C A P Í T U L O 25
O precipício é de cinquenta metros.
As pedras são úmidas, com neblina densa nas proximidades.
Dandara desceria nas costas de um lobisomem.
O macaquinho se agarrou a ela, e ela subiu com toda a apreensão às costas de Cuidadoso de forma que suas pernas tentem se cruzar na cintura robusta. Ela foi orientada a se agarrar aos pelos da juba, mas evitar passar os braços pelo pescoço.
O corpo do chrynnos é sensível.
Ela não estava confiante, mas Capacho e o Pilantra prenderam ela com cordas, para evitar deslizes e garantir sua segurança.
— Onde acharam essas cordas? — Ela questionou.
— Há um covil abaixo de onde estamos — O Pilantra respondeu. Naquela altura, ela já havia esquecido seu nome e principalmente o nome do macho que queria matá-la. — A entrada é pelo precipício. Você vai ver quando passar.
De fato, ela viu.
Ela viu o mundo rodar quando Cuidadoso se levantou, alto e imponente. Ela sentiu a vertigem de quando ele se aproximou da beira do precipício e viu… uma floresta vasta ao amanhecer, com o brilho das plantas começando a se apagar.
Os pássaros levantando vôo e densa neblina cobrindo as águas. Neblina quente, arrepiando os poros de sua pele.
A fera deu as costas, se agachou e desceu devagar. Dandara ouviu o seu posicionamento delicado. Mas estremeceu quando observou as garras em suas mãos em ação. Elas se agarram à mais lisa das rochas com uma facilidade assustadora.
E ele desceu.
A exatos três metros abaixo, Dandara viu a entrada do covil. Era uma caverna levemente escura quase se assemelhando a uma sala de estar, com tapetes de pele de animais, uma mesa de pedra e almofadas ao fundo. Havia também um corredor, mas antes que Dandara pudesse ver mais, a fera desceu.
Ele parou e olhou para cima.
Duas criaturas estavam à beira do precipício. Capacho e Pilantra. Dandara soube diferencia-los em sua forma feral pela diferença de tamanho. Um apresentava um porte de adulto e pareceu mais confiante, trocando leves rosnando com o menor e tão mais esguio que ela quase o confundiu com um adolescente.
Capacho é o mais jovem.
Pilantra o empurrou.
Ele caiu pela mortal queda de cinquenta metros.
Mas com uma habilidade monstruosa, se agarrou as rochas próximo de onde Cuidadoso estava. Seu corpo esguio lhe forneceu essa facilidade e as garras, um apoio seguro. Ele encarou a humana e dobrou as orelhas.
Dandara jurou ver um sorriso em sua faceta de lobo.
Pilantra, por outro lado, se jogou, usando apenas uma única mão para deslizar até a entrada do covil. Ele entrou com facilidade e deitou ali, na beira, pousando a cabeça sobre as mãos e balançando o rabo. O mesmo sorriso de um, foi visto no rosto de outro.
Cuidadoso bufou.
— Estão se exibindo pra você — o macaquinho murmurou contra o peito de Dandara, também admirando as excepcionais habilidades de escalada.
Habilidades muito bem desenvolvidas.
Cuidadoso continuou a descer com a mesma facilidade que os demais machos. Só que sem interesse nenhum em tentar manobras arriscadas apenas para ganhar a atenção de Dandara. No entanto, também não se importava. Foram esses movimentos que a distraíram e manteve sua atenção no alto.
O que antes pareciam machos de pouca palavras, brincaram entre eles. Capacho empurrou Pilantra que caiu e agarrou as pernas do mais jovem. Capacho tentou chutar seu rosto, mas ele já estava fixo na rocha e o puxou para baixo.
Dandara perdeu o fôlego quando um deles quase ficou de cabeça para baixo. E o pior foi novamente ver a piscadela de confiança que ele lhe lançou. Esse era o Pilantra!
O medo era inexistente. Aquela é a natureza deles, com braços longos e fortes para sustentar o peso e os puxar para cima. Garras feitas, não apenas para matar e estraçalhar, mas para facilitar qualquer escalada que façam.
Pela terceira vez no percurso, Cuidadoso suspirou.
Foi nesse momento que Capacho deu as costas para as rochas, se sustentando unicamente para com as mãos e as costas dos pés. Era um demônio na parede em uma posição que fez Cuidadoso interromper o percurso e Pilantra parar onde estava.
Dandara viu o peito de Capacho subir e descer. Até ele sabe que aquela posição não é segura. Não é comum. O peito de frente a parede garante melhor controle. Mas ele estava de costas.
Ele encarou Dandara, o chão e além.
Cuidadoso dobrou as orelhas no mesmo momento em que Pilantra levantou as dele. O macho estava a vinte metros distante do solo quando simplesmente saltou.
Dandara prendeu o grito e Cuidadoso virou metade do corpo para ver.
As árvores eram altas e ele as usou para amortecer a queda, quebrando galhos finos e grossos. A coitada da árvore estremeceu e, por um momento, Dandara pensou ter ouvido um grunhido de dor.
Capacho saiu do limite da floresta mancando com galhos presos a sua juba. Por fim, ele sentou, dolorido e abanou o rabo com uma certa felicidade que Dan tivesse visto. Que ele havia conseguido impressionar até Cuidadoso.
Que Pilantra se sentiu ofuscado.
Cuidadoso o macho mais acima, com tédio. E as feições de Pilantra de igualaram a alguém que não seria tão maluco assim.
Ele tentou um truque menos chamativo que simplesmente era se desprender da rocha, deixar o corpo cair e se segurar dez metros de queda livre de passou.
Pilantra parou ao lado de Dandara.
Cuidadoso continuou encarando em busca de algum truque menos óbvio. O rabo de Capacho continuava a abanar.
Pilantra bufou e desceu, desistindo de impressionar.
No chão, ele sentou ao lado de Capacho.
Faltava dez metros para Cuidadoso terminar. A fera se agarrava com auxilio de uma única mão e mais da metade do corpo estava suspenso no ar. Dandara perdeu o ar quando o viu se deixando perder o equilíbrio.
Ele caiu.
Dandara se agarrou a ele com força, sem perceber que o puxava para baixo. Ele cairia em cima dela! Ela já se sentia sendo esmagada por aquele corpo pesado.
Então ele deixou a gravidade o guiar. Dandara sentiu a coluna da criatura se tornando flexível. O corpo se movendo. O mundo girou, girou e girou. Ele aterrissou com as suas pernas e suas mãos fixas no chão.
Dandara apenas bateu a cabeça contra as costas felpudas e o coração acelerado. Ela suspirou ofegante.
Quando Dandara abriu os olhos, tanto Capacho quanto Pilantra estavam de orelhas abaixadas e desgostosos. O macaquinho estava com o pelo estufado e Dandara ofegante.
Um movimento simples de um salto minimamente flexível, mas que fez ela sentir a adrenalina e emoções que vão além do medo. Fez ela sentir a habilidade e precisão dele.
Dandara já estava pronta para descer e andar com suas próprias pernas quando Cuidadoso se levantou, esticando os próprios músculos.
— Eu não vou descer?! — Ela perguntou.
Quem respondeu foi Capacho e Pilantra, lado a lado, com uma negativa sincronizada com as cabeças.
Cuidadoso coçou a nuca, acariciando agora os supostos cabelos que não tem em sua forma humana. Logo, ele ajeitou as cordas ao corpo, se preparando realmente para caminhar com Dandara em suas costas.
Quando os demais machos se levantaram, Dandara ainda se sentiu no topo do precipício. Cuidadoso é uma cabeça maior. É mais imponente e exige maior respeito apenas com sua simples presença.
Ela só não tinha reparado, com toda a discrição que ele aparentava.
Algo típico de sua personalidade. Enquanto Pilantra marcava sua presença e Capacho buscava brechas, Cuidadoso observou. Estudou.
Ambas as feras baixaram a cabeça quando ele decidiu tomar a dianteira.
Enquanto Dandara estivesse com o Cuidadoso, os demais machos não chegariam perto.
*
O ritmo de caminhada dos chrynnos aumentou. E Dandara não mais podia reclamar de cansaço. Apesar da hesitação, o tempo passou e nenhuma das criaturas lhe atacou.
Pelo contrário, Pilantra e Capacho pareciam determinados a chamar atenção da humana, vez ou outra aparecendo em seu campo de visão e provocando o outro.
Dandara não conteve a risada quando observou a sagacidade de Pilantra em se aproximar de Capacho apenas para morder sua coxa. Nenhum sangue foi arrancado, era uma pura provocação que fez a criatura saltar e correr atrás da segunda fera.
Eram duas crianças travessas que precisaram serem repreendidas por Cuidadoso. Apenas um rosnado e eles ficaram quietos.
Ele já estava particularmente cansado de dois machos tentando chamar a atenção de sua fêmea a todos custo. Então quando não tinha mais palhaçadas para distrai-la, a humana novamente surpreendeu:
Ela deitou a cabeça na juba de Cuidadoso.
Ele parou.
Dandara estava tão quieta que ele precisou mover as orelhas para tentar escutar sua respiração e seus batimentos cardíacos. Ao mesmo tempo, sentiu a humana tão pesada… cansada.
Depois de tanto estresse, ela não dormiu a noite. Os machos confirmam a exaustão, mas não a dormência.
Ela estava atenta. E só voltou a relaxar quando Cuidadoso voltou a seguir sua jornada como se, de fato, não se importasse que ela se acomodasse em suas costas.
A pelagem da juba é tão confortável…
Os machos pararam de querer chamar atenção e Dandara só passou a sentir o ritmo da caminhada de Cuidadoso. Ela via as árvores passando e os machos o acompanhando.
— Qual o tamanho desse lugar? — Ela murmurou.
Apesar da orelha dos machos se atentar a pergunta, era para o macaquinho.
—Ibysah é uma península que é maior no subterrâneo do que na superfície — ele diz. — Tudo graças ao Senguell.
A grande árvore era a única coisa que Dandara via se tornando cada vez mais próxima.
As raízes estavam tão poderosamente firmes na terra que se estendia por todo o local, criando aquela vasta cavidade rochosa. Água vinha da superfície através de delicadas fendas e se misturava com o próprio rio subterrâneo, formando uma teia cada vez mais forte apenas para alimentar a árvore sagrada.
E a árvore alimentava todo o resto.
Para ajudar vida a florescer eram os cristais da lua e do sol, incrustados no teto e responsáveis por fornecer calor e energia para as novas árvores nascerem e crescerem.
Assim as criaturas vem e vão. Uma abundância de presas e predadores.
Tudo sincronizado.
Principalmente o equilíbrio da alcatéia chrynnos:
— Quando chega uma certa idade, os jovens se afastam da segurança dos adultos e passam a viver em companhia de outros adolescentes. São rebeldes e cruéis. Criam suas próprias ordens e caos — o kamal continuou a explicar. Visto que nenhuma das criaturas interferiu, Dandara decidiu se arriscar naquele assunto.
— Por que eles não vão embora, então?
Pilantra deu um leve empurrão em Capacho. O macho bufou.
— Porque só os adultos do próprio bando suportam eles — ele responde, com um cuidado óbvio. Mas era verdade. Pilantra voltou a piscar para Dandara, em confirmação. — E eles crescem, criam maturidade e se juntam novamente se juntam ao bando.
Capacho é novamente provocado por Pilantra.
Um jovem que não é maduro o bastante para ganhar total respeito dos adultos mas criou responsabilidade demais para aguentar a companhia de outros adolescentes. Um jovem que está tentando encontrar o seu lugar na hierarquia e sabe que é apenas questão de tempo. De amadurecimento. De crescimento.
Foi no meio dessas histórias que ela pode, finalmente, cochilar nas costas de Cuidadoso sem auxílio de qualquer chá ou erva.
Para os machos, um grande feito.
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