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-Raquel,  o que você fez!----- minha irmã Karla se vira para mim totalmente desesperada,  eu não a culpo.------ você matou ele!---- conclui.
---- eu não  tive culpa, você viu o que ele ia fazer! Nunca mais vou permitir que alguém toque na gente.
    Digo assustada, porém enfurecida .
    A quatro meses atrás eu vivia em um pequeno barraquinho com a minha mãe. Leandra. ela tem trinta e três anos, e minha irmã karla,  ela só tem nove anos. Eu ainda tenho quinze. Meu nome é Raquel, eu não sou o tipo de menina meiga que todas são,  corrigindo,  na maioria são. Eu sou totalmente diferente, mas enfim. Minha mãe trabalha no lixão  bem aqui onde a gente mora, este lugar estadual , não pertence a ninguém daqui, mas foi abandonado pelo estado daqui do México, Cidade do México
   Eu gostaria que a vida fosse mais simples pra minha familia,  mas não é. Pelo simples fato de não termos roupas limpas e agradáveis na maioria dos dias, porque nós não temos a mesma educação . mas são orgulhosos de mais para admitir,  Somos discriminados,  ofendidos e excluídos do resto. Mesmo assim somos pessoas, sentimos a reprovação,  inegualdde e as humilhações que sofremos. Não somos ratos, somos pessoas!
        Todos somos iguais a todos!

    Apesar de morarmos em um lugar horrível, onde passam insetos , ratos e outras pestes, apesar de não termos dinheiro pra nada,somos honestos.  Não tiramos nada de ninguém.
     Nós moramos em um barraquinho de madeira, nem sempre foi assim. Morávamos com meu pai. A gente tinha uma casa aqui antes de virar um lixão, antes dos preconceituosos de plantão botarem fogo nela.  E depois, nós " somos os ratos". Meu pai morreu no incêndio,  mas não quero nem lembrar disso. Eu era muito nova,  mas me lembro que karla era menor que eu, eu deveria ter a sua idade. As marcas de fogo ainda invadem os olhos da minha mãe,  o corpo também. Por sorte,  nós três escapamos, meu pai deu sua vida pra nos salvar, e essa tragédia jamais vou poder esquecer.
      Minha mãe também é diarista as vezes, eu costumo ir com ela para ajuda- la. Suas cicatrizes não deixam ela ter êxito. Mesmo com o reforço não temos dinheiro pra nada.
      Outra parte de morar aqui me irrita, não é só o fato de dormimos com ratos ou de que nós só tenhamos uma refeição ao dia, é também o fato de mesmo todos aqui passarem por dificuldades,  até os nossos me discriminam.  Não aceitam eu ter tido um pai negro e ter nascido branca como minha mãe e minha irmã, não aceitam minha mãe trabalhar aqui e no centro. As pessoas da minha miserável escola me desdenham, mesmo estando nas mesmas condições que eu. São orgulhosos de mais para admitir. Isso sempre me feriu, sempre partiu meu coração,  mas eles são ignorantes de mais para entenderem.
      Hoje está bem frio, acho até que vai chover. O que pra muitos é bom, para nós é péssimo,  nossa casa enche de água e quando o sol resolve voltar, ainda seca todo o lixo e o odor é bem pior. Eu vivo me perguntando porque a vida é tão boa e confortável pra uns e para outros tão miserável.  Mas acho que nunca vou obter essa resposta.
     Como eu temia começou um temporal aqui, é horrível,  e pior é ter certeza de que já estou acostumada com isso.
    Minha mãe,  karla e eu corremos para todos os lados tentando resolver o problema.  Apesar de muitos aqui serem egoístas , é compreensível,  como podem dividir o pouco que teem?  Mas apesar disso, muitos aqui são prestativos e assim como minha familia e eu ajudamos quando enche em suas casas, eles também nos ajudam quando é nossa vez.

  ---- tente levantar pelo menos os forros de cama---- minha mãe diz virando- se para mim.  Queria eu que fossem forros de cama!
Penso . Não demonstro tristeza com o que penso, não quero que minha mãe se culpe mais que já se culpa.
     Levanto os forros para cima com as mãos,  não tenho a menor ideia de como salvar o pouco que ainda temos. Nossos vizinhos ( os prestativos)  veem nos ajudar.
--- podem colocar suas coisas lá em casa--- diz o walase. Sua casa é de tijolos e cimento,  por tanto não alaga --- vocês podem passar os dias que precisarem até a casa desalagar- -- conclui. walase é tão bonito por fora e por dentro também.  Seus olhos são mel como... Como o mel! Ele é negro e forte, é preciso ser forte para suportar isso aqui.
  --- obrigada, Walase!--- respondo ainda correndo para lá e pra cá, suspiro
  ---- obrigada, Walase!---- respondem minha mãe e karla.  Também exaustas e num tom cansado. Elas também correm pelos cantos.
       Apesar de saber que preciso de ajuda, isso me incomoda. Não queria dar mais motivos para  que cassoem de mim, mediante a tudo que passo eu não deveria ligar, mas não posso evitar. Passo por muitas humilhações,  e o pior é saber que Karla também vai passar por isso, se é que já não está passando.
     Eu queria poder dar uma vida boa para minha família,  mas vendo essa situação começo a pensar que é impossível. 

      Terminamos de salvar algo. Por mais que eu esteje acostumada com tudo isso, não consigo ficar mais um segundo aqui olhando para elas. Não consigo encarar seus olhares de triztreza e frustração gritando, e pensando como tudo poderia ser diferente. Não posso ficar vendo de camarote os sonhos da minha irmã se destruindo assim como os meus. Não dá, não posso aguentar!
          Saio dali em meio ao temporal, ouço minha mãe me gritar tentando me impedir, mas não paro, não posso, não quero desabar na sua frente para que se culpe mais ainda. Mesmo ela sabendo que saí por isso, não quero que me veje assim. E aqui estou eu, andando sem destino na chuva,  charorando a morte de tudo que eu sempre sonhei. A minha realidade matou toda a esperança que eu tinha. De baixo dessa noite chuvosa, imagino como a vida seria se meu pai estivesse aqui, mas ele não está! Nos poucos  minutos que saí de casa fico encharcada, nem se quer sei se vou ter outra roupa para usar, Karla não poderia me emprestar, sou magra, mas não tanto, além do mais suas roupas ficariam curtas, pois eu sou um pouco alta, meus seios também não colaboram e deixaria suas blusinhas apertadas em mim. Daria sorte se a roupa não esplodisse em meu corpo, como um bola inflavel.
        Mesmo morando no lixão, minha saúde é de ferro, não temos dinheiro para remédios, então quando ficamos doentes minha mãe usa ervas, o que é muito melhor que drogarias.
      De tanto andar me cansei e me sento em baixo de telhas velhas de uma cabana abandonada daqui do lixão, os meus pensamentos não param de me torturar. Mesmo eu tendo o emocional de aço, não seguinifica que eu não tenho sentimentos, até porque, se hoje estou assim foi graças a tudo que todos fizeram isso  a mim
          As pessoas destroem você e nem se dão conta .

       Mas todos sentimos,  todos sofremos as vezes, eu não sofro as vezes, eu sofro sempre, mas as pessoas não vão ver meu sofrimento, não vou deixar elas saberem que estou vulnerável,  que assim é mais facil me matar!
       Os meus olhos me torturam todo dia, as vezes queria ser cega, para ter um pinguinho que seja de esperança, para não ver minha realidade. Meus olhos certamente ficarão enchamos, na maioria das vezes só fico com raiva,  não gosto de chorar, isso me deixa fraca. Mas dessa vez, não posso evitar, eu guardei muita coisa durante muito tempo, eu tenho que liberar.
        Já chega de choro !
    Penso
     Vou para a casa de Walase, entro toda encharcada, normalmente eles iriam correndo me ajudar a me enchulgar, mas nós moramos no lixão, um resfriado não é nada comparado as doenças que costumamos pegar. Eu mesma vou até o banheiro e pego uma toalha,  volto para sala, onde estão todos sentados em uma mesinha de madeira na sala, que também é cozinha. Começo a me enchulgar, seco meu cabelo. Já sou de casa, Walase é como um pai para mim, sempre venho visita- lo.  Muitos aqui são prestativos .
    ---  venha, Raquel,  vou te dar uma roupa.---- diz a esposa de Walase.
     Eu a sigo em direção ao quarto, ela tira uma roupa limpa e confortável de dentro de uma velha sapateira.  Walase e a mulher trabalham no centro.
      Um casaco de pano fino vermelho, uma calça legi preta e uma blusa fina também preta. Com o pente, penteio meu cabelo, não é difícil penteado- lo , ele é liso, quando molhado mais facil ainda. Quando húmido, ele fica maior, mais escuro e escorrido, meu cabelo é castanho claro. Eu o parto ao meio, deixando- o simples.
      Depois de me trocar, volto para sala. Todos sorrindo para mim, eu ainda estou meio murcha, estou triste,  desiludida, e sem fé, mas forço um sorriso quando Walase minha mãe me elogiam. A mulher de Walase ao meu lado, também sorri
     --- olha como ela está linda!---- ele diz  olhando para mim sorrindo, sentado na cadeira.
   --- tinha que ser minha filha.--- minha mãe brinca também sorrindo.
       Vou até eles e me sento a mesa, me sirvo com uma xícara de café. Todos esses elogios e sorrisos me comfortam no meio dessa situação.  Minha mãe não está chorando, está brincando. Isso me dá uma ótima sensação,  que tudo vai ficar bem, eu posso não ter nada, mas eu tenho uma familia e isso basta para mim.
       O clima de hoje, depois da chuva de ontem está fechado, mas mesmo assim, minha mãe e eu fomos até o lixão tentar encontrar alguma coisa para por no ferro velho. Óbvio que as idiotas da escola não perderam a oportunidade de me provocar como sempre, mas não dou atenção,  não tenho mais pic pra isso, minha mãe percebe a provocação das garotas, e dirige um olhar de lamento a mim, enquanto fecho a cara e continuo fazendo o mesmo que fazia antes.
     Não adianta lutar contra isso, não deixarei de ser quem eu sou, e nunca vou deixar de me orgulhar das minhas origens.  Eles nunca vão parar ,  mas eu também não !


 

 

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