Capítulo VI
Bem assustado, o jovem se virou inopinadamente, quase derrubando o jarro que se encontrava em suas mãos. Ele tentou se recompor colocando um semblante sério logo após encontrar o olhar furioso da irmã. Jogou um dos bichinhos de pelúcia no chão como um ato de desprezo, coçou atrás da cabeça, bagunçando seus lindos cabelos escuros, cortados em camadas sedosas e cheias. Curiosa, Grace repetiu a pergunta, cruzando os braços na altura dos seios, adquirindo uma postura alfa, odiava quando seus irmãos invadiam seu quarto, e como mais velha exigia o respeito dos primogênitos. O olhar do Jack desceu pelo corpo dela, ficando com um leve rubor em seguida, a estava vendo de uma forma que não queria ver. Grace acompanhou esse olhar percebendo que tinha esquecido de colocar a calça, se apressou em vesti-la, mas não se sentiu envergonhada.
— Antes de sair a Emily me pediu para te dar os biscoitinhos. — disse ele jogando o frasco de vidro em cima da cama, sem se preocupar de cair no chão.
— Ah. Obrigada. — Agradeceu ela mantendo a postura ainda séria.
— Eu sei que foi você que estava me espiando. — Disse ele se aproximando dela. Ela era duas cabeça acima da dele.
— Ah, fala sério! Você nem é interessante assim. — Ela o olhou de cima abaixo enquanto falava com um sorriso de desdém.
— Ah, tenha dó! Você que não é interessante, por isso vai acabar igual a sua mãe, usada, abandonada e cheia de...
— E você vai acabar igual a sua, uma louca depressiva, mal-amada, insegura...
— Pode inventar o que quiser, — ele se aproximou mais, podia sentir a respiração dela lavar seu rosto, como a brisa de Manhã beijando o dia, se sentiu um pouco ameaçado por sua altura, contudo, não demostrou. — Ninguém vai acreditar em você. — Esboçou um sorriso de lado, bem marcante.
Grace inclinou a cabeça para o lado com um olhar bem frio, indiferente.
A Maria, ainda se encontrava na casa, terminava de apanhar as roupas de cama. Subiu as escadas com uma cesta em mãos, ao parar no corredor, percebeu a porta de Grace aberta e uns cochichos baixos. Se dirigiu então até lá, diante da porta a empurrou com cuidado, adentrando o cômodo, encontrando os dois irmãos cara a cara um com o outro. O que ela pensou foi o oposto do que realmente estava se passando ali. Ela imaginou que os dois estavam tendo algum tipo de romance, pelas olhadas de mais cedo e as indiretas jogadas, se perguntava como não tinha percebido antes tudo isso. Estava completamente atordoada.
— O que está acontecendo aqui? — Ela denotava horrorizada.
Seus olhos pareciam querer saltitar das órbitas e sua face refletia espanto.
Ambos se viraram para a encarar. O semblante da mulher deixou a menina intrigada, inocentemente, tentava imaginar o que ela tinha pensado que estava acontecendo.
— O que ainda faz aqui? — Perguntou o Jack rudemente, cruzando os braços.
— As roupas de cama. — Respondeu ela indicando a cesta, ela olhava de um rosto para o outro, atarantada.
— Obrigada Sra. Clark. — Disse Grace antes de se voltar para seu irmão. Ambos se encontravam na mesma posição, fechada. — Dá o fora daqui. — Sua voz saiu forte, autoritária.
Jack olhou para a irmã com uma careta de desprezo e nojo, retorcendo os lábios como sempre fazia, passou pela empregada a mandando ir para casa, como se tivesse a suprema autoridade. A Maria deixou o que era da garota e saiu com um semblante de repudio.
A manhã estava húmida, porém de vez em quando uma brisa morna entrava pela janela, com um toque primaveril em sua essência mais pura. Grace acordou com a luz forte do dia ofuscando sua visão, um clarão branco alaranjado entrava sem pudor, violando seus olhos recém despertos. Depois de se arrumar, trancou o quarto e desceu, jogou as coisas no sofá e se dirigiu para a cozinha, sabia que o café estava sendo servido lá, dava para ouvir as vozes animadas. Todos estavam em volta da mesa, os quatro conversavam descontraidamente, ao notarem sua presença, alguns se calaram. A jovem se sentou à bancada, seu pai a chamou para se juntar a eles na mesa, contudo, ela recusou educadamente. A conversa retomou de forma descontraída outra vez até que...
— Sabe Sr. Peterson... — Iniciou a Maria como quem não queria nada. Edward se virou para vê-la. — Eu estava conversando com Grace, mas primeiro eu teria que pedir sua permissão. Eu gostaria de levar ela em alguns desses domingos para uma seção de oração na minha igreja. Acredito que será bom para ela. — Finalizou com um sorriso exagerado.
— Não, obrigada. — Disse Grace no automático, estava se servindo de seu desjejum. Seu pai pigarreou desconcertado com a tamanha falta de educação da jovem.
— Bom... nós não somos pessoas religiosas, — disse ele olhando para a esposa, que ignorou seu olhar. — Mas seria bom. Talvez Deus consiga manter essa casa em paz. — Seu tom era crítico.
— Oh, certo! Então Grace, domingo que vem a gente vai. — Disse ela se aproximando da bancada de uma forma animada.
— Muito obrigada, mas como eu disse antes, não. — Falou enquanto se servia de mais café. — Qualquer coisa eu vou com a Sra. Marta.
— E por que não comigo? — Perguntou a Maria parando o que estava fazendo. — Ela é negra?
— Quê?! — Exclamou a jovem confusa inclinando um pouco a cabeça para o lado e com olhos semicerrados.
A Evelyn encarou a mulher por cima dos óculos de leitura (estava com um jornal nas mãos), e o Edward passou a mão pelo rosto.
— Não, mas isso não importa. — Disse Grace se recompondo. — A questão é que o Deus dela não tem esse tipo de preconceito.
— Mas só tem um Deus. — Maria se pronunciou um pouco indignada com o que ouviu.
— Bom, parece...
— Okay, Grace? — Chamou seu pai interrompendo, terminando com a discursão que estava se formando. — Você já arrumou as suas coisas?
— Sim, estão na sala...
— Ótimo! Vou terminar aqui para irmos. — Ele se servia de mais café também. — Meninos? Vão pegar suas coisas. O Sr. Harris logo estará aqui.
A Maria voltou para o que estava fazendo e nada disse mais sobre o assunto, se sentiu rejeitada e profundamente ofendida, em sua mente, só queria ajudar. Depois de terminar o café, o Noah se levantou e em seguida seu pai. Grace foi se entreter em seu celular, conversando com a Irina. A Maria vez por outra olhava para a menina como se quisesse falar alguma coisa. Uns quinze minutos depois levantou-se a Evelyn e o Jack, que passou encarando a irmã com desprezo cítrico.
Emily se aproximou de Grace com uma jarra de café, a menina bocejava constantemente, seus olhos revelavam a noite mal dormida, seus dedos nervosos tamborilavam sobre a bancada inconscientemente.
— Panquecas? — Perguntou a jovem.
— Não, obrigada. — Grace agradeceu pegando mais café e deixando o celular um pouco de lado.
— Noite mal dormida. — Disse a Emily em tom de pergunta, enquanto colocava mais torradas no prato, sobre a bancada, acompanhado de geleia de morangos.
— Sim..., insônia. — Grace falou um pouco relutante enquanto mordiscava a torrada com gosto, ela amava aquela combinação. — Noite muito curta. — Disse por fim.
— A ansiedade causa isso. — Emily parou por uns momentos fitando o nada, com ambas as mãos apoiadas na bancada, apertava as bordas com força. — E no final só sobra o monstro do cansaço.
Grace olhou para a moça com um olhar um tanto curioso, desejou saber o que se passava na mente dela, o que pensava. Que monstros ela ainda enfrentava? Como será que calava as vozes da ansiedade? Desejou saber, mas a mente humana é uma galáxia de mistérios, sombria e fascinante onde habita o abismo do que se quer, e do que realmente é, ora anjos, ora demônios. A jovem percebeu o olhar da menina e sorrio amigavelmente para dissipar aquele clima atro, Grace desviou sua atenção para suas mãos. Maria se encontrava recolhendo a mesa do café, mas como não conseguia guardar a língua dentro da boca, resolveu se pronunciar da forma mais desagradável possível.
— Isso se chama falta de Deus. — Sua voz estava elevada em tom de autoridade. — Ansiedade, depressão, acha que as pessoas que têm Deus, que andam com Deus tem essas coisas? Acha que Deus está com gente que tem essas coisas? — Dizia ela enquanto colocava alguns objetos na máquina de lavar louças.
Emily parou com as mãos na cintura, bem desconfortável, olhou para Grace que estava com a mão na testa, como que implorava por paciência e autocontrole.
— Sra. Clark?! — Chamou a Emily com a sua voz macia que tinha. — Eu entendo o seu ponto de vista e as suas crenças, mas é cruel falar isso...
— Cruel nada, isso é a verdade! Tem que ser dita para ver se acordam. — Dizia ela com a voz outra vez alterada interrompendo a moça rudemente. — As pessoas que têm Deus são felizes. Deus está com pessoas alegres, positivas. Isso de ansiedade, ansiedades é uma desculpa para não dizer, admitir que está sem Deus. Vocês precisam orar mais, rezar mais para afastar esses pesos que carregam. É como alguns povos negros do passado, e infelizmente tem alguns no presente também, que ainda não sabem seu devido lugar no arranjo da sociedade, pessoas ignorantes. — Ela falava revoltada misturando um assunto em outro, perdendo completamente o sentido. — Se os antepassados soubessem seus lugares e reconhecessem seus lugares, não teriam sofrido nas mãos dos brancos. Ignorantes! Tudo é questão de hierarquia. Eles precisavam dos brancos, usaram o sofrimento como desculpa, e agora qualquer um usa depressão como desculpa (...).
Ela continuou a falar mais e mais, contudo, vou poupá-los do desgosto de terem que ouvi-la por mais tempo.
A Emily parou o que estava fazendo e se dirigiu para o quintal, precisava de ar fresco, a atmosfera estava muito pesada, se sentia enjoada. Grace jogou a cabeça para trás, olhou para o teto e respirou fundo, ela teve vontade de pegar a xícara e enfiar goela abaixo da mulher, calando-a de vez. Ao retornar com a cabeça para a frente, percebeu que tinha voltado a ouvi-la. Seu café tinha perdido o sabor, a torrada parecia pedra, a geleia estava estranha, estava tão desagradável que tudo tinha perdido a graça.
A jovem regressou do quintal com um semblante mais tranquilo, seus olhos acinzentados pareciam verdes em contraste com a luz. Pegou um copo com água e se sentou ao lado da bancada. O Jack entrou na cozinha, apanhou algo na geladeira, em seguida se virou para a irmã, dizendo que seu pai a esperava, ela o olhou em face séria. Assim que o menino saiu, a Maria se virou para Grace dizendo:
— Sabe o que acontece com incestuosos?
Grace se virou para ela com um olhar mortal, seus punhos estavam cerrados e os lábios comprimidos, como uma linha, estava cheia de ódio, com olhos flamejantes.
— Vão todos queimar no inferno. — Disse a mulher com peso e maldade na voz.
Ao som daquelas palavras, a menina se levantou, pegou a xícara e a tocou no chão com toda a sua força, a transformando em pedaços pequenos. Emily gritou saltitando de seu assento assustada. Grace fez isso para não lançar na mulher a sua frente, queria muito afundar os objetos cortantes no rosto dela e silenciá-la de uma vez por todas. A Emily se assustou com a reação da menina, não esperava que a mesma iria fazer aquilo, a jovem ficou extasiada na cadeira ainda sem acreditar. A Maria se tornou uma estátua, havia levado uma das mãos ao peito, tinha a sensação de que aquele copo ia ser nela. Ela estava em choque. Grace olhou para ela, se despediu de forma acida e saiu como se nada tivesse acontecido.
Parada ao pé da escadaria, ela levou uma mão ao rosto fechando os olhos. Precisava buscar o autocontrole, sentia que havia passado dos limites, tinha perdido o controle. Estava magoada, ofendida, chateada, mas não se permitiu chorar, inspirou e respirou fundo algumas vezes buscando esse, 'autocontrole'.
A cabeça parecia pesar toneladas toda vez que o ar entrava, ao mesmo tempo que era arrebatada por uma brisa leve que parecia a fazer flutuar, o peito se rompeu a pinicar como espinhos dolorosamente amolados, uma dor maçante o cortou com punhaladas constantes. Ela percebeu que suas mãos tremiam e seus dedos estavam terrivelmente frios, suados, suas pernas tinham ficado mais leves, dormentes, sua cabeça pareceu rodar. Cambaleou algumas vezes enquanto arfava, até que seu pai a segurou firme.
— Você está bem? — Perguntou ele de forma preocupada ainda a segurando.
— Sim... eu estou bem. — Disse ela se recompondo e escondendo as mãos nos bolsos da calça cargo moletom bege, sua respiração ainda estava descompassada.
— Okay, vamos. — Ele a olhou com o cenho franzido, claramente apreensivo.
Ela quis se despedir da Emily, porém, não queria voltar a cozinha e ter que encarar a Maria. Falaria com a jovem por mensagem.
Já do lado de fora, foi recebida por um vento parcialmente morno, lambendo sua face pálida, a sensação foi boa e desagradável ao mesmo tempo, como um corpo febril tentando se aquecer aos tremores do frio mentiroso. Ao entrar no carro, sentiu um aroma de capim limão com produtos de limpeza, parecia recém lavado. Os meninos entraram no outro carro com o Sr. Harris e partiram, ambos frequentavam escolas particulares.
Se acomodou no acento, prendeu o sinto e olhou sua aparência no espelho, se sentindo desgostosa, nem todo corretivo cobriria aquelas olheiras, se sentia cansada. "Você é horrível", sussurrou uma voz em seu subconsciente, "é tão insignificante, que Deus a abandonou". Esse último pensamento a fez derramar algumas lágrimas, estava tão angústia, estava doendo tanto, que desejou desaparecer. "Não posso chamar por Deus, porque ele não olha para pessoas como eu", isso fez um nó na garganta produzindo uma dor alucinante, queria prantear.
— Então, vamos princesa?! — Disse o Edward entrando no carro e a pegando de surpresa.
Grace virou o rosto rapidamente para que ele não visse sua face molhada, secou as lágrimas com a manga do casaco cinza listrado, que se destacava por cima da camisa branca curta com a logo de um time de Hockey, abriu a mochila, pegou o jarro com os biscoitinhos de canela e mel, e começou a comê-los com gosto, no entanto, ainda era difícil, doloroso engolir.
— Vamos. — Disse antes de colocar mais da guloseima na boca.
— Grace, não fale de boca cheia.
— Desculpe. — Falou outra vez antes de engolir. Edward suspirou cansado.
— Daqui até lá, esse pote vai estar vazio. — Comentou dando partida no carro.
— Não vou comer tudo. — Outra vez com a boca cheia.
— Sei...
No consultório, não demorou muito para serem atendidos. De início não era nada sério, mas estava começando a inflamar. A médica que a atendeu passou um anti-inflamatório com analgésicos e a colocou para ficar enfaixada por oito dias. Grace entrou em um desespero interno, pois iria ficar oito dias sem a natação, "o que a Sra. Lewis fará?". Tentou conversar com a médica, mas de nada adiantou.
Depois da clínica, seu pai a levou para tomar um café. Ele achava precioso esses momentos com ela, já que a via tão pouco.
Ao chegar no estabelecimento, se sentaram perto das janelas, o coffee shop não estava cheio, mas a sensação era de que estava lotado, três clientes falavam muito alto. Uma moça baixinha e de porte frágil trajando seu uniforme, verde musgo com um avental branco e tênis All Star clássico, se aproximou de ambos com um sorriso amistoso, entregando o cardápio, uma fita preta adornava seu pulso esquerdo, a menina percebeu que a moça ficou desconcertada sobre o seu olhar inquisidor. Grace acabou por pedir um Red Velvet e cappuccino, seu pai um Honey cake e um Expresso. A mulher anotou tudo rapidamente e saiu com a mesma velocidade que apareceu.
A menina levou sua atenção para fora do café, observando as pessoas que passavam com a pressa de quem tinha visto fogo. Todas elas focadas nos seus objetivos, seus supostos atrasos.
Um homem idoso roubou sua visão, ele se destacava por ser o único em seu ritmo lento, tranquilo, sua face era serena. Ela se pegou pensando o quanto ele já tinha visto e vivido, o que aqueles olhos já não viram do terror do mundo. O quanto o mando já não o castigou, contudo, depois de tantas batalhas, se encontrava assim, com o tempo quase o reclamando para si, com o seu leito eterno já o aguardando para o seu descanso final..., para o seu último sono. O que será que ele verá antes do escuro o tomar? Quais serão suas últimas lembranças? Aquilo causou-lhe uma sensação muito ruim, uma angústia diferente de todas as outras, um medo, uma ansiedade de algo que ainda não viveu: "Talvez eu não chegue a esse tempo". Pensou consigo mesma enquanto acompanhava o idoso sumir de seu campo de visão.
Passando-se um longo tempo, Edward notou que sua filha poderia estar em qualquer outro lugar, excerto ali. Ele parou de falar e a fitou com um semblante de admiração. Foi só quando a garçonete voltou com os pedidos que ela se mostrou presente. Grace deu uma golada no cappuccino, fechando os olhos enquanto saboreava o líquido quente e parcialmente grosso que descia por sua garganta numa explosão de sabor e textura. Ao abrir novamente, encontrou seu pai a encarando.
— Você come com gosto. — Disse ele pegando o seu expresso. — Faz até alguém que não está com fome querer comer.
— Ah, legal — Ela esboçou uma face de surpresa enquanto retirava um pedaço generoso do seu Red Velvet.
— O que foi aquele barulho alto lá na cozinha? — Perguntou ele, repousando o objeto com lentidão ao pires.
— A xícara caiu da minha mão. — Respondeu com a boca ainda um pouco cheia.
— Não fale de boca cheia, — ralhou ele, passando as mãos pelos cabelos. — ...Por favor.
— Desculpa. — Ela engoliu logo em seguida enrijecida como um robô.
— Eu estava pensando no que poderíamos fazer nessa primavera. — Iniciou ele cautelosamente. — Já tem uns anos que a gente não vai a New Hampshire.
Grace largou a comida ao ouvir aquele nome. Várias recordações vieram a mente, recordações doces e agradáveis, porém, agora... não seria como antes. Ela não queria ir, não queria que aquele lugar fosse maculado, corrompido por presenças tão intragáveis. A casa onde outrora ficavam, a casa de suas ótimas memórias de infância, se encontrava alugada desde o divórcio de seus pais. Depois da separação, a Irina ficou com a casa em Boston e o Edward com a de campo, em New Hampshire, um acordo justo, julgou ele na época, já que possuía mais um imóvel em Manhattan.
A comida desceu como uma pedra áspera pela garganta, arranhando, se sentiu enjoada só de imaginar ficando lá com sua madrasta e seus dois meios irmãos insuportáveis.
— Já tem um mês que a casa está vazia. — Disse ele com um semblante de animação. — Vai ser bom sair um pouco de todo esse... estresse.
Grace deixou o seu lanche, bem desgostosa. Ele então percebeu pelo comportamento dela que aquela ideia a havia desagradado.
— Bom, é só um pensamento. — Disse ele tentando pegar o olhar dela, sua voz agora soou desanimada.
— Tranquilo. — Disse depois de um tempo, forçando um sorriso. — São planos.
Edward olhou para ela um pouco melancólico, em seguida desceu para as mãos notando que ela havia voltado a roer as unhas, — talvez tivesse voltado com algum problema passado (de ansiedade). Se sentiu desconfortável, nunca se considerou um bom observador, principalmente quando se referia a sua filha. Desde pequena, sempre se mostrou uma criança complicada, enxergava o mundo de uma forma mais mística, um livro de mistérios fechado para aqueles que não conheciam a arte de decifrar enigmas, isso sempre o frustrou, era como se essa personalidade dela a separasse dele. Ele passou a mão pelos cabelos, terminando seu café, se recostou no espaldar do banco, cruzou os braços completamente alheio, tinha sido tomado por pensamentos. Dado alguns minutos em silêncio eles partiram.
O clima estava se tornando particularmente mais agradável agora, uma brisa fresca vinha de algum lugar, mesmo com todos aqueles carros enfileirados, não perdia a sua essência suave de folhas verdes banhadas em orvalho. Quase uma hora e meia depois, presos no trânsito, às 11h20 eles se viram em frente ao prédio. Edward inclinou um pouco a cabeça para fora do carro, para observar a estrutura residencial, era grande e todo de vidros, o terraço tinha uma espécie de jardim (rasteiro) muito bem-organizado.
— A Irina continua com bom gosto. — Disse ele um pouco admirado.
— Sempre. — Falou Grace enquanto pegava as suas coisas. — Por isso ela é a melhor no que faz.
— Claro. — Disse com um sorriso, saindo do carro. — Tchau, Princesa. — Ele passou as muletas para ela.
— Tchau, pai. Obrigada.
— Eu te amo, princesa. — Falou, logo depois beijou o topo da cabeça dela em despedida.
Ele a observou entrar, encostado no automóvel com os braços cruzados. Teve vontade de entrar e acompanhá-la, mas afastou a ideia com um balançar de cabeça, em seguida entrou no carro e partiu.
Ao destrancar a porta e entrar, foi saudada por um cheiro maravilhoso que entrou por suas narinas, atacando seu paladar subitamente, um aroma de comida assando no forno. Massa ao ponto, molho de tomate caseiro com manjericão, queijo, frango e mais queijo que se derretia cremosamente sobre os outros ingredientes. Fechou os olhos tentando visualizar o que seria a comida.
— Bom dia, Grace. — Saudou a Sra. Marta.
— Bom dia, Sra. Marta. — Disse Grace abrindo os olhos e com um sorriso fofo a recebeu.
A Sra. Evans se encontrava de avental e uma luva de cozinhar, estava de óculos e com as madeixas presas, (a frente se encontrava solto por ser franja).
— O cheiro está incrível. — A jovem se aproximou da bancada e repousou as muletas e a mochila no chão. — O que seria?
— Lasanha. — Ela falava enquanto mexia em algumas panelas. — Já está quase pronta.
— Lasanha para o almoço? — Perguntou Grace em um tom achando estranho, enquanto se sentava na banqueta.
— Não, é para o jantar... — Ela parou com uma das mãos na cintura. — O que aconteceu querida? — Perguntou, dando a volta na bancada com um semblante aflito, olhando a perna enfaixada da jovem.
— Bom, é estranho porque nem eu mesma sei direito. — Disse Grace fazendo caras e bocas.
— Você tem estado muito distraída esses últimos tempos. Isso é preocupante. — Ela falava enquanto retornava para a cozinha, Grace deu de ombros. — A dona Irina recebeu uma ligação da escola. Ela vai querer falar com você.
— Da escola? — Grace parecia confusa. — E o que eu fiz?
— É uma boa pergunta. — Disse pôr fim a idosa, parando e encarando a jovem com um olhar agora inquisidor. — Bom, seja o que for, será resolvido.
Depois de ficar mais um tempo com a Sra. Marta, subiu para o quarto. Tentava se lembrar o que tinha acontecido para a escola ter ligado.
Jogou a bolsa em cima da cama, foi até as janelas e abriu as cortinas permitindo que o dia entrasse de forma mais profunda no cômodo, deixando as sombras para trás, em seguida se dirigiu para o closet, pegou algumas peças de roupas, se livrando das que estava usando. Vestiu um short moletom preto e uma camiseta cinza claro. Ao desfazer a bolsa notou o diário que a Emily o tinha dado. Passou os dedos sobre as letras douradas antes de abri-lo, tão simples, mas que passou a ter um grande valor. Não tinha ideia do que poderia escrever nele, nunca havia feito aquilo e apesar de ser uma ótima leitora, não se considerava boa com respeito a escrita. Após um bom tempo, resolveu rabiscar qualquer coisa no papel.
Pela tarde recebeu uma chamada de vídeo da sua mãe muito preocupada, queria ver cada parte do corpo da filha, lamentou muito por não poder ter ido para casa, o que deixou Grace bastante triste, tudo o que ela queria era ter o colo da mãe e se sentir recarregada. A Irina não disse o que a escola queria, mas que conversaria com ela quando chegasse, o que deixou a garota ainda mais curiosa.
Às 14h e pouca da tarde, desceu para se juntar a companhia da Sra. Marta, ela não tinha descido para o almoço. Procurou a idosa em todos os lugares da casa, até a encontrar na lavanderia do andar do prédio. Caminhou em silêncio, brincava com os dedos no apoio, parecia nervosa, um pouco desconcertada, queria falar algumas coisas com ela. Grace a considerava sábia e com palavras bonitas, porém acima de tudo, sinceras. A Sra. Marta a recebei com um sorriso amável.
— Sra. Marta? — Chamou Grace se aproximando da máquina de lavar roupas.
A Sra. Marta estava separando as peças da cesta, olhou rapidamente para ela por cima dos óculos.
— Se eu tiver ansiedade... ou... depressão, eu estou... bom, eu então estou sem Deus? — Sua voz saiu triste e pesada, era como se um dique de lágrimas fosse se romper a qualquer momento, e desaguar no mar de seu sofrimento.
— Por Deus, não! — Exclamou a Sra. Marta um tanto exagerada, percebendo sua tristeza palpável.
Ela repousou a cesta no chão e se aproximou da garota, se encostando na máquina, seu olhar de amabilidade prendeu a jovem com um calor amigável. Grace ainda estava bem retraída, apesar de saber que a Sra. Evans não a iria repreender como a dona Clark, ainda assim tinha um certo receio de falar sobre algumas coisas. Pessoas religiosas costumam ter uma opinião pesada com respeito a algumas coisas. Ela esfregava os dedos na muleta, arranhando, olhava para qualquer lugar excerto para onde se encontrava a Sra. Evans.
— Grace... — Começou a Sra. Marta, tirando os óculos. — Se uma pessoa tem uma doença grave, que as vezes a deixa debilitada, não quer dizer que ela tem menos fé que aquela que está com a saúde boa, ou até mesmo, que frequenta algum templo religioso. — Dona Marta conduziu Grace para fora do cômodo, caminharam em silêncio até chegar em casa, indo para a cozinha. — Tem uma passagem na Bíblia que fala de pessoas com o coração quebrantado, esmagado...
Grace se sentou na banqueta, esticou os braços sobre a bancada e esperou que a Sra. Evans continuasse. A idosa pegou dois copos e os colocou entre elas, em seguida apanhou o creme, o gelo e o café, parecia pensativa ao realizar tudo isso.
— Esse texto diz que: "Deus está perto dos que tem coração quebrantado, ele salva os que tem espírito esmagado". — recitou ela o texto enquanto preparava o café gelado, sua voz era tão macia, aconchegante.
— 'Espírito esmagado', pensou Grace em voz alta.
— Gelo? — Ofereceu ela.
— Sim, por favor. — Respondeu a menina, atenta a tudo o que a outra fazia.
— Pense... se você estivesse doente, com depressão, por exemplo, ou câncer, que Deus não permita jamais, sua mãe a deixaria, a abandonaria só por estar doente?
Grace fez uma negativa com cabeça enquanto provava seu café.
— Certamente que não. Ela te ama muito, jamais a deixaria. Então, Deus também jamais deixaria essas pessoas, principalmente no momento em que elas mais precisam dele... de consolo. — Disse ela de forma gentil, queria que a jovem compreendesse suas palavras. — Que Deus é esse que abandona as pessoas quando elas mais precisam, sendo que uma de suas maiores qualidades é o amor?
— Obrigada. — Disse Grace a olhando com um pequeno sorriso que refletia seu coração aquecido.
A menina respirou fundo antes de dar mais uma golada no café. A Sra. Marta a fitou com um olhar que dizia — é um prazer estar aqui com você.
Ambas fizeram companhia uma para a outra, depois do café agradável que tiveram foram organizar as roupas que ficaram de lado.
O dia percorreu tranquilamente, o que foi ótimo para uma segunda-feira. Por volta das 21h, elas terminaram a noite com a Lasanha e Coca-Cola. Grace se sentiu tão pesada que se arrependeu dos dois pedaços que comeu gulosamente. Para passar o restante do tempo, foram assistir um filme de suspense, no meio do programa a Sra. Marta já cochilava. Tudo estava tão bom, mas ainda faltava algo, a presença de sua mãe.
O cheiro da essência de rosas recém-abertas pelo resplendor da manhã, ainda emanava pelo cômodo, como um denso nevoeiro se recusando a partir ao raiar da aurora. A pele nua ainda húmida parecia absorver as últimas gotículas restantes de água, sua volumosa cascata ruiva pendia do topo de sua cabeça como uma chama crepuscular, uma fogueira ardente, recebendo um tom mais escuro por causa da pouca luminosidade. As chamas das velas tremeluziam, lançando sombras dançantes pelo quarto, na ausência do luzeiro menor. Completamente imóvel, se encontrava observando seu reflexo sentada frente ao espelho de moldura barroco, tão bela, parecia aquelas lindas pinturas antigas, incansável de ser contemplada. Se arrepiou quando uma brisa fria entrara pela janela, como um ladrão beijando sua pele quente e rosada, instintivamente levantou o roupão aos ombros, ocultando sua nudez.
A Alice desviou sua atenção para o céu noturno a sua esquerda, não havia lua ou estrelas para enfeitá-lo, parecia um buraco negro e lá fora o silêncio reinava como um tirano possesso. Respirou fundo antes de se voltar para o seu reflexo tão belo.
Seu quarto era grande, contudo, não mostrava isso. Duas grandes janelas de vidro com cortinas brancas em detalhes rosa e dourado estavam posicionados frente a porta de entrada, a um metro das ventanas ficavam uma cama grande com cabeceira de espuma rosa bebê, duas mesinhas de cabeceira dispostas nos dois lados do leito, com luminárias brancas e bases de cristais, um Puff de acolchoado rosa clarinho repousava ao lado (ao todo eram cinco dispostos pelo cômodo), os forros da cama eram branco e salmão, uma porta que levava ao banheiro estava logo depois desses, aos pés da cama se encontrava um pequeno sofá branco com detalhes rosa, a três metros depois se estava a penteadeira, branca e clássica, com detalhes dourados, talhados de adornos estilo barroco que transcendia a beleza do século, no lado esquerdo da mesma, uma mesa de estudos com uma estante de livros, no lado direito da penteadeira, um closet — que provavelmente já não cabia mais nada. Um lustre de cristal pendia do teto, um tapete branco cobria o piso creme. Parecia tudo tão perfeito, o cenário de um quarto de boneca, o estereótipo da menina mimada... filha única, contudo, algo muito soturno se encobria sob toda essa perfeição.
Uma certa movimentação do outro lado da porta entreaberta roubou sua atenção. Alguém a observava das sombras. Sua face tornou-se dura, ameaçadora sob o olhar espião. Ela podia até imaginar quem era, que a fitava sorrateiramente, isso provocou uma perturbação em seu íntimo, sentiu vontade de gritar por socorro, de correr e se esconder, porém... não era mais criança, não tinha que fazer nada disso, no entanto, a criança de 5 anos que ainda habitava nela, desolada, agachada sozinha no canto de um quarto escuro sob o olhar abusador, ansiava por ajuda, alguém que a salvasse antes dos atos hediondos. Ela ainda tinha medo, uma enorme cicatriz empregada na alma.
Linda e majestosa, ela desviou o olhar, altiva e com um ar de superioridade, se fez a bela jovem, vestindo mais uma de suas máscaras. Dado alguns segundos ouviu a voz de seu pai se aproximando e cumprimentando a pessoa que antes a observava, momentos depois ele entrou sem pedir licença. Alice voltou a se observar no espelho, silenciando a criança que gritava por socorro e assumindo o posto de mulher, de controle. O Sr. Jonathan Miller, se aproximou da filha que não o saudou, nem reclamou por sua entrada repentina, mais cedo haviam discutido à mesa, num jantar de amigos. Parado atrás dela, a segurou firme pelos ombros, a jovem o olhou pelo espelho. Alguns cabelos brancos adornavam sua cabeça já quase calva, deixando o seu ruivo desbotado, um bigode espesso encobria seus lábios finos, seus olhos azuis de vidro estavam escuros por causa da luz. Ele sorriu ao contemplar o reflexo da bela mulher a sua frente, que fisicamente parecia tão pouco com ele mesmo.
De soslaio, a moça viu o homem encostado a porta. De fato, era quem ela tinha imaginado que fosse.
— Eu não estou mais chateado com o seu comportamento no jantar. — Disse seu pai enquanto alisava suas madeixas ruivas, presas num coque frouxo. — Sua mãe por outro lado...
— Tenho certeza de que amanhã ela não se lembrará de nada. — Disse ela em tom frio, se lembrando do quanto sua mãe havia bebido naquela noite.
— Com certeza não. — O Sr. Miller se aproximou um pouco mais do ouvido direito dela. — Mas eu, bem... eu estou feliz! Feliz que não esteja mais com aquele sujeito pequeno. Ele não é para você. Olhe para você! — Ele elevou a voz em um tom de contemplação, dando a volta e pegando o rosto dela em suas mãos, aproximando sua face, seu hálito de Gin asseou o rosto da moça, como a brisa morna da tarde vinda do mar, o cheiro rançoso da maré. — Você merece coisas grandes e não medíocres.
De fato, ela se sentia grande e poderosa, uma mulher incrível: "Quem era a Afrodite aos seus pés?" Mas dentro, ainda havia um pequeno ser indefeso, que não foi capaz de matar, não teve coragem de assassinar.
— Lembre-se! Seja grande e aceite coisas grandes. — O Sr. Miller continuou ainda a segurando. — Não aceite menos do que você merece. — Ele agarrou o coque dela, soltando suas madeixas onduladas, despencando em ondas majestosas por suas costas. — Gente medíocre e pobre são como vermes. — Ele apertou a face dela, fazendo-a encará-lo.
Seus olhos lacrimejaram sob a dor daquele aperto, mas nenhuma lágrima foi derramada.
— Seja grande e esmague os vermes ou eles a esmagará.
— O que é isso, John?! — Trovejou forte uma voz masculina, se mostrando presente. — Não precisa ser tão duro assim com ela.
Alice fechou os olhos e respirou fundo, calafrios percorreram por sua espinha, sentiu suas mãos trêmulas. Apesar de seu pai já tê-la soltado, ainda podia sentir a pressão das mãos dele em seu rosto. Ela afastou algumas mexas da face e levantou a cabeça outra vez altiva.
— Ela tem que aprender, Mark. Tem que ser poderosa. Tem um império para assumir. — O Sr. Miller já estava parecendo fora de si. — Se eu não a ensinar, o mundo vai, e o mundo é cruel...
— Tudo bem, mas não precisa ser hoje. — Se pronunciou mais uma vez o homem adentrando o quarto da 'bonequinha ruiva', como ele a chamava. — Principalmente sob o efeito de Tequila e Deus sabe mais lá o que.
— Hmm! Seu tio é muito bom contigo. Agradeça a ele, por não ter sido presa.
Alice o olhou pelo espelho com olhar de nojo e desprezo, o Mark fingiu não ver.
Mark Walker, era um executivo de alto escalão e um juiz corrupto. Envolvido em muitos escândalos ao longo de sua carreira. No auge dos seus 55 anos de idade, gostava de exibir sua forma física atlética. Divorciado quatro vezes, pois tinha dificuldades em sustentar relacionamentos, com o vício em pornografia infantil e colecionar carros de luxo. Era alto, 1,84 altura e corpulento (robusto), parecia mais um escocês, era careca com uma barba loira escura bem aparada que adornava seu rosto cheio, sua pele era de um branco rosado. Ele não era realmente da família, mas como conhecia o Sr. Miller desde criança e depois estudaram juntos em Harvard University, se consideravam irmãos por todo esse tempo, com isso, um encobria os podres do outro.
— Vamos deixar a pequena Alice descansar. — O Sr. Walker falava com um tom aveludado, mas grosso, do qual a deixou nauseada. — Boa noite, bonequinha ruiva.
— Sim, claro. — Se aproximou novamente da filha que parecia uma linda boneca de porcelana. — Boa noite, querida. — Ele agarrou o pescoço dela enquanto beijava-lhe o topo da cabeça, por trás. — Mais uma coisa. — Ele sussurrava. — Lembre-se, se você quiser se livrar de uma 'coisa', use o poder que tem ou faça você mesma, mas... que ninguém jamais descubra.
A jovem fechou os olhos sentindo a sua criança interna gritar de desespero. Por fora parecia tão calma, tão rígida, porém por dentro chorava de medo, impotente, sem reação, tudo que conseguia fazer era ficar paralisada no canto do quarto escuro.
Enquanto ele a segurava forte, a outra mão desceu o roupão de seu ombro esquerdo, revelando seu colo que abrigava algumas pintas charmosas. Ele beijou a pele nua daquele local, à medida que a mão que segurava firme no pescoço descia sobre seu colo macio, parando a alguns centímetros de seu seio direito. Aquele ato do Sr. Miller, deixou o Sr. Walker muito excitado, ele podia sentir o cheiro de rosas vermelhas primaveril, que antanho emanava de um laço azul preso nos cabelos, o calor da pele dela, a maciez ao toque, o gosto do ser que a muito já havia possuído, em sua essência mais pura, inocência. Ele só via a menina que ela foi, nunca enxergava a mulher que ela era.
O Sr. Jonathan o chamou, tirando-o de seus pensamentos obscenos, já estava visível em seu físico que ele precisava se retirar do aposento. Ambos saíram do quarto conversando alegremente sobre coisas levianas. Assim que partiram, a Alice correu para trancar a porta, temendo que o Sr. Mark Walker voltasse, se encostou na porta percebendo algumas lágrimas furtivas, sentiu ódio por isso e de raiva socou a parede com força, machucando a mão, mas a dor passou-se despercebida.
— Idiota! Fraca! Você deve ser poderosa. — Disse ela para se mesma, passando a mão pelos cabelos, prendendo-os. — Só os fracos choram.
Depois de se recompor, se dirigiu para o banheiro, para se lavar, pois se sentia suja, como se tivessem atirado um balde de lama, porém... não importava o quanto esfregasse e esfregasse, sempre sentia a sujeira impregnada na carne, uma mancha negra, secreções purulentas. Se sentia culpada de seus próprios males, responsável por seu próprio infortúnio. Todos diziam que a culpa era dela, 'suas ações provocaram isso', mas o que sabe uma criança de cinco anos? Pensava que poderia ter feito diferente, horas em eternidade. Talvez um simples 'não' poderia ter parado, ter evitado tantas coisas: "Poderia ter feito diferente", mas afogou-se no mar de seu próprio silêncio, em lençóis vermelhos, gritos silenciosos. — Quem te fez? Quem te machucou, alma solitária?
"— Noites monstruosas."
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