Uma Carta Amiga (p.2)

− Isso é perigoso não? Quero dizer, se por algum milagre, o reino for invadido, os sacis vão ficar encurralados, sem ter como fugir! − disse preocupada.

− Que nada! Isla é muito bem protegida e alem do mais, não é preciso ir para lá para sair do reino. Podemos viajar entre essas dimensões quando já estamos aqui dentro ou sair do reino a partir de qualquer dimensão. Só não é possível entrar a partir de qualquer uma, mas sair é outra história − quando terminou de falar, surgiu uma garota de onde eles tinham chegado e Miguel acenou para ela. A garota foi ao encontro deles. Ela era gordinha, morena, com cabelos cacheados e olhos castanhos, parecia muito simpática.

− Oi Miguel! Falei com Gabriel agora a pouco, ele já estava saindo, estava conversando com a mãe. Pelo visto ela descobriu que ele terminou com Hina e ela estava tentando convencê-lo a voltar com a garota. Mas duvido muito, foi Hina quem terminou com ele na verdade − disse soltando uns risos − mas não diga que eu te contei isso. Melhor, finja que não sabe, o coitado está sofrendo muito − ela disse isso tudo tão rápido que Miguel não conseguiu interrompe-la para ele poder apresentar Abigail, mas quando viu que ela parara para respirar ele falou.

− Olá Elisa, essa aqui é Abigail. Abigail essa é Elisa − as duas acenaram e se cumprimentaram. Elisa sentou ao lado de Miguel que já foi abrindo sua sacola e entregando a cocada a amiga.

− Ai, obrigada. Que bom que você lembrou. Adoro as cocadas da Rute − abriu o embrulho da cocada e antes de pegar um pedaço perguntou − Você não parece ser daqui. De onde vem? − Elisa tinha reparado nas vestes de Abigail, muito diferentes das deles.

Miguel e Elisa, assim como muitos outros jovens que reparara Abigail, usavam roupas claras e de algodão. Abigail reparou que as roupas dos mais jovens eram diferentes das roupas dos mais velhos e pressupôs que mudavam de roupa ao se tornarem sacis.

− Vim de Saci, não sei se conhece... − respondeu a garota.

− O QUE? SÉRIO? − Elisa se surpreendeu tanto, que quase caiu do banco, mas conseguiu se segurar no último momento − A desculpe a empolgação.

Não demorou muito tempo e mais pessoas apareceram. Miguel os apresentou a Abigail. Miriam apareceu logo depois, era uma menina magra, cabelos ruivos e parecia ser mais tímida que Elisa. Gabriel demorou a chegar. Abigail pôde constatar que ele realmente estava com uma feição mais triste que qualquer outra pessoa de Isla. Ela também pôde observar que ele era alto (não tão alto quanto Elisa), musculoso, cabelos na altura dos ombros e castanhos, olhos verdes.

− Antes de vocês chegarem, Abigail estava dizendo que veio de Saci − Elisa comentou em tom de quem tinha uma bomba para contar.

− Você está atrasada dessa vez, Elisa − disse Miriam entre risos − Abigail apareceu no relatório dos guardiões há dois dias.

− Relatório? − perguntou Abigail.

− É...todos os dias publicam esse relatório para que todos do reino saibam o que está acontecendo de importante – acrescentou Miguel.

− E por que eu nunca vi nenhum papel desses relatórios? − Abigail olhou desconfiada.

− É porque não saem em papéis. E iríamos derrubar árvores à toa? − comentou Miriam − Os relatórios são vistos por todos que têm os braceletes, nós ainda não temos, mas nossos pais nos mostram os relatórios quando pedimos.

Abigail ficou tentada em perguntar como eram mostrados esses relatórios, mas já estava entediada demais de ficar ali sentada conversando com aquele povo, enquanto tinha um monte de brinquedos estranhos a sua volta que ela estava doida para explorar, porém a educação que seus pais haviam lhe dado não lhe permitia interromper a conversa de qualquer maneira. Além do mais já tinha que ir embora daqui a pouco, pois sabia que seus pais e Iaci iam ficar preocupados.

Miguel pareceu ler seus pensamentos, pois já estava se levantando e chamando os amigos, para irem numa tal de "montanha russa" (o brinquedo era gigantesco e tinha vários loops e descidas muito íngremes). Apenas Miguel, Elisa e uma Abigail bem apreensiva e um pouco pálida foram para a fila. Gabriel e Miriam não quiseram ir. Em vez disso, foram para uma roda gigante que se encontrava no meio do parque. Combinaram de se encontrar perto de lá, mas Abigail já se despediu deles dizendo que ia só para um brinquedo, pois tinha de voltar para Isla.

A montanha russa começava a ficar mais assustadora conforme a fila diminuía. Abigail olhou para um lado em que uma criança apontava freneticamente para o castelo onde tinha acabado de sair de lá um bando de adolescentes pálidos, suados e com caras assustadas. O pai da menininha passou perto de Abigail e ela pôde ouvir parte do que falava.

− O Labirinto Agonizante é muito assustador, Lili. Que tal o carrossel? − e apontou para o outro lado, mas a menina soltou um berro e começou a chorar.

− Ah, papai. Castelo, castelo, castelo! – implorava aos prantos.

− Olha! Algodão doce, vamos pegar um − o pai arrastou a filha que ainda apontava choramingando para o castelo.

− Vem, Abigail! − chamou Elisa que já estava subindo umas escadas e já perto da roleta e Abigail juntou-se a ela.

Abigail estava observando a cena da menininha e outros brinquedos do parque que esquecera por um instante da montanha russa. Mas quando tornou a olhar, viu que já estava chegando perto da roleta. Na verdade só havia uma pessoa a frente deles. Era um saci com aparência de uns 30 anos, magro, cabelos curtos e espetados. Seu coração estava disparado e agora ela já estava pensando se era mesmo uma boa ideia ter se juntado a Miguel. Deveria ter ido com Miriam e Gabriel.

O carrinho da montanha russa do grupo que estava à sua frente partiu e a cada loop era possível ouvir os gritos dos passageiros (e isso não era pouca coisa, pensou Abigail, porque mal dava para ver as partes mais altas do brinquedo). Abigail não soube diferenciar se eram gritos de medo ou de excitação, ou talvez as duas coisas. Mas ficou mais pálida ainda, se isso fosse possível, quando viu as caras dos que saiam do carrinho depois. Dois sacis tinham desmaiado e mais um bando saía se tremendo e alguns até vomitando. Nessa hora o saci que estava a sua frente na fila olhou para trás e desceu as escadas, saindo da fila e pedindo licença para passar. Ela também se sentiu inclinada a fazer a mesma coisa e ao olhar o rosto dos amigos, percebeu que Miguel também pensava a mesma coisa, exceto por Elisa.

− Vamos galera! É agora, hehehe − dizia Elisa enquanto passava pela roleta. Os vômitos foram limpos magicamente por um grupo de sacis que se encontravam na barraca ao lado e atendiam alguns que passavam mal.

− É louca essa garota, só pode! − exclamou Miguel ao olhar para Elisa que já ia correndo para sentar no último vagão, enquanto os outros ainda passavam pela roleta e foram mais sensatos escolhendo o segundo vagão (havia dez vagões ao todo).

− Acha que ela está tentando se matar? − cochichou Abigail para Miguel e sentou ao lado dele no vagão do meio.

− Nam, ela é doida assim mesmo. Ela sempre diz que a vida deve ser aproveitada como se fosse o último dia − e deu uma gargalhada nervosa. Abigail também iria rir, se não tivesse com tanto medo e seu maxilar parasse de tremer.

O coração de Abigail começou a bater cada vez mais forte, ela teve mais um impulso de se levantar e ir embora, porém surgiram dois cintos bem confortáveis nas poltronas de cada um e magicamente os prenderam a poltrona. Bem, agora não tem mais volta, pensou Abigail.

− Esqueci de te dizer. Alguns brinquedos do parque têm ilusões − desculpou-se Miguel, mas sem coragem de encarar a nova amiga.

− O que isso quer dizer? − perguntou automaticamente Abigail, mas logo em seguida se arrependeu, preferia não saber qual seria a resposta. Não parecia ser boa coisa.

− É...− Miguel não conseguiu responder, seu coração parece que saltou para a sua garganta, impedindo-o de falar, pois nessa hora o carrinho acendeu as luzes já preparando para partir.

Foi uma partida bem rápida e em poucos segundos já estavam subindo uma enorme ladeira que parecia não ter fim. Depois de alguns minutos (que para Abigail, pareceu algumas horas agonizantes) a visão do parque sumiu e tudo que ela via era um céu límpido e cheio de estrelas. Sem aviso algum, o carrinho voltou ao plano horizontal. Mas não tardou muito e começou a descer, ganhando cada vez mais velocidade. Os olhos de Abigail pareciam a estar enganando. Ela viu um enorme dinossauro Rex de boca aberta e com os olhos fixos no carrinho lá no final da descida. Todos começaram a gritar apavorados, quando viram o mesmo dinossauro abocanhar parte do trilho arrancando os pedaços e jogando para o lado. Era possível sentir todo o vagão chacoalhando quando o dinossauro havia arrancado parte do trilho à frente. Aquilo definitivamente não parecia nenhuma ilusão.

Quando estavam prestes a se chocar contra a boca escancarada do dinossauro, Abigail fechou os olhos e tudo que sentiu foi um bafo quente sobre a sua cabeça e logo depois sentiu que o carrinho tinha se despregado do trilho e caído nele de novo com um baque surdo. Subiram uma outra ladeira, dando vários loops e quando a garota abriu os olhos, desejou profundamente não ter feito isso, pois o que viu em seguida congelou o seu sangue. Mais adiante o trilho era interrompido e lá em baixo só se podia ver um grande mar com ondas gigantescas.

Ao chegarem ao fim do trilho, o carrinho fez um arco e, de cabeça para baixo, começou a cair em direção à água. Novamente, Abi fechou os olhos, mas não sentiu o impacto com a água. Para falar a verdade, não sentiu a água e então abriu os olhos. Concluíra então que tudo aquilo só deviam ser ilusões muito bem feitas, pois se viu em baixo d'água, passando por diversos peixes (maioria de tubarões), mas sabia que realmente não estava em baixo da água, já que não podia senti-la. Supôs então que todas essas ilusões teriam a finalidade de deixar o brinquedo mais interativo (como se os loops e as enormes manobras radicais do carrinho já não fosse o suficiente!).

Por fim apareceu uma enorme baleia que abriu sua enorme boca e engoliu o carrinho, deixando todos no escuro, subindo, descendo, virando e dando loops no escuro. Sem aviso, o carrinho começou a parar e tudo clareou, mostrando a entrada da montanha russa. Os cintos sumiram e seus passageiros saíram cambaleantes e com fortes temores.

− Eu nunca mais quero entrar nesse brinquedo − comentou Miguel. Apesar do medo que sentiu, Abigail começou a sentir uma espécie de vontade de um dia voltar a querer entrar nesse brinquedo novamente. Dessa vez com os olhos bem abertos em todo o trajeto. Depois que constatara que nada daquelas ilusões eram reais, o brinquedo se mostrou incrivelmente prazeroso, mas ao mesmo tempo lhe dava um medo que energizava suas forças. Ela não sabia como explicar essa sensação. Duas sensações tão contraditórias que ela ainda estava tentando entendê-las. Nunca havia passado por isso na vida − Espera só um instante que eu te levo pra Isla, Abigail − Miguel saiu correndo, desceu as escadas e seguiu em direção a uma barraca, onde tinha uma placa indicando o banheiro. Abigail supôs que ele foi parar para vomitar.

A garota esperou Elisa também sair do carrinho e as duas desceram as escadas e seguiram em direção a barraca esperar por Miguel. Elisa achou a montanha russa revigorante e disse que ia de novo outro dia, apesar de não conseguir parar de tremer as mãos desde que saiu de lá.

− Vocês já foram outras vezes nesse brinquedo? − perguntou Abi.

− A não, nunca! − respondeu Elisa − ele só aparece a cada 10 anos e na época éramos muito pequenos quando apareceu, não podíamos ir. Alguns brinquedos aqui, como esses mais radicais, são temporários. É uma pena...

− Uma pena uma ova! − respondeu Miguel. Ele estava saindo do banheiro com uma cara de poucos amigos − Dá muito trabalho para os sacis ter que socorrer toda essa gente que sai passando mal.

− Pois eu acho que fazem isso, para que tornem esses momentos que passamos nele, inesquecíveis. Se eles estivessem sempre aqui, perderia a graça de algo único e raro – defendeu Elisa − Bom...acho que já vou me encontrar com Miriam e Gabriel – acrescentou – Foi um prazer te conhecer, Abigail − ela apertou a mão da garota e logo em seguida saiu em direção à roda gigante, deixando Abigail e Miguel a sós.

🐇Não sei porquê Abigail tratou de fechar os olhos na montanha russa, poderíamos ter visto muito mais...opa,  pera, fui eu que a fiz assim...😅😅😅
Quem tem coragem de encarar uma montanha russa dessa? Quem gritou eu, vem comigo no vagão do fundo com Elisa.😉🎢
Esqueceu o joinha?🌟❤🌟 Não tem problema que eu lembro para você. 😘

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