Capítulo 4
Com dificuldade de dormir, você sai da casa. Por um caminho de pedras, atravessa o gramado. Destrava o cadeado do portão e sai para a rua.
O mar está à frente. Você prefere ir para a direita.
Você anda a esmo. A seu redor, as sombras se movem, ora a envolvê-lo, ora a se afastar de você. Ratos e preás cortam seu caminho, em carreira. Aves noturnas voam sobre sua cabeça. Poeira, palha e folhas desgarradas voam a seu encontro, carregadas por súbita ventania.
Você adentra uma mata. Os galhos cortam sua pele, a areia afunda sob seu pés, tocos fazem-no tropeçar a todo instante. Você continua. Sangue escorre dos arranhões em seu corpo. Você continua.
A mata, mais e mais escura. Você escuta risadas — de deboche, de entusiasmo, de alegria. Também vozes — desconhecidas, familiares, incompreensíveis. Aqui e ali a escuridão é quebrada por brasas e luzes cintilantes. Às vezes é possível ver por trás das brasas um cigano a se aquecer no braseiro de uma fogueira morta, ou por trás da luz cintilante uma criatura minúscula a carregar um pote lotado de ouro.
Você continua a andar.
Pisa sobre um formigueiro. De relance vê um tamanduá com as fuças enterradas na areia vermelha.
Agora você pisa sobre poças d'água, de onde pulam peixes e golfinhos.
Agora pisa na lama, de onde saem cobras e vermes.
A mata acaba em uma clareira. Uma clareia que parece abranger tudo que os olhos vêem. No céu, estrelas colidem entre si, em meio a cometas que caem e sobem. O solo sob seus pés é de uma terra brilhante, a irradiar cores azul e cinza.
Você continua a sangrar. Você sua pelas axilas e costas.
Só então você percebe que está nu.
O vento traz o frio da noite, mas você só sente calor. Um calor que lhe parece queimar as entranhas.
Um relâmpago corta o céu. Parece iluminar todo o planeta.
Você fica encandeado por alguns segundos.
Quando volta a enxergar, está de volta à mata.
Grandes carvalhos o arrodeiam.
Um pica-pau de cabeça vermelha pousa nos troncos e bica a madeira em busca de comida. Cada bicada machuca seus ouvidos como um tiro. Você implora para que ele pare. A ave levanta vôo e revoa em torno de sua cabeça por alguns segundos, até que esbarra em você e cai em meio aos garranchos do solo.
Só então você nota que ave não tem olhos. No lugar, dois buracos vazios arrodeados de sangue...
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