Gruta dos Lotis (p.4)
Miguel deu algumas risadas enquanto que Elisa e Abigail suspiravam e se derretiam. Então os dois lotis se despediram e começaram a se distanciar. Quando foram embora, Abigail se virou para Elisa.
− O que aquele bichinho quis dizer com querer ser um companheiro de saci? – perguntou, enquanto via Miguel sorrindo ao observar os dois lotis se distanciando.
− É como animais de estimação da gente, mas os companheiros ainda nos ajudam em algumas tarefas mágicas, o que animais comuns não conseguiriam fazer – respondeu Elisa.
− Você também está esquecendo que eles podem falar e com os animais nós temos que usar telepatia – completou Miguel – Se bem que isso não é uma regra. Alguns companheiros não falam nossa língua daí precisamos usar telepatia de qualquer forma. Mas é uma pena que só funciona a curtas distâncias.
− Telepatia? Vamos aprender a usar ou só eu que não sei como fazer? – perguntou frustrada, quando viu o quanto ainda desconhecia desse mundo novo. Talvez nunca fosse parar de se surpreender.
− Ah, não se preocupe. Vamos ter que aprender. Foi a magia mais difícil que minha mãe achou – Miguel falou com entusiasmo – Ela me contou que teve que levar quase duas semanas para conseguir e ainda assim só para manter contato por breves minutos. Levou cinco meses treinando, se bem que meu pai... – ele não completou o que ia dizer e Abigail nem Elisa nunca souberam o que seu pai teve dificuldades. As palavras embargaram em sua garganta e não saíram mais.
− O que? – interrompeu Abigail tentando tirar Miguel da tristeza em que ele acabara de se afundar ao lembrar-se do pai que o abandonou – Vamos passar cinco meses só tentando aprender isso?
− Não, não, relaxe! Estaremos aprendendo outras coisas ao mesmo tempo – continuou ele – É tudo que sei. Minha mãe não quis me contar mais. Ela me disse que iria estragar a magia de vivenciar essas experiências.
− Espero que não seja mais tão cansativo... apenas complicado – comentou Elisa – Tivemos magias que nos esgotaram demais! Lembra quando nos transformávamos em fogo? A dificuldade que foi? Pensei que ia morrer de tanto cansaço.
− Mas agora estamos mais fortes Lia, não estamos mais nos cansando tanto quanto antes – respondeu Miguel.
− É verdade, mas ainda é muito cansativo, confesse...
Após conversarem mais um pouco, foram para o restaurante e almoçaram. Passaram cinco dias descansando e passeando pela gruta. Miriam e Gabriel só apareciam à noite ou eram vistos logo de manhã, mas no resto do dia, passavam separados de Elisa, Abigail e Miguel. "Provavelmente começaram a namorar", supôs Elisa esperançosa quando viu Miriam saindo sorrateira do castelo com Gabriel. Ela sentia muita pena da amiga por causa desse amor platônico.
No sexto dia alguém tinha acendido as luzes do quarto e tentava acordar Abigail. Quando acordou viu que era o professor Álvaro, ela olhou para os lados e viu que as meninas também tinham sido acordadas, pareciam que mal tinham dormido. O professor aparentava estar tenso e preocupado, mas logo acalmou as meninas.
− O último grupo chegou a algumas horas. Vocês terão pouco tempo para se arrumar, já estamos indo embora e é melhor que se apressem. Já acordei os meninos e eles já estão prontos esperando vocês do lado de fora. Aconteça o que acontecer vocês terão de ficar juntos, pois se separarem vão terminar ficando em turmas diferentes, ouviram? – quando as meninas afirmaram, ele se despediu e saiu do aposento deixando-as sós e pensativas.
Enquanto se arrumavam, Abigail notou que Miriam estava muito estranha, mas não ousou perguntar, devido à pressa. Elas se arrumaram e saíram do quarto com alguns poucos pertences. Lá fora estava uma algazarra. Era uma gritaria para todos os lados e Abigail ficou surpresa como não ouviu todo esse barulho de dentro do quarto. Deve ser mais uma das mágicas desse povo.
Havia meninos correndo de um lado para o outro. Alguns se abraçavam se despedindo dos amigos que formaram. Outros estavam se reunindo e formando novos grupos. Quando Abigail conseguiu se juntar com seu grupo, Gabriel tomou a mão de Miriam e se dirigiu para seus amigos.
− Precisamos dizer uma coisa muito importante pra vocês. Não dá mais para adiar, tem que ser aqui e agora – completou quando viu que Miguel ia interrompe-lo – Por favor, Guel, apenas me ouça por um momento. – ele limpou a garganta e continuou – Eu e Miriam vamos nos juntar a Henrique e Paulo. Aqueles dois que nós conhecemos quando chegamos aqui. Eles disseram outro dia que precisavam de pelo menos uma pessoa para formarem uma outra turma, já que expulsaram Dantas. Eu me ofereci e Miriam quis vir junto também. Espero que nos perdoem por isso, principalmente você amigo – dirigiu-se para Miguel.
Viviam juntos a tanto tempo que Miguel se sentiu apunhalado pelas costas. Mas como tinham pouco tempo para despedidas e sabe-se lá quando se veriam outra vez, ele não quis partir brigado com o amigo. Ficou um tempo pensativo e percebeu que talvez realmente fosse o melhor para todos. Da forma como o amigo estava em conflito constante com Abigail, era melhor que o amigo amadurecesse mais um pouco suas ideias e sentimentos. Percebeu o quão sábia e dolorosa foi a decisão do amigo e concordou enfim.
− Se é o que vocês querem, não vamos impedi-los. Boa sorte, brother. Vou sentir saudades suas e de você também, Miriam. Espero que nos encontremos de novo! – falou dando um aperto de mão em Gabriel e dando um abraço apertado em Miriam.
– Vou sentir saudades, Mi – completou Elisa e com lágrimas nos olhos, abraçou a amiga cochichando em seu ouvido – Por favor, por você, não se apague tanto por causa desse amor por Gabriel. As pessoas gostam de quem gosta de si mesmas. – assim que se desvencilhou de Miriam, deu dois beijinhos em Gabriel – também vou sentir saudades de você, cabeção. Vê se cuida da Miriam.
– Pode deixar, zé coió – respondeu o garoto sorrindo − Abi, antes de irmos. Eu e Miriam temos uma coisa muito importante para falar com você – nessa hora seus olhos marejaram de lágrimas, mas ele todo orgulhoso como era, as reprimiu o máximo que pôde e continuou – Estamos pedindo desculpas, principalmente eu, por tudo de ruim que fizemos a você. Sabíamos que no fundo no fundo você estava certa, mas deixamos o orgulho tomar conta. Eu deixei o orgulho tomar conta. – completou dando tempo para que todos assimilassem o que ele disse. Miguel ficou de queixo caído ao ver o amigo, que nunca pediu desculpas por nada na vida, fazendo aquilo – Espero que nos perdoe algum dia...
− Não se preocupe, já se considerem perdoados – interrompeu Abigail, não querendo mais estender esse assunto. Ela percebeu o quanto foi doloroso para Gabriel dizer aquelas palavras, mas não quis pisar ainda mais no colega. Escondeu bem fundo no seu coração toda a mágoa que tinha e abriu um sorriso – nos vemos por aí algum dia, talvez mais cedo do que a gente imagina. Boa sorte! – e apertou a mão dos dois.
− Obrigado – agradeceu Gabriel com sinceridade que chegava a assustar – vamos Miriam? Precisamos encontrar aqueles dois antes que seja tarde! Tchau pessoal, também vou sentir saudades – depois que todos se despediram eles saíram em busca dos novos amigos.
− Vai ser muito triste terminar o treinamento sem eles – comentou Elisa – mas quando voltarmos para Isla, vamos vê-los de novo.
A turma agora estava reduzida aos três, mas Elisa não deixou que desanimassem. Eles pegaram seus pertences e foram para o andar de baixo com muita dificuldade, pois cada vez mais, o grande salão do castelo se enchia de moças e rapazes com muitos pertences prontos para partirem.
Ao descerem, conseguiram achar lugares para sentar no sofá, pois muitos alunos ainda estavam se arrumando e fazendo novas turmas. Abigail, Miguel e Elisa sentaram num sofá que ficava em frente á porta do castelo, ajeitaram seus pertences no colo e no chão e ficaram observando a algazarra que se formava. Abigail viu Dantas se juntando a um grupo de meninos fortes e mal encarados, então alguém falou bem perto do seu ouvido a assustando:
− Foi o único grupo que o aceitou – Henrique surpreendeu Abigail que não o tinha visto se aproximar ao seu lado, ele estava apontando para Dantas, depois voltou a Abigail – Me desculpa interromper, mas vocês viram meu grupo? – completou sem jeito.
− Nos despedimos de parte deles lá em cima – respondeu Miguel de modo ríspido pondo uma mão no ombro de Abigail e forçando o rosto de Henrique de se afastar de perto dela – Gabriel e Miriam estão à procura de você e Paulo. Não seria mais fácil que usassem seus braceletes para se encontrarem?
− Boa ideia! Obrigado, já vou subir – agradeceu Henrique e voltou-se para Abigail – Seus olhos são muito bonitos, sabia? Nunca vi olhos com essa cor.
− Obrigada! – não ousou olhar para os outros depois desse comentário.
− Acho melhor você se apressar Henrique, senão não vai achar seu grupo a tempo – interrompeu Miguel a contragosto – Até um outro dia!
− Bem, até mais para todos! Gostaria de estar no seu grupo, Abigail, mas não posso me separar de Paulo nessa altura do campeonato – depois que todos se despediram e Abi não ter mais onde enfiar a cabeça de tão vermelha, ele foi procurar sua turma com um sorriso maroto no rosto, deixando uma Elisa aos risos e um Miguel de cara amarrada.
Logo depois que Henrique saiu, as portas do castelo se abriram e uma pessoa, que Abigail conversou tanto desde que chegou em Isla, apareceu, para a surpresa de todos no salão. Iaci tinha entrado pelos portões ao lado de muitos professores. Assim que as portas se fecharam, todos fizeram silêncio e a rainha começou a falar.
− Quero a atenção de todos, por favor! Parabéns a todos que chegaram até aqui com êxito ou não! Passar pela primeira etapa é uma grande provação, mas que nos ajuda a amadurecer e criar fortes laços de amizade durante o perigo. Espero que tenham aproveitado esse pequeno período em que puderam desfrutar aqui na Gruta dos Lotis e que não tenham dado muito trabalho a esses nossos amiguinhos. Nossa convivência com eles é muito importante e por isso mesmo fazemos questão que todos os sacis os conheçam de perto.
"A partir daqui, vocês irão para um novo campo de treinamento. São diversos lugares ainda sob o nosso domínio, então podem ficar tranquilos quanto a qualquer exposição aos curupiras. Porém não posso garantir que não haja perigo, então, por favor, obedeçam corretamente todas as ordens dadas pelos seus tutores."
Iaci parou por um momento e olhou para todos com atenção. Ficaram em silêncio por alguns segundos até que uma pessoa ao lado da rainha se aproximou e cochichou em seu ouvido. Um burburinho começava a crescer até que Iaci os silenciou novamente e prosseguiu.
– Assim que ouvirem o nome do professor, peço para que a turma correspondente venha até aqui para que possam sair todos juntos, ok? – Iaci então parou de falar, olhou por alguns segundos para o pergaminho, virou para o lado e criou um portal com a mão direita espalmada no ar.
Em seguida, ela abriu um pergaminho, disse o nome do primeiro professor, "Abildo". Em menos de cinco minutos um grupo se prostrou à frente. Era composto de sete meninas esbeltas e com longos narizes empinados. Enquanto passavam, ouvia-se alguns assobios pelo caminho. Abigail pôde jurar que ouviu Elisa, chamando-as de "metidas". As meninas e o professor deram as mãos e entraram no portal. Seguiu-se mais alguns nomes e a turma correspondente fazia o mesmo que a primeira tinha feito, até que Iaci falou o nome de Álvaro. Os três partiram em direção ao professor, sem nem olharem para os lados. Abi não conheceu direito seus dois amigos desertores, antes que eles a isolassem no treinamento, então não estava sentindo muito suas ausências, porém Miguel e Elisa não queriam buscá-los com o último olhar, para não chorarem ali mesmo. A notícia os pegara de surpresa e ainda não tiveram tempo de assimilar muita coisa, nem darem-se conta de verdade que estavam se separando.
O professor notou a faltava Gabriel e Miriam. Contudo quando viu que seus alunos nada diziam, percebeu o que houve, na verdade tinha até previsto que isso poderia acontecer, visto o que passaram. Ao passarem juntos perto de Iaci, a rainha sussurrou perto do ouvido de Abi:
− Boa sorte, moça! Sei que não vai precisar, mas... – ela parou de falar, insinuando um quê de mistério e piscou para Abi com um sorriso no rosto. Depois se virou para os outros e continuou – Terão de dar as mãos e entrarem juntos, senão correrão o risco de irem para lugares diferentes. São muitos portais que estou abrindo, posso terminar me atrapalhando – todos fizeram o que a rainha pediu e atravessaram o portal junto com o professor.
🐇Olá, povo! Desculpe-me a demora, estava resolvendo alguns probleminhas aqui e terminei não podendo postar esse capítulo antes. Mas farei de tudo para continuar postando novos capítulos toda semana, até terminar esse livro.
O que acharam do capítulo?
Eu, particularmente, achei um pouco triste a despedida de Gabriel e Miriam. Mas acredito que todos que passam na nossa vida, sempre deixam algo para refletirmos. Sejam elas memórias boas ou ruins ou até mesmo as duas juntas.
Os que gostaram, não esqueçam aquele joinha básico ou aquele comentário travesso que alegram a minha vida.❤😉
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