C A P Í T U L O 23

Rhaeyluan a olhou com uma certa doçura. Não se empenhou em tentar-la seduzir quando a fêmea parecia tão nervosa com a sua revelação. Por isso, não a tocou, sequer para fazer uma carícia em seu cabelo.

— A-Acasalar? — Ela queria saber se entendeu certo. Se sim, queria saber se compreendeu certo o significado.

Ela e um… lobisomem?

Fazendo sexo?

O homem levantou o maxilar, com um leve sorriso ameaçando se formar nos lábios.

— Quero você como minha fêmea, e, após o acasalamento, grávida dos meus filhotes. Futuramente, mãe.

É pior do que ela imagina!

O ar faltou aos pulmões. Dandara sentiu que perderia o equilíbrio nas pernas e desejou muito mais o chicote do que ter que aturar a violência de um lobisomem perante uma negativa.

— E-Eu não posso ter filhos — ela sussurra num instinto de pura defesa. O homem franziu o cenho.

Se ela não pode engravidar, talvez então fosse deixada em paz. Mas então ela deveria parar nessa última frase. Pois quando justificou seu argumento…

 — Durante todo esse tempo, nunca fiquei…

E então o sorriso aumenta. Ele lambe os lábios antes de interromper:

— Você não acasalou com esses machos — a última palavra foi dita numa calma mortal. O brilho do ciúmes nos olhos… e muitas promessas ocultas envolvendo qualquer outro macho. E então, o apreço por ela, a fêmea. Ela ali, em seus braços, tão assustada quanto frágil. — Você é fértil. Senti o cheiro da sua fertilidade desde que chegou. Você não é o problema. Eles são.

Será possível?

Mas… alguns tinham filhos. Mais de um. De tantos homens e o problema estava neles?!

Mentira!

Isso não poderia ser verdade. É loucura. De tantos homens, Dandara só não engravidou porque seu útero é seco.

— Eu não serei incompetente — o chrynnos prometeu. Isso não amenizou o terror que ela sente — você não precisa se preocupar, Dan.

Dandara fechou os olhos. Ela precisa fazer algo. O quê?

Ela se agarrou com força a árvore enquanto sentia a respiração de Rhaeyluan. O pilantra! E o corpo quente, poderoso… capaz de mudar sua forma. Seu grande tamanho e um leve encostar de sua capa escura na pele.

Dandara sentiu o peso do mundo tombar sua cabeça… e as mãos dele tocaram sua bochecha. A pele áspera, os dedos longos. Nada de garras.

Ele lhe acariciou com gentileza.

Quase parecia Cuidadoso. Qual seria o nome de Cuidadoso?

— Os outros… — Dandara abriu os olhos. Eles estavam ainda mais brilhantes.

— Sim — O homem passou o polegar pela maçã do rosto e depois, lhe segurou com as duas mãos em formato de concha. 

Dandara nada disse. Seus grandes olhos se fecharam, derramando uma única lágrima. Rhaeyluan reagiu a limpando com doçura. Os ombros de Dandara caíram e ela respirou profundamente.

Ela queria chorar.

Mas não na frente dele.

Ela queria se encolher ali mesmo, nas raízes da árvore e se desmanchar. Será possível que ser negra é algum tipo de maldição? Ela é escrava porque nasceu assim. É a definição de puta porque nasceu assim.

E agora até… lobisomens.

Mas a cor dele é igual a dela.

Porém, não são humanos. São, de alguma forma, superiores aos humanos.

E esse ser superior se empenhou em lhe acalmar, envolvendo-a com seu calor. Ele ficou em silêncio, diferente do clamor da floresta. O homem demonstra não ser uma ameaça, com toques gentis e respeitosos no rosto e cabelo.

Mas ela perdeu a força das pernas e se agachou.

Ele também se agachou.

— Calma, Dan… — ele murmurou. Os dedos passaram por uma mecha de cacho, brincando com ele até que Dandara pudesse reunir forças para olhá-lo. — Está tudo bem.

Não, não está.

Dandara agarrou a maior e mais pesada pedra que suas mãos puderam tatear ao chão. Com o máximo de força que possuía, acertou a cabeça do homem, tombando-o para o lado.

Ou não.

Os reflexos anormais de um lobisomem lhe alertaram para o movimento lento de um humano. Ele agarrou a pedra com uma mão. E com a outra, agarrou a raiz mais próxima.

Os dedos que antes lhe eram gentis, agora tinham garras escuras e longas, ferindo a árvore. E os olhos âmbar se transformaram nos dourados de um lobo selvagem.

Dandara estremeceu.

Sua mão com a pedra vacilou e mais uma lágrima caiu. Medo. Terror.

Seria o seu fim!

Então nada mais importou! Sua outra mão já estava cheia de terra, areia e pequenas pedrinhas. Coisas tão minúsculas… ela jogou em seus olhos.

Sob o forte rosnado e o recuo do lobisomem, ela correu.

O homem reagiu por puro instinto, totalmente orientado pelos demais sentidos. Ele ouviu os pés em contato com o chão e agarrou o tornozelo de Dandara, puchando-a para trás.

Ela caiu, mas não se rendeu.

— Me solta! — ela grunhiu e esperneou. O aperto de Rhaeyluan foi forte demais para que ela se libertasse e acertasse seu rosto.

Um novo rosnado foi ouvido. Em resultado, Dandara se agarrou a raiz mais próxima e tentou se puxar. Se libertar. Nesse momento, ela sentiu o espetar das garras em seu tornozelo e grunhiu.

O homem reagiu ao som avançando para cima dela, montando em sua barriga e prendendo os braços acima da cabeça. Apenas uma mão foi o suficiente.

Com a outra, ele coçava seus olhos.

Uma veia grossa e negra estavam grosseiramente pulsando em seu pescoço. O maxilar tenso… e os dentes cerrados, com caninos levemente alongados.

O homem piscou. Tentou piscar.

Então, finalmente a encarou.

Os olhos pareciam ainda mais ferais na mescla do dourado com reflexo âmbar e o leve avermelhado da irritação. Ela só não tinha certeza se era pela terra ou pela fúria, mas não desviou o olhar.

Antes acuada. Agora corajosa…

Ele se inclinou sobre ela, barrando qualquer luz ambiente com seu peito robusto. A capa escura deslizou, ao redor, formando uma camada de sombra.

Saber que ele está pelado, firmemente montado em sua barriga, não a deixou nada tranquila.

Depois do que fez, Dandara ainda teve a ousadia de tentar fazer força contra ele. Uma rebeldia acumulada, de fato.

— Quieta! — ele rosnou contra seu rosto.

Ou o quê?! — Ela revidou. Ele se surpreendeu. — O que você pode fazer que ainda não me fizeram?

Uma mão segurava seus braços. A outra agarrou seu pescoço.

Firme.

Não forte. Não grosseiro.

Firme.

Posso fazer você se apaixonar — Dandara perdeu a força, o fôlego e a agressividade. Ela olhou diretamente para ele e piscou.

Aquela beleza surreal, os traços delicados de sua pele e os olhos… A beleza de um predador que atrai a presa com sua aparência, tal como uma sereia logo antes de atacar.

E o pior! Ele tem razão.

Dandara pode se apaixonar. Ela quer se apaixonar… ter uma marido. Filhos. Mas isso é apenas uma ilusão impossível. Homens são carrascos nojentos e ela é infértil.

Uma voz suave acariciou a espinha de Dandara num arrepio ousado. Um tom rouco. Um tom preguiçoso, embora severo no mais complexo idioma que ela já escutou. É Cuidadoso que apareceu entre as árvores e encarava a situação à sua frente de forma nem tão gentil.

Os lábios do homem dobraram levemente para cima. Cuidadoso foi atraído pelo som de conflito… e pelo atual silêncio que a floresta se tornou desde que Dandara o atacou.

— Nada demais — mas o homem respondeu em português. O olhar ainda fixo nela. — É apenas minha fêmea sendo rebelde.

Dandara engoliu em seco.

Ele se levantou e enfim respondeu o amigo — ou irmão — no mesmo idioma. Chryffthyturiano.

Dandara ficou no chão, e ele coçou mais uma vez os olhos. Não havia como ela fugir, afinal. Mal deu um passo para longe quando estava a sós com um, quanto mais correrá com dois lobisomens próximos.

— Se já está suicida o bastante para me atacar, então levante-se pois já ficamos muito tempo parados aqui.

*

Realmente, a transformação não parece depender de um evento especial, já que, ao anoitecer, Dandara era guiada pela floresta por dois homens sem qualquer indício de descontrole. Todos maleáveis a sua hesitação de se manter levemente afastada, quieta e vagarosa em sua caminhada.

Talvez até um tanto rebelde.

Dandara estava tão submissa e obediente quanto costumava ser. Mas o sentimento de opressão parecia maior, e mais perigoso.

Ela temia uma súbita raiva fizesse surgir a criatura que reside dentro deles. Mas, se eles tem controle sobre si próprios, então a visão de dois belos homens era uma ilusão. No fundo, todos são monstros.

Monstros ansiosos para acasalar. E a levando, para Deus sabe onde?

Capacho no entanto…

— Por que ele está tão longe? — Ela perguntou em inocência. A voz tão baixa que sequer esperou uma resposta. Mas o rapaz estava tão distante que vez ou outra Dandara o perdia de vista.

Cuidadoso encarou o pilantra. E o homem respondeu:

— Porque ele me desafiou — a voz veio calma, quase debochada. Uma brincadeira a ser cantarolava: — E agora não o quero perto de você.

Dandada, no susto, parou de andar. Mas apenas por um momento.

Não o quero perto de você.”

Em sua experiência, homens ciumentos são agressivos. Mas e um lobisomem ciumento?

— Ele se aproximou antes…

Ela deveria ter ficado quieta!

— Situação especial — Mas Rhaeyluan deu de ombros. — Você nunca ia sair daquela água se fosse eu a buscá-la.

Dandara piscou.

Ah ela sairia…

Sairia bem rapidinho!

— Por quê?

O pilantra sorriu. Ela já sabia a resposta, mas assim como ela fez questão de perguntar, ele fez fez questão de responder:

— A ideia de um banho de cachoeira com você soa muito tentadora… sabe?

Dandara andou um pouco mais lenta, garantindo maior distância entre eles. Um gesto que aumentou o sorriso do homem.

Pilantra safado!

Cuidadoso a olhou por cima do ombro e, em seguida, para o amigo. Ou irmão, devido à assombrosa semelhança. Mas Rhaeyluan ignorou.

Enquanto um é careca e preguiçoso, o outro é ávido e de cabelos estilosos.

Dandara olha mais uma vez para trás.

E o outro um total capacho, carregando o que sobrou da carne, roupas e arrastando também o macaquinho falante. Macaquinho que ele foi obrigado a recapturar pela floresta.

Ela se manteve fiel às suas passadas, ficando cada vez mais para trás na esperança de que Capacho a alcançasse. Mas o pilantra também regrediu os passos até que simplesmente parou, se virou e pôs as mãos na cintura em espera.

— Está cansada, pequena humana?

A pergunta é simples, mas o olhar que lhe lançou é tão acusador que a deixa envergonhada.

Cuidadoso continuou.

Dandara olhou para trás. Capacho também havia parado enquanto olhava fixamente para o homem à frente.

— Ele está com medo de você?

— Então ele é menos idiota do que pensei — afirma Rhaeyluan.

Dandara o encara totalmente em alerta. Ela se lembra dos adolescentes sendo mortos pelo maior… e a violência daquele momento.

Rhaeyluan se aproximou da humana, parando apenas a alguns metros antes que a percebesse desconfortável com a proximidade.

— O macho sabe que a situação vai ficar feia se eu o flagrar perto de você — ele afirmou, com olhar repleto de promessas. Dandara sentiu as pernas trêmulas. — Não me respondeu, Dandara. Você está andando mais devagar. Está cansada?

O homem esperava um gaguejar, mas recebeu uma resposta tão afiada quanto excitante:

— E se eu estiver?

Mais a frente, Cuidadoso para e olha para trás. Ele põe uma mão sob a cintura e joga o peso para a perna direita. Um semblante de diversão é vista em seu rosto.

O homem responde:

— Te carrego.

Dandara arqueou a sobrancelha.

— E se não quiser ser carregada — ele prossegue — então ele carrega.

Cuidadoso só continuava observando. Ele não entendia nada do que estavam falando, apenas que estavam mencionando ele.

— Ele sempre é quieto?

— Ele não está quieto, ele está atento aos perigos à espreita.

— Que perigos!? — mais perigos?

Cuidadoso olhou de relance para a floresta, mas não apressou Dandara.

— Não somos os únicos chrynnos em Ibysah, Dan — ele estendeu a mão para o caminho que seguiam. — Então, está cansada, pequena?

Dandara sussurrou um “não” e prosseguiu, tomando a dianteira do homem. A parti daquele ponto, Cuidadoso guiou o grupo enquanto Capacho encontrou outro obstáculo para se aproximar da humana.

Rhaeyluan garantiu que ela não ficaria para trás por causa dele.

Assim, eles chegaram à beira de um precipício rochoso. O último ponto antes que finalmente pudessem chegar às cataratas que se formava com a série de rios, córregos e cachoeiras que tinham origem das grandes e distantes paredes do subterrâneo.

E, no meio de tudo, a gigantesca árvore Senguell, com as raízes poderosamente firmes na terra e na água. Ela se erguia com uma imponência assustadora, para além da neblina, os cristais de luz e penetrava o teto.

Ao redor, a vida era celebrada com o brilho noturno das árvores e insetos que piscam de lá a cá. A neblina das água lhe dava mais profundidade ao verdadeiro paraíso subterrâneo.

— Bonita, não? — o homem comenta. Dandara acorda do transe, se afastando tanto que tropeça nas rochas.

O mundo girou ao redor e, Cuidadoso lhe agarrou. Rhaeyluan franziu o cenho e estalou a língua.

— Sua falta de equilíbrio nas pernas é assustador — ele murmurou.

— Você me assusta — ela dispara, novamente, sem filtro.

O sorriso do estranho apenas aumenta.

— Imagine então o que farei com os machos que chegarem perto de você — o golpe das palavras lhe assustou mais que sua presença. E um olhar para o lado revela Capacho bem distante, ciente de que, o que aquele homem falava, ele cumpria.

— O que você quer dizer com isso?!

Cuidadoso, no entanto, marcou sua presença garantindo que ela conseguisse ficar em pé… sozinha

Sua pergunta foi completamente ignorada.

Para ele, Rhaeyluan não disse nada. Não ousaria. E antes que Dandara pudesse pensar… questionar… ele estendeu a mão para a vasta floresta e disse:

— Esse lugar, aqui embaixo, só existe por causa do Senguell — Dandara não olhou para esse tal de Senguell. Seu olhar continua fixo nele. — Mas, ao que parece, você está mais interessada em mim, não é?

Ele a encarou.

Dandara olhava para o Senguell.

— Muito bonito — ela murmurou.

A árvore Senguell, durante a noite, tinha o seu tronco branco repleto de veias brilhantes que transmitia ao subterrâneo uma luz tão delicada quanto a lua cheia a superfície. Uma luz que contrasta e dança com a neblina noturna.

Cuidadoso não conteve o revirar de olhos. O riso que ele prendeu foi o que desmascarou Dandara e ampliou a diversão no rosto do estranho, seja qual for seu nome.

— Ora, não está nem um pouco curiosa a respeito dele?

Dandara se recusou a olha-lo. Sim, a árvore é muito impressionante, mas ela queria saber a respeito deles.

— Vão me jogar do precipício?

— Fazer isso com você? — Exageradamente, ele pôs as mãos sobre o peito. — O macho atrás de você arranca meu pênis!

Mas o macho as costas de Dandara apenas entendeu o desconforto da fêmea. E quando Dandara o olhou, ele fulminava seu amigo.

Ela se afastou, cambaleando em direção a floresta.

— V-Vocês vão brigar? — os dois olharam para ela.

Rhaeyluan traduziu a pergunta ao Cuidadoso, seguindo de um comentário. Em seguida, se dirigiu a ela:

— Não. Não temos motivos para brigar… — Claro que a resposta não a convenceu. Ele então acrescentou: — Você tem algumas horas.

— Para quê?!

— Descansar. — Ele aprontou para a região pedregosa ao redor. O chão é mais áspero do que aparenta, modestamente distante da vegetação. — Depois vamos prosseguir.

— Para onde?

Rhaeyluan a analisou bem. Como se soubesse exatamente o que seria feito, Cuidadoso deu um passo à frente.

— Não.

Dandara piscou para o que foi dito. Não. Um perfeito português. N-Ã-O.

— V-Você também fala…

— Não — O pilantra a interrompeu. — “Não” é a negativa do antigo hyffthyturiano que herdado pelos novos idiomas e copiado pelo seu, o português.

Ela não entendeu nada.

Cuidadoso percebeu sua confusão e, após tanto tempo quieto, se pronunciou, em seu idioma materno.

— Cuidado. A ignorância alimenta o medo. — Apenas o pilantra o compreendeu. Para Dandara, foi como uma rouca canção. Uma voz tão baixa que parecia um sussurro, pronunciando palavras que talvez ela nunca compreenda.

— Estamos te levando ao nosso covil — Rhaeyluan revelou.

Dandara piscou.

— Aí meu Deus! — Mas a apreensão na voz dela… eles olharam e ela já estava pronta para correr.

Cuidadoso respirou fundo e passou as mãos pela cabeça, logo antes de coçar a nuca.

Rhaeyluan deu uma piscadela que lhe dizia “tá tudo bem!”

Não está nada bem!

Mas a humana não era a única nervosa. Um chiado distraiu a humana ao mesmo tempo que lembrou os homens de duas outras presenças.

Capacho.

E o macaquinho.

Ambos na beira da floresta. O macho já cansado e aparentemente acostumado aos constantes duelos estava sentado na raiz mais alta.

— Por que trazem o macaco falante? — Murmurou ela.

— Diazilla Kamal — Corrigiu Rhaeyluan.

Dandara o encarou.

— O quê?

— Humana — ele apontou para ela, e, em seguida, para o proprietário do peito — chrynnos — os dedos se arrastaram para o macaquinho — Diazilla Kamal.

Ele deu o gesto e só com sua permissão, Capacho trouxe o macaco — diazilla kamal — até o grupo. Assustado e temeroso, o primata tinha os pelos estufados dando a impressão de uma forma mais arredondada.

Cuidadoso ficou quieto durante todo o momento, até que se agachou a frente do macaquinho.

Um olhou o outro.

Os olhos arregalados do primeira contra o olhar sereno de Cuidadoso. A face neutra e a beleza hipnotizante de seus olhos âmbar em constante com a pele negra. O brilho da vegetação lhe tocando com graça…

E o pânico crescente no macaquinho, como se fosse a coisa mais horrenda que ele já havia visto.

Se Dandara queria correr, ele que já conhecia o que um chrynnos era capaz, queria desaparecer. O coração estava a mil e só restava recuar, recuar e recuar. O pelo cada vez mais estufado conforme Cuidadoso lhe acompanhava com o olhar.

— O que estão fazendo?

O macaquinho gritou e pulou sobre as pedras em direção a floresta. Capacho estava bloqueando sua rota de escape.

Ele parou, olhou para todos os lados desesperado até que a viu… e o caminho estava livre. Ele mais uma vez saltou e disparou em direção a Dandara. Ele a agarrou com tanto desespero que a humana tombou para trás.

Quando ela se recompôs, encarou os homens com o pequeno macaco grudado a sua cabeça e pescoço, passando a longa cauda por baixo do braço e tapando mais da metade do rosto com seus pelos estufados.

Tamanho medo apenas porque Cuidadoso, o gentil, o encarou.

Rhaeyluan ao lado riu. Mas logo se calou quando Cuidadoso voltou a falar, a voz tão suave quanto uma neblina quente.

O Pilantra, totalmente respeitoso, traduziu:

— Esse kamal insultou você mais cedo, não? — Ele perguntou. — Agora será seu intérprete.

As demais possibilidades fez Dandara engolir em seco. Ela ouviu o coração do kamal acelerar em um ritmo assustador.

O medo continuou mesmo quando Cuidadoso virou o rosto em direção a floresta. Em direção a Capacho. Assim como o homem, o qual enrijeceu o olhar.

O Kamal apertou ainda mais Dandara.

O homem rosnou e Capacho deixou as mantas e carnes no chão, se afastando rapidamente logo em seguida. No limite das árvores, ele pulou e escalou, desaparecendo pelos pontos escuros das copas.

Somente então a tranquilidade retornou ao rosto do homem e o fez voltar sua atenção para Dandara.

— Não tente nada — ela não sabia para quem exatamente ele estava falando: o macaquinho ou ela. — Descanse, Dandara. Partiremos em breve.

Tanto ela quanto o diazilla kamal ficaram no mais profundo silêncio, num cantinho no chão.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top