Decisão ou Destino?

  Ao passar com os olhos fechados, pareceu estar atravessando uma parede de água bem gelada, fazendo-a sentir arrepios. Quando abriu os olhos, ela estava de volta e infeliz com o rumo dos acontecimentos. O que quer que decidisse, nada iria agradá-la. Apesar de levar uma vida simples, Abigail adorava morar ali. Começou a sentir-se pequena diante do mundo novo que se abria. Se fosse ficar, ela sabia que iria correr muitos riscos e que poderia envolver sua família e amigos nisso, mas também quais seriam os riscos se ela fosse? Às vezes o desconhecido e o novo é mais aterrorizante, por mais que um futuro obscuro na vila a esperasse pela frente. Mas ela sabia que se Iaci conseguiu achá-la, não seria impossível que um curupira fizesse o mesmo. Se ela quisesse continuar na vila, teria que se enclausurar dentro de casa para boa parte do resto da sua vida. Não parecia um futuro muito acolhedor.   

Naquela mesma noite, Abigail contou tudo o que lhe aconteceu a seus pais. No começo eles acharam que Abigail estava lhes pregando uma peça, mas se convenceram quando sua filha havia se transformado numa pomba e voltado à forma original.

Abigail precisou esperar pelo menos meia hora para que um deles dissesse alguma coisa. Afinal, ver uma transformação daquelas e ouvir tal história assusta a qualquer um. Mas para a surpresa da garota, seus pais não a aconselharam em nada. Estavam enfrentando um grande conflito, não queriam que mais uma filha sumisse das suas vidas, mas também sabiam que não poderiam protegê-la contra esses novos perigos que se apresentavam.

− Não vamos mandar você ir ou ficar, seja qual for sua decisão, nós iremos apoiá-la – sua mãe lhe deu um sorriso de consolo, mas sabia que o melhor e o mais seguro, seria sua filha longe dali.

− Estou quase certa de que quero ficar, não acho que Cuca possa descobrir se tenho poderes, já que também decidi não mais usá-los para nossa proteção e também se eu puder ficar mais próxima de casa, sem ir muito longe pela floresta.

− Não se preocupe com isso agora de noite, você ainda tem três dias para se decidir. O melhor que tem a fazer agora é ir jantar e depois descansar – comentou a mãe. Arthur tinha preparado o jantar. Em cima da mesa tinha uma carne de um pequeno javali bem suculenta com algumas verduras. O pai não conseguiu pronunciar nenhuma palavra naquele momento. Ele ficou mais carrancudo e comeu todo o jantar em silêncio.

Por serem descendentes dos primeiros líderes, eles governavam Saci. Nem sempre era preciso governar, pois cada família possuía uma casa e era responsável por zelar o terreno que possuía. A família de Abigail só tomava o comando das famílias em situações de crise, ou em dias de festas de toda a vila (tinham a responsabilidade de coordenar a festa e eleger algumas pessoas para que resolvessem pequenos conflitos que porventura surgisse). Porém existiam também as famílias secundárias que algumas vezes, na história, assumiam a responsabilidade quando estavam mais aptas e isso era escolhido pela maioria do seu povo.

Depois de se fartarem com toda aquela comida, guardaram o que sobrou, arrumaram a cozinha e foram dormir. Passaram-se dois dias, mas a decisão de Abigail não mudou. Ela iria ficar e não iria mudar sua vida. Gostava de tudo assim como era. Era aterrorizante para ela pensar em mudar radicalmente a sua pacata vida. Desde pequena, imaginava como seria o mundo exterior e agora que visualizou uma oportunidade, não queria mais nem cogitar isso.

Eram cinco horas da manhã quando sua mãe a acordou.

− Quer vir caçar comigo hoje, Abigail?

− Ah! Não vou não...

− Deixa de ser preguiçosa! Levanta! Pega seu arco, as flechas e sua adaga, vê se não se atrasa, temos pouco tempo antes do meio dia e não quero ficar caçando com o sol forte em cima das nossas cabeças. Estou te esperando lá em baixo para tomar café e vê se não demora. Não se preocupe que não vamos muito longe. Nem ouse voltar a dormir – sua mãe planejava ir caçar, mas não muito longe de casa. Apenas para que Abigail se distraísse um pouco, porém sem que ela corresse grandes perigos de ser descoberta. Pelo menos era o que a mãe acreditava.

− Droga...Não estou com ânimo algum para caçar hoje.

Ela fez o que sua mãe pediu e desceu. Tomou café junto com seus pais e logo saiu com a mãe para caçar. Fazia um lindo dia lá fora, um pouco quente demais é verdade, mas logo iam entrar na floresta e melhoraria um pouco na sombra. Puseram algumas armadilhas e procuraram por uma boa presa.

Ficaram escondidas atrás de um arbusto esperando até que Abigail sentiu um frio na espinha e notou que estavam sendo vigiadas. Foi então que olhou para todos os lados, quando ela olhou para trás viu dois olhos grandes e infelizmente, para seu horror, eram também amarelos. Porém algo a dizia que esses eram olhos de alguém com muita sede de sangue. Sem pensar muito, atirou uma flecha naquela direção e puxou a mãe para fora da floresta. Quando as duas estavam saindo da floresta, algo puxou Abigail de volta e levou-a para dentro novamente.

Rose gritou por Abigail e tentou voltar para a floresta, mas surgiram inúmeros ramos vindos de dentro cruzando entre si numa velocidade impressionante e formando uma parede em torno de onde estava Abigail e impedindo a mãe de se aproximar. Rose tirou uma faca e começou a cortar os ramos, mas nada adiantava, a parede de ramos estava muito grosa, estranhamente cheia de limo, o que dificultava também a escalada. Então, algo veio como um relâmpago do céu e atingiu Rose na cabeça, deixando-a desmaiada com um filete de sangue escorrendo pela testa.

Abigail sentiu uma dor imensa na cintura e pôde ver um grande corte feito por garras que a estavam segurando e fazendo cortes profundos em sua barriga. Depois a coisa colocou a menina no ombro e correu. Rapidamente, ela tirou uma flecha da aljava e com a mão enfiou no dorso da criatura, que gritou de dor e caiu com um estrondo, derrubando-a.

Depois que retirou a flecha de seu corpo, virou os olhos marejados de dor para Abigail e com um ódio ainda maior avançou para a menina. Era um urso marrom enorme com olhos amarelos. Deu uma enorme patada em Abigail, que foi erguida no ar e caiu a alguns metros depois, expulsando todo o ar de seus pulmões. Sua consciência a havia abandonado por alguns segundos, mas acordou pouco tempo depois. Tremendo de dor, tentou se levantar, cuspiu o sangue que estava em sua boca e caiu de joelhos. O urso se aproximava e estava pronto para dar mais um bote, enquanto Abigail tentava se levantar de novo, conseguindo ficar em pé com sérias dificuldades.

Dessa vez, em vez de fugir, a garota tentou se transformar num outro urso ainda maior e conseguiu. Era um urso branco, com um grandes cortes na cintura e em volta de uma pequena poça de sangue. Abigail deu uma enorme patada no agressor derrubando-o sem, contudo, causar algum arranhão visível e logo surgiram outros sete cercando-a com olhos também amarelos e uma pantera muito preta na árvore acima deles. Logo percebeu que não iria poder tentar se transformar em algo que voasse, porque mesmo tentando sair por cima a pantera iria capturá-la ou machucá-la ainda mais. As suas patas estavam tremendo ainda mais, sua visão estava ficando turva e não estava conseguindo suportar mais seu peso. Ela estava perdendo muito sangue. Não aguentou mais e caiu novamente sob o próprio peso. O urso que a menina havia atacado se adiantou e pronunciou algumas palavras:

− Acho que tem alguém querendo te conhecer garota – e deu uma pequena risada – mas acho que você é fraca demais, vai terminar morrendo aqui nesse estado deplorável – falou irônico.

− Menina? É uma menina ainda, César? – perguntou um outro urso rosnando e olhando feio para Abigail.

− É – respondeu o urso ferido com um sorriso traiçoeiro.

− Então não vamos levá-la, vou matá-la aqui mesmo, vai ser um favor que estou fazendo, olhe como sofre. Não gosto de ver crianças sofrendo – o urso que disse isso avançou e Abigail, apesar da dor sufocante e deitada como estava, o atacou ferozmente, mas outros vieram imediatamente e atacaram juntos o urso branco, ela não teria a menor chance, eram muitos. E já estava prestes a perder a consciência novamente.

− Não a matem seus idiotas, a rainha vai me matar se vocês a matarem – berrou a pantera do alto, mas os outros não o obedeceram. A rainha de que ele estava falando era presumivelmente a Cuca – espero que "isso" fique vivo pelo menos até chegarmos lá.

Abigail tentou raciocinar, por que a queriam viva apesar de tudo que ela fez? Será que não já estava provado que ela não se aliaria ao lado deles? Então por que tanto interesse em mantê-la viva? Sua cabeça latejava de dor e sua vista estava começando a ficar nublada.

Alguns segundos se passaram quando surgiram vários tigres de bengala e atacaram os ursos, a pantera fugiu, um outro tigre a seguiu, mas foi levado de volta à luta por um urso que surgiu de surpresa. Os tigres estavam em maior número e conseguiram derrotar os ursos. Durante a luta, Abigail quase foi morta por um dos ursos que havia jogado alguma espécie de lança gelada nela. Ela teve sorte de conseguir se desviar a tempo e então um dos tigres veio socorrê-la, não permitindo mais brechas para que outros a atacassem. Quando as curtas lutas terminaram, o tigre se virou para Abigail, ela então perdeu os sentidos e desmaiou.

🐇Se você fosse Abigail, teria se transformado em outra coisa para lutar? O que será que venceria outro urso?
Se gostaram, clica lá na estrelinha do meu coração.🌟❤🌟
Um beijo e um queijo. 😘

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