C A P Í T U L O 36
O covil de um chrynnos geralmente é escondido atrás de uma cachoeira com cavernas artificiais esculpidas por eles próprios. É um lugar misterioso e fascinante.
Apesar de sua natureza selvagem, o covil do lobisomem não é totalmente sombrio. Há uma sensação de harmonia com a natureza ao seu redor. Plantas exuberantes adornam as paredes da caverna, e algumas flores silvestres desabrocham em cantos estratégicos, trazendo um toque de cor e delicadeza ao local.
Até se aventurar mais ao fundo.
O covil pode ser a casa deles, então é bem cuidado, excessivamente limpo… e vazio. Cada passo em meio aos corredores largos, era um som sutil a ser ecoado anunciando qualquer invasor aos ouvidos sutis.
Além de largo, os corredores são escuros, portanto, Dandara não pode ver os detalhes nas paredes quando foi guiada por Cuidadoso para o fundo. Ela desceu uma escada antes que os primeiros raios de luzes de cristais e cogumelos lhe dessem uma ideia do ambiente ao redor.
Ela não poderia dizer que é igual uma casa. O ambiente a sua frente é amplo com algumas aberturas nas paredes que deveriam ser entradas para dormitórios, visto o excesso de mantas e peles de animais.
Ao centro, havia um espaço próprio para uma fogueira e um pequeno vão de saída em forma de rachadura no teto para a fumaça.
Naquele ambiente, Cuidadoso pegou alguns tecidos leves e o levou em direção a Dandara.
Ele limpou o rosto dela com uma pressão quase bruta. Foi uma surpresa, mas a graça em seu sorriso disse que ele estava brincando com ela.
Até Mandão observou a interação do casal.
— De chá a ela — e então, ordenou.
A expressão de Cuidadoso se tornou entediante, neutra e sem emoções. O brilho se foi do olhar.
Dandara quis saber o que Mandão lhe disse e encarou o macaquinho. Mas ele estava distraído olhando a escuridão acima como se esperasse que as feras viessem.
Mas a decisão de Mandão já era algo que Cuidadoso pretendia fazer. Pois, se Dandara começar a tremer igual um raygaru prestes a acasalar, vão achá-la.
Raygaru é uma grande criatura alada. Dandara já deve tê-lo visto voar pelo subterrâneo. São belos, com cores vibrantes e detalhes negros. Durante o acasalamento, os machos pousam no ambiente mais privilegiado e tremem os músculos até a penugem farfalhar. A tremedeira faz o bico bater e quanto mais tremem, melhor chama a atenção da fêmea.
Tomar um chá calmante não apenas amenizaria os efeitos de um possível trauma, mas dificultaria os machos de acharem-na.
— O que vão fazer? — Dandara indagou.
Cuidadoso chamou a atenção do macaquinho e Dandara repetiu a pergunta. Logo, veio a resposta:
— "Vamos preparar você." — Ele bufou. — Eu quero sair daqui!
— Me preparar? E-Eu não… — Dandara já se imaginava no espeto.
Cuidadoso encurtou a distância. A presença masculina a envolveu num misto de nervosismo instintivo. Mas ele tocou sua cintura e a impediu de se afastar.
— A intenção não é nos vencer — ele acaricia seu rosto, passando as costas das garras pela pele e segurando seu queixo, o que causa sensibilidade em todo o maxilar. — A intenção é passar por nós e te pegar. Portanto, você vai ser uma boa menina e fazer o que eu mandar, não é, pequena?
Logo o macaquinho traduziu e Dandara fez o que sempre foi natural para ela: dizer sim e obedecer.
Foi menos de um segundo, mas Cuidadoso viu um brilho a mais em seus olhos estrelados.
Sua alma se entristece com a opressão. É nesse momento que seu espírito se ilumina em pedido de socorro.
Ele não resistiu.
Ele selou um delicado beijo no centro de sua testa e murmurou, rouco:
— Eu não preciso saber o seu idioma para que você saiba que tudo ficará bem. Você saberá pelas minhas ações, humana. Eu prometo.
Dandara fechou os olhos.
— Por que eles estão atrás de mim? — ela sussurrou. — Eles vão me estup…
No final, ela mal tinha voz para questionar. Foi o tom da pergunta que atraiu até Mandão de volta.
Ele havia desaparecido enquanto Dandara era, novamente, acalmada por Cuidadoso.
E estava totalmente diferente de antes.
Não era mais um homem.
É um guerreiro banhado em sangue dos seus inimigos, e preparado para mais!
Um bárbaro semi nu, com adornos de aço e ouro. Um cinto de couro prende uma adaga ao lado de suas poderosas coxas com coágulos de sangue.
Ele está descalço, mas a panturrilha está perfeitamente protegida por placas de aço negro semelhante ao imponente bracelete em seus pulsos. Logo nas costas, um machado se faz presente, reluzindo runas antigas, um símbolo de seu poder e destreza. A lâmina brilha com um fulgor delicado e assassino.
— Como ele…?
Não é uma armadura. O peitoral robusto e delineado está à mostra e boa parte dos pontos vitais expostos incluindo as genitais.
A resposta veio do macaquinho:
— Essa é a casa deles — ele não se referia ao covil, Dandara notou. Ele se referia ao território que eles dominam. — É natural que uma casa tenha tudo que é necessário para os moradores, não é?
E o covil tinha isso.
Numa das câmeras mais altas cuja entrada é um orifícios no teto, repousam roupas e autênticas indumentárias de proteção. Os combates são o fascínio dos chrynnos e armas estão espalhadas por todos os cantos. Algumas delas foram até habilmente camufladas em árvores meticulosamente selecionadas para que suas madeiras sejam o lar de lâminas de aço hyffthyturiano. É um verdadeiro tesouro de armamento, pronto para ser empunhado pelos guerreiros quando necessário.
Ninguém conhece a própria casa como o dono.
No entanto…
Cuidadoso aperta o olhar, com desconfiança.
Um chrynnos jamais veste uma armadura, por mais simples que seja, para lutar contra seu próprio povo. Um chrynnos jamais empunha uma arma contra sua alcatéia. Se tiver que matar, será por habilidade e força bruta.
Mandão não veste uma armadura. No entanto, não vai lutar apenas para impedir de levarem a humana.
Então a pergunta se repete:
— O que vai fazer?
O macaquinho expressa suas dúvidas.
Cuidadoso ergue uma mão em sinal de apaziguamento, mas desta vez, Dandara não está disposta a se acalmar facilmente. Não importa as consequências!
— Não! — ela exclama com determinação, interrompendo qualquer tentativa de silenciá-la.
Ele para…
Os olhos de Dandara estão marejados, refletindo sua vulnerabilidade e o receio latente que a consome por dentro. Ela encara Cuidadoso, buscando respostas em seu olhar, desesperada por um mínimo de compreensão.
Tão vulnerável! Tão medrosa…
Seus lábios trêmulos lutam para formar as palavras, enquanto o medo inunda sua voz:
— Eu não vou transar com nenhum de vocês! Eu não vou ter um filho de nenhum de vocês! - Sua voz ecoa sua raiva. — Essas coisas atrás de mim, vão… vão… Eles vão me estuprar?!
As lágrimas começam a escorrer pelo rosto, testemunhas silenciosas de sua aflição. Seus ombros caem, a força se esvaindo de seu corpo, enquanto ela se rende à sensação de impotência.
Uma sensação tão familialiar…
Com um último fio de esperança, ela implora a Cuidadoso, seu protetor de confiança, que ofereça as respostas tão ansiadas. O medo a envolve como uma névoa densa, fazendo-a se sentir ainda mais perdida em meio a um mundo desconhecido.
O passarinho está criando asas.
Um conflito e os aguarda.
— Me respondam! — e ela exige respostas.
— Cale porra da boca!
Dandara paralisou onde estava.
A voz foi um estrondo poderoso de ninguém menos do que Capacho, quase um rosnado percorrendo sua espinha e enriquecendo seus músculos. Ela sentiu arripios que, nunca em sua vida, já havia sentido antes.
E então encarou o macaquinho.
Mandão e Cuidadoso observou tanto Pilantra quando o rapaz surgir das sombras. Capacho estava furioso, com um arranhão severo em seu bíceps e sangrando.
Mas nem isso deixou de enraivecer Mandão, que o atacou sem a menor hesitação.
— Jesus! — Dandara pulou sobre Cuidadoso, quando o grande macho sem muito esforço obrigou Capacho a se ajoelhar. A se submeter.
Pilantra encarou Dandara. Ele também estava bravo.
— Você vai acasalar, Dandara! Eu prometo que vai!
Não! As palavras foram digeridas por Dandara como um gosto ruim.
Acasalamento!
Ela se virou para Mandão. Para Capacho aos seus pés, imensamente submisso e ferido. Para Cuidadoso que permanecia paralisado desde o momento que ela o agarrou.
Ela se afastou e abraçou a si mesma.
Cuidadoso respirou.
Foi a terceira vez que ela o surpreende. Ele agradece que, até o momento, tenha sido com ele invés de um macho mais volátil.
Dandara escondeu o rosto entre os joelhos e respirou, como se estivesse prestes a desistir de segurar as lágrimas de total impotencia. Ela não aguentava mais.
Dandara não estava mais suportando fugir e chorar tanto quanto não aguentava mais apanhar e ser desejada. Por que todos os homens a querem, afinal?
Ela deveria ter nascido branca… então ela seria proibida a todos exceto o marido. Um marido rico.
Controle! Ela precisa de controle sobre o próprio corpo quando sente o suor frio escorrer por suas têmporas. E a tremedeira lhe assolar.
Dandara esperou que Cuidadoso se aproximasse, lhe tocasse de forma gentil e tentasse lhe acalmar como era de costume. Mas a mão que lhe tocou é imensamente pesada… e rígida. Ele não quis consolar, ele quis que ela olhasse em seus olhos.
Mandou ela olha-lo sem que nenhuma palavra fosse dita.
Cuidadoso estava do outro lado da sala, sério.
Dandara se afastou quando observou a face rígida de Mandão, ainda sujo de sangue. Ela se lembrou de que, quando o conheceu, ele também estava sujo. O sangue de seus rivais se acumularam na pelagem negra que manchou a água de vermelho quando mergulhou atrás dela.
Ela entreabriu os lábios e murmurou.
— Me matem de uma vez. Não aguento mais…
E seja rápido.
O macaquinho traduziu.
Cuidadoso fechou os olhos e respirou fundo. Capacho ficou mais calmo e Pilantra quieto.
Mas Mandão… ele arqueou a sobrancelha. E a puxou para cima, forçando a se levantar. Com o uso de sua mínima força, a empurrou em direção a saída mais próxima.
Uma ordem foi dita.
E traduzida:
— Ele quer que a gente entre — o macaquinho foi o primeiro a não constatar, correndo para um novo túnel. — Vem logo, idiota! Ele quer que a gente obedeça e parece bravo!
O primata ficou em silêncio quando ouviu o rosnando de Pilantra. Foi esse rosnado deu impulso para Dandara seguir em frente.
— Pra onde está me levando?! — Mandão, logo atrás e não pareceu se importar com seus questionamentos. Ele queria estar sozinho com a humana e assim estaria.
Nem Cuidadoso, nem Pilantra e nem ninguém impediria.
Algum leitor novo por aí? 👀
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