C A P Í T U L O 33
Sangue.
Carne.
Vísceras.
Cortes profundos feitos por grandes garras.
Garras maiores que as de um chrynnos.
Mandão estava em frente a dois cadáveres estraçalhados de adolescentes. Jovens machos ousados e provavelmente imprudentes demais.
Os membros retorcidos e ossos expostos testemunhavam a violência desmedida que haviam enfrentado. Os rostos outrora cheios de juventude e vivacidade agora estavam desfigurados, os olhos vazios refletindo o completo nada. O sangue tingia o solo.
A expressão de Mandão era sombria, enquanto o olhar percorria cada detalhe reconhecendo o que havia levado esses jovens à sua trágica queda.
Ousados…
Porém, fracos demais para o que os atacou.
Há uma marca de seis dedos firmes na carne. Essa assinatura peculiar é inconfundível.
A profundidade da mordida revela a força e a brutalidade com que foi infligida, indicando claramente que um predador experiente e implacável esteve ali. Mandão sabe que não se trata de um simples jovem desavisado, mas sim de um adulto, um ser formidável em sua essência.
Todos os órgãos nutritivos foram arrancados, deixando apenas um vazio sinistro. O agressor se alimentou de sua presa, não deixando nada para trás além de destroços.
Mas há algo ainda mais perturbador. Os ouvidos das vítimas estão cobertos de sangue coagulado.
Estridentes…
O predador ainda está no rastro de Dandara.
Mandão sentiu a presença deles momentos antes de ouvir a vegetação farfalhar.
Ele se ergueu com determinação, girando seu corpo para encarar quatro chrynnos que se aproximavam. Eram machos imponentes, com olhos ferozes e dentes à mostra, sedentas por combate.
Vieram atrás de Dandara. Também.
Ele iniciou um gradual rosnado.
Para chegar a Dandara, teriam que passar por ele.
*
Magro.
Robusto.
Gordo.
Dandara estava familiarizada com os diferentes tipos de homens que encontrava, sempre categorizando-os de forma simplificada. Porém, além dos magrelos como ela e dos gordos pomposos do Brasil, havia indivíduos como Alexandre: de porte robusto, embora não excessivamente, com braços levemente flácidos apesar dos músculos. E apenas uma ou outra marquinha discreta em seu abdômen.
No entanto, conheceu Cuidadoso.
Dandara não teve dificuldade em descrevê-lo como um homem de porte imponente. Seu físico era uma obra-prima de músculos bem definidos e salientes, transmitindo uma sensação de força e vigor. Ele se destaca entre os demais.
Mas não exagerado…
Não como Mandão.
Sempre que o olha, se surpreende. O homem é enorme!
Mas se ela fosse reparar bem, Cuidadoso é quase da mesma altura.
Sua grandiosidade estava nos músculos. Eram quase excessivos. Os bíceps eram volumosos e pesados, enquanto os gomos de seu abdômen pareciam esculpidos em pedra. Embora não pudesse rotulá-lo como um gigante e não considerasse sua musculatura tão completamente exagerada, ele é claramente maior do que Cuidadoso.
Para a surpresa de Dandara, Cuidadoso é o irmão mais velho.
Curiosamente, a expressão quase sempre preguiçosa de Cuidadoso e seus traços mais delicados lhe davam uma aparência mais jovial, muito diferente da face marcante de Mandão que o torna fisicamente mais bonito, mais velho e perigoso.
E agora Dandara conhecia o propósito do grande tamanho de seus músculos.
Mandão tem um irmão gêmeo.
E ele é o Alpha.
O líder.
E por algum motivo, Mandão está insatisfeito com essa liderança e desafia sua autoridade.
Porém, o Alpha é o macho mais forte da alcatéia, segundo o macaquinho. E naquele lugar, a autoridade não é definida pelo sangue e sim, pela competência.
E dominância.
E violência.
Todas as características tornam o macho Alpha extremamente violento, capaz de rasgar a garganta de Mandão, seu irmão gêmeo, se for desafiado. Por isso o homem se mantém afastado, comendo mais, treinando excessivamente e aumentando seu tamanho.
Mais…
Mais.
Mais!
Mandão está ficando mais forte.
Tão forte, para enfrentar um combate violento e ganhar.
Mas, quem estava se exercitando sob observação de Dandara, é Cuidadoso.
E ele não para.
Já fazia mais de meia hora que ele estava no chão, rente à margem do rio em uma constante flexão de braços. Incansável. A pele estava úmida com a neblina, mas ele demorou até demonstrar algum sinal de cansaço.
Logo, ele se aproximou do rio e refrescou o corpo quente com a água morna. Para a total surpresa da humana, ele despiu-se de suas vestes, revelando uma forma esplêndida... uma perfeição escultural. Seu mergulho nas águas do rio foi uma visão de pura elegância.
A medida que o amanhecer avançava, a água adquire uma tonalidade cada vez mais profunda, refletindo a luz das pedras preciosas no teto do subterrâneo. Era como se o homem estivesse nadando em meio a um céu estrelado, criando uma imagem fascinante em volta de toda sua glória.
Nu.
Poderoso!
Dandara não conseguia tirar os olhos dele. Não que ela tivesse vergonha da nudez masculina. Ver um pênis já havia se tornado tão natural quanto sua tentativa inútil de contar as estrelas durante a noite. Mas ele é… diferente.
Nenhum outro tem uma beleza tão avassaladora.
Nenhum outro é capaz de mudar de forma.
Saber que ele está nu lhe causa um misto de nervosismo que ela não está familiarizada. Então ela agradeceu o fato de não ver nada devido à água.
Nenhum outro chegaria aos seus pés.
Nenhum outro foi capaz de prender sua atenção.
Nenhum outro chegaria aos seus pés, exceto outro chrynnos.
Muito menos teria o impacto eletrizante numa mistura perfeita de medo e atração. Naquele momento, ele parecia roubar o seu ar. Dandara estava agachada rente a margem, enchendo o segundo cantil de água quando ele se pôs em sua frente.
Ele emergiu com toda sua glória. Sua pele gotejando com a perfeita umidade de cada fio de cabelo escorrendo sobre sua pele negra. As gotas escorriam delicadamente por seu rosto, se acumulavam no queixo e caíam em seu peito musculoso, deslizando pelo abdômen esculpido em direção ao…
Dandara tentou não olhar e, por instinto, falou:
— Me desculpe, eu não quis… — O homem se agachou a sua frente.
Coxas contraídas e pernas abertas, dando-lhe uma visão claramente privilegiada.
Ele não tem pudor algum!
Ela se calou quando o sentiu tocar seu queixo com delicadeza que ela só encontrava em seu toque.
Ele abriu a boca e disse algumas poucas palavras. Dandara conseguiu distinguir o tom mais rouco e grave quando seus nervos reagiriam e borboletas dançaram no estômago.
Ela quase olhou apenas para conferir se ele estava, ou não, excitado. Porém, ela tinha medo da resposta e do que isso provavelmente significaria se estivesse… enrijecido.
Em seguida, a voz do macaquinho, incapaz de se afastar, seu fiel acompanhante e provável único — forçado — amigo, traduziu:
— "Como você está, pequena?"
Dandara o olhou por entre as grossas pestanas.
— Pequena?
O macaquinho traduziu.
Ele não sorriu. Os músculos faciais não são tão flexíveis nessa forma, fazendo com que sua expressão seja na maior parte, neutra. Mas os olhos se apertaram com uma graça sutil.
Seus olhos âmbar deslizaram sobre o corpo de Dandara, percorrendo cada curva com uma intensidade magnética. Ela agora usava uma camisa emprestada de Mandão. Apesar de ter se alimentado recentemente e sua pele ter adquirido uma aparência mais saudável, não houve um aumento perceptível em sua estatura humana.
No entanto, o constante estresse e a profunda desconfiança que a atormentavam não permitiam que ela encontrasse descanso pleno. Olheiras se formavam sob seus olhos, que começavam a ganhar um tom avermelhado. Mas, ao olhar para suas íris negras, brilhantes como estrelas, ele viu seu reflexo: macho grande em comparação a ela.
Dandara não precisou de mais nenhuma explicação.
Então, ele sorriu.
— Eu… estou bem — por fim, ela respondeu.
Cuidadoso ronronou uma única palavra. O som reverberou quase primitivo pelo corpo e arrepiou o final da espinha de Dandara. A sensação não melhorou com a tradução.
— "Mentirosa" — Dandara o encarou fixamente. Coisas ruins costumam acontecer quando ela é chamada de mentirosa.
O macaquinho mostrou os dentes no que seria sua versão medonha de sorriso. Tirou toda a fofura.
— O quê? — ela murmurou.
Cuidadoso se ergueu com a graciosidade de um felino preguiçoso. Dandara não evitou o constrangimento e desviou o olhar para qualquer coisa exceto o que estava entre suas pernas. Nesse momento, ele estendeu a mão em sua direção, oferecendo ajuda.
No entanto, ela recusou a gentileza e se levantou por conta própria, sentindo os joelhos estalarem e as pernas dormentes protestarem.
Ele pronunciou mais algumas palavras. Cada uma, se tornou uma eternidade angustiante por Dandara não ser capaz de entender o significado imediato de cada uma delas.
Foi um alívio quando o macaquinho começou a tradução:
— "Humanos costumam temer aquilo que não compreendem. E você nos teme" — de fato, ela estremece de medo e preferia muito mais uma surra de Alexandre do que o terror de ser caçada pela floresta por eles. De novo. As vezes, o conhecido é muito melhor do que o desconhecido. Com Alexandre, ela sabia o que esperar. — "Então permita-me lhe fornecer algumas informações".
Dandara aprendeu da pior forma a não ser expressiva demais. Mas quando o macho se afastou indo em direção aos seus pertences abandonados na areia negra ao redor do rio, ela não evitou de olhar para suas nedegas redondas e arquear uma sobrancelha.
Alexandre poderia ser bonito segundo os padrões humanos, mas tinha a bunda caída. Santiago tinha espinhas. Os mais gordinhos… meu Deus! Dandara já foi tocada por homens sentindo cheiro de merda depois deles demorarem uma eternidade no banheiro.
Ela sempre considerou as nádegas se um homem feia — isso, quando eles tinham alguma coisa — mas as de Cuidadoso… Sem marcas. Redondas. Firmes. Não é um spoiler de suas partes da frente nem quando ele se agachou e revirou seus pertences.
Ele estendeu uma agada.
O coração dela, disparou.
Era um repreensão a sua taradeza?
Dandara arregalou os olhos, largou o cantil na margem do rio e se afastou como se já visualizasse o que estava por vir.
Ela imaginou… porque é o que queria fazer com todos que olharam para sua bunda pelada: sacar uma faca e esfaquear todos aqueles tarados putridos.
Cuidados se aproximou.
Dandara teria se desculpado se a gagueira permitisse. O macho apertou o olhar com uma leve desconfiança e encarou o macaquinho falante. Nem o primata entendia o que saia de sua boca.
Ela tentou se afastar.
Não conseguiu.
Cuidadoso agarrou seu braço, a imobilizou com facilidade contra seu coro quente.
— Shhh! — Ele encarou sua alma através dos olhos. — Calminha, minha pequena. Calma!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top