido o nome. Só se lembra de ser alguma coisa com “crinos” igual a raça chrynnos e terminando em “nouz”, “nouxy” ou “noux”

— O que você quer? — Ela questiona.

Você — ele nem pensa.

Dandara decide se fingir de ignorante:

— E o que quer fazer comigo?

O homem a encarou, de cima a baixo, analisando cada aspecto do seu corpo.

— Te alimentar — ele inicia — e depois te levar para o meu covil. Se Hyffthytus for bondosa, em três meses estará grávida.

Ao final de suas palavras, ele levanta o olhar. Dandara não precisou de virar para saber que Mandão surgia entre a fenda do covil, atraído pela conversa.

A mera aparição do macho fazia outras sombras se moverem entre as árvores. Sombras grandes.

— E você acha que isso será tão simples?

— Será simples se você aceitar e vier de bom grado — o olhar dourado volta para ela, simples e firme. — E você precisa comer.

O constrangimento foi óbvio. Dandara estava tão magra assim? Ou isso era apenas ele escutando seu estômago?

— Não tem comida aqui.

O macho se virou sutilmente. Ele estaria completamente nu se não fosse pelo manto que caia sob os ombros, a arma que era presa em sua coxa ou a bolsa que carregava em seus ombros. De lá, ele tirou um embrulho simples, mas que fez o estômago da fêmea rugir em reconhecimento.

Pão.

Era fofo, fresco e do tamanho de sua mão.

— Tem uma aldeia de humanos nas proximidades — ele lhe revela. — Eles têm comida adequada para seu consumo.

Ele lhe estendeu o pão. Mas para pegá-lo, Dandara teria que se aproximar. Essa é sua estratégia.

Ela escutou o rosnando de Mandão. Ele não estava em sua forma feral, mas permanecia pronto para o combate.

Eles estavam muito mais próximos do covil do que da floresta. Então se o irmão de Comunicativo tentasse algo, haveria poucas chances de sucesso. Essa era a sua forma de tentar equilibrar o diálogo com um predador.

Mas Dandara olhou para Mandão. Um erro mortal!

Mas o macho não usou ao seu favor. Uma dúvida estava presente em seu olhar.

Se há comida boa pra ela, por que não pegaram?

Simplesmente porque eles estavam longe da aldeia, passando por lugares pouco movimentados para evitar chamar mais atenção. Se aproximaram do Senguell pela aldeia, dispostos a encontrar comida o suficiente para empanturrar Dandara de tudo que fosse gostoso. Até mesmo engordá-la de forma a ficar irreconhecível de tão feliz.

E ela precisa engordar. Sua magreza é completamente o oposto de saudável e piora a cada dia.

— Você iria me levar pra lá? Pra esses humanos?

— Você não é como eles — ele disse, simplesmente.

— Por quê?

— Você é uma humana considerada extremamente rara — ele confidencia. — Existem aqueles em nosso povo, por ai, que não acreditam que seja possível uma humana ser capaz de procriar conosco. Por isso você é diferente. Nós sabemos que é diferente, seja por instinto ou pelo cheiro.

— E se ficar provado que não posso engravidar?

Ele não esperava essa pergunta. Mas Dandara o viu claramente investigando… analisando. Ele sorri.

— E se ficar provado que você pode engravidar? — ele revida. — Você cheira a muitos machos. Já se perguntou por que tantos vão atrás de você?

Silêncio.

Dandara fez uma careta.

— Você é diferente. Então me responda, e se ficar provado que você pode engravidar?

Aquela discussão seria inútil. Eles são tão ou mais teimosos. Os machos tinham tanta certeza de ela pode engravidar quando Dandara acredita que não.

Então, cansada, ela pergunta:

— O que eu tenho que fazer… para me deixar em paz?

Ele abaixou a mão, mas mantinha o pão em mãos.

— Escolher — ele diz.

— Eu escolho ir embora.

— Ir pra onde? — ele revira os olhos. — Pra floresta? Pra morrer? Quer voltar a apanhar? É tão ruim assim ficar conosco? Afinal… como os machos lá dentro estão te tratando?

Cuidadoso sempre gentil. Capacho sempre buscando ajudá-la. Pilantra sempre procurando uma oportunidade para se aproximar. Mandão sempre lhe dando ordens. Mas no final, até Comunicativo foi amigável.

— E quando eles se cansarem? — Dandara questiona. — Quando vocês se irritarem comigo? Não serão socos e me deixar com hematomas ou o chicote a me deixar com cicatriz. Acabei de descobrir que vocês são canibais! Vocês são assustadoramente fortes! Afinal, que tipo de dando vocês pode provocar a alguém como eu se estiverem bravos?

O homem aperta o olhar.

Ah, se ela soubesse qual foi sua última refeição…

— Não iremos te machucar — ele promete. Mas era apenas isso…

Palavras.

Estão gentis agora. Mas e depois que conseguirem o que querem?

Seu pensamento foi interrompido quando ele lhe voltou a estender o pão.

— Não estamos aqui para te machucar, pequena. Você só precisa nos dar uma chance para ver que não mentimos. Odiamos mentiras.

Palavras tão similares…

Palavras tão tentadoras quanto aquele pão.

E ela foi… se aproximou com tanto medo e hesitação que o macho teve que se controlar para não expressar o quão fofo parecia. Não é como se dez metros pudesse realmente impedi-lo de atacar. Mas lá estava ela, pegando o pão de sua mão e correndo como um bicho assustado.

Ela nem cheirou, não verificou… só começou a comer com tanta veracidade que a maior preocupação de Mandão foi na possibilidade dela se engasgar.

O macho continuou onde estava, tranquilo e sereno. Mas perguntou num tom mais baixo:

— Você está muito traumatizada, não é? 

Dandara não respondeu. Todas as suas experiências com homens são ruins. Mesmo sendo lobisomens, as garras a faziam lembrar que podem ser muito piores.

Sim, ela está traumatizada e tem medo. É sábio ter medo…

Dandara novamente se vira, — outro erro fatal — quando escuta a aproximação propositalmente barulhenta de Cuidadoso. O macho foi atraído pelo seu silêncio.

— Você sabe o que nós queremos — O irmão de Comunicativo afirma. — Agora eu te pergunto: o que você realmente quer?

O silêncio prossegue.

Dandara olha para baixo, para os detalhes da vegetação, mas… nada lhe vem à mente.

Exceto algo.

— Liberdade — ela o encara.

— E você já não é livre? — ele prossegue. — Algum de nós tentou força-la a algo?

Ela levanta as sobrancelhas, umedecendo a boca e se preparando…

Algum adulto — mas o homem rapidamente corrige. Dandara o olhar com extrema desconfiança.

— Vocês vivem me sequestrando — ela afirma. — Não é como se eu pudesse decidir pra onde vou.

Ele sorri.

— E você já decidiu para onde quer ir? — ele pergunta. — Com quem quer ficar?

Ela novamente olha para trás. Pilantra também surgia entre a fenda, encarando com um alerta mortal o macho a frente. Avisando das consequências de se aproveitar das brechas de Dandara e atacar.

Mas com três adultos para fora do covil e tão perto, aqueles que estavam na floresta também sentem o direito de reforçar a segurança Crynoux. Outros dois se aproximam, em forma de homem.

Um deles era o terceiro irmão de Comunicativo.

Lado a lado com Crynoux eram tão idênticos que, por um momento, Dandara pensou ser uma miragem. O macho ao lado, embora parecido, era diferente e se destacava com uma cicatriz severa no peito que chama a atenção de Mandão.

Era as garras do Alpha.

Um sinal de que o líder do bando estava ficando raivoso. Mais intolerante. A marca é recente… Talvez de uma semana.

Como ele está desde então?

Uma coisa é certa, se aquele macho respira, significa que morrerá antes de ousar qualquer mínima afronta ao macho Alpha já que não foi apenas dominado, tal como Mandão dominou Pilantra, mas também foi subjugado.

— Humana — Crynoux prossegue com o diálogo — você quer voltar a ser uma escrava?

A pergunta foi simples, sem ameaças ou duplas intenções. A resposta também foi simples:

— Não.

— Se voltar para a sua terra, será uma escrava. Então não pode voltar — ele aponta para a floresta. — Os perigos desse lugar são grandes, sem nossa proteção, você não sobreviveria. Você quer morrer?

Dandara o encarou nos olhos.

— Sim.

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