Campo de Treinamento...(p.3)

Nas primeiras semanas Gabriel percebeu que ele e Miriam eram os piores, mas ele nunca foi um menino de se deixar perder. Extremamente competitivo, ele sempre foi um dos melhores nos esportes, por que cargas d'água ele estaria perdendo para Elisa? Uma menina tão descoordenada? As habilidades de Sacis não deveriam ser parecidas com isso? Foi então que sua raiva e inveja começaram a crescer. Ele se esforçava cada vez mais, mas parecia que seu esforço não adiantava em nada. Ele não conseguia enxergar a distância entre ele e Elisa diminuindo.

Gabriel não conseguia compreender que Elisa também se esforçava muito para aprender e progredir. Também observou que Miguel e Abigail estavam muito melhores que todos, mas tudo que ele conseguia enxergar era Elisa, pois mesmo que ela não tivesse sendo a melhor, era ela que sempre fora a pior do grupo em tudo que exigisse coordenação ou esforço físico de algum modo. Porém assim que as semanas se passaram ele foi começando a se conformar com a ideia. Realmente de algum modo o poder de um saci não vem só do esforço físico, existia algo a mais.

As semanas se passaram e ele foi observando melhor os amigos que estavam se saindo melhor nas tarefas. Gabriel não gostava de perder, definitivamente não gostava de perder tanto. Foi então que ele desgrudou um pouco a atenção dele de Elisa e passou a observar Abigail. Percebeu a facilidade com que ela fazia as tarefas. Foi então que no fim de cada dia ele percebeu como Abigail fingia estar mais cansada do que realmente estava. Isso feriu profundamente o seu orgulho.

Ao longo do mês foram aprendendo todo tipo de transformações, até que no final o professor ensinou como transformar só parte do corpo no que deseja. Aprenderam como se transformar em outra pessoa e mudar a forma do seu bracelete igualmente, e no caso de Abigail, a mudar a cor do bracelete também.

No começo do mês alguns ficaram com inveja de Abigail, por ela possuir roupas e braceletes mais "sofisticados", o que para ela, era um estorvo. Eram os símbolos da sua diferença. Só faziam-na sentir-se mais deslocada. Além disso, por mais que ela tentasse disfarçar, era possível perceber claramente que ela tinha muito mais poder. A discrepância era grande demais.

Começaram então a se distanciar da garota, até que em um certo momento, passaram a isolá-la, fingiam que ela não estava ali, com exceção de Miguel. Abigail então já não se importou mais em fingir, não estava dando certo mesmo. Ela passou a realizar as tarefas com todo o seu potencial, se isso lhe custasse a solidão, então que seja. Se eles fossem amigos de verdade, não deveriam deixar que isso influenciasse.

Miguel notou a mudança de comportamento de Abi. Reparou que ela havia ficado mais agressiva e distante. Quando ele foi tentar falar com ela uma noite, ela o dispensou e foi dormir. Já não acreditava mais neles, achava os sorrisos e palavras que lhe dirigiam fossem falsos. No dia seguinte, assim que ele acordou, saiu de seu quarto e ficou esperando na porta do quarto de Abigail. Assim que ouviu a porta do quarto dela destrancar, ele adentrou o aposento.

- O que você está fazendo? - indagou a garota surpresa - Não pode fazer isso. Se o professor te pegar aqui, nós dois seremos punidos por sua culpa!

− Fique calma! Só quero ter uma conversa rápida, antes que os outros acordem. Não precisa falar tão alto! - sussurrou e continuou - Compreendo o que esteja sentindo e tem razão, mas acredite em mim, cedo ou tarde a galera vai perceber que o que está sentindo nada mais é do que inveja!

- Inveja, Miguel? Você acha que eu não sei? Eu fiz de tudo para tentar evitar isso, até porque eu percebi que no seu mundo parece que o que importa aqui é o poder. Eu nunca esfreguei na cara o que eu posso fazer. Fiz de tudo para evitar conflito, mas eles parecem que nem se lembram do tempo que passamos juntos. Ainda assim, procurei não me sobressair. E para que? Eu me cansei de tanta hipocrisia, eles não são amigos! Precisam de alguém inferior do lado para se sentirem melhores, pelo visto. Mas assim que virem que algo em alguém é melhor em alguma coisa, eles se esquecem que já foram amigos. Que espécie de amizade é essa?

- Você sabe muito bem que não é só isso, Abigail. Nem todos lidam muito bem com esses sentimentos e já faz muito tempo que não temos contato com outras pessoas. Isso está nos deixando à flor da pele, inclusive você também, então procure se acalmar e pensar com mais clareza - Miguel olhou fundo nos olhos de Abigail, como se estivesse escondendo algo, por fim desistiu, então continuou ­- Ah, tudo bem! Posso te contar uma coisa? Promete que vai guardar segredo?

- O que é? - indagou a garota.

- Por favor, Abi, prometa! - implorou Miguel.

- Tudo bem, prometo. Mas antes, vamos saindo daqui, por que não quero ser pega pelo professor ­ ­- falou, pegando na mão de Miguel e saíram do quarto e da casa.

Foram em direção a um pequeno laguinho que tinha se formado no meio do imenso campo. O professor achou melhor criar um lago para que os alunos aprendessem a se transformar em água nesse meio. Os dois tiraram os sapatos, sentaram na grama e colocaram os pés na água. Então Miguel continuou a falar.

- Sabe... eu já passei por uma situação parecida com a sua. Por isso eu te entendo.

- Como assim? O que aconteceu com você? - perguntou Abigail curiosa.

- Na verdade isso foi há muito tempo, mas eu ainda me lembro como se fosse ontem. Sofri chacotas, perseguições, me envolvi até em algumas brigas.

- Mas por que fizeram isso com você?

- Porque na época meu pai havia abandonado eu e minha família. Ele sumiu no mundo e nunca mais nós o vimos. Minha mãe ficou desolada, mas ela não poderia faltar ao trabalho, pois ela era guardiã da floresta de Saci. Muitas vidas dependiam dela, por isso faltar ao trabalho nunca foi uma opção. Dessa forma, por um tempo, eu e minha irmã ficamos desamparados, sem receber muita atenção da nossa mãe e nós ainda éramos crianças. Eu tinha uns dez anos e minha irmã, apenas quatro. Eu terminei tendo que cuidar dela, quando minha mãe se ausentava.

"Havia umas crianças, que antes eu achava que eram meus amigos, passaram a me tratar de forma diferente. Antes eu sempre saía para brincar despreocupadamente, mas depois que isso tudo aconteceu, eu tive que passar a ficar mais em casa, ou levar a minha irmãzinha junto. Meus amigos começaram, então a fazer perguntas e eu fui sincero. Achei que eles iriam compreender. Talvez tenham compreendido até certo ponto, eu não sei. Mas depois disso, começaram as brincadeiras. No começo eram apenas brincadeiras leves, que ainda assim machucavam, só que depois foram tomando ar e tudo foi ficando cada vez mais pesado. Foram sentindo prazer em me ver sofrer e não pararam por aí."

"Como aquelas crianças também eram meus vizinhos, quando minha mãe não estava em casa e eu ou minha irmã saíamos de casa, eles passaram a também a nos assediar na nossa porta. Minha irmã só tinha quatro anos, Abigail! Aqueles malditos eram praticamente da minha idade e a estavam maltratando do mesmo jeito. Eu tinha uns treze anos na época. Ela não podia nem ir no nosso quintal. Quando isso aconteceu, eu não me aguentei e parti para briga com três deles. É claro que eu levei a pior, mas depois disso os pais deles e a minha mãe ficaram sabendo da nossa história."

"Quando minha mãe chegou em casa e me viu todo ferido, ela quis saber o que houve e eu contei tudo que estava acontecendo, não aguentava mais aquilo. Ela então foi tirar satisfações com os pais de todos os meus antigos amigos e não só com os que estavam envolvidos na briga. Mas sabe o que todos disseram? Que os filhos deles foram muito bem educados e que, se tiveram problemas apenas comigo, era porque quem estava causando problema mesmo era eu. Também falaram que minha mãe deveria educar melhor a gente, mas compreendia a situação que nós estávamos passando, já que o marido dela a havia abandonado, então ela não teria tempo suficiente para cuidar de nós. Daí o nosso desvio de caráter, imagine."

- Que horror, Guel! - interrompeu Abi - Não é possível que aqueles pais sejam tão tapados assim? Eles, pelo menos, não achariam errado três crianças batendo em uma única, não? E você não disse que estava perto da sua casa quando isso aconteceu?

- Para ser mais exato. Essa briga tinha acontecido no quintal lá de casa. Mas sabe, Abi, quando se trata dos seus próprios filhos, os pais ficam cegos para muito tipo de erros que eles cometem. Pelo menos é isso que me leva a pensar, diante de certos fatos que me aconteceram. Acho que eles preferem fingir que o problema está com qualquer outro filho, para não ver que o próprio não é essa maravilha toda. É preciso ter coragem para ser um bom pai ou mãe, acredito.

"Minha mãe acreditou em mim ainda assim. Em menos de uma semana, nos mudamos para uma nova casa. Para falar a verdade, acho que ela já planejava isso há algum tempo, para não ter que lembrar sempre do meu pai quando voltasse para a antiga. Terminamos indo morar em Isla mesmo e é lá que eu moro até hoje. Foi então que eu conheci Miriam e Gabriel."

- Ah! Quer dizer que sua amizade com eles já dura tantos anos?

- Ah, sim! Mas nada comparado a amizade entre os dois. Gabriel conhece Miriam desde que nasceu, por assim dizer - acrescentou Miguel e depois deu risada. Abigail não entendeu o que ele quis dizer, então ele continuou - Na verdade, é porque os pais de Gabriel e de Miriam são muito amigos. São tão amigos que moram próximos e quando Miriam nasceu, Gabriel, seu irmão e seus pais foram visitar ela e a mãe no hospital. Na época, Gabriel deveria ter um ano e pouco. E de lá para cá, até hoje aqueles dois não se desgrudam.

- Guel, mas pelo que eu vi, seus antigos amigos não mudaram e sua vida só melhorou depois que você foi embora. Porque você acha que seria diferente comigo? Porque acha que Miriam, Gabriel ou Elisa vai mudar de comportamento?

Miguel parou por um momento, olhando o lago cristalino mais a frente e depois virou-se para Abi. Ela lhe mostrava apenas um semblante muito triste e de certa forma ele a compreendia. Sabia que ela estava sofrendo, como ela uma vez havia contado a ele, pois havia se afastado de seus antigos amigos da vila de Saci e ainda sofria com o sumiço de sua irmã. Tudo que ele queria era confortá-la, mas o que poderia dizer naquela situação?

- Bem, Abi. Só o que eu posso lhe dizer é que tenha paciência. Eu conheço essa galera há alguns anos. Sei que eles são melhores que isso, você vai ver. É que isso tudo acontecendo é muito novo para nós e uma hora eles vão cair na real. Para você que não nasceu nesse reino talvez não entenda a dimensão do que seja esse aprendizado, mas para nós que ouvíamos nossos pais sempre falando sobre isso aqui, toma uma dimensão muito maior, entende?

- Eu espero que você tenha razão, mas se quer saber, eu já estou cansada de fingir um cansaço a mais que não existe. Fingir que posso fazer menos do que realmente consigo, só para agradá-los. Se eles me aceitarem de volta alguma hora, vai ter que me aceitar como eu realmente sou e o que sou ou não capaz de fazer.

- Você tem razão. Não estaria sendo verdadeira com você mesma nem com seus amigos se não fosse assim. Amigos que não estimulam todo seu potencial, não são amigos de verdade - concluiu pensativo.

Eles então se levantaram e voltaram para a cabana tomar o café da manhã.

Abigail achava que o lugar em que eles estavam era realmente bastante singular. Cada um dormia em um quarto. Em cada quarto havia um banheiro e o do professor era, logicamente, o maior. Os lanches apareciam por mágica em uma geladeira ou dentro de um armário. Abigail no começo não sabia o que era uma geladeira, tinha vivido longe de toda essa tecnologia, mas foi se acostumando com tudo rapidamente. Desde que estava com Iaci, já tinha visto uma infinidade de inovações por toda Isla. O café, o almoço e o jantar apareciam na mesa da sala, mas às vezes era possível ver algumas cozinheiras Sacis pondo a comida na grande mesa redonda e se retirarem rapidamente.

No segundo mês aprenderam a abrir portais, a criar casas se desejassem e a entrar em mundos diferentes. Mas não aprenderam a criar mundos paralelos. O professor disse que era necessária uma magia avançada, além de muitos sacis em conjunto para realizar tal feito e somente a Cuca tinha conseguido fazer isso quase sozinha, porém com alguma ajuda de sacrifícios humanos. Todos ficaram espantados com tamanho poder que a bruxa possuía e a forma egoísta e sem escrúpulos que utilizava.

Abigail se sentia muito sozinha. Ninguém queria falar com ela a não ser Miguel. Até Elisa, por quem ela tinha um apreço muito grande, também resolveu se afastar e as coisas pioraram ainda mais quando ela decidiu não fingir mais. Agora ela estava usando todo seu potencial, só parava de praticar as transformações quando realmente estava exausta e isso só acontecia quando já estava anoitecendo. Iaci falou uma vez que os humanos que não sabiam respeitar. "Pois bem, quem não sabe são os sacis!", pensou. Então lembrou que ela agora também estava se tornando uma, mas continuou com a mesma opinião.

Quando Abi foi para seu quarto descansar depois de um exaustivo dia, o professor chamou os outros para uma conversa.

− Sei que isso não é da minha conta, mas não posso mais ignorar! Vocês não deveriam tratar a garota assim - olhou feio para todos.

− Não estamos fazendo nada - resmungou Gabriel aborrecido e a inveja transparecendo em seu rosto.

− Ela não tem culpa do poder que tem, ou das roupas e do bracelete que recebeu! Ela é humilde e alguém já a ouviu esfregar na cara de algum de vocês isso? Ela não viveu como nós na mordomia aqui em Isla. Lógico que ela adquiriu mais experiência e reflexos que nós por ter vivido em uma ilha e tendo que muitas vezes salvar o próprio pescoço sozinha, coisa que vocês na segurança de seus lares, nunca tiveram que passar. Vocês já perceberam que ela não quer ser diferente? Que até mudou a cor da roupa para dourado, para parecer igual, não mudou para azul, verde, amarelo ou o que seja para chamar atenção? Além do mais, não me ouviram dizer que é possível aumentar os poderes? Vocês estão mais fortes agora do que quando chegaram!

− Mas ela é muito estranha! - criticou Gabriel. Ele sabia que não era uma desculpa contundente, mas não suportava o fato de ter que se aproximar dela novamente e ter que expressar a verdadeira razão por detrás dos seus atos.

− E você? Também não é, Gabriel? Vai me dizer que todos nós somos iguais, vocês que tanto criticam os humanos pelos seus preconceitos, estão fazendo exatamente como eles! Isso aqui não é um treinamento para fazer amiguinhos, mas para exigir o máximo de cada um. Fazer com que progridam. Por que acham que foram selecionados para ficarem juntos nessa turma? - perguntou e todos ficaram calados, então continuou - Foi por que existem sacis lá fora observando o que vocês fazem. Já sabíamos que vocês tinham se tornado amigos. Não queremos um treinamento deficiente por falta de entrosamento. Vocês não foram selecionados juntos a toa. As provas que vão se seguir vão precisar disso e vocês vão ter que se resolverem, por bem ou por mal.

− Você tem toda a razão professor! Já conversei com eles sobre isso, mas não adiantou! - completou Miguel e apoiando o professor.

🐇E aí, estão gostando? Se sim, dá um joinha. 🌟😍🌟
Bulliyng não é um assunto fácil de comentar, principalmente para os que já sofreram.😑
Mais difícil ainda é confessar que já passou por isso.
Bem... mas para os que passaram ou estão passando, saibam que não estão sós nisso e tudo sempre passa com o tempo.
Eu já sofri, superei e sigo adiante. Imagina aí, uma garota que gosta de animes, video games e praticar esportes. Não iria se enturmar muito, não é?😅
Mas, não vale a pena se prender ao passado. Então, por favor, amigos: não voltem para suas escolas depois de já formados e matem outros alunos que nada tem haver com isso. Vão atrás dos que te fizeram isso... kkkk😅
Estou brincando, pelo amor de Deus, não me levem a sério.😉

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