Parte I
⇢ O conto é pequeno, mas eu o dividi em três partes para que ficasse mais fácil a leitura (porque se fizesse tudo em um capítulo só ficaria confuso para ler).
⇢ Não pesquisei sobre como deve-se agir em uma empresa jornalística, por isso reconsiderem se algo sobre isso não for idêntico á realidade.
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Estou à cerca de duas horas encarando fixamente ( mas logicamente piscando ocasionalmente) este ponteiro enquanto ele pisca a cada quatro segundos diante dos meus olhos. Nada me vem a mente para escrever – o que realmente me frustra mais a cada milésimo e me faz questionar os meus superiores. Por que eles simplesmente não me incumbiram de uma tarefa melhor e que eu sentisse algum prazer em fazer? Sinceramente, nunca havia ficado tão revoltada com algo no trabalho do que como estou atualmente.
Suspiro com raiva, fecho a página ainda em branco que abri horas atrás no Word e desligo o computador da empresa. Me levanto da confortável cadeira giratória com um grosso estofado na qual estivera sentada e guardo algumas coisas em minha bolsa. Depois saio do meu pequeno cubículo, que pode ser chamado de escritório por aqueles que pensam pequeno.
— Já vai Amélia? — pergunta um dos novos estagiários assim que passo em frente à seu escritório/cubículo.
Consigo reprimir a careta que estava destinada a ele e sorrio docemente, confirmando o que me foi perguntado com um meneio de cabeça.
Trabalho nesta empresa jornalística a quase um ano, mas não sou levada a sério por nenhuma das pessoas que aqui trabalham. Não tenho a menor ideia do motivo, afinal sou a que mais me concentro no trabalho e, portanto, deveria ser a que mais privilégios e elogios ganha. Contudo, o que acontece é o contrário. Parece que a cada nova ação sou mais reprimida por meus superiores; desconfio firmemente que eles não gostam nem um pouco de mim.
Saio do escritório e o ar frio de inverno faz com que meus cabelos, que outrora estavam caindo suavemente sobre meus ombros, se rebelem e batam sobre minha face – como se estivessem guerreando entre si. Irritada, os junto e amarro-os em um coque no alto da minha cabeça.
Caminho algumas quadras até onde havia estacionado meu carro mais cedo e sorrio ao vê-lo. O comprei a apenas alguns meses atrás e, modéstia a parte, sou muito esperta por tê-lo conseguido por um preço tão menor do que o vendedor queria me cobrar inicialmente. Entro no carro; tiro as luvas que estavam em minhas mãos para esquenta-las e impedir que ficassem geladas; ligo o ar condicionado e coloco minha bolsa sobre o banco do carona – que como sempre não será ocupado por ninguém, em nenhum momento.
Descanso minhas costas no banco revestido de couro. Coloco a chave na ignição, a giro e ouço o suave ronco do motor (o que faz meus lábios se repuxarem em um grande sorriso, já que o motor do meu carro anterior fazia tanto barulho que, com toda certeza, era possível ouvir a várias metros de distância, o que sempre me envergonhou).
Começo a dirigir, rumando para meu apartamento.
...
Coloco a chave na fechadura e, após a gira–la, ponho a mão sobre a maçaneta e abro a porta. Entro no meu apartamento, fechando a porta novamente logo em seguida. Jogo minha bolsa sobre o sofá e ando até meu quarto.
Vou até o banheiro e ligo a torneira para que esta encha a banheira de água quente. Volto para o quarto e sento-me na cama, retirando meus sapatos e começando a me despir.
Retorno ao banheiro; desligo a torneira; jogo alguns sais na água e depois entro nesta, relaxando meus músculos tensos instantaneamente.
O motivo de me encontrar tão tensa e estressada é porque meus chefes fizeram um sorteio para escolher alguém para fazer uma matéria/artigo, ao qual sairia em uma das primeiras páginas do jornal, sobre um assunto que, sinceramente, já está ultrapassado, mas ao mesmo tendo ainda está muito presente. Eles fizeram suspense durante um mês sobre o tema/assunto que seria abordado no artigo, mas eu, obviamente, me empenhei mais no mês passado para que fosse escolhida, afinal uma matéria nas primeiras páginas faria com que meu nome ficasse mais conhecido, porém não contava que o tema fosse ser esse. Bom, quando chegou a hora de anunciar quem foi o escolhido para redigir o artigo e meu nome foi dito, confesso que um grande sorriso tomou conta de meus lábios, mas assim que o suspense teve fim e o tema foi-me informado, o sorriso morreu em meus lábios. Eu Amélia Aretha Alstom terei que escrever um artigo sobre Preconceito Racial, mais especificamente o preconceito que os negros sofrem até os dias de hoje. Só tem um problema... eu não acho que eles devem ser totalmente incluídos na sociedade.
Não me entenda mal, eu sei que séculos atrás eles, antes escravos, receberam o direito à liberdade, mas isso simplesmente não quer dizer que eles devem viver e ser incluídos na sociedade do mesmo jeito que nós, os que nunca fomos escravizados.
Por isso estou realmente furiosa com esse artigo, pois como vou redigi-lo com, no mínimo, mil palavras se não sei -nem acho certo- como defender o ponto de vista dos negros? Não há como.
Suspiro frustrada e empurro minha cabeça dentro da banheira até que a água a cubra, fazendo com que eu fique submersa.
...
E novamente eu estou olhando para este ponteiro, desta vez piscando a cada oito segundos, já que acabei de configura-lo, por que já estava ficando exasperada com o número de vezes que estava piscando, pois por falta de melhor coisa a fazer, eu estava contando quantas vezes a cada segundo esse infeliz traço piscava.
Após meu relaxante banho de banheira, coloquei meu roupão, peguei algo para comer e me sentei aqui, em minha poltrona acolchoada, para ver se aqui em casa, no meu ambiente preferido e sossegado, alguma coisa me vinha a cabeça para escrever, mas nada me ocorre. Não sei o que escrever sobre este assunto, e pela primeira vez desde que me formei, há tres anos atrás, questiono se fiz a escolha certa na faculdade, em vez de ter optado por outra área.
Me levanto da poltrona , ao qual estive sentada por cerca de vinte minutos e ando lentamente até minha cama, onde me deito - prometendo a mim mesma que amanhã resolverei este problema -, e poucos segundos depois adormeço.
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