037| Já vi que não é coisa boa.
8:30h Quarta-feira 19-02
Hoje o celular despertou e eu só resolvi ignorar. Erick me disse ontem que eu já poderia voltar para a escola e eu dei o meu melhor sorriso fingindo estar feliz, mas eu não estava nenhum pouco feliz. Muita coisa está acontecendo e a única coisa que não tenho agora é ânimo para ir à escola.
Por outro lado, fiquei feliz pelas meninas ontem, me disseram que a diretora colocou elas no time de líderes. Talvez dê certo essa convivência no grupo, nosso único problema será Heyoon pegando no nosso pé.
Ouvi alguém bater na porta e virei minha cabeça confusa.
— Quem é? — pergunto por costume, já sei quem está ali...
— Joshua — soltei uma risada. Josh me disse que esse nome só os pais dele usam quando dão bronca nele.
Me levantei fazendo um coque no cabelo e abri a porta.
— Diga meu colega de quarto favorito. — digo em um tom irônico.
— Você não vai tomar café? — perguntou se escorando na porta.
— Bom dia para você também. — dou um sorriso forçado. — E você não devia estar na escola?
— Eu deveria estar onde eu devo estar. — eu arqueio uma sobrancelha. — Perdi à hora. — comecei a rir.
— Quer ajuda pra encontrar ela? — digo rindo e ele me olha sério.
— Engraçadinha. — revirou os olhos. — Você quer companhia para tomar café ou não? — disse seco.
— Se for pra ficar nessa grosseria eu tomo sozinha. — cruzei os braços.
— Que seja. — ele deu de ombros e foi embora.
Fechei a porta e procurei uma roupa mais confortável para usar nesse dia frio.
Coloquei uma calça moletom e a blusa que roubei de Josh que fica gigante em mim. Parecia que eu tinha dois metros de braço com essas mangas longas.
— Vamos tomar café, meu amorzinho. — digo com uma voz fofa e pego o cachorro no colo, essa coisa até que cresceu rápido.
Desci às escadas e vi Josh sentado vendo tv, ele realmente tomou café sem mim? Chato!
Revirei os olhos passando por trás e segui até a cozinha. Coloquei ração para o pequeno e fui procurar algo para comer.
Abri a porta da geladeira e senti Josh se aproximar na cozinha.
— Se estiver na intenção de me assustar, pode desistir. — peguei uma garrafinha de água e levei até a boca me virando.
— Sabe, as vezes eu acho que você é uma bruxa. — acabei me engasgando quando Josh disse isso e comecei a tossir desesperada. — Calma aí, não precisa morrer. — ele começou a dar batidas leves nas minhas costas e eu fiquei confusa.
— Por que você está batendo nas minhas costas? — digo e ele me olha confuso.
— Para você desengasgar? — comecei a rir ainda tossindo um pouco. A forma dos humanos agir é realmente estranha.
— Então tá. — me sentei no balcão. — Posso te fazer uma pergunta? Tudo bem se não quiser responder. — ele me olha.
— Já vi que não é coisa boa. — disse se sentando no banco do outro lado.
— Por que você parece detestar sua mãe? — ele deu um suspiro. — Não precisa responder se não quiser, é sério.
— Pode até parecer que detesto ela, mas não é bem assim. — desviou o olhar. — É só as atitudes dela que me fazem não aceitar seu jeito. — se levantou e seguiu até a geladeira.
— Por quê? O que ela faz que você não gosta? — pergunto apoiando a cabeça nas minhas mãos.
— Ela não liga muito pra mim, só pensa em dinheiro, se a escola vai bem, como estão os lucros… isso me irrita, ela só se preocupa em eu ser o filho perfeito da escola dela. — notei a mudança em sua voz. — Sempre que eu faço algo que não é de seu agrado ela grita comigo "isso são regras da escola Joshua". — disse imitando a voz dela. — às vezes eu acho que ela nem preferia ter me tido.
— Não fala isso, nem de brincadeira Josh. — digo séria. — Não é porque ela dá mais atenção para escola que ela não te ame. — me olhou com um ar duvidoso.
— Se ela realmente se importasse, teria lutado pela minha guarda quando se separou do meu pai. — disse me servindo uma tigela com cereal.
— Obrigada! — forcei um sorriso.
— Por nada. — ele voltou a se sentar no balcão.
— Já parou pra pensar que ela te poupou sofrimento? — levei a colher na boca.
— Como assim? — olhei ele e engoli meu cereal.
— As vezes ela sabia que não seria uma mãe perfeita para você. — encolhi os ombros. — Talvez ela só estava com medo de você passar a odiar ela pela ausência em sua vida, então preferiu adiantar o processo. — Josh franziu o cenho e eu vi a confusão em sua aura.
Soltei um leve suspiro e me ajeitei no banco.
— O que eu quero dizer é que… — pensei um pouco. — É melhor você estar com seu pai, que você se dá super bem e está onde deve estar quando você precisa dele, do que com ela, que não vai estar ao seu lado quando você precisar. — desviei o olhar. — Sua mãe pode até não parecer, mas ela é super insegura. — digo mexendo em minha tigela.
— Não sei se penso desse jeito. — disse em um suspiro. — Preferia ter ela ao meu lado, me dando conselhos sabe… sobre garotas no meu primeiro relacionamento. — dei uma risada e ele me olhou sério.
— Desculpa. — coloquei a mão na boca.
— A verdade é que eu não consigo me dar bem com ela, a gente não consegue conversar dois minutos que começamos a discutir. — suspirou triste.
— Bem, você se conhece melhor do que ninguém, mas na minha opinião sua mãe tem medo de tentar ser mãe, ser a sua mãe. — me olhou. — Você não é a pessoa mais fácil de lidar Josh e teve a quem puxar. — digo comendo mais um pouco.
Ele cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— Não adianta negar isso Josh. — revirou os olhos. — Por mais que você não goste, você é mais parecido com ela do que com seu pai, e eu não digo isso para te provocar nem nada, mas ela é sua mãe, e é para sempre. — voltei a comer.
Por mais que ele tente esconder, sei que no fundo ele também ama ela. A mãe de Josh pode até parecer brava, exigente e ser bastante gananciosa, mas dá para ver que ela sente falta da vida antiga dela, e tenta preencher isso se afundando no trabalho da escola.
— E você, nunca contou de fato porque não gostava do seu pai. — suspirei.
— Não conheci meu verdadeiro pai Josh, minha mãe me disse que ele morreu antes de saber de mim. — digo baixo. — Mas não quero tocar nesse assunto. — olhei ele que assentiu.
Embora eu tenha contado metade da história para Noah, acho que ele não contou nada para Josh, o que me deixa aliviada. É bom saber que posso contar com ele em relação a esses assuntos.
— Sabe Any. — Josh me tira dos pensamentos. — As vezes acho que dá para sermos amigos. — dei risada.
— Eu não. — digo e ele arqueia uma sobrancelha.
— Por que não? — suspirei.
— Você tem transtorno de bipolaridade Josh, uma hora está bem, outra hora está mal, não dá para saber o que vem de você. — digo e ele se levanta.
— É como eu disse, "às vezes eu acho que dá para sermos amigos" mas daí eu lembro que você realmente é insuportável. — ai, doeu.
Josh saiu da cozinha e eu fechei os olhos.
— E Any Gabrielly estraga tudo novamente. — digo sussurrando e volto a comer.
Talvez eu tenha falado demais, mas isso não deixa de ser verdade. De todos os humanos que já vi, Josh é o único que tem essa mudança repentina de aura. Uma hora bem, outra hora mal, uma hora é legal e outra hora é um grosso…
Josh tem um sério problema, e não envolve ninguém à sua volta e sim ele. É o primeiro garoto que vi aqui que ainda não se encontrou. Na escola, em casa, com os amigos, que seja, falta algo na vida dele.
Por algum motivo acho que falta um equilíbrio nele, e enquanto ele não achar seguirá com essa confusão em sua vida.
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