Muitos Anos Depois
− Estevão! Por favor, guarde esses livros que estão nas mesas – ordenou um senhor de idade avançada. Vestia uma longa túnica marrom de manga curta.
− Como o senhor ordenar, mestre – respondeu entediado um rapaz, para lá dos seus vinte e cinco anos, com vestimentas parecidas com a do senhor, porém de cor cinza.
− Por que está me respondendo assim, rapaz? Esqueceu o respeito que me deve? – comentou contrariado, erguendo as sobrancelhas.
− Desculpe-me pela minha impertinência, mestre Raoni, não queria ofendê-lo − Estevão fez uma pausa e depois continuou −. Mas o senhor sabe, já faz dois anos que me dedico a esse ofício de sábio da vila de Saci, me enclausurei aqui com todos os outros. Perdi o contato com minha família e a troco de quê? Fiz tudo isso e estou dedicando o resto do meu futuro a essa missão para finalmente ter direito a todo o conhecimento que os sábios possuem. Contudo, sei tanto quanto qualquer outro morador da vila!
− Eu entendo suas angústias, meu rapaz. E elas são pertinentes, mas o conhecimento que guardamos é tão valioso que devemos nos precaver o máximo que pudermos para o próprio bem do nosso povo − respondeu enfático −. Mas você tem razão! Conquistou o direito de saber, nem que seja um pouco mais.
Ao ouvir isso, Estevão se regozijou por dentro. Ele daria pulos de alegria, mas sabia que se fizesse isso, seu mestre poderia mudar de ideia e querer voltar atrás com o que disse.
− Espere-me na antessala do conselho, estarei lá num instante – Raoni saiu vagarosamente da biblioteca pública da vila.
Estevão praticamente quase correu para a antessala. Mas então ele se lembrou de que a biblioteca pública estaria sozinha e precisava pedir ajuda a alguém de confiança para cuidar por uns minutos do local. Por sorte, avistou uma amiga de longa data, de nome Abigail, que adorava passar algumas tardes folheando os livros.
Não era correto o que ele iria fazer, mas confiava plenamente na garota. Sabia que ela cuidaria do local com sua vida se fosse preciso.
− Por favor, Abi! – ele se aproximou e Abigail levantou os olhos do livro para o rapaz −. Faria um favorzinho para mim?
− O que foi, senhor Estevão? – perguntou curiosa.
− Poderia vigiar a biblioteca por alguns minutinhos? Não vou demorar, preciso ir ao banheiro – mentiu.
− Ah, claro. Não vou sair daqui tão cedo. Não se preocupe, ela estará inteira quando o senhor voltar – e sorriu.
Assim que obteve uma resposta positiva, ele agradeceu e foi quase correndo para a antessala. Abigail tentou sufocar um riso. Estevão deveria estar muito apertado para sair correndo daquele jeito.
Assim que chegou ao aposento, Estevão se decepcionou. O seu mestre não havia chegado e sua ansiedade aumentava a cada minuto que esperava. Por fim, após alguns minutos angustiantes de espera e o senhor Raoni despontava pela porta, carregando um único, porém pesado livro, para a decepção do jovem. Livro este que o rapaz nunca teve o direito de passar o olho, assim como muitos outros guardados em salas proibidas para aprendizes.
Sua ansiedade já estava chegando ao limite. Ele queria muito aliviar aquele "fardo" do mestre, mas sabia que se demonstrasse um sinal maior de nervosismo, terminaria perdendo a sua chance e Raoni levaria o livro embora.
O velhinho colocou vagarosamente o livro na mesa, com um cuidado que beirava a adoração.
No título estava escrito "A história secreta da Vila de Saci". Estevão já estava estendendo a mão, porém o mestre o negou.
− Não meu rapaz. Ainda não lhe é permitido folheá-lo livremente. Mas abrirei junto com você, nas páginas que eu achar necessário.
A vontade que Estevão teve de arrancar aquele livro da mão do mestre foi imensa. Mas ele era um rapaz paciente, sabia que mais cedo ou mais tarde poderia ler tudo que tivesse direito. Então preferiu suportar suas angústias e curiosidades.
O rapaz não sabia, mas aquele momento era mais um teste para descobrir se ele era digno de confiança. Foi muito bom que Estevão tenha passado, pois do contrário, estaria morto em pouco tempo e seu corpo sumido da vila.
− Bem, como você já sabe, nós sábios somos responsáveis por todo o conhecimento que o nosso povo adquiriu durante séculos. Porém esses conhecimentos remontam desde a época em que nossos ancestrais viviam em outro local − ele fez uma pausa enigmática, esperando uma pergunta do rapaz e não se decepcionou.
− Meu Deus! Quer dizer que não vivemos sempre aqui nessa vila?
− Não, meu jovem. Viemos de outras terras e aportamos aqui nessa ilha.
− Ilha? Como assim, vivemos numa ilha? – perguntou estupefato.
− Sim sim, olhe aqui nesse mapa – ele folheou o livro até encontrar a página que queria e o mostrou para Estevão. A ilha era enorme e um pequenino ponto bem no meio, sinalizava a Vila de Saci – Continuando, assim que nossos ancestrais chegaram aqui e se estabeleceram no meio da ilha, eles também se reuniram para delegar decisões importantes a cerca do futuro. Muitas das tecnologias que conheciam, ou foram abandonadas por decisões que você ainda não está autorizado a saber, ou por impossibilidade mesmo de se criar momentaneamente algo melhor para nós. Mas – continuou antes de Estevão o interrompesse – ainda reservamos alguns truques na manga. Nossas casas são de madeira, fazemos o cultivo de algumas plantas que nossos colonos trouxeram juntos com eles, construímos duas escolas, ensinamos todos a lerem e escreverem e alguns conhecimentos de ciência, matemática e geografia, entre outras coisas.
– Que pena que a nossa história não entra nesse mérito também, não é? – ele levantou um apontamento que sempre quisera escutar. O real motivo por traz de todos os segredos que os sábios escondiam.
– Não, mas nem me pergunte muito sobre isso. Ainda está muito verde para saber o motivo.
– Tudo bem, eu entendo.
– Entende mesmo? Eu ando nu pela vila se isso for verdade – e deu uma gargalhada.
– Por favor, mestre, não faça isso! – ele abaixou a cabeça e pôs uma das mãos na testa – Ainda quero viver mais um pouco antes de ter a visão do inferno – e gargalhou. Em resposta Raoni levantou a mão e deu um tapa na cabeça do aprendiz, fazendo-o gargalhar ainda mais – Mas, mestre. Posso pelo menos saber o que há de tão perigoso na nossa floresta? Por que algumas pessoas que penetram demais nelas nunca mais aparecem? Por que objetos nossos simplesmente somem quando são deixados perto dela? – quando Estevão viu o mestre negando com a cabeça todas as suas respostas, ele implorou – Pelo amor de Deus, mestre! Fale alguma coisa sobre isso. É o que mais me angustia.
– Estevão, meu jovem. Existem tantas coisas além da sua imaginação...tantos perigos que corremos e que nos livramos. Estamos no ano 3000, a humanidade já avançou tanto, mas também regrediu e muito. E isso é só a ponta do iceberg. Mas prometo a você, que quando chegar a hora saberá de tudo o que nós sabemos.
Estevão respirou fundo e formulou o que sabia que seria a última pergunta que lhe seria permitido fazer. Sabia que levaria ainda mais um ano para ser considerado um sábio e ter direito ao conhecimento proibido. Por isso mesmo, ficou grato pelo mestre ter soltado algumas dessas informações de bom grado.
– Antes que o senhor volte, por favor, mestre. Só mais uma pergunta.
– Tudo bem meu jovem, faça.
– Porque os animais maiores que vemos pelas florestas são tão ferozes e perigosos? Por que temos que ter cuidado ao caçar e conseguimos pegar apenas animais menores?
– Que interessante. Pensei que me faria outras perguntas, mas você continua sendo teimoso. Só saiba de uma coisa, sempre convivemos bem com a natureza, conseguimos tirar dela todo o nosso sustento. E o que nós não tiramos, nós plantamos e criamos nossos bois, carneiros e galinhas.
– Mas não podemos comer suas carnes.
– Claro que não! Imagine se fizéssemos um grande churrasco deles. Não sobraria mais ovos para colhermos, nem leite para bebermos. Use a cabeça, meu rapaz!
– De fato! – Estevão percebeu que o mestre não respondera a sua pergunta inicial. Mas como já havia aprendido, com o tempo saberia tudo que há para se saber. Ele ajudou o mestre a empilhar os livros e se retirou para a biblioteca, onde Abigail o esperava.
🐇Esse foi o trecho modificado. Espero que tenham gostado. Mas não esqueçam, gostou, aperta na estrela logo aqui em baixo 👇 que ajudará maravilhosamente na divulgação.
Um beijo e um queijo.
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