Capítulo I

No silêncio gritante de sua mente uma voz sussurra, a noite parece eterna e os monstros se aproximam silenciosamente, se aproximam na escuridão. Não são estes que dizem ficar escondidos debaixo da cama?

Não teme o escuro, mas o que se esconde nele. Afasta estes até a aurora lutando ferozmente contra tais pensamentos envolvida pela noite sombria...criando barreiras. No entanto, parece que ela nunca vem.

O único som que reina neste abismo, sussurra em seu ouvido palavras sem sentido: "Quem te fez mente louca?" Envolta por ondas negras, dores profundas e gritos silenciosos, está sozinha...

Aos poucos o breu é quebrado e o calor começa a preencher o quarto. As sombras vão sumindo gradativamente, e enfim o sol brilha. A noite havia sido difícil, porém o dia se mostrava soberano.

A manhã estava linda na bela cidade de Nova York, o sol parecia mais vivo e o ar morno pairava sobre o solo. Dada a noite que teve era como se nada houvesse acontecido.

De sua janela a jovem observava uma árvore que cresceu do outro lado da rua, no entanto solitária. Naquele momento seus sentimentos eram de angústia e tristeza. Havia algumas lágrimas escondidas atrás de seus olhos que queriam escapar e mostrar sua verdadeira aflição, pensamentos confusos e angustiantes. E aquela vozinha lá no fundo que lhe causava pequenos arrepios não parava, gritava num silêncio ensurdecedor.

Tinha vencido a noite tempestuosa, contudo, não venceria a escola, seu lugar de suplício como ela mesma costumava dizer. Era lá que seus pesadelos realmente se iniciavam, esclarecendo melhor, grande parte de seu sofrimento mental começava lá. "Nenhuma tortura imposta por Hitler seria pior do que aquele lugar", pensava Grace enquanto fitava a rua.

Ela esfregou os olhos, observou o ambiente, estava tudo delicadamente arrumado, sua cama ficava no canto direito, da posição de entrada, ao lado de uma janela e em frente à outras duas maiores, também havia um tapete cinza posicionado no centro do quarto, duas poltronas, um criado-mudo aos pês da cama, algumas luzinhas tipicamente adolescente envolta do espelho e na cabeceira, uma mesa de cabeceira com uma luminária um tanto estranha e uma cômoda, do lado esquerdo, em frente à grande janela de vidro ficavam o closet e o banheiro, num certo canto do aposento estavam as suas pelúcias, presentes de seus pais, que infelizmente ainda não enxergavam que a filha crescera. Havia ainda um relógio perto de sua cama, ao lado da estranha luminária de caveira, e este indicava 07:30 AM, estava atrasada, tinha que descer e enfrentar seus pesadelos internos.

A sua mãe não tinha dormido em casa, na verdade raramente voltava para casa, estava sempre muito ocupada com o trabalho, sempre viajando. Por conta disso, Irina Martins deixava a menina aos cuidados da Sra. Martha Evans, uma simpática senhora que amava cozinhar e tricotar. Era a pessoa que Grace poderia dizer que passava uma generosa parte de seu tempo. A tratava bem, quase sempre simpática e altruísta.

Falando da Sra. Martins, era uma brilhante corretora de imóveis de luxo, levava o trabalho muito a sério, se comprometia ao extremo a este, por consequência viajava muito, e com isso quase nunca havia tempo para a única filha.

Nos finais de semana e feriados, Grace ia para casa do pai em Upper East Side, Manhattan, algo que ela não gostava, não pelo pai, pois ela o amava, do seu jeito. Edward Peterson já tinha mais dois filhos do segundo casamento, dois meninos difíceis, um de nove e outro de cinco anos. Era sócio de uma empresa de comidas enlatadas, mas também exercia a advocacia, e com o objetivo futuro do cargo de juiz, era um homem bastante ambicioso. Não muito diferente da Irina, também estava sempre viajando, ou seja, não tinha tempo para os três filhos. Grace então ficava com a madrasta ciumenta e seus dois meios-irmãos imprestáveis. Eles não se davam bem, sempre pegavam no pé dela, principalmente por seus pais morarem juntos e a mãe dela ser... como eles diziam: uma divorciada abandonada, uma traída, para não usar a linguagem chula proferida por eles.

Quem quer que olhe por fora, poderá se dizer que Grace tinha tudo, pais bem sucedidos, uma mesada generosa, uma aparência agradável e alguns talentos, porém mesmo tendo tudo isso, o mais importante ela não possuía, a presença dos pais, e amigos não havia muito o que se relatar, principalmente depois que se mudaram para East Villag, todos com quem ela conversava já haviam ficado para trás, isso fez ela perceber que não há amigos de verdade.

Grace pegou a mochila e desceu ainda um pouco sonolenta. A Sra. Evans já tinha preparado seu café e já havia se ocupado no preparo do recheio de uma torta.

— Bom dia Sra. Marta! — Saldou Grace se aproximando da bancada de mármore branca.

— Bom dia Grace! Dormiu bem?

— Não o bastante. — Respondeu com um bocejo.

— Tem uma mensagem na secretária para você — Disse a Sra. Evans colocando a sobremesa de lado e observando a menina. — É de seu pai...

— Humm! Que surpreendente! — Se pronunciou Grace em tom de escárnio a interrompendo. — O que ele queria, entregar outro bicho de pelúcia?

— Quase isso. — Respondeu a Sra. Evans — Como eu sei que você não vai ouvir, vou dizer— ela servia o café — Então... ele disse que vai viajar esse final de semana, mas que estaria de volta na terça e que te recompensaria com alguma coisa da viajem.

— Ou seja, outro bicho idiota. Tão previsível. — Disse Grace mordendo a torrada. — E minha mãe, ela te ligou? — Perguntou ela ainda de boca cheia.

— Não, mas deixou uma mensagem dizendo que voltaria depois das 07h00 PM. Perguntou também sobre seu celular.

— Hum! Tá bom. Tranquilo. Meu aparelho tá no modo avião.

Grace terminou de comer, engoliu o suco em apenas dois goles e saio para pegar o ônibus no ponto, torcendo para que já não tivesse passado.

Ela percorria uns cem metros até onde o transporte passava, algo que fazia com medo. Na terceira semana que tinham se mudado, houve um incidente com as roupas de uma das líderes de torcida, e a mesma, se sentiu tão indignada que jurou vingança pelo ocorrido. Induzida pelo espírito da violência, armou uma emboscada para a garota. No dia seguinte enquanto Grace se dirigia para o ponto, Alice Miller, juntamente com suas amigas a cercaram com tacos de beisebol e bateram nela ao ponto de deixá-la inconsciente. Grace foi para o hospital e o caso foi parar na delegacia, mas não deu em nada, nenhuma das agressoras foram chamadas, ficou como se nada tivesse acontecido, porém ela tinha as cicatrizes para provar o contrário.

O veículo estacionou em frente à escola, esperou até que todos descessem para só então sair.

Ao descer, parou por uns instantes, e um vento gelado passou por seu estômago, estava com receio de entrar, algumas meninas tinham o costume de pegar pesado com ela e o mais revoltante é que ninguém as punia pelo bullying, ela acabava se sentindo sozinha, era tão desgostoso sentir que sua presença é tão intragável.

— Bom dia Grace! — saldou sua professora de história, Mina Gray. — Tudo bem?

A pergunta se perdeu no vento, sendo levada como a brisa em alto mar. A Sra. Gray olhou para ela, e seus olhos castanhos escuros brilhavam, lágrimas queriam sair, suas mãos estavam geladas e suadas, seus pensamentos hesitantes, uma necessidade urgente de sair correndo para bem longe dali. Um temor oculto a fazia fraquejar, se perguntando: 'o que faço aqui?'.

A Sra. Gray percebeu que alguma coisa a incomodava, não parecia bem, então sorrio, e aquele sorriso foi acolhedor para Grace, abraçando-a com a sua bondade, isso foi reconfortante para ela: 'como seria bom se as pessoas fossem assim sempre... boas e gentis'. A professora a conduziu gentilmente até a entrada.

A primeira aula era de biologia, ou seja, líquidos fedidos, experiências estranhas, dessecamentos de certos animais e ainda tinha os vídeos maçantes. Grace entrou na sala, se dirigindo direto para a sua bancada. A maioria dos alunos já estavam presentes, o professor, o Sr. Philliam Hanks estava atrasado, porém ninguém se importava com seu atraso, delicadamente tolerável e assim como suas aulas... maçante.

O parceiro dela, de laboratório, era David MacAdans, ruivo e esguio, um porte atlético e absurdamente irritante, com um certo crush por ela.

Certo dia na aula de história, enquanto estudavam mitologia grega, ele confessou que gostava dela, porque parecia um ser mitológico, uma ninfa das águas, com seus olhos de sereia, grandes e misteriosos, com um toque sedutor, seus longos cabelos castanhos formavam uma cortina hipnotizante diante de uma beleza exótica. No entanto eles não estavam sozinhos quando David fez esse comentário, seu colega ao lado (próximo a ambos), se introduziu na conversa dizendo que ela tinha cara de peixe, Grace tomou aquilo por ofensa e qualquer coisa que David havia dito anteriormente tinha sido apagado, ela julgava como uma crítica depreciativa, deixando a sua autoestima péssima. As vezes David mostrava algumas gentilezas para com ela, mas não eram amigos ou nada que chegasse próximo a isso, não queria ser o cara que andava com a garota mais zoada da escola.

Ela se sentou em seu lugar, percebendo que todos conversavam. David conversava com um amigo bem distraído, nem notou a chegada dela. Como não havia ninguém para conversar, alguém para trocar ideias, pegou seu celular para passar o tempo até seu professor atrasado chegar. Estava bem distraída respondendo suas mensagens atrasadas quando do nada alguém se esbarrou nela, era a Alice, ela também era da sua turma de biologia e cinco outras matérias, parecia até perseguição.

Grace sentiu algo roçar em seus cabelos, passou a mão atrás da cabeça, afagando suas madeixas levemente onduladas quando tocou em algo gelado e viscoso, ela puxou e viu uma criatura repugnante em sua mão, era cumprido, branco e frio, com um corpo cilíndrico que se movia lentamente. Apavorada, lançou o verme para longe gritado e sacudindo os cabelos como uma louca. A criatura acabou caindo em cima de uma outra colega que também entrou em pânico e começou a gritar. O professor chegou bem no momento da histeria, seu semblante estava sério e, quando finamente falou foi para dar uma advertência tanto em Grace como na outra colega, Lilly Stewart. Ninguém contou que a real culpada tinha sido a Alice, que havia aberto o armário de estoques e pegado a amostra, fingido um tombo e assim jogando o espécime do jarro em Grace. Ela preferiu também não contar, aceitou o castigo sem questionar.

No intervalo, Grace se dirigiu direto para o refeitório, pegou seu lanche e se sentou sozinha. Não se dá para fazer amigos quando se entra quase no meio do ano letivo, pensou ela certa vez, quando percebeu que se sentaria sozinha a partir dali. Quando já estava quase terminando, se levantou para devolver a bandeja e ir cumprir seu castigo rapidamente, para que ainda desse tempo de participar da natação, do qual era muito boa, quase um peixinho. Ela caminhava próximo as mesas em passos apressados, sem prestar muita atenção ao que acontecia a sua volta. Alex Martin, o namorado de Zoe Clark (amiga da Alice), a viu se aproximando, colocou o pé na frente, ela acabou tropeçando e caindo, a bandeja em suas mãos com os restos do lanche, caiu em cima da Alice que estava na ponta da mesa, ao lado dela estava a Agatha e acabou sujando-a também, Alice ficou furiosa pois se viu suja de suco, macarrão e purê. O refeitório já estava lotado e todos voltaram a atenção para a cena constrangedora que se passou. Alice olhou para Grace com ódio, e ela sabia no que isso daria.

— Me...me desculpe... — disse Grace quase não ouvindo sua própria voz.

Grace se levantou e saio correndo, indo em direção a floresta atrás da quadra (uma pequena concentração de área verde), e se escondendo lá. Alice mandou seu namorado, Chris Owens e também o Alex Martin atrás da garota, ela queria dar outra surra nela e como na primeira vez tinha a certeza que não daria em nada, mesmo que alguém dissesse algo.

Alice Miller era filha do gerente de um banco estimado da cidade e um político arrogante, se achava importante, pois de fato era, tinha grande influência, principalmente nas redes sociais, possuía muitos contatos importantes e isso a deixava com status. Era bonita, dona de belos traços finos, cabelos ruivos, pele delicadamente rosada com poucas sardas, olhos azuis e lábios voluptuosos, mas não exagerados, porém ao ponto de serem sexy, corpo esguio e bem delineado, totalmente o oposto de Grace, não que esta fosse feia, de forma alguma! Era apenas agradável à alguns olhos.

A penúltima aula era de educação física, Grace não era muito boa com bolas, principalmente com o campo enlameado. Mesmo com o Sol forte que havia feito o dia todo não foi capaz de secar completamente as poças d'água no recinto, naquela mesma madrugada tinha chovido muito que chegou a ser um tanto surpreendente ter um dia tão ensolarado como aquele. Quando a aula acabou, ela esperou até que todas as colegas já estivessem indo embora do vestuário para que pudesse ir tomar seu banho e se vestir para o próximo horário de geografia.

Ela se dirigiu direto para o box, ligou o chuveiro e se sentiu abraçada pela água quente que percorria por seu corpo, relaxando seus músculos cansados e doloridos. Enquanto tomava seu banho despreocupada, Alice, Agatha e Zoe entraram no vestuário, sabiam que Grace estaria lá. Bateram nas portas na expectativa de assustá-la.

— Grace, Grace. — Chamou Alice com uma voz calma. — Às vezes eu fico pensando...se as coisas que você faz é só acidentalmente mesmo ou é de propósito, para que me irritar. Hem vadia imprestável?!

Grace se sentou no canto enquanto a água caía em seus cabelos, banhando as lágrimas que começavam a brotar. Ela não disse nada, apenas abraçou seu corpo e esperou.

— Alice? — chamou a Agatha. — O que acha de pegar as roupas dela e afundar na privada? Ela vai ter que vestir assim ou ir nua para casa.

— Vai dar um ótimo vídeo para o Instagram. — Zoe pegou o celular e o balançou na altura do rosto.

— Okay! Tá bom. — Concordou Alice. — Zoe, consegue arrombar o armário dela?

— Sim. Claro que consigo. — disse ela com um sorriso de satisfação.

A Zoe pegou alguns grampos de cabelo em quanto se dirigia para o armário de Grace. Alguns minutos depois ela o abriu, Alice pegou as roupas da garota, jogando-as no chão com desprezo.

— Procurem uma privada que esteja adequada para mergulhar esse monte de lixo. — Disse a Alice levantando o volume da voz para que Grace pudesse ouvir. — Isso é só o começo. — Sussurrou ela.

Elas procuraram uma privada que estivesse suja para mergulhar as roupas da pobre garota. Encontraram uma que julgaram ser adequada o bastante para tal, um box do lado esquerdo da entrada, depois de mergulhar as peças na latrina, as pegaram com o cabo de uma vassoura e as colocaram numa lata de lixo e esperaram com os celulares nas mãos a hora em que Grace saísse nua para que pudesse filmar e ridicularizá-la nas redes sociais. Esperaram e esperaram, mas Grace continuava trancada, ela sabia que uma hora ou outra as três teriam que ir embora. As horas iam passando e o ultimo sino tocou...

— Alice, já está tarde. — Disse a Agatha olhando o horário em seu aparelho — E eu tenho que encontrar o Diego.

— Eu concordo com a Agatha. — Disse a Zoe guardando o celular na mochila. — Tenho que ir.

— Okay! Tudo bem. — Disse a Alice. — Eu também tenho que encontrar o Chris.

— Pronto! — Exclamou a Zoe. — Então vamos, também preciso muito de um café.

Quando percebeu o silêncio que havia se formado teve a vontade de abrir logo a porta, porém esperou mais, um pouco mais só para ter certeza de que não as ouvia e em seguida pôs-se cautelosamente para fora do box, observando cada canto se certificando de que o trio não se encontrava em algum lugar por ali, escondidas, prontas para dar o bote.

As três tinham ido embora e Grace agradeceu a Deus por ter deixado suas roupas do treino no chuveiro, o contrário, elas teriam pegado e aí sim estaria perdida.

Ela se vestiu com as roupas suadas e enlameadas, pegou sua bolsa e se encaminhou para casa. O prédio já estava quase deserto, só se encontravam apenas os zeladores e uns seguranças que acharam estranha a presença dela ali. Ela inventou uma história de que teria ficado presa no vestuário e como ainda não tinha sido feito a faxina naquela ala, eles acreditaram. Quando já estava na rua ela percebeu que havia se passado horas, pegou o celular para ligar para a Sra. Marta, no entanto o mesmo se encontrava descarregado, pensou que talvez elas estivessem preocupadas pelo seu atraso, porém não queria aumentar mais os passos, estava bem desgastada e sentiu que poderia desabar se elevasse o ritmo das passadas.

Era mais ao menos 05:30PM quando chegou em casa. O tempo estava ficando frio, todo o trajeto foi bem inquietante. Ao entrar em casa teve a surpresa de ver sua mãe, esta, se dirigiu apressadamente até ela com um olhar preocupado, mas seus olhos castanhos revelavam mais coisas, muita exaustão.

— Chegou tarde. — Falou a sra. Martins enquanto observava o estado que sua filha se encontrava. — Eu tentei ligar, mas...

— Meu aparelho está descarregado. — Interrompeu Grace.

— Ah!

— Oi Sra. Martha!

— Oi Grace! — Saudou a Sra. Evans. — Tem torta de pêssegos. — Disse ela com um olhar gentil.

— Obrigada! — Grace gradeceu com um sorriso.

— Eu tenho planos para nós duas hoje à noite! — Disse Irina empolgada, prendendo suas madeixas curtas. — Vamos assistir um filme de terror com Coca-Cola e algumas gordurisses a mais. O que acha?

— Vai ser perfeito. — Respondeu Grace com um semblante abatido.

— Só vou terminar alguns relatórios.

— Tranquilo. Vou subir e tomar um banho.

— Certo meu amor. — Concordou a Irina alisando outra vez os cabelos da filha.

Grace subiu para seu quarto direto para o banheiro, para se livrar do odor horrível daquelas roupas.

Depois do banho, vestiu seu pijama, uma calça moletom cinza quadriculada (um pouco folgada), e uma blusa de manga cumprida da mesma cor, porém lisa. Procurou pelo celular na bolsa e o pôs para carregar, em seguida desceu para tomar um café gelado.

Como quase todos os apartamentos daquela região, ele era todo de vidro, quatro grandes pilastras deixavam um canto onde era a sala arredondado, era uma área bem espaçosa, um sofá grande em forma de L, duas poltronas e uma mesa de centro, algumas mesinhas onde ficavam as abajures, ao total três ao lado desta combinação, uma pequena mesa ficava no lado esquerdo (frente as janelas), a cozinha também ficava nesse mesmo lado, em frente à sala, um grande balcão separavam os cômodos, logo depois vinham a porta de saída e entrada, e a porta da dispensa, a escada de acesso ao segundo andar estava localizada no lado direito, ao lado das janelas, no lado esquerdo da escada, perto das duas portas ficava um aquário médio, a noite lindas luzes azuis e lilases iluminavam-no.

Quando Grace desceu a Sra. Evans já estava de saída, e sua mãe ainda no Notebook terminando seu relatório.

— Oi! — Falou Grace se aproximando da bancada. — Vim fazer um café gelado com creme. A senhora quer me acompanhar?

— Seria ótimo, mas pelo horário tenho que ir. — Falou a Sra. Evans enquanto arrumava sua bolsa. — Amanhã querida, terei o prazer de acompanha-la.

— Tá bem. Tranquilo. — Disse Grace com um semblante frustrado.

— Tchau Sra. Martins, tenha uma ótima noite. — Se despediu a sra. Evans.

Irina estava muito concentrada na tela do computador e apenas acenou.

— Boa noite Grace. Fica bem querida.

— Boa noite sra. Martha.

Ao terminar de preparar seu café gelado, subiu para o quarto, não colocava muita fé de que sua mãe iria colocar seus planos em dias. O patrão da sra. Martins era muito rígido e juntando com o perfeccionismo dela, dava para imaginar o que se esperar dessa combinação.

Grace pegou seu celular e foi checar suas mensagens, havia um Oi de seu pai, uma mensagem explicando que ficaria fora no final de semana, ela respondeu com um Sticker de um Okay.

Em seguida pegou seu computador e foi fazer sua lição de casa.

Às horas foram passando, quando deu 11h40 PM, decidiu descer para ver sua mãe. Ao chegar lá em baixo, ela a encontrou dormindo com o notebook em cima de seu colo, estava tão cansada que acabou pegando no sono. Grace não fez questão de acordá-la, apenas subiu para pegar um cobertor e cobri-la. Antes de ir dormir pegou um pedaço da torta e um suco de laranja. Ao terminar foi para o quarto, parou em frente a grande janela e observou os apartamentos, as luzes bem ao longe como um monte de vagalumes a distância, e quando percebeu uma lágrima escorria por sua face abatida, não sabia ao certo porquê estava chorando, um sentimento estranho a tomou, uma vontade de chorar, de chorar muito, cerrou os punhos, cravando as unhas na carne, na tentativa de se controlar, mas uma pontada no peito a desarmou e começou a desabar em lágrimas, se deitou na cama na inútil tentativa de adormecer logo, no entanto pensamentos confusos a envolveu. Havia uma voz em sua mente que lhe dizia coisas horríveis, as vezes ela achava que era a voz da Alice, mas tudo isso estavam apenas em sua cabeça. A escuridão tomou o quarto e ela se viu sozinha. 'Quem te fez mente louca?'

Na manhã do dia seguinte, Grace acordou depois de uma noite horrível de sono, procurando por sua mãe, mas esta não se encontrava, a sra. Evans ainda não tinha chegado. Em cima da mesa se encontrava um bilhete de sua mãe:

Oi Grace!

Eu precisei sair mais cedo.

Me perdoa por ontem de noite, sei que tinha marcado uma programação com você, mas eu estava tão cansada que acabei apagando... E enfim.

Por favor me perdoe.

Beijos! Mamãe te ama!

— Está perdoada. — Pensou ela em voz alta.

Ela voltou para o quarto e foi se arrumar mesmo estando muito cedo ainda.

Chegando à escola, ela assistiu quatro aulas, na quinta, fez questão de se atrasar um pouco, devido o acontecido do dia anterior, porém ao entrar na sala, para a aula de história, a professora ainda não tinha chegado, e para a sua má sorte a Alice também havia se atrasado, as duas quase se esbarraram na entrada, Grace a deixou passar primeiro, em seguida foi direto para sua mesa. Quando estava se aproximando de seu acento, Alice a parou, tomando sua frente.

— Então... — disse ela fazendo uma pausa para observar Grace. — Acha mesmo que esqueci o que aconteceu ontem? Você ainda me deve.

— Jura! — Exclamou Grace com escárnio. — Minhas roupas não te serviram? Não foram o bastante?

Alice deu um meio sorriso em resposta as palavras de Grace, tamborilou com os dedos em cima da mesa de seu colega com um semblante de raiva, fitou o chão, depois encarou Grace dentro dos olhos.

— Você acha que acabou — disse ela em sussurros. — Mas isso é só o começo. Vou destruir sua existência miserável, seu verme medíocre. E ninguém, ninguém vai fazer nada, porque você é insignificante, é invisível.

Ao ouvir aquelas palavras, Grace sentiu uma lágrima tentando brotar, seu peito se apertou e uma pontada atingiu seu coração aflito, queria chorar, mas se conteve, seus colegas estavam olhando: 'Por que isso?' Pensou Grace: 'Por que me odiar tanto? Por que ser tão cruel?' Depois de seu discurso odioso, Alice saiu para se sentar em seu lugar perto da Agatha.

Quando aquela aula acabou, Grace fez o possível para ser a primeira a sair, correu em direção a saída indo para a escadaria do terceiro pavilhão.

Quando pisou no primeiro degrau, ela encontrou a Liu Mei que estava subindo para ir à biblioteca...

— Desculpe.

— Que bom que te achei! — Disse ela com um suspiro e uma certa exaltação. — Eu sou a Mei Liu. Estou na mesma turma que você de filosofia.
Ela se apresentou com seu sotaque arrastado, mostrando claramente que o inglês não era o idioma usado em casa. Quando tinha cinco anos seus pais decidiram sair da China e tentar uma nova vida nos EUA, foi uma mudança significativa, mas como era muito jovem poucas coisas a conduziam até a nostalgia do passado. Possuía traços fofos, rosto arredondado numa maquiagem discreta, as ondas de suas madeixas já estavam se desfazendo, trajava um vestidinho floral esvoaçante em tom creme e sapatilhas pretas.

— Em que posso ajudá-la? — Perguntou Grace desconfiada.

— Fomos designadas para um trabalho como parceiras. — Explicou a Liu Mei. — Eu te procurei ontem, mas não te encontrei depois da aula. A Sra. Fisher passou um projeto que terá uma nota consideravelmente boa. "Pessoas, máquinas com sentimentos".

— Parece um tema interessante. — Comentou Grace fingindo interesse.

— Um pouco. — Disse Liu Mei fazendo um semblante crítico. — Vamos ao shopping depois da aula de matemática.

Grace fez uma careta negativa dando dois passos para trás, Liu Mei sorriu.

— Tenho certeza que você não vai querer ter outra aula de biologia com a Alice. — Disse ela erguendo uma das sobrancelhas.

— É... Realmente, mas tenho muitas coisas para fazer depois das aulas. — Disse Grace tentando pensar numa desculpa rápido. — Eu... Eu... Eu tenho... Tenho que arrumar meu quarto. Hoje é dia de faxina.

— Mesmo(?) — Disse a Liu Mei cruzando os braços sobre os seios.

— É! Espere... Foi retórica. — Disse Grace com um olhar zangado.

— Tá bom. — Liu Mei observou Grace de cima a baixo. — A julgar por suas roupas, a escola da qual está e todo um meio social do qual sua família frequenta, seus pais tem condições de pagar uma, duas ou até mais empregados.

— Sim. Mas eu mesma gosto de arrumar meu quarto. "Minha bagunça, meu arrumado". — Disse Grace se preparando para sair.

— Por favor — Pediu a Liu Mei se colocando na frente. — Eu preciso dessa nota. Arruma o quarto quando chegar, se quiser eu até te ajudo. Vamos no Shopping, comemos enquanto discutimos a organização do projeto. Lá é um bom lugar para ver pessoas trabalhando como...

— Tá, tá bem. Só tenho que ligar para minha mãe e avisar que chegarei um pouco depois do horário.

— Talvez a gente nem demore muito.

— Mas quero mesmo assim. — Disse Grace passando pela colega.

— Te encontro no estacionamento!

Depois da aula de matemática, Grace foi até o seu armário, deixou alguns livros e em seguida se dirigiu para o estacionamento, para encontrar a Liu Mei. Elas pegaram o ônibus, e depois de alguns minutos estavam na Nordstrom Rack. As duas passearam por algumas lojas, observaram alguns funcionários e fizeram anotações, a Liu Mei chegou até a experimentar algumas peças de roupas, porém não compraram nada.

Depois de uma boa caminhada de pelo local, foram para a praça de alimentação, pediram dois Mike sheik de chocolate.

Grace observava a Mei com um olhar crítico e também curioso, não era realmente necessário se deslocarem até o shopping e agir como se fossem velhas conhecidas só por conta daquele trabalho, assim como os outros só bastava se encontrar na biblioteca e discutir o tema.

A Mei gostava de conversar, e isso era notório, ela não parava a boca, quando acabava um assunto colocava outro e outro, Grace tentava acompanhar, fazia o possível para manter o ritmo, mas era complicado, porque quando o tema discutido ia para um certo debate do qual já não tinha mais a palavra ela mudava e ficava nessa troca irritante. Grace percebeu que estavam falando sobre quase tudo excerto o assunto que as conduziram até ali.

— Por que está falando comigo? — Perguntou Grace ríspida.

— Ora essa! — Exclamou a Mei pegando o copo. — Porque fomos designadas para fazer um projeto juntas. Você é a minha dupla...

— Não me refiro a isso. Sabe muito bem que nada disso era necessário. — Grace cruzou os braços. — Até porquê esse tema não é tão difícil assim. Quando se olha as motivações e objetivos de cada pessoa, revela claramente porque se transformam em maquinas. Me refiro a virmos aqui e toda essa conversa... desnecessária.

— Ah! — Mei se pronunciou ainda com a boca cheia de Mike sheik, e em seguida se recompondo. — Não gosto de você, se é o que pensa. Não vamos ser amigas ou nada parecido depois que esse trabalho terminar.

Grace expressou um sorriso do qual fez Mei fazer uma cara de confusa.

— Eu só queria ser simpática e amigável, ser diferente da Agatha e da Zoe, que já chegaram de forma hostil.

— Tá bom. — Disse Grace guardando suas coisas na bolsa. — Obrigada.

— Não à de quê.

Grace olhou para ela com desprezo: 'queria ser diferente das outras e está começando como elas', pensou quase que cuspindo as palavras em voz alta.

— Por que deixa elas fazerem aquelas coisas com você?

— Como? — Grace parou de repente. — Não entendi.

— A Alice e as amigas dela. — Ela se inclinou um pouco sobre a mesa. — Por que permite que elas façam aquelas coisas contigo? Te tratam tão mal...

— Eu não deixo. — Cortou Grace. — Elas simplesmente fazem e ninguém faz nada. E vou ser sincera para você, não consigo ver um motivo para me detestarem tanto, a não ser o dia do incidente com roupas, Okay, tranquilo, mas fora isso eu realmente não entendo. E eu já tentei fazer alguma coisa, porém, vejam só! Não deu em nada.

— Bem... — Mei se encostou no respaldar da cadeira. — Desde o dia que foi pra lá tem sido o centro das atenções. A bela do baile uma vez a fez se sentir a cima de todos, o ego subiu ao ponto de sair pisando em todos a sua frente, e quando você se mudou ficou exatamente na frente dela, a sua majestade.

— Entendi. — Disse com um longo suspiro.

— Eu acho que ela acha que você tá dando em cima do namorado dela também, por conta daquele dia que o Chris estava te olhando de um jeito que...

— Como sabe isso? — Perguntou Grace interrompendo-a.

— Eu observo. — Disse sorrindo. — Gosto de observar o mundo a minha volta.

— Ah! Fofoca. Seja como for as motivações para ela me odiar não são tão grandes assim.

— Ódio é uma palavra muito forte.

— Eu sei.

Depois de mais alguns minutos de conversas, Grace foi checar suas mensagens. O aparelho estava no silencioso para que não fossem incomodadas. Havia três ligações perdidas de seu pai, um Sticker de carinho e uma foto de uma paisagem, um jardim em algum lugar de Washington. Em seguida tinha uma mensagem de sua mãe respondendo-a, dizendo: 'Que ficaria em Las Vegas mais três dias'. Ou seja, só ela e a Sra. Marta.

Ela sentiu uma pontada de tristeza, desligou o celular, olhou para além das pessoas e com um suspiro de auto controle voltou para a mesa onde a Mei se encontrava, esta, também estava ao telefone, não se importou em desligar com a presença de Grace.

Grace ainda estava com o dela na mão quando viu a tela se ascender em uma ligação, era a Sra. Marta...

— Oh não! — Exclamou ela se levantando. — Merda.

Mei olhou para ela fazendo menção de perguntar o que havia acontecido, mas Grace já tinha saído.

— Alô! — Grace atendeu.

— Oi Grace, tudo bem? — Disse uma voz preocupada. — Onde está?

— Oi Sra. Marta, me desculpe, eu deveria também ter-te avisado. Eu sai com uma colega para fazer um trabalho de campo.

— Ah! Tudo bem. — Disse ela relaxando.

— Me desculpe mesmo.

— Tudo bem. Vai voltar que horas?

— Eu já estou voltando. Estou no Nordstrom Rack.

— Ah! Tudo bem. Até mais querida.

— Até. — Se despediu Grace desligando.

Ao encerrar a ligação ela tirou o aparelho do silencioso e o colocou na bolsa. Quando ergueu a cabeça, Mei a olhava confusa.

— O que houve? — Perguntou ela. — Alguém morreu?

— Suas piadas não tem graça, sabia? — Falou Grace séria colocando a bolsa no ombro.

— O quê?! Já vai? — Liu Mei se levantou abruptamente.

— Sim. Já está tarde. A gente vai conversando por mensagens. Tem meu número?

— Sim, eu acho. — Disse Mei pegando suas coisas também. — Obrigada por vir.

— Tranquilo.

As duas saíram juntas, mas se separaram quando uma pegou o ônibus e a outra o metro.

Enquanto estava no coletivo sua mente se introduziu em um emaranhado de pensamentos, enuviados em cinza frio, observando as luzes da cidade se acendendo aos poucos. O céu agora não passava de um mar calmo em tons de vermelho alaranjado, nuvens espessar salpicavam dando a impressão de ondas serenas. As maquinas com sentimentos voltando para seus lares depois de um dia longo e cansativo de trabalho, passavam por seus olhos como meras formigas em seus ritmos transitórios, como criaturas simplórias controladas por seus objetivos, doentes de se mesmas. Grace se sentia um pouco estranha pôr as vezes pensar dessa forma das pessoas, até porque seus pais faziam parte desse grupo.

Estava tão imersa em sua própria mente que se assustou um pouco quando viu seu reflexo no vidro da janela. Se encontrava tão bagunçada, tão desleixada, sua aparência estava péssima. Passando a mão pelos cabelos, ela tentou se recompor até que o ônibus parou e se levantou rapidamente para ver se era seu ponto.

Do ponto até sua casa ela teve que caminhar algumas quadras. O ar estava bem fresco, tão saboroso, aquele cheiro de terra molhada e quando a brisa passou por seus cabelos causou uma sensação muito boa, um prazer que a fez parar e fechar os olhos, estava leve. Ao abrir novamente viu algo intrigante.

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